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Full text of "Da Asia de João de Barros e de Diogo de Couto"

imw.ov 

OROHTO 



15 m ^ 



*ô 



DA ÁSIA 

JOÃO DE^AR,ROS 

DIOGO DE COUTO 

NO VA ED ÍCAO 

OFFERECIB A 

A SUA AlAGES-TAMr 

D. MARIA L 

RAINHA FIDELÍSSIMA 

&C. &C. &C. 




LISBOA - 4 i| 

Na Regia Officina Typografica, 
anno mdgclxxviii. 

Com Licença da Real Meza Cenfotia , e Privilegio Real, 






^«SITYO^ 



£>, 



JJtS 
v7 



/ i 



1 



SENHORA 




O mefmo Real Decre- 
to , por que o Senhor 
Rey D.José I. Augufto Pai de 
Vossa Magestade, foi fervido 



.11 



ere- 



crear a Regia Officina Typogra- 
fica, foi também fabiamente or- 
denado , que nella fe folTem reim- 
primindo os Authores mais claf- 
íicos , e mais bem reputados da 
Hiítoria Portugueza. Porque fen- 
do toda a Hiítoria , como obfer- 
vou Tullio , a directora da vida , 
e a meítra dos coílumes ; na Por- 
tugueza , onde fe acham tao he- 
róicos exemplos de virtude , hon- 
ra, e valor, teriam os Vaífallos 
útil ínftrucçao , a Pátria efpecial 
gloria. Deo-fe princípio ao Real 
Projeclo pelos Commentari os do 
governo , e acções do grande Af- 
fonfo d' Alboquerque na índia ; 
pois que além de fer eíla huma 
Obra mais pequena em volume , 
pareceo de roais a mais jufto, 
que fe déíTe a primazia da Im- 
prefsão a quem a tivera no me- 



re- 



recimento. Segui ram-fe as Dé- 
cadas do iníignejoao de Barros , 
que agora tenho a honra de of- 
ferecer a Vossa Magestade. ; e 
feguir-fe-hao brevemente as de 
Diogo de Couto, que são con- 
tinuação humas das outras. 

He João de Barros fem con- 
troveríia o Efcritor mais grave 
que tem a Hiíloria Portugueza , 
ou fe coníidere a grandeza da 
matéria , ou a do eftilo. A maté- 
ria sao os glorioíbs defcubrimen- 
tos de novas terras , e de novos 
climas , que os Capitães Portu- 
guezes fizeram no efpaço de cem 
annos , que decorreram defde o 
Senhor Rey D. João I. Fundador 
fempre memorável da Sereniffi- 
ma Cafa de Bragança , até o Se- 
nhor Rey D. Manoel feu benéfi- 
co Ampliador, eExaltador. De£- 

cu- 



cubrimentos tão oufados na em- 
preza , tão vaftos nos Domínios , 
tão felices no fucceílò , que íem 
hyperbole fe pode dizer, que á 
vifta delles foi pouco quanto os 
antigos Gregos , e Romanos fize- 
ram nas fuás expedições militares 
do mar, e da terra. A grandeza 
do eítilo he em tudo igual á dos 
feitos j de forte que na narração 
das Conquiítas Portuguezas he 
João de Barros juítamente com- 
parado com Tito Livio entre os 
Latinos , nao fó por dividir em 
Décadas toda a fua Obra , mas 
também pelo igualar no modo 
grave , e iizudo com que as cf- 
creveo. 

Oh ! fe entre as urorentiíri- 
mas , e contínuas occupaçôes , 
quê he forçofo executem cada 
dia as attenções de huma RAY- 

NHA 






NHA hereditária , quizefíe a 
boa ventura dar a Vossa Mages- 
tade alguns breves intervaílos de 
ócio para panar pelos olhos algu- 
mas folhas das Décadas de João 
de Barros , affim como os teve o 
Senhor Rey D. Manoel para ou- 
vir ler alguns cadernos do feu 
Clarimundo ! 

Primeiramente no anno de 
1420, admiraria Vossa Mages- 
tade a hum íoao Gonçalves Zar- 
co dando principio , com o defcu- 
brimento das Ilhas do mar Atlân- 
tico , á navegação , e commercio 
da Ethiopia , deíde Guiné até os 
Abixins. Admiraria , no anno de 
1423, a hum Bartholomeu Dias 
pondo vários Padrões do nome 
Portuguez no grande Cabo de 
Boa Eíperança em diftancia de 
mil e quinhentas léguas do por- 
to 



to de Lisboa. Admiraria , no an- 
uo de 1497, a hum Vafco da 
Gama paliando com huma Ar- 
mada Real além do mefmo Ca- 
bo outras mil e quinhentas lé- 
guas , até ir arroítar a potencia , 
e foberba do Çamorim de Cale- 
cut ; a (Tentar Tratados de com- 
mercio com os Reys de Cochim , 
Cananor , e Coulao ; voltar a 
Lisboa carregado das efpeciarias , 
e drogarias do rico Malabar. Ad- 
miraria , no anno de 1500 , a hum 
Pedralvares Cabral defcubrindo 
nas Terras de Santa Cruz , ou 
do Braíil hum novo Mundo , de 
cujo ouro , e diamantes abunda 
hoje toda Europa. Admiraria , 
no anno de 1505" , a hum Dom 
Francifco d' Almeida mettendo 
debaixo do jugo Portuguez os 
Reynos de Quiloa ? e Momba- 
ça j 



ça ; a feu filho D. Lourenço def- 
baratando as Armadas de Cale- 
cut ; paliando a Ceilão , e dan- 
do viíia ás Maldivas. Admiraria 
finalmente defde o anno de 1508 , 
até 1514, a hum Affbnfo d'Al- 
boquerque fazendo tributários a 
Coroa de Portugal os Reynos 
de Ormuz , Goa , e Malaca , e 
obrigando todo o Oriente a pa- 
gar páreas em pérolas , e rubins 
ao Senhor Rey D. Manoel. 

Pela meíma lição recordaria 
Vossa Magestade com que fun- 
damento o Senhor Rey D.J0X0 
II. ajuntou aos antigos Titulos 
de Rey de Portugal , e dos Al- 
garves , o de Senhor de Guiné: 
Com que fundamento também o 
Senhor Rey D. Manoel accref- 
centou ao Titulo de Senhor de 
Guiné o outro ainda mais pom- 

po 



polo , da Conquljia , Navegação , 
e Commercio da Ethiopia , Jira- 
b/a, Per/ia, e índia. 

Pela mefma lição fe faria pre- 
feri te a Vossa Magestade qual 
foífe o princípio , e motivo das 
muitas Doações , Honras , e Mer- 
cês , com que os ditos Senhores 
Reys agalardoáram os avultadif- 
íimos ferviços daqueiles Heroes , 
de que com razão fe prezam de 
fer Netos os que hoje formam a 
Corte a Vossa Magestade. 

Eíle he em fornma , Augusta 
RAYNHA ; o aíllimpto das Dé- 
cadas de João de Barros , defem- 
penhado por ellc com huma exac- 
çao , e pontualidade , que lhe 
conciliam fé , e credito de Au- 
thor original. Por aqui compre- 
hende já Vossa Magestade qual 
feja a importância da Obra ; qual 



a utilidade , que fe pode efperar 
da fua reimprefsao. Póde-íe di- 
zer, que eílas Décadas são para 
Vossa Magestade os Títulos dos 
feus Domínios Ultramarinos : são 
para os Grandes do Reyno as 
provas dos feus illuítres Avoen- 
gos. 

Entre tanto, por mais eíme- 
rada que foíTe a diligencia que 
puz em que huma tal Obra , tan- 
to no aífeio do papel , como na 
elegância dos caracleres : tanto 
no bem tirado das effigics , co- 
mo na exacção dos mappas , fahif- 
fe digna de apparecer na Real 
Prefença de Vossa Magestade, 
eu reconheço , e confeííò , que 
não he outro o meu merecimen- 
to , que o de obedecer ao que 
fe me mandou. Ainda aíTim as 
experiências que tenho da inna- 



ta 



ta Clemência, e Real Grandeza 
de Vossa Magestade me animam 
a confiar , que efte mefmo defem- 
penho do que era eílreita obriga- 
ção minha , mo reputará Vossa 
Magestade emferviço, para me 
continuar em todo o tempo os 
benignos effeitos da ília Real be- 
neficência, e protecção. 



DE VOSSA MAGESTADE 



Lisboa 2 5 de Fe- 
vereiro de 177$, 



Humiliífimo fervo 
Nicolao Pagliarini 
■Direãor geral da Regia Ojficina Typ. 






DA ÁSIA 

D E 

JOÃO DE BARROS 

DOS FEITOS , QUE OS PORTUGUEZES FIZERAM 

NA CONQUISTA, E DESCUBRIMENTO DAS 

TERRAS, E MARES DO ORIENTE. 

DÉCADA PRIMEIRA 

PARTE PRIMEIRA, 



AO MUITO PODEROSO, 
CHRISTIANISSIMO PRÍNCIPE 

ELREY DOM JOÃO 

NOSSO SENHOR, 

DESTE NOME 

O TERCEIRO DE PORTUGAL 

PROLOGO 

DE JOÁO DE BARROS 

EM AS PRIMEIRAS QUATRO DÉCADAS 

DA SUA ÁSIA 

Dos feitos que os Portuguezes fizeram no 

deícubrimento , e conquiíla dos mares, 

e terras do Oriente. 

TODALAS coufas , muito po- 
deroso Key y e Senhor nosso, 
tem tanto amor á confervação de feu 
próprio fer , que quanto lhe he pofíí- 
vel trabalham em feu modo por fe fa- 
zerem perpétuas. As naturaes , em que 
fomente obra a Natureza , e não a in- 
duftria humana ? cada huma delias em 



Prologo. 

íl raefma tem hiima virtude generati- 
va , que quando Divinamente são dif- 
poítas , ainda que periguem cm fua cor- 
rupção, eíTa mefma Natureza as torna 
renovar em novo fer , com que ficam 
vivas 5 econfervadas cm fua própria cf- 
pecie. E as outras coufas, que não são 
obras da Natureza, mas feitos, e actos 
humanos , eftas porque não tinham vir- 
tude animada de gerar outras femelhan- 
tes a fi> e por a brevidade da vida do 
homem, acabavam com feu author: os 
mefmos homens por confervar feu no- 
me em a memoria delias , bufeáram 
hum Divino artificio , que reprefentaíTe 
em futuro o que elles obravam empre- 
fente. O qual artificio, pêro que a in- 
venção delle fede adiverfos Àuthores, 
mais parece per Deos infpirado , que 
inventado per algum humano entendi- 
mento. E que bem como lhe aprouve, 
que mediante o padar , língua , den- 
tes , e beiços , hum refpiro de ar mo- 
vido dos bofes , caufado de huma po- 
tencia , a que os Latinos chamam affa- 

tus , 



Prologo. 

tus ) fe formaíTe em palavras fígniííca- 
tivas, pêra que os ouvidos ? ícu natural 
obje£k> y reprcfentaílem ao entendimento 
diveríos íigriiíicados $ e coriceptos fe- 
gundo a difpoíição delias ; affi qurz, 
que mediante os caraéteres das letras, 
de que ufamos , difpofías na ordem íig- 
nifícativa da valia 1 que cada Nação 
deo ao fexi Alfabeto y a viíta 7 objefto re- 
ceptivo deíles cara&eres 5 mediante el- 
les y formaíTe a eílencia das coofaSy e 
os racionacs conceptos ao modo de 
como a falia em feu oíHcio os denun- 
cia. E ainda quiz , que efce modo de 
elocução artificial de letras , per bene- 
ficio de perpetuidade , precedcífc ao 
natural da falia ; porque eíia y fenào 
animada , não tem mais vida , que o 
inftante de lua pronunciaçao, epaíTa á 
femelhança do tempo , que não tem re- 
greíTo ; e as letras , fendo^ huns cara- 
fteres morros 7 e não animados y con- 
tém em íi efpirito de vida , pois a dam 
acerca de nós a todalas coufas. Cá ci- 
las são huns elementos , que lhe dam 
tomXP.L ** * affif- 



Prologo. 

aíliftencia , c as fazem paílar em futu- 
ro com fua multiplicação de annos em 
annos per modo mais excelJente do 
que faz a Natureza; pois vemos, que 
cfta Natureza pêra gerar alguma cou- 
fa , corrompe , e altera os elementos 
de que hc comporta ; e as letras , fendo 
elementos de que fe compõe, e forma 
a íignificaçao das coufas , náo corrom- 
pem as meímas coufas , nem o enten- 
dimento , ( porto que feja paffivo na in- 
telligencia delias pelo modo de como 
vem a clle ; ) mas vam-fe multiplicando 
na parte memorativa per ufo de fre- 
quentação tão efpiritual em habito de 
perpetuidade , que per meio delias no 
fim do Mundo tão prefentes ferão áquel- 
les que então forem , noílas peífoas, 
feitos, éditos, como hoje perefta euf- 
todia literal he vivo o que fizeram , e 
diiTeram os primeiros , que foram no 
principio dcllc. E porque o fruto def- 
tes aftas humanos he mui diíFerente do 
fruto natural , que fe produz da femen- 
te das coufas ? por erte natural fenecer 

no 



Prologo. 

no meímo homem , pêra cujo nfo to- 
das foram creadas ; e o fruto das obras 
delles he eterno , pois procede do en- 
tendimento, e vontade 5 onde fe fabri- 
cam , e aceptam todas , que , por ferem 
partes efpirituaes , as fazem eternas : 
fica daqui a cada hum de nós hnma 
natural, e jufta obrigação, que aífi de- 
vemos fer diligentes , e folícitos em 
guardar em futuro noíTas obras , pêra 
com ellas aproveitarmos em bom exem- 
plo , como promptos , e conííantes na 
operação prefente delias pêra commum r 
e temporal proveito de noíTos naturaes. 
E vendo eu que nefta diligencia de en- 
commendar as coufas á cuftodia das le- 
tras , ( confervadores de todalas obras ,) 
a Nação Portugnez he tão defcuidada 
de íi , quão prompta , e diligente em 
os feitos , que lhe competem per milí- 
cia, c que mais fe preza de fizer, que 
dizer ; quiz nefta parte uíar ante do 
officio de eftrangeiro, que da condição 
de natural: Deípoendo-me aefcrever o 
que elíes fizeram no defcubrimento , e 



** ii eoiv 



Prologo. 

conqttiíia do Oriente, por fe nao per- 
derem da memoria dos homens , que 
vierem depois de nós , tão glorioíos 
feitos , como vemos ferem perdidos de 
voíTos progenitores , maiores em lou- 
vor, do que lemos cm fuás Chronicas, 
(fegundo moftram alguns fragmentos 
de particulares eferituras. ) E na acep- 
taçao deite trabalho , e perigo a que 
me diípuz , antes quero fer tido por 
tão ouíado, como foi o derradeiro dos 
trinta, e tantos Efcritorcs, que efere- 
vêram a paflagem , c expedição , que 
Alexandre fez cm Afia , o qual temeo 
pouco o que delle podiam dizer , ten- 
do tantos ante li; que imitar o defeui- 
do de muitos , a quem eíle meu traba- 
lho per officio , e profifsao competia. 
Pois havendo cento e vinte annos, (por- 
que de tantos trata eíta eícritura,) que 
voíTas armas , e padrões de viftorias 
tem tomado poífe não fomente de toda 
a terra marítima de Africa , e Afia , 
mas ainda de outros maiores Mundos , 
do que Alexandre lamentava , por não 

ter 



Prologo. 

ter noticia delles , não houve alguém, 
que fe antremetteíTe a ler primeiro nef- 
te rneu trabalho , fomente Gomes Eanes 
de Zurara Chronifta mor deites Rei- 
nos em as coufas do tempo do Infante 
D.Henrique: (do qual nós conielTamos 
tomar a maior parte dos feus funda- 
mentos , por não roubar o feu a cujo 
he. ) No commetter do qual trabalho , 
vendo eu a mageftade , e grandeza da 
obra , não fui tão atrevido , que logo 
como ifto defejei puzeífe mãos a cila , 
antes tomei por cautela defte commet- 
timenço ufar do modo , que tem os ar- 
quite&ores , os quaes primeiro que po- 
nham mão na obra., a traçam , e debu- 
xam , c de íí aprefentam eftes delinea- 
mentos de lua imaginação ao Senhor , 
de cujo ha de íer o edifício ; porque 
como efta matéria , de que eu queria 
tratar , era dos triunfos defte Reino, 
dos quaes não fe podia fallar fem licen- 
ça do Author delles, que naquelle tem- 
po defte meu propoíito era EIRey Vof- 
ío Padre, degloriofa memoria: eftando 

Sua 



P R O L O G O. 

Sua Alteza em Évora o anno de qui- 
nhentos e vinte lhe aprefcntci hum 
debuxo feito em nome de Voíía Alte- 
za , porque com cite titulo ante Elle 
foíTe accpto : o qual debuxo não era 
alguma Batrachomiomachia , guerra de 
rans , e ratos , como fez Homero por 
exercitar leu engenho ante que eícre- 
veíTe a guerra dos Gregos , e Trova- 
nos ; mas foi huma pintura metafórica 
de exércitos, e victorias humanas, nef- 
ta figura racional do Empcrador Cia- 
rimundo, titulo da traça., (conforme a 
idade , que eu então rinha , ) a fim de 
aparar o eftilo de minha poflibilidade 
pêra eíta VoíTa Afia. A qual pintura , 
por fer em nome de VoíTa Alteza , aífí 
contentou a EIRey VoíTo Padre , depois 
que foube fer imagem deíla que ora 
trato , que logo me pagou meu traba- 
lho, dizendo haver dias, que defejava 
eftas coufas das partes do Oriente fe- 
rem poítas em eferitura; mas que nun- 
ca achara peííba de que o confiafle : que 
fe me eu atrevia a efla Obra , ( como 

o de- 



Prologo. 

o debuxo moftrava , ) o meu trabalho 
não feria ante elle perdido. Por a qual 
confiança lhe beijei a mão per ante pef- 
foas , que hoje são vivas , por a práti- 
ca fer hum pouco alta , lendo-lhc eu 
hum , ou dous capítulos da moftra, e 
debuxo. E eítando pêra abrir os alicer- 
ces deite grande edifício , com o fervor 
da idade, e favor das palavras de con- 
fiança , que fe de mim tinha , aprouve 
a Deos levar a EIRey VoíTo Padre 
áquelle celeftial aflento, que fe dá aos 
Catholicos j e Chriítianifíimos Princi- 
pes , com que fiquei fufpenfo defta em- 
preza. Succedendo também logo pro- 
ver-me Voífa Alteza dos officios de 
Thefoureiro da Cala da índia , e Mi- 
na, e depois de Feitor das mefmasCa- 
fas ; carregos y que com feu pezo fazem 
acurvar a vida y pois levam todolos dias 
delia , e com a occupaçáo , e negocio 
cie fuás Armadas y e Commercios af- 
fogam j e cativam todo liberal engenho. 
Mas parece que aífi eftava ordenado de 
íima y que não fomente me coubeífe per 

for- 



Prologo, 

forte da vida os trabalhos de feitorizar 
os Commercios de Africa , e Afia ; mas 
ainda eferever os feitos , que VofTos vaf- 
failos na milícia , c conquiíh delias fi- 
zeram ; porque correndo o tempo , c 
achando eu antre algumas cartas, que 
EIRey VoíTo Padre ante da minha of- 
ferta tinha eferito a D. Francifco d' Al- 
meida , e a Affonfo d'Albuqucrque , que 
conqniftáram , c governaram, a índia y 
encommendando-lhe que miudamente 
lhe efcreveíTem as coufas, e feitos da- 
quellas partes com tenção de as man- 
dar poer em eferito 5 e que Voifa Alte- 
za com a mefma tenção o anno de qui- 
nhentos trinta e hum também o efere- 
veo a Nuno da Cunha , que naquclle 
tempo a governava , mandando-lhe fo- 
bre ifto Regimentos feitos per Louren- 
ço de Cáceres , a quem tinha encom- 
mendado a eferitura deílas partes , o 
que nao houve eíFeito, e leria per ven- 
tura por elle falecer : determinei , por 
ie nao dilatar efte defejo , que VoíTa 
Alteza tinha, e eu pagar a confiança, 

que 



r R O L O G o. 

que EIRey VoíTo Padre de mim teve, 
repartir o tempo da vida , dando os 
dias ao officio, e parte das noites a ei- 
ra eferitura da VoiTa Afia , e aííi cum- 
pri com o Regimento do officio , e com 
odefejo, que fempre tive deita empre- 
za. E como os homens pela maior par- 
te são mais promptos em dar de íi fru- 
tos voluntários , que os encommenda- 
dos , imitando nifto a terra liia madre , 
a qual he mais viva em dar as femen- 
tes, que nella jazem per natureza, que 
as que lhe encommendamos per agri- 
cultura : parece que me obrigou elía a 
que patrizaífe , e que per diligencia 
prevaleceííe mais em mim a natureza , 
que delia tenho , que quanto outros 
tem recebido per obrigação de officio , 
profifsão de vida, e agricultura de be- 
nefícios ; pois não tendo cu outra cau- 
fa mais viva pêra tomar efxa empreza , 
que hum zelo da gloria , que íe deve 
a Voíías armas , e fama a meus natu- 
raes , que militando nellas verteram 
feu fangue , e vida : fui o primeiro, 

que 



Prologo. 

que brotei efte fruto de efcritura d cila 
VofTa Afia, le he licito, porfer de ar- 
vore agrefte, ruftica, c não agriculta- 
da , poder merecer eíte nome de fruto 
ante VoíTa Real Mageftade. 



IN- 



ÍNDICE 

DOS CAPÍTULOS, QUE SE CONTÉM 
NESTA PARTE I. 

DA DÉCADA I. 

lTv rol 

CAP. T. Corno os Mouros vieram to- 
mar Hefpanha ; e depois que Por- 
tugal foi intitulado em Reyno 3 os 
Reys de lie os lançaram além mar , onde 
os foram conquiftar , afji nas partes de 
Africa , como na de Afia : e a caufa do 
titulo dejla efcritura. Pag. i. 

CAP. II. Das caufas , que o Infante Dom 
Henrique teve pêra defcubrir a cofia Oc- 
cidental da terra de África : e como João 
Gonçalves , e Triftão Vaz defcubríram 
a Ilha do Torto Santio , por razão de 
hum temporal , que os alli levou. 16. 

CAP. III. Como João Gonçalves , eTriftão 
Vaz , partido Bertolameu Pereftrello , 
defcubríram a Ilha , a que ora chamam 
da Madeira , a qual o Infante D. Hen- 
rique repartio em duas Capitanias : hu- 
ma chamada do Funchal , que deo a João 
Gonçalves \ e a outra Machico , que hou- 
ve Triftão Vaz. 257. 

CAP. IV. Das murmurações , que o povo 
■do Reyno fazia contra efie defcubrimen- 

to: 



Índice 

to : e como havendo doze annos que nel- 
le fe profeguia , hum Gileanes pajjòu o 
Cabo Bojador tão temer ofo 72a opinião das 
gentes. 36. 

C AP. V. Como o Infante mandou Afonfo Gon- 
çalves Baldaya feu Copeiro por Capitão 
de hum barinel , e Qilianes , o que paf- 
fou o Cabo Bojador , em fua barca : e co- 
mo tornaram fegunda vez no anno feguin- 
te : e da peleja que houveram com huns 
Alarves dous moços , que Jahíram em 
terra. 43. 

CAP. VI. Como Antão Gonçalves foi fazer 
matança de lobos ynarinhos : e das fahi- 
das que fez em terra per fi , e com Nu- 
no Triji ao , que depois fe ajuntou com el- 
le , em que tomaram doze almas : e do 
mais que paffou Nuno Triflão. 48. 

CAP. VII. Da fupplicação , que o Infante 
fez ao Papa , e lhe concedeo : e da doa- 
ção dos quintos , que lhe o Infante Dom 
Fedro feu irmão regente dejle Reyno deo 
em nome delRey : e do que Antão Gon- 
çalves 5 e Nuno Triflão pajjãram em a 
viagem que cada hum fez. 57. 

CAP. VIII. Dos louvores , que o povo do 
Reyno dçva ao Infante por efle defcubri- 
mento : e como por fia licença os mora- 
dores de Lagos armaram féis caravelas : 
€ do que pajfdram nefla ida. 65. 

CAP. 



dos Capítulos 

C AP. IX. Como Gonçalo de Sintra com ou- 
tros foi morto na Angra , que fe ora cha- 
ma do feu nome : e da ida , que Antão 
Gonçalves fez ao rio do Ouro , e depois 
Nuno Triflao , onde tomou huma aldeã 
de Mouros : e como Diniz Fernandes paf- 
fou a terra dos Negros > e defcubrio o 
Cabo , a que agora chamamos Verde. 70. 

CÀP. X. Como Antão Gonçalves per man- 
dado do Infante tornou a bufcar João 
Fernandes , que ficou perfua vontade en- 
tre os Mouros : e do que paffou nejia via- 
gem , e a f/i os navios que com elle fo- 
ram. 7$. 

CAP. XI. Da viagem , que fez Dinifeanes 
com as caravelas , que de Lisboa foram 
em fua companhia : e do que fez o Capi~ 
tão Lançarote com as quatorze carave- 
las de Lagos de fua capitania , em a 
qual viagem mataram , e cativaram mui- 
tos Mouros dcujla da vida d'* alguns 7tof- 
fos : e como Soeiro do Cofta , tendo-fe vif- 

• to nos mais illufires feitos ãe Hejpanha ? 
nefla ida fe fez Cavalleiro. 83. 

CAP. XII. Como as Ilhas , a que ora cha- 
mam Canareas , foram defcubertas per 
hum Fidalgo Francez , chaynado Monfior 

• João de Betancor : e depois o Infante 
D. Henrique teve o fenhorio delias , e 
converteo á Fé a maior parte dos feus 

po- 



Índice 

povoadores , e d? alguns cofiardes dei- 
ks. 98. 

CAP. XIII. Como o Capitão Lançarote , 
depois que leixou efias caravelas de Jua 
con ferva , que Je vieram pêra o Reyno , 
com as outras que ofeguiram . defcubrio 
o grande rio , a que ora chamamos Ça- 
nagá , e dahi foi ter a huma ilheta pe- 
gada com o Cabo Verde. 108. 

CAP. XIV. Como Nuno Trifião , e dezoito 
homens foram mortos com herva das fre- 
chadas , que houveram em huma peleja 
com os negros cm hum rio de Guiné ', em 
que entraram : e como pajfou Álvaro Fer- 
nandes além do Cabo Verde cem léguas : 
e do que também acontece o a finco cara- 
velas, que foram a efie de fcubr intento, 118. 

CAP. XV. Como o Infante mandou Gomes 
Pires ao rio do Ouro , onde cativou oi- 
tenta almas : e ajfi mandou a Diogo Gil 
ajfentar trato em Meça , e Antão Gon- 
çalves ao mefmo rio do Ouro : e como 
veio a efie Reyno hum gentil-homem da 
Cafa delRey de Dinamarca. , com defejo 
de ver as coufas de Guiné , e o Infante 
o mandou em hum 7tavio , e lãpereceo. 125. 

CAP. XVI. Das feições da pejfoa do In- 
fante D. Henrique : e dos cofiumes , que 
teve em todo odecurfo de fua vida. 131.. 

LI- 



dos Capítulos 

LIVRO IL 

CAP. l.Camo EIRey D.Afonfo o Quin- 
to defte nome houve poffe da gover- 
nança defte Reyno , por fahir da tutoria 
em que ejiava ; peró que o Infante Dom 
Henrique em quanto viveo profeguio nef 
te defcubrimento , continuamos a hiftoria 
com EIRey ? e não com elle : e das cau- 
fas que houve , porque não efcrevemos 
mais feitos do tempo defte Rey. Pag. 136. 
CAP. II. Como EIRey arrendou o refgate 
de Guiné a Fernão Gomes per tempo de 
finco annos , com obrigação que nefle tem- 
po havia de defcubrir quinhentas léguas 
de cofia : e porque defcubrio o refgate 
do ouro da Mina , foi dado a Fernão Go- 
mes appellido da Mina com Armas defta 
mbreza. 141. 



LIVRO III. 



c 



AP. I. Como EIRey D. João , fuc ce- 
dendo no Reyno per falecimento dei* 
Rey jD. Afonfo feu Vai \ mandou logo hu- 
ma grande Armada ás partes de Guiné 
a fazer o Caftello , que agora chamamos 
de & Jorge da Mina , da qual Armada 
foi Capitão mór Diogo d? Azambuja : e 



Índice 

comofe vio com Caramança Senhor daquel- 
le lugar. iPag. 15-2. 

CAP. II. Do que refpondeo o Príncipe Ca- 

. ramança ás palavras de Diogo d* Azam- 
buja : e do confentimento que deo a fe 
fazer a fortaleza , com a qual ficou a 
troco do Commercio ajfentado em paz té 
hoje. 162. 

CAP. III. Como foi defeuberto o Reyno de 
Congo por Diogo Cam Cavallciro da ca- 
Ja delRey : e além delle defeubrio duzen- 
tas , e tantas léguas , em o qual defeu- 
brimento ajjentou três Padrões , que fo-* 
ram os primeiros de pedra , das quacs 

. terras trouxe algumas pejjbas , que foram 
baptizadas por EIRey : e também foi def- 
euberto o Reyno de Benij. 170. 

CAP. IV. Como EIRey , pelo que foube de 
João Afonjb d" Aveiro , e ajjl dos Embai- 
xadores j que elle trouxe do Reyno de 
Benij , mandou Bartholomeu Dias 5 e João 
Infante a defeubrir , na qual viagem defi 
cubriram o grande Cabo de Boa Efpe- 

... rança. 181. 

CAP. V. Como EIRey mandou per terra 
dous criados [eus , hum a defeubrir os 
portos , e navegação da índia , e outro 
com cartas ao Prefle João : e como de 
Roma foi enviado a EIRey hum Abexij 
Religiofo daqu cilas partes , por meio do 

qual 



dos Capítulos 

qual elle também enviou algumas cartas 
ao Prefle. 1 93- 

CAP. VI. Como hum Príncipe das partes 
de Guiné chamado Bemoij veio a ejie Rey- 
720 , por caufa de huma guerra que teve , 
em que perdeo feu efiado : e como EIRey 
por o grande conhecimento que tinha dei- 
te , o recebeo , fazendo-lhe muita hon- 
ra. 200, 

C AP. VIL Como o Príncipe Bemoij recebeo 
agua de Baptifmo , e houve nome Dom 
João Bemoij : e das feftas , que EIRey 
por fua caufa mandou fazer : e ajfi fo^ 
ram feitos Chrifiaos todolos outros que 
vieram em fua companhia. x 210. 

CAP. VIII. Em que fe âefcreve a terra , 
que jaz entre os dous rios Çanagá , e 
Gambea , e do curfo delles : e como Pêro 
Vaz Bif agudo , que levou o Príncipe Dom 
João Bemoij , o matou mal , dizendo que 
armava traição , a qual morte EIRey 
muito Jentio. 213. 

CAP. IX, Como EIRey mandou o Embai- 
xador , e moços , que vieram de Congo 
em três navios , de que era Capitão Gon- 
çalo de Soufa Fidalgo de fua cafa > em 
companhia , do qual hiam Religiofos , e 
Sacerdotes pêra a conversão da gente 
daquella parte , e da obra que fizeram té 
a tornada dos navios. 224. 

Tom. L P. L *** CAP. 



Índice 

CAP. X. Como entre EIRey Z). João de 
Congo , e feu filho o Príncipe D. Afonfo 
houve algumas dijferenças , que fe aca- 
baram per falecimento do ditoRey: e fi- 
cou por herdeiro pacífico do Reyno efte 
Príncipe D. Afonfo , o qual tê fim de feu s 
dias fez obras de ChriftianiJJimo Prín- 
cipe. 236- 

CAP. XI. Conto a efieRcyno veio ter hum 
Chrifiovao Colom , o qual vinha de def- 
cubrir as Ilhas Occidentaes , a que ago- 
ra chamamos Antilhas , por fer lá ido 
per mandado delRey D. Fernando de Caf- 
tella : e do que EIRey D. João fobre ijfo 
fez, e depois per o tempo em diante fuc- 
cedeo fobre efte cafo. 245. 

CAP. XIL Do que fuccedeo por caufa da 
grande Armada , que EIRey mandou em 
ajuda do Príncipe D. João Bemoij , ajji 
nas lianças , e amizades , que EIRey te- 
ve com alguns Senhores do Sertão d^aquel- 
le Guiné , como no defcubrimento que te- 
ve deile per alguns homens , que lá man- 
dou té o NojfoSenkor levar defia vida. 255. 



LI- 



dos Capítulos 

livro IV. 

CAP. I. Como EIRey D. Manuel no fe- 
gundo anno dofeu reinado mandou 
Vafco da Gama com quatro velas ao 
defcubrimento da índia. Pag. 267. 

CAP. II. Como Vafco da Cama partio de 
Lisboa : e do que pajjbu té chegar ao 
Padrão , que Bartholomeu Dias poz além 
do Cabo de Boa li [per anca. 276. 

CAP. III. Como Vafco da Gama foi ferido 
emhama revolta , que os Negros da baia 
de SanSla Helena fizeram : cfeguindo fua 
viagem , defcubrio alguns rios notáveis 
té chegar a Moçambique. 284. 

CAP. IV. Como depois que Vafco da Gama 
ajfentou paz com o Xeque de Moçambi- 
que , e elle lhe prometter Piloto pêra o 
levar d índia , fe rompeo a paz : e do 
que fobre ijfo fuccedeo. 295*. 

CAP. V. Como o Xeque veio em concerto 
com Vafco da Gama , e lhe deo hum Pi- 
loto , que o levou té a Cidade Mombaça , 
donde fugi o , a tempo que os Mcuros da 
mefma Cidade lhe tinham ordenado hu- 
ma traição , de que efcapou , e dahi foi 
ter a Melinde. 305'. 

ÇAP. VI. Como Vafco da Gama chegou d 

• Villa de Melinde > onde ajfentou paz com 

o Rey 



Índice 

o Rey delia , e poz hum Padrão ; e ha- 
vido Piloto , fe partio per a a índia , a- 
onde checou. ' 212. 

CAP. VIL Em que fe de f cr eu e o fitio da 
terra , a que propriamente chamamos Ju- 
dia dentro do Gange , na qual fe contém 
a Provinda chamada Mal ovar , hum 
dos Rey nos da qual he o em que eftá a 
Cidade Calecut , onde Vafco da Gama 
aportou. 322. 

CAP. VIII. Como Vafco da Gama mandou 
recado a EIRey de Calecut , que era che- 
gado ao porto de fua Cidade : e depois 
per fua licença fe vio cem eile duas ve- 
zes. 328. 

CAP. IX. Da conftlta, que os principaes 
Mouros de Calecut tiveram fobre a ida 
de Vafco da Gama áquellas partes : e 
como o Camorij por caufa delles o efpe- 
dio. 340. 

CAP. X. Como per induftria dos Mouros 
Vafco da Gama , e os que com elle efta~ 
vam , foram reteudos : E depois de reco- 
lhido aos navios , e pofto em terra Dio- 
go Dias , e Álvaro de Braga , também 
foram prezas , té que o Camorij mandou 
prover nijjb , e os efpedio de todo. 351. 

CAP. XI. Corno Vafco da Gama fe partio 
do porto de Calecut , e foi ter d Ilha An- 
chediva 5 onde veio hum Judeo , o qual 



dos Capitulo s 

Vafco da Gama prendeo , e elle fe fez 
Chrifião : e da mais que pajjbu na fua 
viagem té chegar ao Reyno. 35*8. 

C AP. XII. Como EIRey D. Manuel em lou- 
vor de Nojfa Senhora fundou na fua Er- 
mida de Bethlem , que eftava em Raftel- 
Io , hum fumptuofo Templo , que depois 
tomou por jazigo de fua fepultura. 372. 

LIVRO V. 

AP. L Como EIRey por razão da no- 
^j va\ que D. Vafco da Gama trouxe 
da Índia , mandou fazer huma Armada 
de treze velas , da qual foi por Capitão 
mor Pedr alvares Cabral. Pag. 378. 

CAP. II. Como partido Pedralvares teve 
hum temporal na paragem do Cabo Ver- 
de j e feguindo fua derrota \ defeubrio a 
grande terra , a que commummente cha- 
mamos Rrafil , d qual elle poz nome 
Sandia Cruz : e como ante de chegar a 
Moçambique , pajfou hum temporal , em 
que perdoo quatro velas. 386. 

CAP. IIT. Como Pedralvares Cabral fe vi o 
com EIRey de Quilo a , e do pouco que 
acabou com elle , e depois foi ter a Me- 
linde , onde EIRey o recebeo com muito 
prazer , e dahife par tio pêra a índia. 398. 

CAP. IV. Como Pedralvares chegou d Ilha 

de 



Índice 

de Anchediva , onde efieve alguns dias 
repairando-fe do necejjàrio , e dahi che- 
gou a Calecut , onde per recados que te- 
ve com EIRey , concertaram ambos que 
fe viffem. 407. 

CAP. V; Como paffãram as vijlas entre 
EIRey j e Pedr alvares Cabral : e a re- 
prefaria , que per fim delias houve de 
huma parte a outra por razão de huns 
arrefens : e per derradeiro concertados , 
fahio Aires Corrêa em terra a fazer 
negocio. 414. 

CAP. VI. Das paixões , e competências , 
que havia entre dous Mouros principaes 
de Calecut , donde fe caufou os nojjos irem 
tomar huma ndo carregada de Elefantes , 
que vinham de Cochij , e do que nijfo 
pafou. 424. 

CAP. VIL Como por caiifa de huma ndo 
dos Mouros , que os nojjbs tonuíram , a 
qual ejlava no porto de Calecut , cuidan- 
do ejiar carregada de pimenta , faltou 
todo o Gentio da Cidade com o favor dos 
Mouros , e mataram Aires Lorrea na 
cafa da Feitoria com a maior parte dos 
que eftavam com elle : e do que Pedr ai- 
vares fez fobre iffo. 433. 

CAP. VIII. Como Pedr ah ares Cabral foi 
ter a Cochij , onde o Rey da terra lhe 
deo carga de efpeciaria - y e ejtando já no 

jim 



DOS C APITULOS 

fim delia , veio fobre ella huma grojja 
Armada do Çamorij de Calecut , e o que 
nijjò fez. 440. 

CAP. IX. Como Pedr alvar es foi ter a Ca- 
nanor , onde EIRey lhe mandou dar a 
mais efpeciaria , que havia mifter , e re- 
partido dalli , fez fua viagem pêra Por- 
tugal: e do que pajjòu no caminho té che- 
gar a elle. 45 3. 

CAP. X. Como , ante que Pedralvares che- 
gajfe a Portugal o Marco daquelle an~ 
no , tinha EIRey enviado huma Armada, 
de quatro náos : e o que pajfdram nefia 
viagem , e na índia , onde carregaram 
de efpeciaria. 463. 



DE- 




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DÉCADA PRIMEIRA. 
LIVRO L 

Dos feitos, que os Portuguezes fizeram 

no defcubrimento , e conquifta dos 

mares , e terras do Oriente. 



CAPITULO L 

Como os Mouros vieram tomar Hefpa- 
nha ;• e depois que Portugal foi intitulado 
em Reyno , os Reys delle os lançaram além 
mar 5 onde os foram conquiftar , ajfi nas par- 
tes de Africa , como na de Afia : e a caufa 
do titulo dejla efcritura* 



Levantado em a terra de Ará- 
bia aquelle grande Anti-chrifto 
Mafamede , quaíi nos annos de 
quinhentos noventa e três de 
noíTa Redempção , aíli lavrou 
a fúria de feu ferro , e fogo de fua infernal 
Seita per meio de fcus Capitães ? e Calyfas > 
que em efpaço de cem annos conquiftáram 
Tom. L Â em 




3 ÁSIA de João de Barros 

em Alia toda Arábia , e parte da Syria , e 
Períia , e em Africa todo Egypto da quem , 
e dalém do Nilo. E fegundo efcrevem os 
Arábios no feu Larigh , que he hum Sum- 
mario dos feitos , que fizeram os feus Caly- 
fas na conquiíla daquellas partes do Orien- 
te , nefte mefmo tempo de lá fe levantaram , 
e vieram grandes exames delles poyoar ef- 
tas do Ponente , a que elles chamam Algarb , 
e nós corruptamente Algarve dalém mar ; os 
quaes á força de armas devaílando , e afo- 
lando as terras , fe fizeram fenhores da maior 
parte da Mauritânia 5 Tingitania 5 em que fe 
comprendem os Reynos de Féz , e Marro- 
cos , fem até eíle tempo a noífa Europa fen- 
tir a perfeguiçao deita, praga. Peró vindo o 
tempo y té o qual Deos quiz diílimular os 
peccados de Hefpanha , efperando fua peni- 
tencia acerca das hereíias de Arrio , Elvidio , 
e Pelagio ? de que ella andou mui ifcada , 
(pofto que já per Sanílos Concilios nella ce- 
lebrados foífem deílerradas , ) em lugar de pe- 
nitencia , accrefcentou outros mui graves , e 
pubricos peccados , e que mais acabaram de 
encher a medida de fua condemnação , que 
a força feita á Cava filha do Conde Julião , 
( ainda que efta foi a caufa ultima , e acci- 
dental, legundo querem alguns Efcritores.) 
Com as quaes coufas provocada a Juftiça de 
Deos y ufou de feu Divino ., e antigo juizo y 

que 



i 



Década L Liv. I. Cap. I. 3 

que íempre foi caíligar pubricos , e geraes 
peccados com pubricos , e notáveis peccado- 
res ; epermittir que hum hereje feja açoute 
d'outro , vingando-fe per efca maneira de feus 
imigos per outros maiores imigos. E como 
naquelle tempo eíles Arábios eram os mais 
notáveis que elie tinha, infeftando o Impé- 
rio Romano , e perfeguindo fua Cathoíica 
Igreja 3 primeiro que per elles caííigaífe Hef- 
panha , os quiz caíligar na fua hereíia , ac- 
cendendo antre eíles hum fogo de compe- 
tência , fobre quem fe aífentaria na cadeira 
do pontificado de fua abominação , com ef- 
te titulo de Calyfa, que naquelle tempo era 
a maior dignidade da fua Seéta. E depois 
de Arábia , Syria , e parte da Períía arderem 
com guerras de confusão aquém pervalece- 
ria neíle eílado , em que morreo grande nu- 
mero delies , tendo cada parentela enlegido 
Calyfa antre li , vieram alguns naquella par- 
te interior de Arábia, onde eftá lituadã a Ci- 
dade Cufa , per concórdia de fua fcifma ba- 
bylonica ? enleger por Calyfa a hum Arábio 
chamado Çafa , dizendo , que à elle perten- 
cia aquclle pontificado , por fer o mais che- 
gado parente de Mafamede : cá elle vinha 
per linha direita de Abaz leu tio , a linha- 
gem do qual Abaz elles chamam Abazcion* 
E porque quando o alevantáram por leu Ca- 
lyfa foi com lhe darem juramento , que ha- 
A ii via 



4 AS IA de João de Barros 

via de ir deftruir o Calyfa, que então re- 
fidia na Cidade Damafco , que era da li- 
nhagem , a que elles chamam Maraunion , 
em a qual havia muitos annos que andava o 
Calyfado per modo de tyrannia mais que 
per eleição , e por iíTo era efta geração mui 
favorecida antre a maior parte dos Arábios : 
ordenou logo eíle novo Calyfa hum feu pa- 
rente per nome Abedelá ben Alie , que com 
grande numero de gente de ca v alio foífe fo~ 
bre o Calyfa de Damafco ; o qual Abedelá , 
fendo com efte exercito junto do rio Eufra- 
tes , topou o mefmo Calyfa , que liia buícar > 

\j que vinha de dar huma batalha a outro Ca- 
lyfa novamente alevantado "nas partes da 
Mefopotamia ; e rompendo ambos feus exer- 
citou , houve antre elles huma mui crua ba- 
talha , em que o Calyfa de Damafco foi ven- 
cido j e temendo elle a fúria deite feu imi- 
go Abedelá , quiz-fe recolher na Cidade Da- 
mafco , de que tantos tempos fora fenhor ; 
mas os moradores delia lhe fecharam as por- 
tas , fem o quererem receber , com que Uie 
conveio fugir pêra a Cidade do Cayro , on- 

\ de achou peior gazalhado , dizendo todolos 
Cidadões, queDeos os tinha livrado de hum 
tão máo homem , como elle fempre fora. 
Veudo-fe elle em todalas partes tão mal re- 
cebido 5 já defamparado dos feus, como ho- 
mem defeíperado doadjutorio delles, quiz- 
fe í 






Década I. Liv. I. Cap. , I. ç 

fe paflar aos Gregos ; e indo com hum en- 
cravo feu , foi ter a huma Ilha , onde \ fen- 
do conhecido , o mataram ? no qual acaba- 
ram todolos Calyfas de Damafco. Abedelá 
feu imigo tanto que o venceo , e foube quão 
mal recebido era dos próprios feus , fem o 
querer mais perfeguir, foi-fe direitamente a 
Damafco ; e tomada pofie da Cidade , a pri- 
meira coufa que fez , foi mandar defenter- 
rar o Caiyfa Yázit , que era dos primeiros , 
que ai li foram daquella linhagem Maraunion , 
havendo já muitos annos que era falecido , 
os oífos do qual com hum audio público 
mandou queimar ; porque fendo DÒcem ne- 
to de Maramede feu Legislador , filho de fua 
filha Aixa , e de Alie feu fobrinho , direita- 
mente enlegido por Caiyfa, como fora feu 
pai , elle Yázit não fomente lhe não quizera 
obedecer , mas ainda teve modo como Dó- 
cem foífe morto , tudo por elle Yázit fe le- 
vantar com o Calyfado , o qual poíTuio ty- 
rannicamente , e aíTi todolos de fua linha- 
gem per muitos tempos. E não contente ef- 
te Abedelá com tomar tal vingança deite 
Yázit , geralmente a toda fua parentela man- 
dava matar com mil géneros de tormentos , 
e lançar feus corpos no campo ás feras , e 
aves delle , dizendo ferem todos excommun- 
gados , e dignos de não ter fepultura , pois 
eram do fangue daquelle peífimo homem, 

que 



6 ÁSIA de JoÂo de Barros 

que mandou derramar o do juíto Dócem , 
ungido naquella dignidade de Calyfa per o 
teftamento de feu avô Mafamede ; da fúria y 
e fogo das quaes cruezas, que eíte Abedelá 
fazia , faltou huma faiíca , que veio abrazar 
toda Hefpanhaj e o cafo procedeo per eíta 
maneira. Antre alguns deíta linhagem Ma- 
raunion , que cite Capitão Abedelá perfeguia , 
havia hum homem poderofo chamado Abed- 
Ramon , filho de Mauhyá , e neto de Doxon , 
e bifneto de Abbedelmalec ? o qual avô , e 
bifavô em tempo paífado foram também Ca- 
lyfas daquella Cidade Damafco. E vendo elle 
a perfeguição de fua linhagem , e as cruezas , 
que Abedelá nella fazia 5 temendo receber 
outros taes em fua pelToa , recolheo pêra íl 
os mais parentes que pode ? com outra gen- 
te folta 5 cuja vida era andar em guerras 5 
e roubos , e feito hum grande exercito de 
gente por authorizar fua peílba , meio fu- 
gindo veio ter a citas partes do Ponente. On- 
de , a/Ti por fer da linhagem dos Calyfas de 
Damafco , como por fer homem valerofo , 
e cavalleiro de fua peífoa \ foi mui bem re- 
cebido ; e concorreo a elle tanta gente Ará- 
bia da que já cá andava neftas partes dos 
Algarves dalém mar, que vendo-fe tão po- 
derofo em gente , e opinião de Sedla , to- 
mou oufadia a fe intitular com novo nome , 
chamando-fe Príncipe dos Crentes neíta pa^ 

la- 



Década L Liv. I. Cap. I. 7 

lavra Arábia Miralmuminim , a que nós cor- 
ruptamente chamamos Miramulim , e ifto 
quaíí em opprobrio , e reprovação dos Ca- 
lyfas da linhagem de Abaz , que novamente 
foram levantados na Arábia , por cuja caufa 
elle fe deílerrou daquellas partes de Damas- 
co. E não fe contentando ainda com eíle 
novo , e foberbo nome, fundou a Cidade 
Marrocos pêra cadeira de feu eftado , e Me- 
tropoli daquella região , (pofto que algumas 
Chronicas dos Arábios querem que a edi- 
ficou Jofé filho Jeftim , e outros que outro 
Prinçipe , como veremos em a noíla Geo- 
grafia.) A caufa da fundação da qual Cida- 
de , dizem alguns delles , que não foi tanto 
por gloria, que efte Abed-Ramon teve da 
memoria do feu nome , quanto em reprova- 
ção d'outra , que ouvio dizer que fundava 
o Calyfa Bujafar 5 irmão , e fucceífor do Ca- 
lyfa Çafa , que foi caufa de fe elle vir a 
eftas partes, A qual Cidade , que efte Buja- 
far fundou também , era pêra cadeira , on- 
de havia fempre de refidir o feu pontificado 
de Calyfa : e he aquella 3 a que ora os Mou- 
ros chamam Bagodad , íítuada na Província 
de Babylonia nas correntes do rio Eufrates. 
E fegundo efcrevem os Parfeos , e Arábios 
no feu Larigh , que allegamos , o qual te- 
mos em nofíb poder em lingua Parfea , foi 
efta Cidade Bagodad fundada per coníèlho 

de 



8 ÁSIA de JoÁo de Barros 

de hum aílrologo gentio per nome Nobach , 
e tem por afcendente o Signo Sagittario , e 
acabou-fe em quatro annos 5 e cuftou dezoi- 
to contos d'ouro , da qual em a nofla Geo- 
grafia faremos maior relação. Pois citando 
eile novo Miralmuminim com potencia em 
eftado , e numero de gente , feito outro Na- 
buchodonofor pêra caftigo do povo de Hef- 
panha , totalmente feu filho Ulid , que o fuc- 
cedeo em nome , e poder , fe fez fenhor del- 
ia per MuíTa , e per outros feus Capitães y 
cm tempo delRey D. Rodrigo , o derradeiro 
dos Godos. Mas aprouve á Divina miieri- 
cordia , que -cite açoute defuajuftiça tornafle 
logo atrás daquelle Ímpeto de vitorias , que 
pereípaço de trinta mezes teve, dando ani- 
mo , e favor áquelle bemaventurado Prínci- 
pe D. Pelayo y com que logo começou ga- 
nhar as terras , que já eftavam liibditas ao fer- 
ro , e cruezas deites Alarves. E procedendo 
eftas vitorias em recobrar Hefpanha per dif- 
curfo de trezentos quarenta e tantos annos , 
vieram ter a EiRey D. Afonfo o fexto def- 
te nome 5 dalcunha o Bravo , que tomou To- 
ledo aos Mouros ; o qual querendo fatisfa- 
zer aos ferviços , e ajudas , que lhe o Con- 
de D. Henrique nefta guerra dos Mouros ti- 
nha feito , e dado , não achou coufa mais 
digna de fua peífoa , nem de maior galar- 
dão , que aceitallo por filho y dando-lhe por 

mu^ 



Década I. Liv. L Cap. L <) 

mulher a fua filha D. Tareija ; e em dote , 
todalas terras , que naquelle tempo eram to- 
madas aos Mouros nefta parte da Lufitania , 
que ora he Reyno de Portugal 5 com toda- 
las mais que elle pudeíTe conquiílar delles ; 
em que entravam algumas de Andaluzia 5 
porque em todas eftas elle, e feu filho El- 
Rey D. Afonfo Henriques verteram feu lan- 
gue por as ganljar das mãos , e poder dos 
Mouros , (como fè^verá em a outra parte da 
noíTa efcritura chamada Europa ; ) o qual 
dote , e herança parece que foi dado com 
tal benção per eíle Catholico Rey D. Afon- 
fo , que todolos feus defcendentes , que a 
herdaffem , fempre tiveíTem contínua guerra 
com eíla pérfida gente dos Arábios ; porque 
começando deite tempo té o prefente , que 
he difcurfo de quatrocentos e tantos annos 
de idade deite Reyno de Portugal , depois 
que apartado da Qoroa de Hefpanha teve eíte 
nome , aíli permaneceo em contínua guerra 
deites infiéis , que com verdade fe pode di- 
zer por elle 5 ter veítido mais armas que pe- 
lotes. Donde podemos affirmar , que eíla cafa 
da Coroa de Porugal eíla fundada fobre fan- 
gue de Martyres , e que Martyres a dilatam , 
e eítendem per todo o Univerfo : fe eíte no- 
me podem merecer aquelles , que militando 
pola Fé ? oíFerecem fuás vidas a Deos em 
íaçrificio, e dotam fuás fazendas afumptuo- 

fos 



io ÁSIA de João de Barros 

fos Templos , que fundaram : como vemos 
que fez EIRey D. Afonfo Henriques primei- 
ro Fundador defta Cafa Real , e o Conde 
D. Henrique feu Padre ? e toda a Nobreza 5 e 
Fidalguia , que os feguia nefta confifsão , e 
defensão da Fé ? da qual verdade são tes- 
temunho mui dotados , e magníficos Tem- 
plos deite Reyno. E paliados os primeiros 
annos da infância deíle y que foi todo o tem- 
po , que cfteve no berço , em que nafceo , li- 
mitado na coíla do mar Oceano , (porque o 
mais do fertão da terra ficou na Coroa de 
Caílella , e a elle lhe não coube mais em 
forte nefta nolla Europa : ) todo o trabalho 
daquelles Príncipes , que então o governa- 
vam , foi alimpar a cafa defta infiei-gente 
dos Arábios , que lha tinham occupada do 
tempo da perdição de Heípanha , té totalmen- 
te a poder de ferro os lançarem além mar , 
com que íè intitularam Reys de Portugal 5 e 
do Algarve. E aíli eftava limpa delles no tem- 
po delRey D. João o primeiro , que defejan- 
do elle derramar feu fangue na guerra dos 
infiéis , por haver a benção de feus avôs > 
efteve determinado de fazer guerra aos Mou- 
ros do Reyno de Grada : e por alguns in- 
convenientes de Caílella , e aíli por maior 
gloria fua , paflbu além mar em as partes de 
Africa , onde tomou aquella Metropoli Ce- 
ptar Cidade tão cruel competidor de Hefpa- 

nha, 



Década I. Liv. L Cap. L ii 

nha , como Cartago foi de Itália $ da qual 
Cidade fe logo intitulou por fenhor, como 
quem tomava poffe daquelia parte de Afri- 
ca , e leixava porta aberta a feus filhos , e 
netos pêra irem mais avante, O que elles 
mui bem cumpriram , porque não fomente 
tomaram Cidades , Villas, e Lugares nos 
principaes pprtos , e forcas dos Reynos de 
Féz, e Marrocos, reílituindo á Igreja Ro- 
mana a jurifdicção , que naquellas partes ti- 
nha perdida depois da perdição de Hefpanha , 
como obedientes filhos ^ e primeiros Capitães 
pola Fé neítas partes de Africa ; mas ainda 
foram defpregar aquella divina , e real ban- 
deira da Milicia de Chrifto , que elles funda- 
ram pêra efta guerra dos infiéis , nas partes 
Orientaes da Afia , em meio das infernaes 
mefquitas" da Arábia , e Perfia , e de todolos 
pagodes da gentilidade da índia daquém , e 
dalém do Gange : partes, onde, fcgundoEi- 
critores Gregos > e Latinos , excepto a illuf- 
tre Semirames ], Bacho , e o grande Alexan- 
dre , ninguém oufou commetter. Com as 
quaes vitorias , que os Reys defte Reyno hou- 
veram neftas três partes da terra-* Europa , 
Africa , e Afia , ganhando Reynos , e efta- 
dos , accrefcentáram fua Coroa com novos , 
e illuílres títulos , que lhe deram, com mais 
jjuftiça do que alguns Príncipes deíla noíTa 
Europa tem nos eílados , de que fe intitu- 
lam^ 



iz ÁSIA de JoÁo de Barros 

Iam , dos quaes eílá em pofle efta barbara 
gente de Mouros, fem os poderem vindicar 
per lei de armas, E os Reys deite Reyno , 
fendo fenhores do Reyno de Ormuz , cujo 
eftado tem boa parte , e a melhor da terra 
marítima da Arábia , e da Perfia 5 e fenhores 
do Reyno de Cambaya com lhe ter tomado 
o marítimo delle, e fenhores do Reyno de 
Goa, com as terras, e Ilhas a ella adjacen- 
tes , e fenhores da riquiífima Malaca > fitua- 
da na Áurea Cherfonefo tão celebrada dos 
Geógrafos , e fenhores das Ilhas Oricntaes 
de Maluco , Banda , &c. fomente fe intitu- 
lam por Reys de Portugal , e dos Algarves 
daquém , e dalém mar , fenhores de Guine , 
e da Conquiíla , Navegação , e Commercio 
da Ethiopia , Arábia 5 Perfia , e índia , como 
fe eíloutros Reynos , e fenhorios nomeados 
não fe governaífem per fuás Leys , e Or- 
denações , e lhe não pagaífem tributos , e 
rendas 5 e elles lhe não tiveífem o pefcoço 
debaixo do efcabeljo de feus pés. Mas co- 
mo de cada huma Ôeílas partes em leu lugar 
mais copiofamente fazemos relação , ao pre- 
fente 5 leixadas ellas , pêra fe melhor entender 
o fundamento deíla noífa Afia 5 convém que 
faibamos como no titulo da Real Coroa def- 
tes Reynos fe comprendem três coufas dif- 
tin&as huma da outra 5 pofto que entre fi fe- 
jam tão correlativas , que huma não pode 

fer 



Década L Liv. I. Cap. L 13 

fer fem adjutorio da outra , communicando- 
ie pêra ília confervaçao. A primeira lie Con- 
quifta , a qual trata de Milicia ; a fegunda Na- 
vegação , a que refponde a Geografia ; e a 
terceira Commercio, que convém á Mercado- 
ria : das quaes partes querendo nós efcrever 
íucceflivamente como ellas fe foram adqui- 
rindo , e ajuntando á Coroa defte Reyno , 
em lugar , e tempo i por não confundir os 
méritos de cada huma das matérias , com 
adjutorio Divino , que pêra iílb imploramos , 
per efte modo trataremos delias. Quanto á 
parte da Conquifta 5 que lie própria da Mili- 
cia , efta porque foi em todalas partes da 
terra , fazemos delia quatro partes de efcri- 
tura , ( pofto que em féis em a noífe Geo- 
grafia dividamos todo o Univerfo.) A pri- 
meira parte deita Milicia chamamos Europa , 
começando do tempo , que os Romanos con- 
quiftáramSHefpanha , na qual guerra os Por- 
tuguezes per feitos illuftres tiveram grão no- 
me acerca delles , e dahi viremos fazendo 
difcurfo per os tempos té o Conde D. Hen- 
rique , e per EIRey D. Afonfo Henriques , e 
feus fucceífores. A fegunda parte chamamos 
Africa, cujo princípio he a tomada deCe- 
pta. A terceira , que he efta , que temos an- 
tre as mãos , o feu nome he Afia , por tra- 
tar do defcubrimento , e conquifta das ten- 
ras , e mares do Oriente , começando do ter - 

po 



14 ÁSIA de joÁo de Barros 

po do Infante D. Henrique 5 que foi o pri- 
meiro inventor deita Milícia Auftral 5 e Ori- 
ental. E á quarta , porque aílí chamamos em 
a nofla Geografia á terra do Braíil , haverá no- 
me Sandia Cruz \ nome próprio pofto per 
Pedreálvares Cabral , quando o anno de mil 
e quinhentos , indo pêra a índia , a defcu- 
brio , e aqui terá feu princípio. E de todas 
eftas quatro partes da Milícia , .efta Oriental 
fenece ao prefente no anno de mil e quinhen- 
tos e trinta e nove , onde acabamos de cer- 
rar numero de quarenta livros , que compõem 
quatro Décadas , que quizemos tirar á luz 
por moítra do noilò trabalho , té que venha 
outro curlo de anhos , que feguirá a eíles na 
mefma ordem de Décadas , dando-nos Deos 
vida , e lugar pêra o poder fazer. Quanto 
ao titulo da Navegação , a efte reípondemos 
com huma univerfal Geografia de todo o 
defcubcrto , aífi em graduação de taboas , 
como de commentario íobrellas , applicando 
d moderno ao antigo , a qual não foffre com- 
poílura em linguagem , e por iflò irá em 
Latim. A parte do Commercio , porque elle 
geralmente andava per todalas gentes , fem 
lei \ nem regras de prudência , fomente fe 
governava , e regia pelo ímpeto da cubica 9 
que cada hum tinha ] nós o reduzimos , e 
puzemos em arte com regras univerfaes j e 
particulares , como tem todalas fciencias \ e 

ar- 



"Década L Liv. I. Cap. I. i? 

artes aétivas pêra boa policia 5 onde particu- 
larmente fe verão todalas coufas , de que os 
homens tem ufo , ora fejam naturaes , ora 
artificiaes , com a natureza 5 e qualidade de 
cada huma delias 5 (fegundo o que podemos 
alcançar , ) com as mais partes de pezos , me- 
didas 5 & cetera , que a cila matéria convém. 
E Deos he teftemunha , que em cada huma 
deltas três partes , Conquifta , Navegação , 
e Commercio fizemos a diligencia poílivel a 
nós 5 e mais do que a occupação do oflí- 
cio , e profiísão de vida nos tem dado lu- 
gar. E quando em alguma delias desfalecer- 
mos na diligencia , e eloquência , que con- 
vinha á verdade y e mageftade da mefma cou- 
fa £ eíTe Deos , onde eftam todalas verdades , 
ordene que venha alguém menos occupa- 
do y e mais doudo do que eu fou , pêra que 
emende meus defeitos , os quaes bem fe po- 
dem recompenfar com o zelo , e amor , que 
tenho á pátria , por tirar a infâmia d'algu- 
mas fabulas , e ignorâncias , que andam na 
boca do vulgo , e per papeis elcritos dignos 
de feus Auétores. Leixados meus defeàos, 
e affi efta geral preparação de toda a obra 
quaíi em modo de argumento , e divisão 
delia , venhamos ás caufas , que o Infante 
D. Henrique teve pêra tomar tão illuftre em- 
preza , como foi o defcubrimento , e con- 
quifta , que deo fundamento a efta noífa Afia , 

dos 



i6 ÁSIA de João de Barros 

dos feitos , que os Portuguezes fizeram no 
deícubrimcnto , e conquifta das terras , e ma- 
res do Oriente y como diz o titulo d cila nof- 
la efcritura. 

CAPITULO II. 

Das caufas , que o Infante D. Henrique 
teve pêra defcubrir a cojla Occidental da 
terra de Africa : e como João Gonçalves , 
e Triftao Vaz, defcubriram a Ilha do Por- 
to San fio , por ra£ao de hum temporal y 
que os alli levou. 

DEpois que EIRey D.João de gloriofa 
memoria , o primeiro deite nome em 
Portugal , per força d' armas tomou a Cida- 
de Cepta aos Mouros na paífagem , que fez 
em Africa , ficou o Infante D. Henrique feu 
filho terceiro genito muito mais defejofo de 
fazer guerra aòs infiéis ; porque fe accrefccn- 
tou á natural inclinação , que fempre teve 
de exercitar eíte officio de Milícia por exal- 
çamento da Fé Catholica , não fomente a 
gloriofa vidloria , que feu Padre com tanto 
louvor de Deos , e gloria da Coroa deite 
Reyno alcançou na tomada deita Cidade Ce- 
pta , de que elle Infante foi parte mui prin- 
cipal , (fegundo efcrevemos em a outra nofla 
parte intitulada Africa , de que neíte prece- 

den- 



Década I. Liv. I. Cap. II. 17 

dente Capitulo fizemos menção ; ) mas ain- 
da foi acerca delle outra caufa muito mais 
efficaz , que era a obrigação do cargo , e 
adminiítração que tinha de Governador da 
Ordem da Cavalleria de NoíTo Senhor Je- 
fus Chrifto , que EIRey D. Diniz feu trefa- 
vô pêra efta guerra dos infiéis ordenou 5 e 
novamente conftituio. E fe antes da toma- 
da de Cepta não poz em obra eíle feu na- 
tural defejo , foi porque já em feu tempo 
neíte Reyno não havia Mouros , que con- 
quiílar ; porque os Reys feus avôs , íegun- 
do diífemos , a poder de ferro os tinham 
lançado além mar em as partes de Africa* 
E pêra os elle lá ir bufcar a cumprir ò que 
lhe ficara por avoengo , e convinha per of- 
ficio > era neceílario paífar tão poderofamen- 
te , como fez feu Padre na tomada de Ce- 
pta , pêra que lhe conveo poer grande par- 
te de feu eílado, e ainda com tanto fegre- 
do , induftria , e cautelas , como niífo teve* 
Quanto mais ? que a mefma paíTagem , que 
feu Padre per muito tempo trazia guarda- 
da no peito , lhe foi maior impedimento : 
cá nunca quiz que os Mouros foílem ence- 
tados com entradas , e faltos , que os efper- 
taíTem , e elle perdeíTe huma tão grande em- 
preza , como foi o commettimento , e toma- 
da daquella Cidade Cepta. E pofto que com 
a poífe delia parecia efte negocio de con- 
Tom. L B quif- 



i3 ASIÀ de João de Barros 

quiftar os Mouros muito leve, por a entra- 
da , e porta , que per aqui eítava aberta , o 
Infante D. Henrique pêra feu propoíito acha- 
va tudo ao contrario. Porque vendo elle co- 
mo os Mouros do Re/no de Fez , e Mar- 
rocos ficavam per conquifta mcítidos na co- 
roa deites Reynos , por o novo titulo que 
feu Pai tomou de Senhor de Cepta , e que 
per eíta poiTe Real a empreza daqueila guer- 
ra era própria dos Reys deite Reyno , e el- 
le não podia entrevir niflb , como Conquis- 
tador , mas como Capitão enviado , em o 
proceífo da qual guerra elle havia de feguir 
a vontade delRcy , e a difpoíição do Rey- 
no 5 e não a lua, aiFentou em mudar eíta 
conquifta pêra outras partes mais remotas 
de Heípanha , do que eram os Reynos de 
Fez , e Marrocos. Com que a defpeza def- 
te cafo foíTe própria delíe , e não taxada 
per outrem ; e os méritos de feu trabalho 
ficaífem mettidos na ordem da Cavalleria de 
Chriíto , que elle governava , de cujo the- 
fouro podia difpendcr ; e também porque 
acerca dos homens lhe ficaífe nome de pri- 
meiro Conquiítador , e defcubridor da gen- 
te idólatra , empreza, que té o feu tempo 
nenhum Principe tentou. Com o qual fun- 
damento , pêra que eíte feu propofito hou- 
veífe eíFefto , era mui diligente , e curiofo 
na inquifição das terras > e feus moradores y 

e de 



Década I. Liv. I. Cap. II. 19 

é de todalas coufas , que pertenciam á Geo- 
grafia , dando-fe muito a ella. Donde aífi 
na tomada deCepta, como as outras vezes 
que lá paffou , fempre inquiria dos Mouros 
as coufas de dentro do fertão da terra , prin- 
cipalmente das partes remotas aos Reynos 
de Fez i e Marrocos. A qual diligencia lhe 
refpondeo com o premio , que elle defeja- 
va , porque veio faber per eiles não fomen- 
te das terras dos Alarves ■ que são vizinhos 
aos defertos de Africa , a que elles chamam 
Çahará, mas ainda das que habitam os po- 
vos Azenegues , que confinam com os ne- 
gros dejalof, onde fe começa a região de 
Guiné , a que os mefmos Mouros chamam 
Guinauhá , dos quaes recebemos eífe nome. 
Pois tendo o Infante eíla informação ap- 
provada per muitos , que concorriam em 
numa meíma coufa , começou a poer em 
execução efta obra , que tanto defejava , man- 
dando cada anno dous , e três navios , que 
lhe foíTem defcubrindo a coita além do Ca- 
bo de Nam , que he adiante do Cabo da 
Guillo obra de doze léguas. O qual Cabo 
de Nam era o termo da terra defcuberta , 
que os navegantes de Hefpanha tinham po£ 
to á navegação daquellas partes. E dado 
qtieporcaufa das diligencias \ e modos, que 
nifto teve , ante que ármaífe os primeiros 
navios, elle eftava bem informado dascou- 
B u fãs 



20 ASTÀ DE JOÃO DE BARROS 

fas de toda a coita da terra , que os Mou- 
ros, habitavam, per meio dellcs : alguns qui- 
zeram affirmar , que como era Príncipe Ca- 
tholico , e de vida mui pura , e religiofa , 
eíta empreza mais lhe fora revelada , que 
per elle movida. Porque citando em hum a 
Vilia , que novamente fundava no Reyno 
do Algarve na angra de Sagres , a que poz 
nome Terçanabal , e ora fe chama a Villa 
do Infante : hum dia em fe levantando , fem 
precederem mais coufas que as diligencias 
que fazia pêra ter informação das terras , 
mandou com tanta diligencia armar dous 
navios , que foram os primeiros , como fe 
naquclla noite lhe fora dito, que fem mais 
dilação , nem inquirição do que pergunta- 
va , mandaífe defcubrir. E não fomente per 
conjeítura deita prefla , mas ainda per ou- 
tras , que os feus notaram , dizem fer elle 
exhortado per Oráculo divino , que logo o 
fizeífe. Mas os navios , que daquella vez , 
e d'outras foram, e vieram, não defcubrí- 
ram mais que té o Cabo Bojador , que fe- 
ra davante de Cabo de Nam obra de [q[- 
fenta léguas , e alli paravam todos , fem al- 
gum oufar de commetter a paífagem delle. i 
Porque como eíteCabo começa deincurvar; 
aterra de mui longe, e ao refpe&o dacof-' 
ta , que atrás tinham defcuberta , lança , 
boja pêra Aloefte perto de quarenta léguas 

(don- 



Década I. Liv. I. Cap. II. 21 

(donde deite muito bojar lhe chamaram bo- 
jador,) era pêra elles coufa mui nova apar- 
tar-fe do rumo , que levavam , e feguir ou- 
tro pêra Aloefte de tantas léguas. Principal- 
mente porque no roílo do Cabo achavam 
huma reílinga , que lançava pêra o mefmo 
rumo da Loeíle obra de féis léguas ; onde 
por razão das aguas , que alli correm na- 
quelle efpaço , o baixo as move de manei- 
ra , que parecem faltar ,. e ferver : a viíla 
das quaes era a todos tão temerofa , que 
não oufavam de as commetter , e mais quan- 
do viam o baixo. O qual temor cegava a 
todos , pêra não entenderem , que affaftando- 
fe do Gabo o efpaço das féis léguas , que 
occupava o baixo , podiam paliar além ; por- 
que como eram coílumados ás navegações , 
que então faziam de Levante a Ponente, 
levando fempre a coíla na mão por rumo 
d'agulha , não fabiam cortar tão largo que 
falvaífem o efpaço da reílinga , íbmente com 
a vifta do ferver deílas aguas, e baixo que 
achavam , concebiam que o mar dalli por 
diante era todo aparcelJado , e que não fe 
podia navegar ; e que efta fora a caufa , por 
que os povoadores deíla parte da Europa 
não fe eítendêram a navegar contra aquellas 
regiões. Alguns, que entendiam acerca das 
co ufas natura es , queriam dar caufa , porque 
o mar daquellas terras quentes não era tão 

pro- 



22 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

profundo , como o das terras frias , dizen- 
do que o Sol queimava tanto as terras que 
jaziam debaixo do feu curfo , que com juf- 
ta caufa eílava aífentado per todolos Filo- 
fofos ferem terras , onde fe não podia ha- 
bitar por razão do ardor delle ; e que eíle 
ardor era o que confumia as aguas doces , 
que geralmente fe produzem do coração da 
terra ? e as falgadas eram das que o mar 
frio efpraiava naquellas praias quentes ; de 
maneira , que a navegação das taes regiões 
eram mais praias cubertas de baixos , que 
mar navegável. Os Capitães 5 que o Infan- 
te enviava a eíle defeubrimento , quando fe 
tornavam pêra eíle Reyno , parecendo-lhes 
que o compraziam por faberem que fua na-» 
tureza , e inclinação era fazer guerra aos 
Mouros , vinham-fe pela coita da Berbéria 
té o eftreito , onde faziam algumas entra- 
das , e faltos nas povoações delles , com que 
fe aprefentavam antelle alegres de fuás vi- 
torias. Mas o defejo do Infante com eítas 
taes prezas não ficava fatisfeito , porque to-r 
do eílava pofto na efperança que lhe o ef- 
prito promettia , fe profeguiffc naqueiía em- 
preza , da qual algumas vezes defiília , por- 
que os negócios do Reyno , e as paííagens , 
que fez aos lugares de Africa, o impediam 
£ não levar o fio deíle defeubrimento tão 
continuado > como elle defejava, E vindo 

do 



Década I. Liv. I. Cap. II. 23 

do grande cerco de Cepta , (como fe na 
parte de Africa contém , ) depois que eftes 
negócios algum tanto lhe deram lugar , fal- 
láram-llie dous Cavalleiros de fua cafa , que 
naquellas idas dalém o tinham mui bem fer- 
vido y pedindo-lhe muito , que pois Sua Mer- 
cê armava navios pêra defcubrir a coita de 
Berbéria , e Guiné , lhe aprouveíTe irem cl- 
les em algum navio a efte defcubrimento , 
cá fentiam em íi que nelie o poderiam bem 
fervir. O Infante vendo fuás boas vontades , 
e conhecendo deli es ferem homens pêra qual- 
quer honrado feito pela experiência que ti- 
nha de feus ferviços , mandou-lhcs armar 
hum navio , a que chamavam Barcha naquel- 
le tempo : e deo-lhes regimento , que cor- 
reííem acofta de Berbéria té paffarem aquel- 
le temerofo Cabo Bojador , e d'hi foliem 
defcubrindo o que mais achaíTem ; a qual 
terra 5 fegundo moftravam as tavoas de Tho- 
lomeu , e aíTi pela informação , que tinha dos 
Alarves , fabia fer contínua huma a outra , 
té fe metter debaixo da linha equinocial , 
peró que não tevefle noticia da navegação 
da ília cofia. Noífo Senhor como por fua 
mifericordia queria abrir as portas de tanta 
infidelidade , e idolatria pêra falvaçao de 
tantas mil almas , que o Demónio no centro 
daquellas regiões 3 e provindas barbaras ti- 
nha cativas , fem noticia dos méritos da nof- 

fa 



24 ÁSIA de JoÃo de Barros 

fa Redempçao : partidos cites dous Cavallei- 
ros em fua barca , começou neíta viagem 
obrar feus myíterios , demoítrando-nos 5 e 
defeubrindo a grandeza dos Mundos , e ter- 
ras , que pêra nós tinha creado, com tan- 
tos theíouros , e riquezas , como em íl con- 
tinham. As quaes terras havia tantos mil 
annos que por noíTos peccados , ou pelas 
enormes , e torpes idolatrias de íeus mora- 
dores , ou per outro qualquer juizo occul- 
to , citavam cerradas , e de nós bem efque- 
cidas, fem haver Príncipe , ouRey de quan- 
tos foram em Hefpanha , que cite defeubri- 
mento commetteííe , como lemos que toma- 
ram outras emprezas , que não trouxeram 
tanto louvor á Igreja de Deos , nem a íuas 
coroas tanta gloria , e acerefeentamento , co- 
mo lhe efla podia dar. Parece que aíli co- 
mo em o velho Teftamento lemos , que Deos 
não confentio que David , fendo a elle tão 
acepto , lhe edificaffe templo por fer barão , 
que trazia as mãos tintas de fangue huma- 
no das guerras, que teve, c quiz que eíte 
templo material lhe edificaífe Salamão feu 
filho por fer Rey pacífico , e limpo deite 
fangue : aíli permittio eítar eíta parte do 
Mundo tantas centenas de annos encuber- 
ta , e efeondida. Porque tão grande coufa , 
como era a edificação da fua Igreja neítas 
partes da idolatria > convinha que foíTe per 

hum 



Década L Liv. I. Cap. II. 25 

hum barão tão puro > tão limpo , e de co- 
ração tão virginal , como foi eíle Infante 
D. Henrique > que abrio os alicerces delia , 
e per outro tão Chriítianiílímo , e zelador 
da Fé y e honra de Deos , como foi EIRey 
D. Manuel feu fobrinho 9 e neto adoptivo : 
que depois , como adiante veremos , muito 
trabalhou na edificação deita Igreja Orien- 
tal, mettendo grande parte do povo idóla- 
tra em o curral do Senhor 5 e como hum 
novo Apoítolo , levou o feu nome per to- 
dalas gentes. E aílí permittio , que eíle def- 
cubrimento pela mageílade delle paflaíTe pe- 
la lei , que tem as grandes coufas , as quaes 
quando fe querem moftrar a nós , tem huns 
principios trabalhofos , e calos não penfa- 
dos , e de tanto perigo, como paliaram ef- 
tés dons Cavalleiros , que o Infante man- 
dou defcubrir. Porque antes que chegaílem 
á coita de Africa , faltou com elles tamanho 
temporal com força de ventos contrários á 
fua viagem , que perderam a efperança das 
vidas , por o navio fer tão pequeno , e o 
mar tão groffo , que os comia 3 correndo a 
arvore fecca á vontade delle. E como os 
marinheiros naquelle tempo não eram cof- 
tumados a fe engolfar tanto no pego do 
mar, e toda fua navegação era per fangra- 
duras fempre á viíta de terra , e fegundo 
lhes parecia eram mui aífaítados da coita 

def- 



a6 ÁSIA de JoÃo de Barros 

defte Reyno , andavam todos tão torvados , 
e fora do feu juizo pelo temor lhes ter to- 
mado a maior parte delle 5 que não fabiam 
julgar em que paragem eram. Mas aprou- 
ve a piedade de Deos , que o tempo cei- 
fou j e pofto que os ventos lhes fizeram per- 
der a viagem que levavam , fegundo o re- 
gimento do Infante , não os deíviou de fua 
boa fortuna : defcubrido a Ilha , a que ago- 
ra chamamos Porto Santo , o qual nome lhe 
elles então puzeram , porque os fegurou do 
perigo , que nos dias da fortuna paííáram. 
E bem lhe pareceo que terra em parte não 
efperada , não fomente lha deparava Deos 
pêra fua íalvação , mas ainda pêra bem , e 
proveito deftes Reynos , vendo a difpoíição , 
e íitio delia : e mais não fer povoada de 
tão fera gente , como naquelle tempo eram 
as Ilhas Canareas , de que já tinham noti- 
cia. Com a qual nova ? fem ir mais avan- 
te j fe tornaram ao Reyno , de que o In- 
fante recebeo o maior prazer, que té quel- 
le tempo deita fua impreza tinha vido , pa- 
recendo-lhe que era Deos fervido delia , pois 
já começava ver o fruto de feus trabalhos, 
E accrefcentava mais a efte íèu prazer, di- 
zerem aquelles dousCavalleiros , a hum dos 
quaes chamavam João Gonçalves Zarco dal- 
cunha ; e ao outro Triftão Vaz , que vinham 
tão contentes dos ares > fitio , e frefquidão 

da 



Década I. Liv.L Ca?. II. 27 

da terra , que fe queriam lá tornar a po- 
voalla , por verem que era mui groíTa , e 
azada pêra frutificar todaslas fementes , e 
plantas de proveito. E não fomente elles , 
e os outros de fua companhia que a viram , 
mas ainda muitos polo que delia ouviam , 
e também por comprazer ao Infante , fe of- 
ferecêram a elie com efte propoíito de a 
povoar : antre os quaes foi huma peífoa nc- 
tavel chamado Bertolameu Pereftrello, que 
era Fidalgo da cafa do Infante D. João leu 
irmão. Vendo elle Infante D. Henrique o 
alvoroço , com que fe já os homens defpu- 
nham a efte negocio , convertia- fe a Deos , 
dando-lhe muitas graças , pois lhe aprou- 
vera fer elle o primeiro que deícubrifTç a 
efte Rey no , principio de outros , em que o • 
coração da gente Portuguez feeftendcíTe pê- 
ra feu ferviço. Pêra a qual ida logo com 
muita diligencia mandou armar três navios , 
hum dos quaes deo a Bertolameu Pereftrel- 
lo, e os outros dous a João Gonçalves, e 
a Triftao Vaz primeiros defeubridores in- 
do mui apercebidos de todalas fementes , e 
plantas , e outras coufas , como quem efpe- 
rava de povoar, e aflentar na terra. Antre 
as quaçs era huma coelha , que Bertolameu 
Pereftrello levava prenhe mettida em huma 
gaiola , que pelo mar acertou de parir , de 
que todos houveram muito prazer : ç tiveram 

por 



28 ÁSIA de João de Barros 

por bom prognoftico , pois já pelo caminho 
começavam dar fruto as fementes que leva- 
vam , e aquclla coelha lhes dava efperança 
da grande multiplicação que haviam de ter 
na terra* E certo que eíla efperança da mul- 
tiplicação da coelha os não enganou, mas 
foi com mais pezar que prazer de todos ; 
porque chegados á Ilha , e folta a coelha 
com feu fruto , em breve tempo multipli- 
cou em tanta maneira , que não femeavam , 
ou plantavam coufa que logo não folie roi- 
da. O que foi em tanto crefcimento per ef- 
paço de dous annos que alli eítiveram , que 
quaíl importunados daquella praga , come- 
çou de aborrecer a todos o trabalho , e mo- 
do de vida que alli tinham , donde Bertola- 
>meu Pereítrello determinou de fe vir pêra 
o Reyno , ou per qualquer outra neceíTida- 
de que pêra iílo teve. 



CA- 



Década I. Livro I. 19 

CAPITULO III 

Como João Gonçalves , e Triftão Vaz> y 
partido Bertolameu Perejlrello , defcubri- 
ram a Ilha , a que ora chamam da Madei- 
ra , a qual o Infante D. Henrique repartia 
em duas Capitanias : huma chamada do Fun-* 
eh ai y que deo a João Gonçalves ; e a ou- 
tra Machico , que houve Trijlao Vaz. 

JOao Gonçalves , e Triftão Vaz, como eram 
chamados peia melhor fortuna , e mais 
profperidade , não fe quizeram vir pêra o 
Reyno , nem menos fazer affento naquella 
Ilha ; mas partido Bertolameu Pereílrello, 
determinaram de ir ver fe era terra huma 
grande fombra que lhe fazia a Ilha, a que 
ora chamamos da Madeira , na qual havia 
muitos dias que fe não determinavam , por- 
que por razão da grande humidade que em 
li continha com a efpeífura do arvoredo , 
fempre a viam afumada daquelles vapores, 
e parecia-lhes ferem nuvens groífas ; e ou- 
tras vezes aíErmavam que era terra , porque 
demarcando aquelle lugar com a vifta , não 
o viam defaíTombrado como as outras par- 
tes. Afli que movidos defte defejo , em dous 
barcos que fizeram da madeira da Ilha em 
que eílavam , vendo o mar pêra iífo difpof- 
to, paíTáram-fe aella, áqual chamaram da 

Ma- 



3o ASIÀ de João de Barros 

Madeira por caufa do grande , e mui efpef- 
fo arvoredo de que era cuberra. Nome já 
mui celebrado , e fabido per toda a noffa 
Europa , e aíli em muitas partes de Afri- 
ca , e Afia por os frutos da terra de que 
todas participam ; e ella tão nobre , fertii , 
e generofa em feus moradores , que tiran- 
do Inglaterra mui antiquiífima em povoa- 
ção , e illuítre com a mageílade dos feus 
Revs , em todo o mar Oceano Occidental 
a eíta nofla Europa ella fe pode chamar 
princeza de todas. O que a fama tem da 
ida deites dous Capitães , c fua fahida em 
terra , e que João Gonçalves com o feu 
barco fahio onde ora chamam Camará de 
Lobos junto do Funchal , e Triftao Vaz fa- 
hio na ponta de Triítão > a que elle então 
deo nome ; e que da fahida que cada hum 
fez neltes lugares lhe coube a forte da ter- 
ra , que lhe foi dada pelo Infante em capi- 
tania. Os herdeiros de João Gonçalves tem 
eferitura mui particular deite deícubrimen- 
to , e querem que toda a honra , e traba- 
lho delle lhe feja dada , dizendo , que Trif- 
tão Vaz não era homem de tanta idade , 
nem qualidade , como João Gonçalves , f<> 
mente que era chegado a elle per amizade, 
e companhia , e que como homem mance- 
bo , e deita conta fempre era nomeado por 
Triítao , os quaes chegando ambos em hum 

bar- 



Década I. Liv. I. Cap. III. 31 

barco do meímo João Gonçalves , fahíram 
naquelle lugar chamado ora a ponta de Trif- 
tão , e alli o leixou João Gonçalves , dizen- 
do , que em quanto elle hia no batel dar 
huma volta á Ilha buícar outro porto , que 
entrafle elle ver a terra per dentro. E que 
ficando alli Trilião , elle viera em feu barco 
ter á parte a que ora chamam o Funchal , 
do qual íitio, e diípoíição de terra, quan- 
to de fora fe podia julgar , elle ficou con- 
tente ' y e tornando onde leixára Triftão , lhe 
deo toda aquelia terra , que lhe depois foi 
dada em capitania , ifto em nome do Infan- 
te , por trazer regimento , e commifsão fua 
pêra o poder fazer. Gomezeanes de Zura- 
ra , que foi Chronifta deftes Reynos , de 
cuja efcritura nós tomamos quaíi todo o 
proceffo do defcubrimento de Guiné y (como 
fe adiante verá , ) em foma diz , que ambos 
eftes Cavalleiros defcubrírarn efta Ilha \ peró 
fempre nomea a Triftão Vaz por Triftão , 
como peífoa menos principal. Nós leixado 
o particular deita precedência , baila pêra 
noífa hiftoria faber como ao tempo , que 
João Gonçalves fahio em terra 3 era ella tão 
cuberta de efpeífo , e forte arvoredo > que 
não havia outro lugar mais defcuberto que 
huma grande lapa , ao modo de camará abo-' 
bodada , que fe fazia debaixo de huma ter- 
ra foberba febre o mar. O chão da qual 

la- 



32 ÁSIA de JoÂo de Barros 

lapa eftava mui fovado dos pés dos lobos 
marinhos , que alli vinham retouçar , ao qual 
lugar elle chamou Camará de Lobos ; e to- 
mou efte appellido em memoria ? que na- 
quelle lugar foi a primeira entrada de fua 
povoação. O qual appellido ficou a todolos 
feus herdeiros , e alguns fe chamam da Ca- 
mará fomente : e perô todos trazem por ar- 
mas , fe são as que deram a João Gonçal- 
ves , hum efcudo verde , e huma torre de 
menagem de prata cuberta , e dous lobos 
de fua cor pegados nelia , e na ponta do 
curucheo da torre huma cruz d'ouro. O In- 
fante depois que eftes Capitães vieram ao 
Reyno com a nova defta Ilha , per confen- 
timento delRey D. João feu Padre , a re- 
partio em duas capitanias : a João Gonçal- 
ves deo a que chamamos do Funchal , onde 
eftá a Cidade nomeada deite lugar com as 
demarcações que a ella pertencem , de que 
ora feus herdeiros são Capitães de juro , e 
herdade , fegundo fe contém em fuás doa- 
ções. E a Triftão Vaz deo a outra , onde 
eftá a povoação de Machico , cujos fuecef- 
fores a tiveram té o anno de quinhentos e 
quarenta , onde fe quebrou feu legitimo her- 
deiro , fegundo tinham per fua doação , da 
qual EIRey D. João o terceiro NoíTo Se- 
nhor nefte mefmo tempo fez doação delia 
de juro y e herdade a António <ia Silveira 

de 



Década I. Liv. I. Cai\ III. 33 

de Menezes , filho de Nuno Martins da 
Silveira Senhor de Góes em fatisfação dos 
ferviços , que fez na índia em o cerco da 
Cidade de Diu do Reyno Guzarate , onde ef- 
tava por Capitão , quando foi cercado per 
Soieimão BaíTá Capitão mor d 5 Armada do 
Turco , (como fe verá em feu lugar.) E â 
fora o mérito ,' que eftes Capitães tiveram 
naquelle defcubrimento pêra lhes fer feita 
mercê daquellas capitanias 5 havia outros de 
fuás peífoas , e ferviço , per que cabia nel- 
les toda honra ; porque em as idas dalém , 
principalmente em o cerco de Cepta , quan- 
do foi o desbarato dos Mouros no dia da 
chegada , onde fe elles acharam 5 e aííi no 
cerco de Tangere , ambos o fizeram honra- 
damente 5 e o Infante os armou Cavalleiros* 
E que nefta parte os méritos dambos fof- 
fem communs , em João Gonçalves particu- 
larmente havia os da nobreza do feu fan- 
gue , o que parece reíponder a lhe fer dada 
maior parte na repartição da Ilha , fempre 
depois precedeo em honra aos Capitães de 
Machico. Porém quanto aos trabalhos , que 
cada hum teve em povoar o que lhe cou- 
be em forte , ambos são dignos de muito 
louvor; e começaram eífo obra da povoa- 
ção no anno do Naicimento de Noífo Se- 
nhor JefusChrifto de mil quatrocentos € vin- 
te. No principio da qual povoação pòendo 
Tom. L C * João 



34 ÁSIA de João de Barros 

João Gonçalves fogo naquella parte, onde 
fe ora chama o Funchal , em huma roça 
que fez pêra defeubrir a terra do arvore- 
do , e rama , que tinha per baixo , e nella 
lançar algumas fementes , aífi tomou o fo- 
go pofle da roça , e do mais arvoredo , que 
fete annos andou vivo no bravio daquellas 
grandes matas , que a natureza tinha crea- 
do havia tantas centenas de annos. A qual 
deílruiçao de madeira , pofto que foi pro- 
veitofa pêra os primeiros povoadores , logo 
em breve começaram lograr as novidades 
da terra : os prefentes fentem bem efte da- 
mno por a falta que tem de madeira , e le- 
nha; porque mais queimou aquelle primei- 
ro fogo , do que dentão té ora poderá de- 
cepar força de braço , e machado. Coufa 
que o Infante muito fentio , e parece que 
como profecia vio efta neceíTidade prefen- 
te que a Ilha tem de lenha ; porque dizem 
que mandava que todos plantaíTem matas , 
polo negocio dos açucares > de que a Ilha 
logo deo moftra gaftar tanta ? que era cer- 
to vir a efta neceíTidade. E a primeira Igre- í 
ja, que o Infante mandou fundar , foi NoíTa 
Senhora do Calháo ; e depois que a Ilha 
começou a multiplicar em povoações , fe 
fundou NoíTa Senhora da AíTumpção , que 
ora he Sé Cathedral Arcebifpado Primaz 
das índias. Depois no anno de mil quatro- | 

cen- 



Década I. Liv. I. Cap* III. 35' 

centos trinta e três em a Villa de Sintra a 
vinte e íeis de Setembro EIRey D. Duarte 
irmão deite Infante lhe fez doação delia em 
dias de fua vida , e no anno feguinte em 
a mefma Villa a vinte féis e Doéiubro deo 
todo o efpiritual delia á Ordem de Chrif- 
to : As quaes doações depois lhe foram con- 
firmadas per EIRey D. Affonfo feu fobrinho 
o anno de mil quatrocentos e trinta e no- 
ve. E por as coufas deíla Ilha ferem a nós 
já mui manifeílas , e fabidas, leixamos de 
efcrever da fertilidade delia : fomente fe po- 
de notar ler coufa tão groíla > que alguns 
annos rendeo o quinto dos açucares ao Mef- 
trado de Chriílo paífante de feífenta mil ar- 
robas : e efta novidade fe havia em terra , 
que occupava pouco mais de três léguas. A 
Ilha do Porto Santo deo o Infante a Ber- 
tolameu Pereftrello que a povoaífe , o que 
lhe foi mui trabalhòfa coufa por caufa dos 
coelhos , que os moradores não podiam ven- 
cer , dos quaes ainda hoje em hum ilheo ? 
que eftá pegado a ella 5 he tanta a multi- 
dão que parecem bichos , e paíTou já de 
três mil numa matança que fe nelles fez„ 
Também houve outra caufa de fe efta Ilha 
não povoar como a da Madeira , e foi por 
não haver nella ribeiras de regadio pêra as 
fazendas dos moradores , com que Bertola- 
meu Pereftrello ficou com menos forte que 
C ii os 



36 ASIÀ de J0Ã0 de Barros 

os outros Capitães , cuidando o Infante na- 
quelle tempo que lhe ficava a melhor. 

CAPITULO IV. 

Das murmurações , que o povo do Rey- 
no fazia contra efte defeubrimento : e co- 
mo havendo doze annos que nelle fe profe- 
guia , hum Gileanes pajjòu o Cabo Bojador 
tão temerofo na opinião das gentes. 

COm o defeubrimento deitas duas Ilhas 
começou o Infante a fe esforçar mais 
em o feu principal intento , que era defeu- 
brir a terra de Guiné , por haver já doze an- 
nos que trabalhava niííb contra parecer de 
muitos j fem achar algum final pêra fatisfa- 
çao daquelles , que haviam efte negocio por 
coufa fem fruto , e mui perigofa a todolos , 
que andavam nefta carreira , por efte com- 
mum provérbio , que traziam os mareantes : 
Quem pajjar o Cabo de Nam , ou tornara y 
ou não. E era. tão aílentado o temor defta 
paífagem no coração de todos , por herda- 
rem efta opinião de feus avós , que com 
muito trabalho achava o Infante quem nift 
fo o quizeífe fervir , peró que já o defeu- 
brimento da Ilha da Madeira déífe algum 
animo aos navegantes. Porque diziam mui- 
tos , que como fe havia de paliar hum ca- 
bo , que os mareantes de Hefpanha puzerai 

por 



Década I. Liv. I. Cap. TV. 37 

por termo , e fim da navegação daquellas 
partes , como homens que fabiam não fe 
poder navegar o mar 5 que eftava além del- 
le , aífi por as grandes correntes 5 como por 
fer mui aparcelado , e com tanto fervor das 
aguagens , que forvia os navios. E mais , 
que a terra que o Infante mandava bufear 
não era terra , mas huns areaes , como os 
defertos de Lybia 3 de que fallavam os Es- 
critores , por eila fer huma parte a mais Oc- 
cidental delia 5 de que já tinha experiência 
em as feííenta léguas de cofta , que eftavam 
ante do Cabo Bojador. E não fomente os 
mareantes , mas ainda outras peífoas de mais. 
qualidade , diziam : Certamente nós nãofa- 
hemos que opinião foi ejla do Infante , nen\ 
que fruto elle efpera defte feu defeubrimen- 
to , fenao perdição de quanta gente vai em 
os navios , pêra ficarem muitos órfãos , e 
viuvas noReyno, além da defpeza de fuás 
fazendas , pois o perigo , e o gafto ambos 
ejlam manifejlos , e o proveito tão incerto, 
como todos fabemos. Porque fempre ahi 
houve Reys , e Príncipes em Hefpanha de- 
fejofos de grandes emprezas , e tão cubico- 
fos de bufear , e defeubrir novos e fiados , 
como o Infante ; e não vemos , nem lemos 
em fuás Chronicas ? que mandajfem defeubrir 
efta terra , tendo-a por tão vizinha. Mas 
como coufa de que não efperavam honra , 

ou 



38 ÁSIA de J0Â0 de Barros 

ou proveito algum , leixáram de a defcu- 
brir , contentando-fe com a terra , que ora 
temos , a qual Deos deo por termo , e ha- 
bitação dos homens \ e fe alguma houver , 
onde o Infante diz , devemos crer que ellc 
a leixou pêra pajlo dos brutos. Cá , fegun- 
do os antigos efcrevêram das partes do Mun- 
do , todos affirmao que efla , per que o Sol 
anda , a que elles chamam tórrida Zona , 
não he habitada. Ora onde o Infante man- 
da defcubrir , he já tanto dentro no fervor 
do Sol , que de brancos que os homens 
são , fe lá for algum de nós , ficará , (fe ej- 
tapar , ) tão negro , como são os Guineos 
vizinhos a efta quentura. Se ao Infante pa- 
rece que como ora achou eftas duas Ilhas , 
que o tem mais elevado nefte defeubrimen- 
to , pôde achar outras terras bermas , grof- 
fas , e fertiles , como ãizeyn que ellas são , 
terras , e maninhos ha no Reyno pêra rom- 
per 5 e aproveitar fem perigo de mar , nem 
defpezas defordenadas. E mais temos exem- 
plos contrários a efta fua opinião 5 porque 
os Reys pajjàdos dejie Reyno fempre dos 
Reynos alheios pêra ofeu trouxeram gente 
a efle afazer novas povoações ; e elle quer 
levar os naturaes Portuguezes a povoar ter- 
ras bermas per tantos perigos de mar , de 
fome , e fede , como vemos que paffam os 
que lá vam. Certo que outro exemplo lhe 

deo 



Década I. Liv. I. Cap. IV. 39 

âeo feu Padre poucos dias ha 3 dando os 
maninhos de Lavra junto de Coruche a Lam- 
bert de Orches Alemão , que os rompeffe , 
e povoaffe , com obrigação de trazer a el- 
le moradores eflrangeiros d? Alemanha \ e 
não mandou feus vaffallos pajfar além mar 
romper terras , que Deos deo por pafio dos 
brutos. E bem fe vio quanto mais naturaes 
são pêra elles , que pêra nós , pois em tão 
poucos dias huma coelha multiplicou tanto , 
que os lançou fora da primeira Ilha , quajl 
como amoejlação de Deos , que ha por bem 
fer aquella terra p afiada de alimárias , e 
não habitada per nós. E quando quer que 
nejlas terras de Guiné fe achaffe tanta gen- 
te , como o hífante diz , não fabemos que 
gente he , nem o modo de fu a peleja ; e qudk- 
do foffe tão barbara , como fabemos que 
he a das Canareas , a qual anda de penedo 
em penedo , como cabras ãs pedradas con- 
tra quem os quer offender 5 nós que provei- 
to podemos ter de terra tão ejlerele , e af 
pêra , e cativar gente tão mefquinha ? Certo 
nós não fabemos outro , fenão virem elles 
encarentar o mantimento da terra 5 e come- 
rem nojfos trabalhos ; epor cobrarmos hum 
comedor defles , perdermos os amigos \ e 
parentes. Eílas b e outras coufas dizia a gen- 
te naquelle tempo , vendo com quanto fer- 
vor y e defejo o £ Infante procedia nefte def- 

cu- 



40 AS IA de JoXo de Barros 

cubrimcnto de Guiné , a qual conquiíta du- 
rou per efpaço de doze annos , iem neíte 
tempo algum , de quantos navios mandou , 
oufar paflar o Cabo Bojador. Porém quan- 
do os Capitães tornavam , faziam algumas 
entradas na coita de Berbéria , (como atrás 
diíTemos 9 ) com que elles refaziam parte da 
defpeza, o que o Infante palTava com fof- 
frimento , fem por iíTo moítrar aos homens 
defeontentamento de feu ferviço , dado que 
não cumpriffem o principal a que eram en- 
viados. Porque corno era Príncipe Catholi- 
co 5 e todalas luas coufas punha em as mãos 
de Deos , parecia-lhe que não era merece- 
dor que per elle foíle defeuberto í o que 
tanto tempo havia que citava efeondido aos 
Plincipes paífados de Hefpanha. Com tudo , 
porque fentia em 11 hum eítimulo de virtuo- 
fa perfia , que o não leixava defeançar em 
outra coufa , parecia-lhe que era ingratidão 
a Deos dar-lhe eltcs movimentes , que não 
deíiftiíTe da obra , e elle fer a iíTo negligen- 
te. As quaes inípirações aífi o incitavam 3 
que mandou armar huma barca , a capita- 
ria da qual deo a hum Gilianes feu criado 
natural da ViJla de Lagos , que já o anno 
paífado fora a eíte defeubrimento ; e por 
lhe os tempos não terçarem bem , fe foi ás 
Canareas , e em alguns faltos que fez to- 
mou certos cativos , com que fe tornou pê- 
ra 



Década I. Liv. I. Cap. IV. 41 

ra o Reyno. E porque o Infante fe mof- 
trou mal fervido delle por efte feito , ficou 
tão defcontente de ÍI , que nefta fegunda via- 
gem determinou de offerecer a vida a todo- 
los perigos , e não vir ante o Infante fem 
mais certo recado do que trouxera o anno 
paíTado. E a efte feu propofito fe ajuntou a 
boa fortuna , ou por melhor dizer , a ho- 
ra , em queDeos tinha limitado o curfo de 
tanto receio 5 como todos tinham de paliar 
aquelle Cabo Bojador , o qual nome lhe el- 
le então poz pelas razões que atrás diííe- 
mos ? não tendo té aquelle tempo algum 
acerca de nós ; e fegundo a fua íituaçao, 
podemos dizer fer aquelle o Cabo , a que 
Ptholomeu chama Ganaria promontório. E 
pofto que a obra defta paflagem não foi 
grande em ÍI , quanto agora , então lhe foi 
contada por hum grande feito , e houveram 
que era igual a hum dos trabalhos de Her- 
cules 3 porque com efta paífagem desfez a 
vã opinião , que ioda Hefpanha tinha 5 e 
deo animo áquelles , que não oufavam fe- 
guir efte defeubrimento. Tornado Giliancs 
ao Reyno com efta nova, foi recebido do 
Infante com aquelle prazer, que fetem das 
coufas tão defejadas , e per tanto tempo , e 
trabalho riqueridas , como eram aquelías , e 
agalardoou fua peífoa ? e aífi os da fua com- 
panhia com honra ^ e mercê. E o que mais 

ani- 



42 ÁSIA de João de Barkos 

animou o Infante a efta empreza, foi con- 
tar-lhe Gilianes como fahíra em aterra fera 
achar gente , ou povoação alguma , e que 
lhe parecera mui frefca , e gracioía ; e que 
em íínal de não fer tão efterele , como as 
gentes diziam, trazia alli a Sua Mercê em 
hum barril cheio de terra humas hervas , que 
Jè pareciam com outras, que cá no Reyno 
tem flores , a que chamam rofas de Santa 
Maria. As quaes fendo trazidas ante o In- 
fante dh as cheirava , e tanto fe gloriava 
de as ver , como fe fora algum fruto , e mol- 
tra da terra de promifsao , dando muitos 
louvores a Deos : e pedia a NoíTa Senho- 
ra , cujo nome aquellas hervas tinham , que 
encaminhaífe as coufas daquclle defcubri- 
mento pêra louvor , e gloria de Deos , e ac- 
crefcentamento de fua Santa Fé. E não fo- 
mente o Infante , cuja era efta empreza 5 
mas ainda EIRey D. Duarte feu irmão , que 
então reinava , hcou mui contente defte fei- 
to , tanto pela honra do Infante , por faber 
as murmurações que andavam no Reyno 
defta fua empreza , como por o proveito , 
que elle , e os feus naturaes niffo podiam 
ter. O qual logo publicamente quiz moftrar 
efte contentamento , porque eftando em a 
Villa de Sintra , onde lhe foi dada pelo In- 
fante efta nova , elle fez doação de todo o 
efpiritual das Ilhas da Madeira , Porto San- 
to, 



Década I. Liv. I. Cap. IV. e V. 43 

to , e Deferta ao Meftrado de Chriílo , de 
que elle Infante era Governador 5 e diflb 
lhe paflbu Carta a vinte e íeis de Outubro 
da era de mil quatrocentos trinta etres an- 
nos , pedindo nella ao Papa que o confir- 
maíTe. E no mefmo tempo lhe fez mercê a 
elle Infante das ditas Ilhas em dias de lua 
vida , com toda jurifdicção de Civel , e Cri- 
me, fegundo em a doação fe contém. 

CAPITULO V. 

Como o Infante mandou Afonfo Gonçal- 
ves Baldaya feu Copeiro for Capitão de 
hum barinel , eGilianes\ oquepajjòu o Ca- 
bo Bojador , em fua barca : e como torna- 
ram fegunda vez no anno feguinte : e da 
peleja que houveram comhuns Alarves dous 
moços , que fahiram em terra. 

OÀnno feguinte de trinta e quatro , co-* 
mo o Infante eítava informado perGi- 
lianes da maneira da terra 3 e da navegação 
fer menos perigoía do que fe dizia , man- 
dou armar hum barinel , que foi o maior 
navio , que té então tinha enviado , por já 
efiar fora da fufpeita , que fe tinha dos bai- 
xos , e parcel , que diziam haver além do 
Cabo. A capitania do qual deo a Afonfo 
Gonçalves Baldaya feu Copeiro , e em fua 
companhia foi Gilianes em fua barca , os 

quaes 



44 ÁSIA de João de Barros 

quaes com bom tempo , além do Cabo já 
defcuberto, correram obra de trinta léguas. 
E fahidos em terra , acharam rafto de ho- 
mens y e camellos, como que paliavam em 
cáfila de huma parte á outra ; e fem mais 
outra coufa , depois de notarem a maneira , 
e difpofição da terra , ou porque aíli lhe fo- 
ra mandado , ou per qualquer outra necef- 
lídade , que a iíTo os obrigou , fe tornaram 
pêra o Re/no, e ficou nome áquelle lugar, 
onde chegaram , Angra dos Ruinos pola 
grande pefcaria que alli fizeram dclles. O 
Infante fabendo per clles o que acharam , 
no feguinte anno os tornou enviar , encom- 
mcndando-lhes que trabalhaflem por paliar 
mais avante , té chegar aterra povoada, on- 
de pudeíTem ver língua pêra fe informar 
delia. Neíla fegunda viagem 9 como já na- 
vegavam com menos temor , em breve tem- 
po pairaram além do que tinham defc Liber- 
to doze léguas , onde 11 íe a terra pareceo 
chã 9 e deicuberta , lançaram fora dous ca- 
vallos , que o Infante mandara levar pêra 
aquelle mifter , em os quaes Afonfo Gon- 
çalves mandou cavalgar dous moços , c por 
os não canfarem pêra qualquer corrida , fe 
lhe neceflario foffe , não confentio que le- 
vaflem armas defeníívas. E também por lhes 
não dar neilas confiança pêra poderem pe- 
lejar , fomente levaram lanças , e efpadas , 

e re- 



Década I. Liv. I. Cap. V. 45 

e recado que não fizeíTem mais que defcu- 
brir a terra , e iíto fem fe apartar hum do 
outro , nem menos fe apeaílem ; e porém 
vendo alguma peíToa , que elles fem feu pe- 
rigo pudeífem prender 5 que o fizeíTem. Se- 
ria cada hum deites mancebos de quinze té 
dezefete annos , e bem moftráram no accom- 
mettimento defte feito quem depois haviam 
de fer , porque com tanto animo partiram 
ao que lhe Afonfo Gonçalves mandava 3 co- 
mo fe foram paíTear a hum campo mui fa- 
bido , e feguro. E quiz Deos que a eíle feu 
esforço não desfaleceo bom acontecimento; 
porque fendo já paífada a maior parte do 
dia da menhaa que partiram , acharam jun- 
tos dezenove homens cada hum com feu dar- 
do na mão á maneira de azagaias. E como 
deram de fubito fobre elles , fem ter lugar 
pêra não ferem viftcs 5 e fe tornar ao navio 
dar eftanova, peró que lhe era defezo com- 
metterem tal coufa , houveram que caiam 
mais em culpa de fuás honras ? íè lhe fu- 
giíTem , que em deíbbediencia de feu Capi- 
tão , fe os commettefíem. Com o qual propo- 
íito remettêram a elles , cuidando que os 
pudeífem alancear ; mas os Mouros tiveram 
melhor cuidado de íi , porque tanto que os 
viram , efpantados de tamanha novidade, 
primeiro que fe elles determinaífem ? íè aco- 
lheram a huma furna 5 que eítava debaixo 

de 



46 ÁSIA dr J0Ã0 de Barros 

de huns penedos. Os mancebos vendo que 
fe não podiam ajudar delles á ília vontade , 
depois que pelejaram hum bom pedaço , e 
feriram alguns , e hum delles também ficou 
ferido em hum pé de huma azagaia de re- 
medo , leixáram-os de todo , e vieram cm 
buíca do navio , que por ferem mui aparta- 
do já delles j lião puderam tomar fenao ao 
outro dia pela menhaã. Onde foram recebi- 
dos com grande feita , e honra , de que el- 
les eram merecedores , cá não foi efte feu 
cafo tão pequeno , que não poífa ler eíli- 
mado por hum honrado feito. Porque quem 
conílderar a idade delles , e a eftranheza de 
terra , e quanta fabula a gente de Hefpanha 
delia dizia , e os temores , que tinham con- 
cebido do que nelia havia 5 averá que foi 
obra de generofo , e esforçado animo en- 
trar per ella tão longe , quanto mais com- 
metter dezenove homens de figura tão dis- 
forme , que fomente cfpcrar a vifta delles 
era aífás ouladia. Mas ifto he próprio da 
virtude , e nobreza do langue , em qualquer 
idade logo fe moílra , ainda que feia nos 
maiores perigos da vida. E por não ficarem 
fem o mérito , que fe deve áquelles , que á 
cuíta do feu fuor, efangue fervem aDeos, 
e a feu Rey , e mais pois eíles foram os 
primeiros, que por eftas duas caufas o der- 
ramaram naquellas partes , he bem que fe 

fai- 



Década I. Lxv. I. Cap. V. 47 

faiba que a hum chamavam Heclor Homem , 
e a outro Diogo Lopes Dalmeida , ambos 
homens Fidalgos , e eípeciaes Cavalleiros 
creados na efcola da nobreza , e virtude da- 
quelle tempo , que foi a caía deite excel- 
lente Principe Infante D. Henrique. Afonfo 
Gonçalves informado per elles do lugar, 
onde ficavam os Mouros , determinou com 
gente de os ir bufe ar: peró todo feu traba- 
lho fe converteo em trazer o defpojo , que 
aquella gente barbara com temor leixou na 
furna da contenda , o qual defpojo de po- 
breza foi mais por final da vitoria daquel- 
les novees Cavalleiros , que por fua valia. 
Com o qual feito , além do nome que el- 
les ganharam pêra 11 , também o deram com 
a fua fahida áquelle lugar , que ora chama 
a Angra dos cavallos ; que com mais razão 
fe podia chamar dos primeiros Cavalleiros 
naquella parte de Lybia deferia- Partido dal-* 
li Afonlo Gonçalves , obra de doze léguas 
foi dar em hum rio , a entrada do qual em 
huma coroa , que fe fazia no meio , viram 
jazer tanta multidão de lobos marinhos , que 
foram aflbmados em numero de cinco mil, 
dos quaes mataram boa fomma , de que 
trouxeram as pelles por naquelle tempo fer 
coufa mui eftimada. Mas como nenhuma 
deitas coufas contentava a Afonfo Gonçal- 
ves , pois não levava ao Infante hum da- 

quel- 



48 ÁSIA de J0X0 de Barros 

quelles Mouros , com defejo de achar ou- 
tros paflbu mais adiante té huma ponta , a 
que ora chamam a Pedra de Galé , nome , 
que lhe elle então poz , por a femelhança 
que moílra a quem a vê de longe , no qual 
lugar achou humas redes de pefear , que pa- 
recia fer feito o fiado delias do entrecaíeo 
cPalgum páo , como ora vemos o fiado da 
palma , que lê faz em Guiné. E porque 
aquelles eram finaes da terra povoada , fez 
pêra aquella coita algumas fahidas , fem 
achar povoação , nem poder haver o que 
defejava levar ao Infinte ; e fem mais ou- 
tro feito , por ter os mantimentos gaitados > 
fe tornou pêra o Reyno. 

CAPITULO VI. 

Como Antão Gonçalves foi fazer ma- 
tança de lobos marinhos : e das fahidas 
que fez em terra per fi , e com Nuno Trif 
tão , que depois fe ajuntou com elle 5 em 
que tomaram doze almas : e do mais que 
pafjou Nuno Triftão. 

TÉ o anno de trinta e nove não acha- 
mos coufa notável , que fe fizeííe ne£- 
te defeubrimento , porque em cite meio tem- 
po faleceo EIRey D. Duarte irmão do In- 
fante D. Henrique , e leixou o Principe Dom 
Afonfo feu filho ., que reinou em idade de 

féis 



Degada I. Liv. I. Cap. VI. 4$ 

féis annos ; e por caufa das fuás tutorias 
houve tantas diíTensões , e differenças no 
Reyno , que ceifaram todalas coufas defte 
defcubrimento té o anuo de quarenta, em 
que o Infante mandou duas caravelas 5 as 
quaes per tempos contrairos , e aconteci- 
mentos não muito profperos fe tornaram ao 
Reyno fem coufa digna deíle lugar. E no 
feguinte anno , por as coufas do Reyno an- 
darem já mais em algum aífocego , e o In- 
fante livre pêra poder entender nefta fua 
empreza , mandou armar hum navio peque- 
no , em que foi por Capitão Antão Gon- 
çalves feu Guardaroupa , que ainda era ho- 
mem mancebo: Afim que quando não pu- 
deííe haver alguma lingua da terra , carré- 
gafie o navio de courama das pelles dos 
lobos marinhos no lugar que diífemos , que 
Afonfo Gonçalves fez a matança delles. Pe- 
ró Antão Gonçalves como era homem , a 
quem a honra mais obrigava que a cubica 
da courama , e azeite de lobos , dado que 
em breve tempo tanto que chegou fez ília 
matança , com que fe pudera tornar bem 
carregado , chamou a hum Afonfo Gote- 
rez ? moço da Camará do Infante , que hia 
por Efcrivão do navio , e afli toda a mais 
companhia delle , que feriam per todos vin- 
te huma peífoá , e diífe-lhes : Amigos > nós 
temos feito parte daquillo ? a que fomos 
Tom. L D in* 



$o ASIÂ de JoAo de Barros 

inviados , que era carregar ejle navio • e 
dado que os fervas muito mereçam em aca- 
bar os mandados de quem os invia , maior 
louvor fera fe fizermos o que o Infante mais 
defeja , que he levar-lhe alguma lingua defi* 
ta terra ; porque a fua tenção nefte defcu- 
hr intento não be a fim da mercadoria que 
levamos , mas bufe ar gente defia terra tão 
remota da Igreja , e a trazer ao Baptif- 
mo , e depois ter com elles communicação > 
e commercio pêra honra , e proveito do Rey- 
7io. Epois ifio a todos he mui notório , juf- 
ta coufa me parece trabalharmos por levar 
algum dos moradores defia terra ; porque 
a meu ver fe Afonfo Gonçalves per efia Co- 
marca y per onde efie rio vem , achou gen- 
te , bufeando-nos bem per força devemos 
achar alguma povoação. Acerca do qual 
cafo me parece que feria bem fahirmos ef- 
ta noite dez , ou doze homens em terra da- 
quelles , que mais difpofios fe achajjem pê- 
ra iffo y e efpero em Nojfo Senhor que com 
vojfa ajuda nos iremos defia terra mais 
honrados , que quantos té ora vieram a el- 
la. Afonfo Goterez , e toda a companhia do 
navio louvou eíta determinação de Antão 
Gonçalves , mas não approváram fahir elle 
em terra por fer Capitão , a quem convi- 
nha ficar em o navio pêra o que fuecedef- 
le; e depois que nifto altercaram, e deba- 
te- 



Década í. Liv. I. Caí*. VI. 51 

têram hum bom pedaço , por as muitas ra- 
zoes que Antão Gonçalves pêra iflb deo , 
foi hum dos nove $ que aquella noite en- 
traram pela terra. E lendo já bem três lé- 
guas alongados do navio, viram atraveíTar 
hum homem nu com dous dardos na mão 
tangendo hum camello , que levava ante íi. 
O qual tanto que ouvio o eílrupido dos 
noííos , e os vio correr contra ÍI i affi ficou 
cortado de medo fem fe bulir, que ante de 
tomar outro animo , era já com elíd Afon- 
fo Goterez por fer homem mancebo , ligei- 
ro , e bem defpachado neíles negócios. Fei- 
ta efta preza , que foi pêra todos de gran- 
de prazer , começaram caminhar contra o 
navio , porque entrelles não havia quem no 
éntendefle pêra tomarem informação da ter- 
ra 5 e irem mais avante. E tendo andado 
hum bom pedaço , acharam a gente , cujo 
rafto elles traziam , que feriam té quarenta 
pcííoas , da companhia dos quaes era efte 
cativo , e aíli huma Moura, que também 
tomaram' a vifta delles. Os quaes tanto que 
viram os noífos , fahíram-fe do caminho 
pêra hum tczo , e ali fe apinhoáram todos 
a olhar tamanha novidade. Os mais dos 
noífos defejofos de fe revolver com elles, 
foram em confelho que os commetteífent no 
outeiro onde eílavam ; mas Antão Gonçal- 
ves peró que homem mancebo foífe cubico* 
D ii lo 



$i ÁSIA de João de Barros 

£o de ganhar honra, e aiflb era alli vindo, 
obedeceo mais ao oflicio de Capitão , que 
aos dcfejos de fua idade \ e difle , que não 
lhe parecia bem commettellos por ler já o 
Sol pofto 5 e mui grão pedaço do navio , c 
tão canfados , e fequiofos de grande calma , 
que fomente o caminho que tinham por an- 
dar bailava por trabalho , que afias os com- 
mettiam , pois na face delJes lhe tomaram 
aquella mulher , que podia ícrd'algum, que 
feu voto era fazer feu caminho pêra o na- 
vio : E que quando os Mouros os vieífem 
commetter , então ahi lhe ficava fazer cada 
hum feu oflicio de cavalleiros , e o mais lhe 
parecia liviandade , e não coufa de homens 
prudentes , e obrigados a dar conta a quem 
os enviava , cujo regimento tinham em con- 
trario do que lhes parecia. Nefta detença , 
que Antão Gonçalves fez de palavras 5 os 
Mouros peró 5 que bárbaros eram per natu- 
reza , o temor os fez prudentes pêra enten- 
derem que o apinhoar dos noífos , e deten- 
ça que fizeram fem fe mover , fora confulta 
acerca de os commetterem , ou nao ; e co- 
mo gente que tinha mais conta com a vi- 
da que com a honra , viráram-lhes as coi- 
tas , efeoando-fe contra a outra parte do te- I 
zo pêra fe encubrirem dos noífos ; aos quaes 
Antão Gonçalves não quiz feguir , porque 
houve que fervia mais o Infante na preza 

dos 



Década I. Liv. I. Cap. VI. 5-3 

dos cativos que levava , que aventurar a vi- 
da d'alguns da companhia por levar mais 
hum cativo. Tornado ao navio, e eítandô 
já pêra fe partir ao feguinte dia , chegou 
outro navio do Reyno, em que vinha por 
Capitão hum cavalleiro da caía do Infante 
chamado Nuno Trilião , que elle creára na 
fua camará de moço pequeno , e era afli ar- 
dido , e tanto de lua peífoa , que o manda- 
va o Infante f que lhe paífaífe a ponta da 
pedra da Galé , e trabalhafle por lhe haver 
alguma lingua da terra. O qual fabendo o 
feito de Antão Gonçalves , e movido de 
huma virtuofa inveja , trabalhou tanto com 
elle , que efía noite foíTem ambos em bufea 
dos Mouros que acharam , que concedeo 
Antão Gonçalves emfeu requerimento, par- 
tindo logo tanto que anoiteceo , em cuja 
companhia hiam Diogo de Vailadares , que 
depois foi Alcaide mor da Villa-Franca , e 
Gonçalo de Cintra , cujo esforço fe verá 
nefta conquifta. E foi tal fua boa ventura, 
que foram dar com os Mouros , onde ja- 
ziam recolhidos , ora foíTem os que Antão 
Gonçalves achou , ou quaefquer outros : che- 
gando aos quaes começaram com grande 
grita dizer: Portugal, Portugal, Sant-Ia- 
go. Quando aquella barbara gente ouvio 
vozes não coftumadas , como coufa tão no- 
va , e efpantofa a eiles , bem puderam to- 
mar 



?4 ASIÀ de JoXo de Barros 

mar eftas vozes por lbnho , fe juntamente 
com ellas naquella efcuridade da noite não 
fentíram que os noíTos lhe punham as mãos 
aíperamente pêra os prender. E porém al- 
guns delles , dado que o medo lhe quebraf- 
fe a oufadia , a dor do mal que recebiam 
lhe fazia acudir , defendendo-fe com fua co- 
ragem, a qual lhe manifeftava as armas de 
páo , pedra , dentes , e unhas , porque tudo 
alli fervia. E como o negocio era feito 
áquellas horas, niílo eram conhecidos huns 
dos outros , andarem elles nus , e os noííos 
veílidos ; e que a batalha não folie crua , 
todavia foi perigofa por fer em tal tempo ; 
e fe os noífos não falláram , e bradaram em 
íinal de quem eram , fempre huns dos ou- 
tros receberam damno. E prouve a Dcos 
que todo perigo cahio lbbre os Mouros , 
porque ficaram logo alli cftirados três , e 
cativaram dez. E dos mortos hum delles 
matou Nuno Triílão com grande perigo de 
fua peíToa , vindo a braços ; porque como 
o Mouro era nervudo , e forço fo , e tinha 
ventage na luta por andar nu , fenao foram 
as armas , fempre Nuno Triftão padecera 
mal. E outro , que também fe houve esfor- 
çadamente nefte negocio , foi hum Gomes 
Vinagre moço da Gamara do Infante , em 
que mollrou quem depois havia de ler, 
com a qual vitoria fe tornaram pêra os na- 
vios 



Década I. Liv. I. Cap. VI. 57 

vios já algum tanto de dia. E ante que en- 
traíTem em os navios 5 pediram todos a An- 
tão Gonçalves , que em memoria daquelle 
feito > que íè fizera com tanta honra íua, 
lhe approuveffe dar nome áquelle lugar com 
fe armar alli Cavalíeiros. Antão Gonçalves 
peró 5 que não quizera acceptar a tal hon- 
ra de cavalleria , negando fer merecedor 
delia , por comprazer a todos , foi armado 
Cavalleiro per mão de Nuno Triftão 3 com 
que o lugar , fegundo lhe todos diziam , ficou 
com o nome ? que hoje tem , que lie Porto 
do Cavalleiro. Recolhidos os Capitães a 
feus navios , acertou que entre os cativos 
vinha hum da caíia dos Alarves , que íè en- 
tendeo com o Mouro iingua y que Nuno 
Triflao levava ; e pela prática , que com el- 
le tiveram , pareceo bem aos Capitães lan- 
çarem a Moura em terra , e com ella o 
Mouro Iingua , para por meio delles virem 
alguns Mouros reígatar daquelles cativos. 
Como de feito aconteceo , porque d'hi a 
dous dias 5 que lançaram efles fora, acudi- 
ram ao porto obra de cento e cincoenta ho- 
mens antre de cavallo , e camellos 5 os quaes 
na primeira vifta quizeram ufar dehuma fa- 
gacidade 5 mandando três , ou quatro dian- 
te , que provocaffem os nolTos a fahir em 
terra ? e os mais ficavam detrás de huns me- 
dãos em cilada. Peró vendo que os noflos 

não 



56 ÁSIA de João de Barros 

não fahíram do batel tão preíles , como eU 
les cuidavam , parecendo-lhes ferem entendi- 
dos , começaram a fe defcubrir, trazendo 
comfígo prezo o Mouro lingua , o qual lo- 
go avifou os Capitães que em nenhuma ma- 
neira fahiíTem fora , porque aquella gente 
vinha mui indinada contra elles , como lo- 
go começaram moítrar , tirando ás pedradas 
aos bateis , depois que foram defenganados 
que os nolfos não queriam fahir em terra. 
Os Capitães diffimulando com a fúria del- 
les por cumprir com o regimento do Infan- 
te , tornáram-fe aos navios fem lhes fazer 
damno ; e havido confelho do que fariam , 
aíTentáram que Antão Gonçalves fe tornafíe 
pêra o Reyno com os cativos , que lhe cou- 
beíTem á fua parte ; e Nuno Triftão , por- 
que o Infante lhe mandava ir mais avante , 
deo quarena á caravela , e depois de efpal- 
mada , começou fazer feu caminho feguin- 
do a coíla , té chegar a hum Cabo , que 
per a femelhança delJe lhe poz nome Bran- 
co. E porto que alli achou rafto de homens 
com redes depefcar, e per muitas vezes fí- 
zeíTe entradas na terra , fem poder haver á 
mão alguma lingua delia , porque a cofta 
começava alli tomar outro rumo a maneira 
de enleada pêra onde as aguas corriam , te- 
mendo que na volta do Cabo por razão de£ 
ta corrente gaílaífe todo o mantimento por 



Década I. Liv. I. Cap. VI. e VIL 57 

já eftar desfalecido delle , fem ir mais avan- 
te , nem fazer coufa alguma digna deite lu- 
gar j fe tornou pêra o Reyno , onde já achou 
Antão Gonçalves , a quem o Infante aífi per 
outros ferviços , como poios deite defcubri- 
mento , deo a Alcaidaria mor de Thomar , 
e huma Commenda , e o fez Efcrivão de 
íua puridade, 

C AP I T U L O VIL 

Da fupplicação , que o Infante fez ao 
Tapa , e lhe cone e deo : e da doação dos quin- 
tos , que lhe o Infante D. Pedro feu irmão 
regente ãefte Reyno deo em nome delRey : 
e do que Antão Gonçalves , e Nuno Trif- 
tão pafpíram em a viagem que cada hum 
fez. 

O Infante como feu principal intento cm 
defcubrir eítas terras era attrahir as bar- 
baras nações ao jugo de Chriíto , e de íi a 
gloria ? e louvor deites Reynos , com accref- 
centamento do património Real , fabendo 
per os cativos que Antão Gonçalves ,e Nu- 
no Triítão trouxeram as coufas dos mora- 
dores daquellas partes , quiz mandar eíta no- 
va ao Papa Martinho V. que então preíl- 
dia na Igreja ? como primícias que a elle 
eram devidas por ferem obras feitas em lou- 
vor de Deos 3 e accrefcentamento da Fé de 

Chri- 



58 ÁSIA de João de Barros 

Chriílo : Pedindo-lhe , que por quanto havia 
tantos annos que elle continuava eíle defcu- 
brimento , em que tinha feito grandes def- 
pezas de ília fazenda 5 e aííi os naturaes def- 
tcReyno que nelle andavam , lhe aprouvef- 
fe conceder perpétua doação á Coroa deites 
Reynos de toda a terra , que fe defcubrifle 
per eíle noíío mar Oceano do Cabo Boja- 
dor té as índias inclufivè. E pêra aquelles , 
que na tal conquiíta perecefíem , indulgên- 
cia plenária pêra fuás almas ; pois Dcos o 
puzera na Cadeira de S. Pedro 5 pêra aíli 
dos bens temporaes , que eftavam em poder 
de injuftos poíTuidores , como dos efpirituaes 
do thefouro da Igreja pudeíle repartir per 
feus fieis. Porque a gente Portugueza , affi 
nos feitos defta parte da Europa , como de- 
pois que entraram na de Africa em a to- 
mada de Cepta , e de fi no defcubrimento , 
e conquiíta da Ethiopia , tinham merecido 
o jornal diurno 5 que fe dá aquelles obrei- 
ros , que bem trabalham nefta vinha mili- 
tante do Senhor. Com o qual negocio por 
ler de tanta importância , mandou hum Ca- 
valleiro da Ordem de Chriílo , per nome 
Fernão Lopes d 5 Azevedo , do Confelho del- 
Rey, e homem de grande prudência, eau- 
thoridade , que depois foi Commendador 
mor da dita Ordem. E nefta ida que fez , não 
fomente foi concedida ao Infante efta fua 

pe- 



Década I. Liv. I. Cap. VIL 5-9 

petição , mas ainda Bulia pêra Saneia Ma- 
ria de Africa ? que elle fundara em Cepta , 
e aíli outras muitas graças , e privilégios, 
que a Ordem tem : tanto eftimou o Papa , 
e o Collegio dos Cardeaes a nova defte def- 
cubrimento. Depois o Papa Eugénio IV. e 
o Papa Nicoláo V. té o Papa Sixto , á fup- 
plicaçao delRey D. Afonfo ., e delRey Dom 
João feu filho, concederam aelles, eaíèus 
fucceíTores per fuás Bulias doação perpétua 
de tudo o que defcubriííem per efte mar 
Oceano , demarcando do Cabo Bojador té 
a Oriental plaga da índia inclujivè , com 
todoíos Reynos , fenhorios , terras , con- 
quiftas , portos , ilhas , tratos , refgates ? pef- 
carias , fob innumeraveis , e graves excom- 
munhões , defezas , e interdiétos , que ou- 
tros alguns Reys , Príncipes , Senhorios , ou 
Communidades não entrem , nem poflam en- 
trar em as taes partes , e mares adjacentes , 
fegundo fe mais largamente contém em fuás 
Bulias. E onde efte Papa Sixto IV. mais 
corroborou a doação geral defte defeubri- 
mento foi no fim das pazes , que houve 
entre EIRey D. Fernando de Caftella , e 
EIRey D. Afonfo de Portugal , em que fo- 
ram apontadas por parte defte Reyno o def- 
cubrimento que ora temos , começando do 
Cabo de Nam té a índia inclujivè , &c. 
como fe contém naChronica domefmoRey 

D, 



'6o ÁSIA de JoÃo de Barros 

D. Afonío , e mais copiofamente na pró- 
pria confirmação , ratificação , e corrobora- 
çao de pazes fe pode ver per a Bulia do 
dito Papa Sixto dada ad perpetuam rei me- 
moriam. Também em fatisfaçao dos traba- 
lhos , e defpezas , que o Infante D. Henri- 
que tinha feito nefte defcubrimento , o In- 
fante D. Pedro feu irmão , que então era 
regente deftes Reynos por EIRey D, Afon- 
fo feu fobrinho , em feu nome lhe fez doa- 
ção do quinto, que pertencia a EIRey dei- 
ta conquifta ; c mais lhe paíTou Carta , que 
nenhuma peílba pudeíTe lá ir fem fua efpe- 
cial licença. Com as quaes graças , e doa- 
ções, que feguráram ao Infante no premio 
de feus trabalhos , e também vendo que já 
na opinião da gente do Reyno citava jul- 
gada efta empreza por coufa proveitofa, e 
de maior louvor do que fe dava a elle In- 
fante no principio delia , começou dobrar 
os navios , e defpezas. E porque Antão Gon- 
çalves lhe dilTe , que o Mouro principal y 
que tomara em companhia dos outros , di- 
zia que fe o tornaflem á fua terra daria por 
íi leis , ou fete eferavos de Guiné , e tam- 
bém que na companhia daquelles cativos es- 
tavam dous moços filhos de dous homens 
principaes daquella terra , que dariam pola 
mefma maneira outro tal refgate , ordenou 
o Infante de o dçípachar logo em hum na- 
vio , 



Década I. Liv. I. Cap. VIL 61 

vio , fazendo fundamento , que quando An- 
tão Gonçalves não pudeffe haver tantos ne- 
gros a troco deites três Mouros , já de quan- 
tos quer que foíTem ganhava almas , por- 
que iè converteriam á Fé 5 o que elle não 
podia acabar com os Mouros ; e também 
por ferem do fertão daquellas terras , ( dos 
ardores , das quaes a gente tanto fabulava , ) 
podia per elles ter verdadeira informação. 
E aconteceo , que ao tempo que fe fazia pref- 
tes efte navio , em que havia de ir Antão 
Gonçalves , eftava em cafa do Infante hum 
gentil homem da cafa do Emperador Fede- 
rico III. a que chamavão Balthazar , o qual 
com defejo de ganhar honra viera dirigido 
pelo mefmo Emperador ao Infante , pêra o 
mandar a Cepta fazer Cavalleiro , como de 
feito fe fez pelos méritos de fua peífoa. E 
porque efte Balthazar era homem curiolb y 
e que defejava ver novas terras , e ncfte tem- 
po per toda Europa fe fallava nefte defcu- 
brimento de Guiné , como na mais nova 
coufa que fe podia dizer , e os homens que 
o feguiam eram eftimados em preço de Ca- 
valleiros , e de grande animo , pedio ao In- 
fante que houveíle por bem ir elle em com- 
panhia de Antão Gonçalves , porque defe- 
java de fe ver em huma grande tormenta 
de mar , pêra depois poder contar em fua 
terra: cá ? fegundo lhe diziam os mareantes 

def- 



62 ÁSIA de João de Barros 

deita carreira , as tormentas > e mares daquet* 
las partes eram mui dirfe rentes deites nof- 
fos. O qual defejo elle Balthazar cumprio , 
porque partido Antão Gançalves teve no ca- 
minho hum temporal tão grande , que di- 
zia Balthazar que já vira o que deíejava , 
mas não fabia fe o poderia contar : tão in- 
certa tinha a efperança de fua vida , de ma- 
neira que arribou Antão Gonçalves a eíte 
Reyno. E depois que fe refez dos manti- 
mentos , e couías que alijou ? feito bom 
tempo , tornou a fua viagem , e Balthazar com 
elle , dizendo , que pois já tinha vilto as 
tormentas do mar , também queria levar no- 
va da terra. Chegado Antão Gonçalves aon- 
de os Mouros haviam de vir fazer o rei- 
gate ? porque affi lhe era mandado pelo In- 
fante , lançou em terra o próprio Mouro 
que o alli fez vir , cuidando que pelo bom 
tratamento , que lhe o Infante mandara fa- 
zer , feria fiel em fuás promeíías ; mas elle 
como fe vio livre , lembrou-fe mal da fé 
que leixava empenhada. Somente parece que 
deo nova nas povoações da chegada do na- 
vio , e como trazia os moços pêra refgatar ; 
porque fendo já paliados oito dias , vieram 
mais de cem peíToas ao refgate delles , por 
ferem filhos dos mais nobres daquelles Alar- 
ves. A troco dos quaes deram dez negros 
de terras difFerentes, e huma boa quantida- 
de 



Década L Liv. I. Cap. VIL 63 

de (Touro em pó, que foi o primeiro, que 
fe neítas partes refgatou , donde ficou aelte 
lugar por nome Rio do Ouro , fendo fo- 
mente hum efteiro d 5 agua falgada, que en- 
tra pela terra obra de leis léguas. Ouve-fe 
mais em efte refgate huma adarga de couro 
danta cru , e muitos ovos de hema 5 os 
quaes tornado Antão Gonçalves a eíle Rey- 
no , fqm fazer mais outra coufa foram apre- 
fentados a meza do Infante tão frefcos , que 
os eftimou elle por a melhor iguaria do 
Mundo. E pelas novas que lhe Antão Gon- 
çalves deo das coufas da terra , fegundo o 
tinha fabido dos Alarves , e principalmente 
pela quantidade d'ouro que ouve , que era 
final de muito que ao diante fe podia def- 
cubrir , defpachou logo a Nuno Triftão , 
que , como atrás fica , foi o que chegou ao 
Cabo Branco. O qual Nuno Triftão defta 
viagem paifou avante té huma Ilha % cujo 
nome per os da terra fe chama Adeger, 
que he huma das a que nós ora chamamos 
de Arguim. Sendo a vifta da qual , vio que 
da terra firme parella ? por lhe fer mui vi- 
zinha , atraveiTavam obra de vinte cinco al- 
madias , e fobre cada huma delias hiam 
três , e quatro homens nus efcanchados de 
maneira , que as pernas lhes ficavam em lu- 
gar de remos , que pêra os noífos foi cou- 
fa de admiração; eante que houveífem co- 

nhe- 



64 ASIÀ de João de Barros 

nhecimento do que era , pareceo-lhes ferem 
aves marinhas. Peró depois que viram o 
que era , como levavam batel fora , falta- 
ram nelle fete homens , e defpacháram-fe 
também , que houveram á mão quatorze , 
com que encheram o batel ; e os outros , 
pofto que efcapáram no mar , foram toma- 
dos no ilheo , porque o batel leixando eítcs 
no navio , foi bufcar os outros > que fe aco- 
lheram a elle. Feita eíla preza , com que o 
ilheo ficou defpejado 5 paíTáram-íe a outra 
Ilha junto deita , a que puzeram nome das 
Garças , por as muitas que alli acharam : e 
affi outras aves , que fe parecem com cilas , 
as quaes fe ajuntavam alli por fer tempo da 
fua creaçao ; e como não eram traquejadas 
de gente 3 ás mãos tomaram tanta quantida- 
de delias , que ficou por refrefeo ao navio* 
E nos dias que Nuno Triftão alli efteve , 
fez algumas entradas na terra firme , mas 
não pode haver mais preza que aquella pri- 
meira do mar ; e por a terra já andar mui 
alvoroçada, fe tornou pêra o Reyno o an- 
no de quatrocentos e quarenta e três. 



CA- 



Década I. Livro I. 65 

CAPITULO VIII. 

Dos louvores , que o povo do Reyno dava 
ao Infante por efte defcubrimento : e co- 
mo por fua licença os moradores de 
Lagos armaram féis caravelas : e 
do que pajfdram nefta ida. 

CHegado NunoTriftao com tão honra- 
da preza, fem fazer a demora, que os 
outros navios faziam , e paffar vinte e tan- 
tas léguas além donde os outros chegaram, 
e achar ilhas , e todalas coufas mui diffe- 
rentes da opinião que a gente tinha quan- 
do o Infante começou efte defcubrimento , 
trocaram as murmurações , e juizos , que 
lançaram fobrefte negocio: E já não diziam 
por elle que mandara defcubrir terras hér- 
nias , e defertas com perdição dos naturaes 
do Reyno , mas louvavam feus feitos , di- 
zendo , que elle fora o primeiro , que abri- 
ra novos caminhos aos Portuguezes de ga- 
nhar muita honra, e thcfouros, que nunca 
foram deícubertos depois da creação do 
Mundo , e que por ifto merecia terem-lhe 
as gentes mais amor que a nenhum dos Prín- 
cipes paliados , pois com tanta de fua def- 
peza , fem oppreísão dos naturaes , lhe buf- 
cara novo modo devida. Porque das guer- 
ras pairadas entre efte Reyno , e o de Caf- 
Tom. I. E tel- 



66 ÁSIA de JoÂo de Barros 

tella , e aíli idas de Cepta , Tangcre , e ou- 
tras defpezas , e lançamentos de fintas , eí- 
tava a gente tão neceflitada , que com gran- 
de trabalho fe podia manter. Accrefcentava 
também neíte louvor verem que aquelles , 
que feguiam eíla carreira , fe engroilavam 
em fubftançia com os retornos, e eleravos, 
que traziam daquellas partes , de maneira , 
que o geral do Reyno cftava movido com 
nova cubica pêra íegair efte caminho de 
Guiné. O Infante a efte tempo eftava no Al- 
garve em a Villa de TerçanabaJ , que no- 
vamente fundava , como já diflemos ; e cila 
vivenda aífentou alli depois da vinda de 
Tangere , o qual cafo foi azo de alguns dias 
fe apartar da Corte , e negócios delia. E 
porque todolos navios , que vinham de Gui- 
né por eíla caufa defearregavam cm La- 
gos , os primeiros que moveram partido ao 
Infante pêra ir lá á fua própria cuíla , fo- 
ram os moradores defta Villa , com partido i 
de pagarem hum tanto do que trouxeflem , 
a elle Infante , fegundo o tinha per doação 
delRey. O principal dos quaes , que moveo ; 
eíla ida , foi hum efeudeiro , que fe chama; 
Lançarote , que fora moço da camará do; 
mefmo Infante, ao qual elle dera o Almo-j 
xarifado de Lagos , e alli eíla v a cafado ; e 
os outros eram Gilianes , que foi o primei- 
ro, que paflbu o Cabo Bojador, e hum Ef- 
te- ' 






Década L Liv. L Cap. VIII. 6 7 

tevãoAfonfo, que depois morreo em as Ca- 
nareas na conquifta delias , e Rodrigalva- 
res , e João Dias , todos homens honrados , 
corn que fizeram numero de féis caravelas , 
de que elie Lançarote per ordenação do In- 
fante foi por Capitão mór. A frota partida 
de Lagos oanno de quatrocentos e quaren- 
ta e quatro chegou á Ilha das Garças vef- 
pêra de Corpo de Deos , onde os Capitães 
fizeram grão matança , por fer no tempo da 
creaçao delias : e aíh tiveram confelho fo- 
bre o modo de darem primeiro em a Ilha 
Nar , porque era mui perto dalli : cá , fe- 
gundo os Mouros , que Nuno Triftão le- 
vou ,< informaram o Infante, haveria nelía 
mais de duzentas almas, E foi aífentado per 
o Capitão Lançarote, que por quanto po- 
diam fer viftos deíles Mouros, indo todo- 
los navios á vifta da Ilha , Martim Vicen- 
te , e Gil Vafques , que alli eftavam , por fe- 
rem homens , que já foram junto delias, 
deviam ir em os bateis, fomente com gen- 
te que os remaífe , a eípiar os Mouros ; e 
depois que lá foífem, eríviafTem humdelles 
com recado , e os outros fe metteflem entre 
a Ilha , e a terra firme , porque querendo 
os Mouros palTar a ella , achaífem o cami- 
nho tomado, té elles chegarem com os na- 
vios , e darem juntamente nelles. Approva- 
do eíle confelho > partiram Martim Vicen- 
E ii te. 



62 ÁSIA de JoÁo de Barros 

te , e Gil Vafques , aos quacs fuccedco o 
negocio mui differente do que cuidaram , 
porque não puderam chegar á Ilha fenão 
a tempo que o Sol rompia ; e parecendo- 
lhes que podiam fer viftos de huma povoa- 
ção , que eftava junto da praia , e que o 
tempo , e difpofição do lugar dava azo a 
fazerem hum honrado feito , o qual podiam 
perder , tornando com recado aos navios , 
deram de fubito fobre a povoação , onde 
tomaram cento e lincoenta e finco almas, c 
outras pereceram em fe defender. E como 
elles eram fomente trinta homens , de que 
os mais vinham pêra remar , e os cativos 
eram tantos , que os não podiam todos re- | 
colher nos bateis , ficaram delles em terra 
com alguns , e os outros levaram aos na- 
vios , onde foram recebidos com muita fei- 
ta, podo que antre todos havia huma trif- 
teza por fe não acharem em aquelle feito. 
O Capitão Lançarote com defejo d'empre-í 
gar fua peflba em as taes emprezas , man-i 
dou logo a grão preífa concertar os bateis J 
porque foube daquelles cativos que na ou- 
tra Ilha , que ahi eftava perto , a que cha- 
mavam Tider , podia fazer outra tal pre-i 
za ; mas nefta ida não fez coufa algum; 
por achar a Ilha defpejada. E porque hu 
daquelles Mouros, fegundo feu parecer, 
fez lá ir maliciófamente , o metteo a ton| 

men- 



Década I. Liv. I. Cap. VIII. 69 

mento , té que lhe prometteo de o levar a 
I outra Ilha , onde emendaífe o erro que fi- 
zera; mas quando lá chegaram houve tan- 
ta detença por dúvidas fe era engano , ou 
verdade , não fe fiando do Mouro , que ti- 
j veram os da Ilha tempo de fe paliarem á 
I terra firme , e com tudo ainda preáram al- 
guns. E em dous dias , que per alli andá- 
I ram de Ilha em Ilha, e aíli em alguns fal- 
tos , que fizeram na terra firme , tomaram 
1 quarenta e finco almas , com que fe torná- 
ram aos navios , que ficavam atrás finco le- 
1 guas. Parece que a ventura de Lançarote , 
e dos outros efteve por aquella vez no mar, 
j porque em muitas entradas , que depois fi- 
: zeram na terra firme , andavam já os Mou- 
H ros tão traquejados 3 que fomente houveram 
| em huma aldeã huma moça , que ficou dor- 
j mindo ; e no Cabo Branco , fazendo fua vol- 
\ ta pêra o Reyno , tomaram quinze pefca- 
1 j dores. E porque os mantimentos com os 
I muitos cativos lhe começaram desfalecer, 
I tornáram-fe pêra o Reyno , onde o Capi-. 
:• i tão Lançarote foi recebido com tanta hon- 
I i ra do Infante , que per fua peífoa o armou 
iCavaileiro com accrefcentamento de mais 
j j nobreza , e aííl gratificou os outros , que o 
.e- bem ferviam naquella jornada. Porque hu- 
jma dascoufas, que o Infante naquelle tem- 
Ipo trazia ante os olhos, e em que o mais 

po- 



70 ÁSIA de JoÁo de Barros 

Íxxliam comprazer, efervir, era emaquel- 
e defcubrimento , por fer coufa , que elle 
plantara , c creára com tanta induftria y e 
defpeza. 

CAPITULO IX. 

Corno Gonçalo de Sintra com outros foi 
morto na Angra , que fe ora chama do feu 
nome : e da ida , que Antão Gonçalves fez, 
ao rio do Ouro > e depois Nuno Trijlao 5 on- 
de tomou huma aldeã de Mouros : e como 
Diniz Fernandes pajfou a terra dos Ne- 
gros , e defcubrio o Cabo , a que agora cha- 
mamos Verde. 

ESte anno de quatrocentos quarenta e 
finco mandou o Infante armar hum na- 
vio , a capitania do qual deo a hum Gonça- 
lo de Sintra efcudeiro de fua cafa , que fe- 
gundo diziam já o fervíra de moço deípó- 
ras ; mas por fer homem pêra muito , e ca- 
valleiro de fua peííoa , fempre o trouxe cm 
cargos honrados. Eíle Gonçalo de Sintra 
com defejo de fe aventajar dos outros , que 
lá eram idos , partido do Rcyno , per con- 
felho de hum Mouro Azenegue , que leva- 
va comfigo pêra lhe fervir de língua , fe 
foi á Ilha de Arguim , que eílá avante do 
Gabo Branco obra de doze léguas > promet- 
tendo-Ihe o Mouro grandes prezas em ter- 
ra. 






Década I. Liv. I. Cap. IX. 71 

ra. Mas ifto fuccedeo bem ao contrario do 
que clle eíperava , porque ante que chegai- 
íem ao Cabo Branco em huma angra 3 a 
que elle deo nome , como veremos , fugio- 
Ihe efta lingua , e aíli lhe fugio hum Mou- 
ro velho 3 que fe veio lançar com elle , di- 
zendo 5 que pelos navios paliados foram aí- 
li cativos certos Mouros léus parentes , e 
por o amor que lhes tinha , ante com elíes 
queria morrer em cativeiro , que fem elles 
na liberdade de fua própria terra. O que 
era grande falíidade , cá fua tenção era fo- 
mente vir ver as coufas do navio a que 
era enviado ; e com eftas palavras fegurou 
tanto Gonçalo de Sintra , que fe tornou pê- 
ra terra. E vendo elle que eftes defcuidos 
o culpavam , defejofo de os emendar com 
algum honrado feito, metteo-íe aquella noi- 
te em hum batel com doze homens pêra 
paliar a terra firme , e dar em alguma al- 
deã. Mas quiz fua má fortuna que fe foi 
metter em hum efteiro , que quando a ma- 
ré vafou ficou em fecco ; e vinda a me- 
nhaã, em que o batel foi vifto pelos Mou- 
ros , acudiram obra de duzentos , onde Gon- 
çalo de Sintra por fe defender , naquella 
vafa pereceo com eftes fete homens , Lopo 
Caldeira , Lopo Dalvellos , ambos moços 
da camará do Infante , Jorge moço defpo- 
ras , e Álvaro Gonçalves Piloto com três 

ma- 



72 ÁSIA de JoÂo de Barros 

marinheiros , e os mais , que hiam no ba- 
tel por faberem nadar, fe falváram. E co- 
mo na caravela não havia peííoa , que go- 
vernaíTe a outra gente , e todos eram ho- 
mens do mar , tornáram-fe pêra o Reyno 
com duas Mouras , que tinham tomado na- 
quella coita , que cuítáram a vida deites ho- 
mens , os primeiros , que naquella terra mor- 
reram a ferro , e deram nome ao lugar de 
lua fepultura , cá fe chama ora a Angra de 
Gonçalo de Sintra , que fera além do rio 
do Ouro quatorze léguas. O Infante poíto 
que iílo muito fentio por fer a primeira per- 
da de homens , que naquellas partes hou- 
ve , não leixou logo no feguinte anno de 
mandar três caravelas , cujos Capitães eram 
Antão Gonçalves , de que já falíamos , e 
Diogo Afonfo , e Gomes Pires patrão del- 
Rey j o qual mandava o Infante D. Pedro , 
que então era regente deites Reynos , levan- 
do todos por regimento que entraífem no 
rio do Ouro , e trabalhaflcm por converter 
á Fé de Chriílo aquella barbara gente , e 
quando não recebeífem o baptiímo , afíentaf- 
fem com elles paz , e trato , das quaes cou- 
fas não aceptáram alguma. Vendo os Capi- 
tães que feu trabalho neíte negocio era per- 
dido , ou porque lhes aífi foi mandado , ou 
por qualquer outra caufa , fe tornaram ao 
Reyno, fomente com hum negro, que alli 

hou- 



Década L Liv. I. Cap. IX. 73 

houveram per refgate 5 e hum Mouro ve- 
lho , que por fua própria vontade quiz vir 
ver o Infante 3 o qual depois o mandou 
tornar a fua terra. E aífi como eíte Mouro 
defejou vir ao Reyno por ver as coufas del- 
le 5 o mefmo defejo teve hum efcudeiro , 
a que chamam João Fernandes , pêra par- 
ticularmente ver as coufas daquelle fertao , 
que habitavam os Azenegues , e delias dar 
razão ao Infante , confiado na lingua delles 
que fabia , o qual depois tornou ao Rey- 
no , como veremos. E neíte mefmo tempo 
fez Nuno Triftão outra viagem , e em hu- 
ma aldeã , que entrou além deite rio do 
Ouro , tomou vinte almas , com que em 
breve tempo fe tornou ao Reyno. Também 
neíte anno Diniz Fernandes morador em 
Lisboa efcudeiro delRey D. João , movido 
per os favores , e mercês , que lhe o Infan- 
te fez , por fer homem abaftado 5 e de hon- 
rados feitos , armou hum navio pêra ir a 
eíte defcubrimento , propondo de paíTar o 
termo aonde os outros Capitães tinham che- 
gado , como de feito fez; porque paflado 
o rio , que fe ora chama Sanagá , o qual 
divide a terra dos Mouros Azenegues dos 
primeiros negros de Guiné chamados Jaio- 
fos 5 houve viita de humas almadias ? em 
que andavam a pefcar huns negros 5 das 
quaes com o batel , que levava per popa , 

ai- 



74 ÁSIA de João de Barros 

alcançou huma com quatro dclles , que fo- 
ram os primeiros que a eíteReyno vieram. 
E poílo que Diniz Fernandes achaífe alli 
muitos íinaes de povoação , como léu pro- 
pofito mais era defeubrir terra por fervir o 
Infante, que trazer cativos pêra feu próprio 
proveito 5 não fe quiz alli deter em faltos , 
e tomadias deferavos , mas paliou avante té 
chegar a hum notável Cabo , que a terra 
lança contra o Ponente , ao qual elle cha- 
mou Cabo Verde por caufa da moílra , e 
parecer , com que então fe moftrou ; o qual 
Cabo ? e nome he ao prefente dos mais no- 
táveis 3 e celebrados , que temos nefte gran- 
de Oceano Occidental , e de que em a nof- 
fa Geografia copiofamente tratamos. E co- 
mo efte grande Cabo já fazia outros tempo- 
raes na volta delle , os quaes empedíram a 
Diniz Fernandes não profeguir mais adian- 
te 3 como elle defejava , contentou-fe por 
então de fahir em huma ilheta , que eílá pe- 
gada nelle 5 onde fizeram grão matança em 
muitas cabras 5 que alli acharam , que lhe 
foi mui bom refrefeo , e fem mais outra cou- 
fa fe tornou ao Rcyno 5 onde foi recebido 
'pelo Infante com muita honra 5 e mercê que 
lhe fez ; porque a novidade da terra que 
defeubrio 5 e a gente que trouxe não refga- 
tada das mãos dos Mouros , como eram os 
outros negros vindos ao Reyno , mas to- 
ma- 






Década I. Liv. I. Cap. IX, e X. 75- 

mados em fuás próprias terras , aííi conten- 
taram ao Infante , que fempre lhe parecia 
pouco o que fazia aquelles , que lhe vinham 
com eftas moftras 3 e íinaes cToutra maior 
eíperança que elle tinha. 

CAPITULO X. 

Corno Antão Gonçalves per mandado do 
Infante tornou a bufe ar João Fernandes y 
que ficou per fua vontade entre os Mou- 
ros : e do que paffou nefla viagem 5 . e afji 
os navios que com elle foram. 

AEíle tempo eram já paífados íète me-* 
zes que Antão Gonçalves viera do rio 
do Ouro , onde leixára João Fernandes y 
que , como diífemos 5 per fua própria von-* 
tade quiz ficar entre os Mouros pêra faber 
as couías do fertao. E parecendo ao Infan-r 
te que já teria fabído muitas , porque o ef- 
pirito o não leixava aflbcegar nefías , que 
defejava faber daquellas partes , tornou a 
mandar o mefmo Antão Gonçalves em buf- 
ca delle , e em fua companhia foram Gar- 
cia Mendes , e Diogo Afonfo cada hum em 
fua caravela, dos quaes com hum tempo- 
ral que tiveram , o primeiro que chegou ao 
Cabo Branco , que foi Diogo Afonfo , por 
dar final aos companheiros , mandou arvo-r 
rar huma grande Cruz de páo , que depois 

du- 



j6 ÁSIA de João de Barros 

durou naquelle lugar muitos annos , c pal- 
iou adiante aos ilhcos de Arguim , porque 
naquelle tempo pêra fazer algum proveito 
todos os hiam demandar; e tinha por cer- 
to que haviam elles de ir dar com elle , por 
fer aquella cofta , e os ilhcos a mais povoa- 
da parte de quantas té então tinham defeu- 
berto. E a caufa de fer mais povoada , era 
por razão da pefearia , de que aquella mi- 
íera gente de Mouros Azencgues fe manti- 
nha , porque em toda aquella cofta não ha- 
via lugar mais abrigado do impeto dos gran- 
des mares 5 que quebram nas fuás praias , 
fenão na paragem daqucllas Ilhas de Ar- 
guim , onde o pefeado tinha alguma aco- 
lheita , e lambugem da povoação dos Mou- 
ros , pofto que as Ilhas em fi não são mais 
que huns ilheos efcaldados dos ventos , c 
rocio da agua das ondas do mar. Os quaes 
ilheos féis , ou fete que elles são , cada hum 
per íl tinha o nome próprio per que nefh 
eferitura os nomeamos , pofto que ao pre- 
fente todos fe chamam per nome commum 
os Ilheos de Arguim , por caufa de huma 
fortaleza 5 que EIRey D. Afonfo , como 
adiante veremos , mandou fundar em hum 
delles chamado Arguim. Diogo Afonfo , 
em quanto os companheiros não vinham , 
pofto que fez algumas entradas na terra fir- 
me , logo como dobrou o Cabo Branco , 

não 



Década I. Liv. I. Cap. X. yj 

não preou coufa alguma ; fomente com a 
vinda delles na Ilha de Arguim 3 por os Mou- 
ros terem já fentido os navios , houveram 
hum moço , e hum velho \ e per induftria 
delle, vendo que aldeã era dalli levantada 5 
em bateis fe paliaram a terra firme pêra da- 
rem em outra aldeã. E porque íufpeitavam 
que o Mouro fe leixára alli ficar com ten- 
ção de os levar a efta aldeã , onde os met- 
teria em alguma cilada 5 detiveram-fe tanto 
em determinar fe iriam , ou não , que quan- 
do já chegaram á aldeã era alto dia , e os 
Mouros poílos em falvo. Com tudo hou- 
veram á mão huns vinte e finco quali toma- 
dos acofo , dos que fe efcondêram nas fral- 
das da aldeã \ porque andavam elles já tão 
efcozidos das armas dos noífos, que a fua 
guerra , (fe o podiam fazer , ) era pôrem-fe 
em fugida , fem efperar dar , c tomar , o 
qual modo de vitoria foi aos noífos mui 
trabalhofò por irem já mui canfados do ca- 
minho. E quem fè melhor houve nefta cor- 
rida , e calo , foi hum Lourenço Dias mo- 
rador em Setúbal , porque eíle fó tomou 
fete Mouros por fer mui ligeiro. No fim do 
qual trabalho por a vitoria fer de maior 
prazer , e feíla , quando tornaram acharam 
João Fernandes, que elles vinham bufcar, 
o qual havia dias que acudia á praia per 
aquella coita que tinha dito 3 efperando fe 

via 



78 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

via algum navio que o tomafle , e trouxeíTé 
daquelle defterro voluntário , em que fe el- 
le poz. Em o qual defterro elle fe houve 
tão fezudamente com aquelles bárbaros que 
tratou , que quando íè delles partio moftrá- 
ram ter íèntimento de lua partida , e vieram 
alguns com elle por o íegurar dos pefcado- 
res , e também a refgatar com os navios , 
dos quaes Antão Gonçalves houve nove ne- 
gros, eaíli hum pouco d'ouroempó; e por 
caufa defte refgate , que fe então alli fez , 
tem aquelle lugar por nome o Cabo do Ref- 
gate. E como a principal coufa , que os al- 
li trouxe , era virem bufcar João Fernan- 
des 5 que já tinham achado com o mais que 
diflemos , de que não eftavam pouco con- 
tentes , por celebrar mais efta feita , foi alli 
armado Cavalleiro hum Fernão Tavares , 
homem nobre , c de idade , o qual fe tinha 
vifto em honrados feitos de armas , e em 
nenhuma parte quiz acceitar efta honra fe- 
não nefta terra novamente defcuberta , ( tão 
gloriofa coufa era poer os pés nella , ) o 
qual acabou depois em Religião catholica- 
mente. Antão Gonçalves , tornando-fe pêra 
efte Reyno , veio pelo Cabo Branco , onde 
em huma entrada que fez em huma aldeã 
tomou íincoenta e íinco almas , a fóra ou- 
tras y que pereceram em feu defendimento , 
com a qual preza rota batida fe fez via da 

Rey- 



Década I. LiwL Cap. X. 79 

Reyno , aonde chegou a falvamento. O In- 
fante poílo que cilas noventa almas , e ou-* 
ro , que Antão Gonçalves trazia , era cou- 
fa de preço , e muito pêra eílimar , tudo 
havia que era pouco em comparação de ver 
ante íi João Fernandes são 5 e laivo , e cheio 
de tanta novidade , e eítranheza da terra co- 
mo elle contava , d'algumas das quaes cou- 
fas faremos relação por memoria dos traba- 
lhos de João Fernandes ? porque em a noíTa 
Geografia , por ler mais próprio lugar , tra- 
tamos deita terra , e dos feus moradores 
mais copiofamente , do que então alcançou 
João Fernandes. Segundo elle diíTe 5 os 
Mouros , em cuja companhia ficou , eram 
paítores , e parentes do Mouro , que veio 
pêra o Reyno com Antão Gonçalves. Eítes , 
depois que o levaram pela terra dentro , a 
primeira honra , e gazalhado que lhe fize- 
ram , foi esbulharem-no de quanto levava , 
affi de vertido , e roupa , como de hum pou- 
co de bifcouto , trigo , e legumes de íeu co- 
mer; e em fatisfação diílq lhe deram hum 
alquicé roto pêra cubrir fuás carnes , que 
foi diíFerente entrada da que o Infante fez 
ao feu parente , quando chegou ao Reyno ; 
e tal , que ainda fe não quiz vir com An- 
tão Gonçalves , quando tornou bufear João 
Fernandes , porque em cafa do Infante fe 
achava livre , e na fua pátria cativo deitas 

mi- 



8o ÁSIA de João de Barros 

miferias , que ora diremos. Mas como João 
Fernandes hia offerecido a todolos traba- 
lhos , em quanto lhe não tocavam na vi- 
da , peró que per força lhe apanharam tu- 
do , não reííftio muito cm o defender , nem 
menos que ficava por iffo efeandalizado , 
e dalli em diante ficou naquella trifte vida , 
que todos tem ; porque o feu comer era 
huma pouca de femente , que o campo per 
íi dá, que fe parece com Painço de Hefpa- 
nha , e aífi raízes , e gomos d'algumas pou- 
cas de hervas , e não ainda em abaílança ; 
e toda maneira de immundicia de lagarti- 
xas , e gafanhotos torrados áquella fervura 
do Sol , que fempre reina naquelle Solfticio 
do Trópico de Cancro , que paífa per cima 
daquella região. E os mais mezes do anno 
feu certo comer, (porque eíloutro ás vezes 
lhe falece com os temporaes , ) he leite do 
gado que paftoram , que também lhes ferve 
de beber , por a terra fer tão efterele , que não 
tem mais aguas , que em certos lugares alguns 
poços meios falobros , dos quaes , quando fe 
apartam por levar o gado a outro pafto , o 
leite lhes fica em lugar de agua , das quaes 
coufas ainda não são muito abadados. Carne , 
fe alguma comem , he de galezas , e muitas 
veações , e aves que matam , e no gado não 
tocam fenao por fefta no macho , e nunca 
no outro, por lhes dar leite, que he toda 

lua 



Década I. Liv. I. Cáp. X. 8f 

fua vida , e eítes são os de dentro do fer-* 
tão , porque os da coita do mar pefcado lie 
o feu geral comer fecco fem fal , e o fref- 
co muitas vezes por ler mais húmido , e 
lhes fazer menos fede. Ainda que agora com 
a noífa fortaleza, de Arguim são já mais mi-» 
mofos por viverem delia , e do trigo , que 
lhes mandamos ; e em tudo todos quando 
per cafo lhes vai ter á mão hum pouco , aífi 
o comem á mão , como nós comemos os 
confeitos. A terra em fi he meio areal , a 
mais viçofa he como a mais pobre 3 e rafa 
charneca , que cá temos , onde ha algumas 
palmeiras , e arvores , que querem parecer 
ás figueiras , que cá chamamos do Inferno ; 
e deftas ainda tão poucas , fegundo o gran- 
de efpaço de terra , porque eftam derrama- 
das , que parecem poílas á mão pêra dar 
| fombra , o que ellas não fazem por a pou- 
! ca rama que tem , ( tão pobremente cria as 
arvores.) O fitio defta terra todo he chão , 
e tão máo de conhecer, por não fer notável 
per montes , arvoredos , o outras diíferen- 
£as que a boa terra tem , que poucos em 
caminho de muito efpaço de terra podem 
atinar o lugar aonde vam* Somente per ef- 
tas coufas feguiam no caminhar pelos ven- 
tos , per eftreila , e pelas aves , que andam 
no ar , principalmente corvos, abateres, e 
outras , que feguem as immundicias do po* 
Tom. L F voa- 



%2 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

voado , porque eítas demoliram as povoa- 
ções j (ou por melhor dizer o lugar , onde 
andam aquellas cabildas,) por ler a terra 
tal, que como paítam hum dia huma folha, 
ao outro fe mudam a outra , e afias de boa 
he a terra que os detém oito dias em a 
paílar. Suas cafas sáo tendilhòes , e o trajo 
commum couros do gado que guardam , e 
os mais honrados Alquicés : e os principaes 
de todos , pannos de melhor forte ; e afli nos 
cavallos , como concertos delles tem a mef- 
ma ventage. O geral officio de todos he 
paítorar o feu gado , porque nelle eftá toda 
fua fazenda , c fubftancia da vida. A íua 
lingua , e eferitura não he commum com os 
Alarves da Berbéria ; e peró em tudo quaíi 
tem huma conveniência , como nós temos 
com os Caftelhanos. Antrellcs não ha Rey, 
ou Príncipe , tudo são cabiklas de parente- 
Jas , e aífi andam apartados ; e o de maior 
poder he o maioral que os governa ; e mui- 
tas vezes entre íi eftas cabildas humas com 
as outras tem guerra , e contenda fobre oj 
paliar deita trifte terra , e beber dos poços. 
E quando eíla não he a caufa , a natureza! 
humana dá outras pêra fempre contender { 
com os vizinhos ; e quando os não tem J 
toma aífi mefma por contenda. Eíla vida , 
e policia vio João Fernandes hum pouco de 
tempo entre aquelles paftores, e depois , an- 

dan- 



Década I. Liv. L Cap. X. e XI. 83 

dando cm hum aduar de hum principal Mou- 
ro daquelles Azenegues , a que chamavam 
Huáde Meimon , homem , que fe tratava 
de ília peflba mui bem , e que tratou a João 
Fernandes com tanta verdade , que o leixou 
vir buícar os noíTos navios , mandando com 
elle alguns homens , o qual quando chegou 
a elies , como já diíTemos , peró que vinha 
Azenegue no trajo , e no carão dos couros , 
parece que a natureza fe contentou com co- 
mer , e beber leite , porque elle veio bem 
penfado , e gordo. 

CAPITULO XI. 

Da viagem , que fez Dinifeanes com as 
caravelas , que de Lisboa foram era fua 
companhia : e do que fez o Capitão Lan- 
çarote com as quatorze caravelas de La- 
gos de fua capitania , em a qual viagem 
mataram , e cativaram muitos Mouros â 
cujia da vida d* alguns noffos : e como Soei- 
ro da Cofia , tendo- fe vi fio nos mais illuf 
três feitos de llefpanha , nefia ida fe fez 
Çavalleiro. 

HAvia em Lisboa , ao tempo que eílas 
coufas procediam em bem > hum ho- 
mem honrado , que fora criado do Infante 
D. Henrique já apofentado , com officio de 
ai Thefoureiro mor da Cafa de Cepta , a que 

F ii cha- 



84 ÁSIA de Jõao de Barros 

chamavam Gonçalo Pacheco , o qual coma 
era homem de grofía fazenda 3 e que arma- 
va navios pêra algumas partes , houve licen- 
ça do Infante pêra mandar hum navio a 
eíle defeubrimento. A capitania do qual deo 
a hum Dinizeanes da Gráa efeudeiro do 
Infante D. Pedro, e fobrinho no primeiro 
gráo da mulher delle Gonçalo Pacheco ; em 
companhia do qu?il foram Álvaro Gil En- 
faiador da Moeda de Lisboa , c Mafaldo 
morador em Setúbal 5 cada hum em fua 
caravela. E porque naquelle tempo todos 
hiam demandar o Cabo Branco , chegados 
a eíle , acharam hum eferito de Antão Gon- 
çalves pofto cm hum final notável , em que 
amoeítava a todos , que não tomaflem tra- 
balho por fahir em terra em bufea da aldeã 
que alli eítava , porquanto elle a tinha def- 
truido pela maneira que atrás fica. Com o 
qual avifo , per confelho de hum João Gon- 
çalves gallego Piloto , fe foram á Ilha de 
Arguim , onde tomaram fete almas , e per 
ardil de hum daquelles Mouros cativos deo 
o Capitão Mafaldo em huma aldeã na ter- 
ra firme , de cujo confelho pendeo todo ! 
aquelle feito , em que tomaram quarenta e ■ 
fete almas. Depois fahíram algumas vezes 
fem poder haver mais que hum Mouro ve- 
lho , o qual trouxeram mais por elle rece-< 
ber falvação mediante o Baptifmo ; que e£ 

pe- 



Década I. Lxv. I. Cap. XI. 8? 

perarem de fuás forças algum ferviço. E 
porque os Mouros per fuás atalaias anda- 
vam já com o olho nelles , foram-fe pela 
coíla adiante obra de oitenta léguas ; e na 
ida , e vinda tá tornar á Ilha das Garças fa- 
zer carnagem , per vezes que fahíram na 
terra firme tomaram fincoenta almas , que 
cuftáram huma batelada de fete homens dos 
noífos, que per defaftre de ficarem em fec- 
co morreram ás mãos dos Mouros. E nef- 
ta Ilha das Garças acharam hum Lourenço 
Dias com hum navio , o qual vinha em 
companhia d'outros , que ainda não eram 
chegados ? a caufa da vinda dos quaes era 
efta. Os moradores da Villa de Lagos , por- 
que o Infante fazia alli todas fuás armações , 
e nifto , e em outras coufas recebia delles 
ferviço 5 houveram licença fua , que armaf- 
fem pêra eflas partes de Guiné , pêra o qual 
negocio ie fizeram preíles com quatorze ca- 
ravelas em hum corpo. A capitania mòr das 
quaes deo o Infante a Lançarote , de que 
atrás falíamos , por fer homem mui expe- 
rimentado neíla viagem , e bem affortunado 
nella : peró que em fua companhia hiam 
homens Fidalgos por Capitães dos navios , 
e alguns delles mui approvados em feitos 
d 5 armas. Aflí como Soeiro da Cofta , fogro 
cio melmo Lançarote , o qual em lua mo- 
cidade fora moço da camará delRey Dom 

Du- 



86 ÁSIA de João de Barros 

Duarte , e depois indo fora deite Reyno fe* 
achou na batalha deMonuedro comElRey 
D. Fernando de Aragão contra os de Va- 
lença , e no cerco de Balanguer , onde fe fi- 
zeram honrados feitos , e andou com El- 
Rey Luiz de Proença em toda a fua guer- 
ra , e aílí fe achou na batalha deAjancurt, 
que foi entre os Reys de França 3 e Ingla- 
terra , e foi na batalha de Valamont , e na 
de Montfeguro , e na tomada de Sansocs , 
c no cerco de Ras 3 e além no de Cepta y 
em as quaes coufas femprc fe moftrou va- 
lente homem d'armas. E aífi hia em outro 
navio Álvaro de Freitas Commendador de 
Aljazur, homem bem Fidalgo, e que ncs 
Mouros de Grada , e Ballamarim tinha fei- 
to grandes prezas. Os outros Capitães eram 
Rodrigueanes Travaços criado do Infante 
D. Pedro , e Palaçano , que na guerra dos 
Mouros tinha empregado o mais de fua vi- 
da , e Gomes Pires patrão delRey , e afli 
outras peífoas honradas de Lagos. E além 
deftes quatorze navios foram da Ilha da 
Madeira , Trilião Vaz Capitão de Machi- 
co , e Álvaro Dorneías , cada hum em fua 
caravela • mas eíles antes de chegar ao Ca- 
bo Branco fe tornaram com tempo. O que 
não fez Álvaro Fernandes com outra cara- 
vela de feu tio João Gonçalves Capitão do 
Funchal na mefma Ilha da Madeira j antes 



ne£ 



Década I. Liv. I. Cap. XI. 87 

neíla viagem , como veremos , foi avante de 
iodos. E os outros Capitães eram Diniz 
Fernandes , o primeiro que paflbu á terra dos 
negros em huma caravela de D. Álvaro de 
Caílro Camareiro mór delRey D. Afonfo , 
que depois foi Conde de Monfanto ; ejoao 
de Caftilha em outra caravela de Álvaro 
Gonçalves de Taíde Aio delRey 5 que tam- 
bém foi Conde da Touguia , e outras ca- 
ravelas , que per todas fizeram numero de 
vinte e íeis , a fora a fufta 5 em que hia Pa- 
laçano , e cada huma partio do porto onde 
fe armou. As quatorze , que eram de La- 
gos , partiram juntas a dez de Agoílo de 
quatrocentos quarenta e finco annos ; mas 
em fahindo da cofia do Algarve hum tem- 
poral , que deo nellas , as apartou. O Capi- 
tão Lançarote como tinha provido , que acon- 
tecendo tal caio 5 todos fizeííem lua via á 
Ilha das Garças , onde fe haviam de jun- 
tar , o primeiro que tomou eftallha foi íium 
Lourenço Dias , de que atrás fizemos men- 
ção ? o qual alli eítava fazendo aguada , 
quando Dinizeanes da Graa chegou com as 
três caravelas ; o qual Dinizeanes fabendo 
per elle da grão frota que vinha atrás com 
tenção de deílruir aquellas Ilhas de Arguim ? 
onde lhe a elle mataram os fete homens ? 
determinou efperar a vinda das caravelas 
pêra vingar a morte dos que perdera. E 

quiz 



88 ÁSIA de JoÁo de Barros 

quiz fua dita que dahi a dous dias chegou 
o Capitão Lançarote , e em ília companhia 
Soeiro da Coita , Álvaro de Freitas, Ro- 
drigueanes , Gomes Pires o Picanço , e ou- 
tros , com que fizeram numero de nove ca- 
ravelas. Aílentado o que haviam de fazer 
logo , ante que a terra houveíle vifta de tan- 
to navio , fegundo a informação que Dini- 
'zeanes deo do eftado da terra , per muita 
cautela que niffo tiveram , os Mouros fe 
paíTáram todos á terra firme , e elles acha- 
ram na Ilha de Arguim doze almas fomen- 
te , quatro que tomaram , e oito que mor- 
reram por fe não quererem render, do qual 
feito hum dos noflòs ficou tão mal ferido, 
que a poucos dias morreo. E poíto que o 
feito não foi igual aos em que Soeiro da 
Coita fe tinha achado , como ora diflemos , 
achou elle em fua coníciencia , que não me- 
recia honra de cavalleria em guerra contra 
Chriítaos, e que no cerco de Cepta não 
fizera coufa , per que lha defiem ; e que neí- 
ta parte , aíli por fer com Alouros , como 
polo que aqui fez , e principalmente em ter- 
ra tão eítranha , era merecedor que Álvaro 
de Freitas Commendador de Aljezur, o ar- 
maíTe Cavalleiro , corno armou , com gran- 
de prazer , e folemnidade de todos , vendo 
que engeitára aqueíla honra entre tão pode- 
roíbs Príncipes , e aqui fe havia por mais i 

hon- ■ 



Década L.Liv. I. Cap. XL 89 

honrado delia. Em companhia do qual foi 
também armado Cavalleiro Dinizeanes de 
Graa , com que ficou algum tanto latisfeito 
do defaítre , que lhe alli acontecera. E por- 
que depois que efte cafo foi feito , chega- 
ram as outras caravelas da companhia de 
Lançarote , e elle Dinizeanes tinha já def- 
pezo quaíi todolos mantimentos, tornou-fe 
pêra o Reyno com as luas três caravelas , 
com que partira. Lançarote com os outros 
Capitães , que ficaram em fua companhia, 
poz logo em confelho tornar a entrar a Ilha 
Tider , e ordenou , que três caravelas fe 
metfeflem entre ella , e a terra firme , em 
hum pafo , per que fe os Mouros baldea- 
vam de huma parte a outra. Mas elíes an- 
davam tão efcoíidos das armas dos nofibs , 
que de noite fe pairaram todos a terra fir- 
me fem o elles fentirem , de maneira , que 
quando veio pela menhã , vendo elles que 
fe tornaram os noífos como quem não acha- 
ra a preza , que hiam bufear á Ilha 3 come- 
çaram na praia á vifta delles dar huma gran- 
de grita em modo de zombaria. Havia nef- 
te paííb antre a Ilha , e terra firme, obra 
de hum tiro de pedra , que fe não podia 
paliar a váo ; e outro tanto eípaço , que de 
baixamar dava a agua per o giolho , onde 
eítavam as três caravelas, que Lançarote al- 
li mandou pêra tolher a pafiagem, em hu- 
ma 



90 ÁSIA de João de Barros 

ma das quacs eílava hum moço da camará 
do Infante , a que chamavam Diogo Gon- 
çalves , que com huma ardideza de efpiri- 
to , que lhe moveo a ir contra os Mouros, 
polas algazaras , e defprezos , que lhes fa- 
ziam 5 difle a hum Pedro Alemão natural 
de Lagos , que fe queria faltar com elle em 
terra vingar aqucllas injurias , que lhe os 
Mouros eílavam fazendo ? Ao que Pedro 
Alemão refpondeo , que de mui boa vonta- 
de ; e fem o mais praticar com alguma 
peífoa , tomando as armas , que lhe eram 
neceífarias pêra offender , lançáram-íc a na- 
do. Os Mouros, quando os viram vir, vie- 
ram-fe a elles com huma grita , que fez eí- 
pertar aos outros da caravela que fabiam 
nadar , porque movidos de huma virtuofa 
inveja , começaram de os feguir ; os primei- 
ros dos quaes foram Gil Gonçalves efeudei- 
ro do Infante, e Lionel Gil filho do Alfe- 
res da bandeira da Cruzada; os quaes jun- 
tos em hum corpo com os primeiros , el- 
les por tomarem a terra , e os Mouros por 
Jha defender , (como quem tinha comngo 
xnulheres , e filhos,) foi antre todos huma 
tão travada peleja , que no meio daquelia 
raia ficaram doze Mouros enterrados, e de- 
pois em terra outros , e cativos foram íln- 
coenta e fete. E com tudo eíte trabalho do 
dia , ainda alguns deíles com outros , que ef- 

ta- 



Década I. Liv. I. Cap. XI. 91 

tavam folgados, aquella noite foram darem 
liuma aldeã , que eftava dalli fete léguas ao 
lonvo da cofia, parecendo-lhes que fe aco- 
lheriam a ella os que efcapáram das mãos 
dos nadadores , fegundo alguns dos cativos 
affirmavam. Peró eíles hiam de maneira , 
que não fomente fe affaftáram da coita do 
mar , mas ainda foram dar avifo aos ou- 
tros , que viviam na aldeã , com que os nof- 
fos trabalharam de balde naquella ida 5 pof- 
to que quando tornaram ao outro dia , acha- 
ram huns finco Mouros, que do dia pafía- 
do , quando hiam fugindo , fe embrenha- 
ram. E como o negocio a que eram idos 
aquella li ha era já acabado , ao feguinte 
dia ajuntou o Capitão Lançarote todolos Ca- 
pitães , e peííòas principaes d'Arrnada , e 
propoz-lhes eftas palavras : Bem f abeis \ Se- 
nhores , e Amigos , que a principal tenção , 
por que aprouve ao Senhor Infante virmos 
todos em hum corpo , e eu por Capitão def- 
ta frota , foi , pêra que levemente pudejfe- 
mos defiruir efia Ilha de Arguim , de que 
os nojjbs quando aqui vinham recebiam da- 
Trino. Ora Deos feja louvado , vós o tendes 
feito tão honradamente , e tanto a feu fer- 
vi ço , e prazer do. Infante , que vos he el- 
le por ijfo em obrigação de honra , e ???er- 
cê , o que todos deveis efpcrar cada hum 
em feu grão , porque ejia lei tem os fervi- 

cos 



o. 



1)2 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

cos acabados d vontade de quem os man- 
ia , principalmente quando o Senhor he gra- 
to , e liberal. E/ias coufas por parte de 
vojfos méritos e/lam ganhadas , e por parte 
da real condição do Infante concedidas ; o 
que nos agora fica por fazer , he cumprir 
o que mais manda em feu Regimento : que 
feito ejie negocio , que temos acabado , ca- 
da hum fe pode partir a fazer feu refga- 
te , e proveito , onde lhe Deos minifirar. 
Eu d 3 hoje avante fico fem aquella fuperio- 
r idade , que o Senhor Infante me tinha da- 
da acerca da governança defie negocio , a 
que principalmente viemos. E de mi lhe 
fei dizer , não por parte da honra , porque 
a Deos mercês com vojfa ajuda , eu a te- 
nho ganhada nejlaterra pêra poder ir co)í- 
tente pêra oReyno y mas por parte da pou- 
ca preza que levamos , fcgundo as cara- 
velas sao muitas , e os cativos poucos , mi- 
nha tenção he não ir de cá tão boi 'ante y 
fe alguém quizer ir fazer feu proveito 
mais avante pela cofia , eu lhe manterei 
companhia. Soeiro da Coita íògro delle Lan- 
çarote , Vicente Dias , Rodrigueanes , Mar- 
tim Vicente , e o Picanço , por terem as ca- 
ravelas mais pequenas de toda a frota , re- 
sponderam , que eiles nao podiam efpcrar o 
inverno, que já lá começava; e que quan- 
to o defejo os obrigava ir érafua compa- 
nhia , 



Década L Liv. I. Cap. XI. 93 

nhia , tanto a neceffidade os conftrangia a 
fe tornar ao Reyno. Gomes Pirez Capitão 
da caravela delRey , e Álvaro de Freitas } 
Rodrigueanes Travaços , Lourenço Dias 
mercador foram todos em hum propoííto 
de feguir o Capitão Lançarote , com defe- 
jo de paflar á terra Çahara dos Azenegues , 
e ver a de Guiné dos negros , por lhe di- 
zerem íèr mais frefca , e grofla em todalas 
coufas. Partidos per eíla maneira , huns pê- 
ra o Reyno , e outros pêra Guiné , de que 
eram eftas duas cabeças , Soeiro da Cofta ? 
e Lançarote , tomou cada hum ília derrota. 
Soeiro da Cofta como era Alcaide mor de 
Lagos , a quem todos obedeciam na terra > 
por os mais delles ferem daquelía Villa , 
aííi no mar lhe quizeram obedecer , cá os 
obrigou a que paífaífem peio Cabo Bran- 
co ; em o qual entrando per hum eftreito 
em bateis obra de quatro léguas , deram em 
huma aldeã y de que fomente houveram no- 
ve Mouros , porque os mais fe puzeram cm 
falvo , por lhes fer dado avifo primeiro que 
chegaíTem á aldeã. E porque eíla preza o 
não fatisfez , (peró que foíle aconfeíhado 
que o não fizeíTe , ) diífe aos outros Capi- 
tães , que a elle lhe convinha muito tornar 
á IlhaTider, porque entre aqueiles cativos 
que levava , era huma Moura , e hum mo- 
co filho de hum homem principal , os quaes 

pro- 



94 ÁSIA de João de Barros 

promettiam por íi grande refgate. Soeiro 
da Coita efpedido dos outros Capitães com 
eíte propollto , chegou á Ilha , onde Jogo 
acudiram alguns Mouros a eíte negocio do 
reigate ; e por fegurança diambas as partes , 
os Mouros entregaram por reféns hum ho- 
mem dos principaes delles , e Soeiro da Coi- 
ta entregou o Meftre do feu navio , e hum 
Judeo , que do Reyno fora em ília compa- 
nhia. E lendo já o moço do reigate pofto 
entre os feus , vendo a Moura azo pêra i£ 
ío , confiada mais em nadar , que ella mui 
bem fabia , que na poflibilidade dos feus, 
de quem efperava o grande reigate , que 
promettia por íl , lançou-lb ao mar, e poz- 
fe em laivo. Os Mouros como lá tiveram 
a efta Moura, e o moço, não quizeram dar 
o Meftre , e o Judeo , que já tinham cm 
poder, a troco do Mouro honrado, íenão 
com mais outros três. Soeiro da Coita , pof- 
to que lhe foi grave coufa , todavia o fez 
por falvar o Meftre ; e fem mais ganhar 
coufa que lhes Azeite perder o nojo deite 
aquecimento , fe tornou a eíle Reyno. E 
vindo com propoíito de caminho "fazerem 
hum falto nas Canareas , toparam com a 
caravela de Álvaro Gonçalves de Taíde, 
de que era Capitão João deCaftilha; e quan- 
do fouberam delle a via que levava , diífe- 
ram que lhe parecia lua ida de balde, por 

quan- 



Década I. Liv. I. Cap. XI. 95 

quanto o feito de Arguim era acabado , e 
o inverno começava naquellas partes , com 
que corria rifco de fe perder : que elles le- 
vavam propoíito de paliar pelas Ilhas Ca- 
nareas , e fazer hum falto na Ilha da Pal- 
ma , onde eíperavam fazer alguma preza de 
proveito, que elle devia tomar fua compa- 
nhia , pois vinha tão tarde pêra ir ás partes 
de Guiné. João de Caftilha forçado das ra- 
zoes deites Capitães das caravelas , feguio 
feu confelho , e o primeiro porto que to- 
maram , foi da Ilha Gomeira , onde logo 
os vieram receber dous Capitães , que go- 
vernavam a terra , fazendo oíFertas aos nof- 
fos do que houveífem miíler , dizendo fe- 
rem devedores ao Infante D. Henrique de 
tudo o que por feu ferviço fízeflem ; por- 
que elles eítiveram em cafa dellley de Caf- 
tella , e delRey de Portugal , e de nenhum 
deíies receberam tanto favor, e mercê, co- 
mo delle Infante. Os Capitães das carave- 
las vendo que neftas oíFertas tinham ajuda, 
por faber ferem os defta Ilha grandes imi- 
gos dos da Ilha de Palma , que elles hiam 
bufear, defcubríram-lhes feu propoíito , pe- 
dindo-lhes que houveífem por bem de irem 
com alguma gente fobre aquclles feus imi- 
gos 3 de quem o Infante eftava mui efean- 
dalizado por fer má , e revel , e que elles 
iriam em fua companhia. Eftes dous Capi- 
tães 



C)6 ASIÀ de João de Barkos 

taes Canareos , cujos nomes eram Piíle, c 
Brucho , por moftrar o delejo que tinham 
de fervir ao Infante , lem mais demora met- 
têram-fe em os navios com bom golpe de 
gente ; e feita vela , lurgíram em rompendo 
o dia no porto da Palma ; e per confcllio 
delles , os noflbs ante de ferem viítos fahí- 
ram em terra , c o primeiro encontro que 
acharam , foram huns poucos de paftores , 
que traziam grande faéto de ovelhas ; os 
quaes tanto que houveram viíla dos nolíbs , 
aíh tinham coftumado eftc gado , que a hum 
certo final de apupos que deram , começou 
todo correr pêra hum vallc , que citava an- 
tre duas ferras de afperos rochedos , como 
fe lhes diíferam , aqui são os imigos. Os 
noífos , quando viram que os Canareos co- 
meçavam trepar com feus Capitães per aquel- 
las rochas trás os paílores , que fugiam , fe- 
guíram o feu modo ; mas como não eram 
coftumados áquelles faltos , cahíram alguns 
per lugares de perigo , entre os quaes foi 
hum mancebo , que quando chegou abaixo 
da altura , donde cahio , veio feito em pe- 
daços ; e per eíte modo também pereceram 
alguns Canareos ; porque como eram con- 
fiados no ufo daquelles lugares , corriam I 
mais fem tento ; e dos noííos o que melhor I 
fe havia neíte modo de prear acoífo , foi j 
Diogo Gonçalves moço da Camará do In- | 
^ fan- ! 



Década L Liy. I. Cap. XI. 97 

fante , aqueííe, que fe lançou ao mar em, 
Arguim contra os Mouros , que eítavam fa- 
zendo algazarras na praia. Os Canareos , 
cujas eram as creaçoes, tanto que fentíram 
a entrada de feus imigos , acudiram com 
muita gente ; peró como fentíram as armas 
dos nolfos , não oufavam de os efperar de 
perto , e embarravam-fe em as penedias , 
donde faziam feus arremeífos ; e fe lhe os 
noífos tiravam a II , eram leves em furtar 
o corpo , que de maravilha os podiam of- 
fender. Com tudo entre os tomados a cof- 
fo , e outros , que houveram , depois que 
fe ajuntou a gente , foram dezefete almas , 
entre as quaes vinha huma mulher de efpan- 
tofa grandeza , a qual quizeram dizer ler 
Rainha de huma parte daquella Ilha. Tor- 
nados os noííbs á Ilha Gomeira , leixáram 
os Capitães Canareos em o lugar , onde os 
tomaram, e o que chamavam Piíle faleceo 
depois nefte Reyno , andando em negócios, 
da Ilha, ao qual o Infante fempre fez ga- 
zalhado , e mercê. João de Cartilha , por- 
que não vinha contente da pequena preza , 
que lhe coube em repartição , e também 
por fe refazer da perda, que houve em não 
fe achar no feito de Arguim, donde eílou- 
tros vinham , fez com elles que na mefma 
Gomeira , onde eítavam , fizeílem alguma 
preza ; e poílo que a todos pareeeo malda- 
Tom. L G de 



98 ÁSIA de João de Barros 

de cativar aquelles , de quem receberam ami- 
zade , pode mais nelles a cubica que eíta 
lembrança ; e como que per cita maneira 
ficavam menos culpados , paííáram-fe deíle 
porto a outro da mefma Ilha , onde preá- 
ram vinte e huma almas , com que fe fize- 
ram á vela caminho deíle Reyno ; o qual 
engano iabido pelo Infante , ficou mui in- 
dignado contra os Capitães , e veítidos á 
fua cuíla , mandou depois , como fe adiante 
verá y tornar todolos cativos onde os toma- 
ram ; porque como o Infante por eíta gen- 
te das Canareas tinha feito grandes coufas , 
fegundo veremos neíte feguinte Capitulo ? 
fentia muito qualquer oflfenfa que lhe fa- 
ziam. 

CAPITULO XII. 

Como as Ilhas , a que ora chamam Ca- 
nareas , foram defeubertas per hum Fidal- 
go Francez , chamado Mofwr João de Be- 
tancor : e depois o Infante D. Henrique 
teve o fenhorio delias 3 e converteo d Fé a 
maior parte dos feus povoadores > e d'' al- 
guns cojlumes delles. 

EM tempo delRey D. Henrique o Ter- 
ceiro de Caítella , filho delRey Dom 
João o Primeiro , veio de França a eítas 
partes de Helpanha hum Francez por nome 
Mofior João de Betancor homem nobre, 

com 



Década I. Lrv. I. Cap. XII. 99 

com tenção de conquiftar as Ilhas das Ca- 
nareas ., por ter fabido ferem povoadas de 
gente pagã ; e fegundo fama , a noticia del- 
ias foube per huma náo Ingleza , ou Fran- 
ceza , que lá efgarrou com tempo , vindo 
daquellas partes a eítas de Hefpanha ; e poi- 
to que elle trouxe navios , gente , e muni- 
ções pêra efta conquiíía, em Caftella , onde 
primeiro veio ter , fe reformou de mais gen- 
te , com que fobjugou eílas três Ilhas , Lan- 
çarote , Forte ventura , e a Ferro , e ifto 
com tanto trabalho , e cuíío, que de can- 
gado , e ter defpezo todo o cabedal que 
trouxe , tornou a França a fe reformar y 
leixando alli hum feu fobrinho chamado 
Maciot Betancor ; mas elle não tornou mais : 
diziam alguns que por graves doenças que 
teve ; e outros , que EIRey de França o 
impedio por caufa da guerra y que então 
tinha com Inglaterra. Mofior Maciot Betan- 
cor, vendo que paliavam tempos fem acu- 
dir feu tio a tão grande empreza como 
lhe leixára , a qual não podia fuftentar , pof* 
to que em auíencia fua com ajuda d'alguus 
Caftelhanos conquiílára a Gomeira 5 concer- 
tou-fe com o Infante D. Henrique fobre o 
que nellas tinha, e elle paffou-fe á Ilha da 
Madeira , onde aífentou fua vivenda , por- 
que começavam naquelíe tempo fíorecer as 
coufas delia ; e os homens , que fe lá paífa- 
G ii vam 



IOO ASIÀ DE JOÃO DE BARROS 

vam a viver , engroflavam muito em fazen- 
da , como também acontecco a eftc Ma- 
ciot ? o qual com o que houve do Infan- 
te y que foram as faboarias , e outras ren- 
das na Ilha y e depois com fua induftria ga- 
nhou tanto , que cafou huma fó filha que 
teve , chamada Dona Maria Bctancor , com 
Ruy Gonçalves da Camará Capitão da Ilha 
S. Miguel , filho de João Gonçalves , pri- 
meiro Capitão da Ilha da Madeira da par- 
te do Funchal ; e porque não houve filhos 
delia , herdaram Henrique de Betancor , e 
Gafpar de Betancor fobrinho deite Maciot 
de Betancor a fua herança delle , da qual 
hoje pofíuem feus herdeiros boa parte , os 
quaes são Fidalgos mui honrados , e tem o 
feu appellido de Betancor. E porque de do- 
ze Ilhas que ellas são , ainda ficavam por 
conquiftar eílas , grão Canarea , Palma , Gra- 
çiofà , Inferno , Alegrança , Santa Clara , 
Roche , e a dos Lobos , determinou o In- 
fante D. Henrique , por louvor de De os , 
de as mandar conquiftar, e trazer ao Bap- 
tifmo os feus moradores, pêra a qual obra 
fe fez huma Armada o anno de quatrocen- 
tos e vinte e quatro , em que foram dous mil 
e quinhentos homens de pé , e cento e vin- 
te de cavallo ; e por Capitão mor D. Fer- 
nando de Caítro Governador de fua caia . 
Padre de D. Álvaro de Caítro Conde de 

Mor- 



Década L Liv. I. Cap. XII. 101. 

Monfanto , e Camareiro mor delRey Dom 
Afonfo o Quinto deite nome. E porque a 
gente era muita , e a terra desfalecida de 
mantimentos , deteve-fe D. Fernando mui 
pouco tempo nefta conquifta , porque tam- 
bém era cuftofa ao Reyno ; e fomente a paf- 
fagem da gente , que foi a ella , fegundo 
vimos nos livros das contas do Reyno , 
cuftou trinta e nove mil dobras ; e nefle 
pouco tempo que efteve grande numero 
daquelle povo pagão recebeo o Baptifmo. 
Depois pêra favorecer eftes Chriftãos con- 
tra aquelles , que não queriam vir á Fé , 
mandou o Infante alguma gente , e por Ca- 
pitão delia Antão Gonçalves feu guardarou- 
pa. E paflados alguns annos , que eílas Ilhas 
per caufa do deícubrimento da Ilha da Ma- 
deira , e affi de Guiné , começaram ter no- 
me , e fabor na opinião da gente de Hef- 
panha , deíiftio o Infante delias ? porque fe 
intrometteo niíTo EIRey de Caftella , dizen- 
do 5 que lhe pertenciam ; por quanto Mo- 
fior João Betancor , que primeiro conquis- 
tara as três , no Reyno de Caftella fe ar- 
mara 5 e alli recebera todalas ajudas de gen- 
te , mantimentos , e munições pêra as con- 
quiftar , e , depois de fua partida , Maciot feu 
fobrinho fempre recebera as mefmas ajudas 
de Caftella , e a Gomeira , que elle tinha 
conquiílado com a gente de Caftella fora 5 

e aos 



102 ÁSIA de JoÃo de Barros 

e aos Reys delia dava obediência , e reco- 
nhecia por Senhores ; e que fe elle Maciot 
vendera a fazenda ? e terras , que tinha apro- 
veitado , não podia vender o fenhorio 3 e 
jurifdicção , que era da Coroa de Caítella, 
O Infante , como fua tenção cm conquiltar 
eítas Ilhas mais era por falvar as almas dos 
feus moradores pagãos , que por algum pro- 
veito que delias tiveífe , antes lhe tinham 
feito muita defpeza em as conquiílar , e fuf- 
ter , não profeguio mais em o que tinha co- 
meçado. Depois em tempo delRey D. Hen- 
rique o Quarto deite nome em Caítella, 
quando cafou com a Rainha Dona Joanna 
filha delRey D. Duarte de Portugal , Dom 
Martinho de Taíde Conde da Touguia , 
que a levou a Caítella , houve delRey Dom 
Henrique eftas Ilhas das Canareas per doa- 
ção que lhe delias fez , e elle as vendeo 
depois ao Marquez D. Pedro de Menezes 
o primeiro deite nome , e o Marquez as 
vende,o ao Infante D. Fernando irmão del- 
Rey D. Afonfo , o qual Infante folgou de 
as comprar , porque como era filho adoptivo 
do Infante D. Henrique feu tio , que já ti- 
vera o fenhorio deitas Ilhas 5 parecia-lhe que 
as não comprava , mas que as herdava del- 
le. E tanto que as houve , mandou tomar 
poíTe delias , e a conquiítar alguns reveis , 
ao qual negocio enviou Diogo da Silva } 

, que 



Década I. Liv. I. Cap. XII. 103 

que depois foi Conde de Portalegre, Em 
meio do qual tempo veio a eftes Pveynos 
hum Cavalleiro Caftelhano per nome Fer- 
não Peraça , pedindo a EIRey D. Afonfo , 
e ao Infante , que houveflem por bem de 
o reftituir em poííe das ditas Ilhas , por 
quanto elle as tinha comprado a hum Gui- 
lhem delas Cafas , o qual as comprara a Dom 
Henrique Conde de Nebla , em quem Ma- 
ciot Betancor as trafpaíTára per via de doa- 
ção com procuração que tinha de feu tio 
João de Betancor , de que aprefentava Es- 
crituras , e Provisões dos Reys de Caftella 
em confirmação das taes compras. E por- 
que per cilas , e per outras razões EIRey , 
e o Infante viram a juíliça delle Fernão Pe- 
raça, defiílíram delias ; per morte do qual 
Fernão Peraça herdou efta herança huma 
fua filha per nome Dona Ignez de Peraça y 
com quem cafou hum Fidalgo Caftelhano 
chamado Diogo Garcia de Herrera. E en- 
tre os filhos que houve delia , foi Dona Ma- 
ria Dayala ? com quem cafou Diogo da Sil- 
va , eftando ainda lá por parte do Infante 
na conquifta, e governança delias. E por- 
que as Ilhas da Gomeira , e Ferro eram 
feitas em morgado, de que hoje he intitu- 
lado Conde D. Guilhem de Peraça feu fi- 
lho , ficaram partiveis as Ilhas de Lançaro- 
te y e Forte ventura , em que D. João da 

Sii- 



104 ÁSIA de João de Barros 

Silva fegundo Conde de Portalegre por par- 
te de fua madre a CondeíTa tem herança , 
que ao prefente lhe renderá té trezentos 
mil reaes. Parece que permittio Deos que 
ficaíTe efta memoria em Portugal por os tra- 
balhos ; que o Infante D. Henrique levou 
na conversão , e conquifta dos povos dei- 
tas Ilhas , pofto que o fenhorio , e jurifdic- 
çao delias fofíe trafpaflado em Caftella na 
maneira que difiemos. E por razão deita ac- 
ção , que cite Reyno tinha neílas Ilhas Ca* 
nareas pola defpeza que era feita na con- 
quiíla , e conversão de fcus povos, quando 
íe fizeram as pazes entre Portugal j e Caf- 
tella por caufa das guerras , que houve en- 
tre EiRey D. Afoníò o Quinto deite Rey- 
no , e EÍRey D. Fernando de Caftella , no- 
meadamente em os capitules das pazes ficou 
com Caftella a conquifta , e fenhorio delias 
Ilhas 5 e a conquiíla do Reyno de Grada , 
como com Portugal a do Reyno de Fez , 
e de Guiné , & eetera , (fegundo fe contém 
na Chronica deite Rey D. Afonfo. ) Efíe 
foi o fundamento da conquifta , e conver- 
são deitas Ilhas , pofto que em a Chronica 
delRey D. João o Segundo de Caftella o 
Chronifta 5 por dar poile a fua coroa 5 leve 
outro caminho na relação do defeubrimento 
delias ; e também pode fer que não teria no- 
ticia de todas citas coufas, E por louvor 

def- 



Década I. Liv. I. Cap. XIL io? 

deíle Infante D. Henrique, trataremos dos 
ritos, e coílumes que o povo pagão deitas 
ilhas naquelle tempo tinha , quando per in- 
duftriafua foram trazidos aoBaptifmo. Ha- 
veria naquelle tempo em todas eftas Ilhas 
treze , ou quatorze mil homens de peleja ; 
e pofto que todos foífem pagãos , não con- 
vinham em huns ritos , e coílumes , fomen- 
te em conhecimento de hum Creador de to- 
dalas coufas , o qual dava galardão aos 
bons , e pena aos máos. Os moradores da 
grão Canária tinham dous homens princi- 
paes ? que os governavam , a hum chama- 
vam Rey , e a outro Duque ; e porém o 
regimento da juíliça , e governo da terra 
era feito per numero de cento e noventa 
homens , fem poderem fer mais , ou menos. 
E como algum morria , logo era enlegido 
outro da linhagem daquelics que governa- 
vam , e eftes tinham, a fciencia , e os pre- 
ceptos daquillo , que cada hum devia crer , 
e elles os davam ao povo ; de maneira , 
que não fabiam mais dizer do que criam, 
e adoravam , fomente que naquillo que criam 
os feus cavalleiros , que eram eftes cento e 
noventa homens. As mulheres não podiam 
cafar fem primeiro as corromper hum dei- 
tes cavalleiros ; e quando lhas aprefentavam , 
haviam de vir bem gordas de leite , que 
era a ceva , com que as cevavam pêra iíío ; 

e fe 



io6 ÁSIA de João de Barros 

e fe eram magras , diziam que ainda não 
eftavam emdifpoííção peracafar, porquan- 
to tinha o ventre pequeno , e eítreito pêra 
crear nelle grandes filhos , de maneira , que 
não haviam por aptas pêra cafamento fenão 
as de grande barriga. A peleja delles era ás 
pedradas y e com páos curtos á maneira de 
regeitos de remeíTo , e ao tempo do pelejar 
era bem ardida , e esforçada. Seu veftido 
era os couros da carne fomente , e em os 
lugares deshoneftos traziam huma maneira 
de bragas de folhas de palma tintas de co- 
res. Entrelles não havia ferro 5 e a mingua 
delle rapavam as barbas com pedras agu- 
das : fe haviam algum á mão era mui efti- 
mado , e faziam anzolos delle. Ouro , pra- 
ta , nem outro metal não o queriam , antes 
haviam que era fandice defejar alguém o 
que lhe não fervia de inftrumento mecânico 
pêra fuás neceífidades. Trigo , e cevada ti- 
nham em grande copia , e desfalecia-lhes 
engenho pêra o amaítar em pão 3 fomente 
comiam a farinha cozida com carne , e man- 
teiga. Haviam por coufa mui torpe esfolar 
alguém gado , e nefte miíler de magarefes 
lhes ferviam os cativos que tomavam ; e quan- 
do lhe cíles faleciam , bufeavam homens 
dos mais baixos do povo pêra efte officio , 
os quaes viviam apartados da outra gente , 
e não os communicavam em aquelle miíler. 

As 



Década I. Liv. I. Cap. XII. 107 

As madres naocreavam de boa vontade íèus 
filhos ao peito ; e quaíí todos eram creados 
ás tetas das cabras. Os moradores da Gc- 
meira em alguns ritos 5 e coíhimes fe con- 
formavam com eftes \ peró feu comer geral- 
mente era leite, hervas, eraizes de juncos, 
e toda a immundicia , aííi como cobras , 
lagartos , ratos , e outras coufas deita quali- 
dade. As mulheres eram quaíi commuas , e 
quando fe vifitavam huns a outros , davam 
as mulheres por gazalhado , e boa hofpe- 
dagem , donde lè caufava que. não herda- 
vam os filhos , fenao os fobrinhos da irmã. 
O mais do tempo defpediam em cantar y 
bailar , e ufo de mulheres , que entrelíes era 
eítimado por o maior bem da vida. Os da 
Ilha Tanarife eram mais abadados de man- 
timentos , cá entrelíes havia trigo , cevada , 
legumes de toda forte , e grandes fatos de 
gado miúdo 5 de cujas pelles fe veíliam ; e 
todos eram repartidos em oito , ou nove 
bandos de gerações , cada hum dos quaes 
tinha próprio Rey, e fempre havia de tra- 
zer corníigo dous , hum morto , e outro vi- 
vo ; e morto efte 5 elegiam outro. E o pri- 
meiro defunto ao tempo que o queriam en- 
terrar 5 havia de fer per o mais honrado ho- 
mem , o qual o levava ás cofias ; e quando 
o punham na fepultura , todos a huma voz 
diziam: Vai-te d f alva f ao. Tinham mulhe- 
res 



io8 ÁSIA de Joio de Barros 

res próprias , todo feu exercício eram ban- 
dos ; e iílo os fazia fer gente mais guerrei- 
ra que os das outras Ilhas , e também vi- 
viam com mais razão em todas fuás cou- 
fas. Os da Ilha da Palma feriam até qui- 
nhentos homens , os quaes acerca do juizo , 
e ufo das coufas eram mais beítiaes que os 
das outras Ilhas ; tendo também muita par- 
te dos feus coítumes , feu mantimento era 
hervas , leite , e mel. E porque ao prefente 
toda efta gentilidade barbara fe perdeo , e 
em feu lugar he recebida a Fé , e policia 
Hefpanhol , e as outras coufas dos frutos , 
e difpofição da terra são já mui notórias a 
nós , baíta o que diífemos por gloria de 
Deos , e louvor do Infante D. Henrique y 
que plantou cite fruto na fua Igreja. 

CAPITULO XIII. 

Como o Capitão Lançarote , depois que 
leixou ejlas caravelas de fua conferia , que 
fe vieram pêra o Reyno , com as outras que 
o feguíram , defcubrio o grande rio , a que 
ora chamamos Canagã , e dahi foi ter a 
huma ilheta pegada com o Cabo Verde. 

O Capitão Lançarote , depois que Soeiro 
da Coita feu fogro fe efpedio delíe , 
começou de feguir fua viagem fempre ao 
longo da coita y té paífar a terra , a que os 

Mou- 



Década I. Liv. I. Cap. XIII. 109 

Mouros chamam Çahará, e os noííbs cor- 
ruptamente Zára , que he parte dos defei- 
tos de Libya , e- veio ter as duas palmei- 
ras , que Diniz Fernandes , quando alli foi ? 
demarcou como coufa notável 3 onde os da 
terra dizem, que fe apartam os Azenegues 
Mouros dos Negros idólatras , peró que nef- 
tes noífos tempos aqui já fejam todos da 
fedia deMafamede. E feguindo mais avan- 
te obra de vinte léguas , acharam hum rio 
mui notável , a que nós ao prefente cha- 
mamos Çanagá , por razão que o principal 
refgate , que pelo tempo em diante fe alli 
começou fazer , foi com hum negro dos 
principaes da terra , chamado per efte nome 
Çanagá ; porque o verdadeiro nome do rio , 
logo alli na entrada he Ovedech , (íegundo 
a lingua dos Negros , que habitam naquella 
fua foz ; ) e quanto mais fe penetra o fer~ 
tão per onde elle vem , tantos nomes lhe 
dam os povos , que bebem as fuás aguas, 
dos quaes nomes , curfo , e nafcimento del- 
le fe verá adiante. E não fomente pelo que 
os noífos então fouberam delle , mas pela 
informação , que os Mouros Azenegues de- 
ram ao Infante de como vinha das partes 
Orientaes , correndo per grandes Reynos , 
e Províncias , houveram que era hum braço 
do rio Nilo. O Capitão Lançarote , depois 
que entrou a barra deite rio > lançando num 

ba- 



no ASIÀ de João de Barros 

batel fora , metteo-fe nelle Eílevão Afoníb 
pcra fahir em terrra , e defcubrir o que al- 
cançaíle com a viíta ; e na primeira que to- 
mou , onde fe fazia hum medao de arêa , 
vio eílar huma cabana , que lhè pareceo fer 
de algum pelcador , na qual foram toma- 
dos hum moço , e huma moça , ambos ir- 
mãos , mais pêra fua falvação , que pêra re- 
ceber cativeiro ; porque vindos a eíle Rey- 
110 o moço , mandou o Infante crear , e do- 
élrinar em letras pêra poder receber Ordem 
Sacerdotal , e tornar a cila parte a pregar 
o Baptifmo , e Fé de Chrifto , e ante de 
ehegar a madura idade faleceo ; e a irmã 
já poios méritos de feu irmão teve creação , 
e vida mais de livre que cativa. E porto 
que ai li não houveífe língua , que entendef- 
fe eítes dous irmãos pêra delles tomar al- 
guma informação, na idade delles entende- 
ram que o pai , ou mãi não deviam fer mui 
longe ; e começando defcubrir derredor da 
cafa contra onde fe fazia hum arvoredo, 
ouviram pancadas , como que cortavam al- 
guma coufa. E porque indo juntos podiam 
fazer rebuliço , diífe Eílevão Afonío , que 
o leixaíTem ir fó pêra manfamente efpreitar 
quem era o que dava aquellas pancadas ; e 
indo aííi ao tom delias , foi dar com hum 
negro , o qual eftava tão attento no cortar 
de hum páo , que o não fentio , fenão quan- 
do 



Década I. Liv. L Cap. XIII. iii 

do lançou mão delle. O qual atrevimento 
lhe houvera de cuftar a vida 5 porque como 
o negro era grande , e forçolb , e andava 
mi , e Eftevao Afonfo homem pequeno , e 
roupado do vertido , no primeiro bracejar , 
(peró que o negro ficou cortado com aqucl- 
le novo temor , ) levou Eftevao Afonfo de- 
baixo de ÍI ; e ainda que a peleja era a pu- 
nho 5 e a dentes , elle pairara mal , fenão 
fobrevieram feus companheiros , com a vif- 
ta dos quaes o negro efcapulio , e fugio 
pêra dentro do arvoredo. Eftevao Afonfo 
quando fe vio defapreífado com o favor 
dos companheiros , que corriam trás elle 
contra a mata , começou de o feguir, di- 
zendo , que rodeaífem o arvoredo té que 
vieílem alguns cães do navio , que o lan- 
çaífem fora. Mas o negro como levava o 
cuidado nos filhos , ainda não entrou per 
huma parte , quando fahio pela outra ; e 
não os achando na cabana , começou de 
feguir o raftro , que os noífos levavam com 
elles contra a praia 5 onde Vicente Dias mer- 
cador fenhorio do navio , cujo era aquelle 
batel , andava pafleando tão feguro , como 
fe eftivera em Tavilla ? donde elJe vivia , 
tendo fomente por arma hum bicheiro , que 
tomou nò batel por ajuda de bordão. O 
negro tanto que o vio , fem temor algum , 
com a fúria do amor que trazia dos filhos, 

lan- 



H2 ÁSIA de João de Barkus 

lançou-fe a elle 5 depois que lhe rompeo 
huma queixada com huma azagaia de re- 
meflb y e porém primeiro que vieífem a bra- 
ços , também levou huma boa ferida com 
o bicheiro per fima da cabeça. E andando 
Vicente Dias em eíle perigo , (però que irou- 
xeffe feu imigo debaixo ) fobreveio outro 
negro filho deííe já homem valente , e aífi 
fe ajudaram ambos , que o traziam mui mal- 
tratado , fe a vinda de Eílevao Àfoiuo , e 
de feus companheiros o não falvára • por- 
que os negros tanto que os viram correr 
contra íi , como eram ligeiros , deiaprcffá- 
ram a elle , e puzeram-fe em falvo. Chega- 
dos aonde eílava Vicente Dias , como já 
na companhia havia dous injuriados do ne- 
gro , antre rifco , e pezar de lhe aífi efca- 
pulir das mãos , fe tornaram á caravela , 
onde Vicente Dias foi curado ; e aífi elle , 
ccmo Eitevao Afonfo eram vifitados da 
gQiitQ das outras caravelas , gracejando to- 
dos como o negro era melhor luólador que 
quantos havia no batel. Paífado aquelle dia , 
tendo o Capitão Lançarote aífentado com 
os outros Capitães pêra irem per o rio af- 
fima defcubrir , por fer a coufa que o In- 
fante mais defejava, levantou-fe hum tem- 
po de maneira > que os fez a todos fahir 
donde eíiavam , com o qual tempo fe apar- 
taram da companhia de Lançarote , Rodri- 

guea- 



Década I. Liv. I. Cap. XIII. 113 

-gueanes Travaços , e Dinis Dias ., que fe vie- 
ram na volta do Reyno ^ onde cliegáram a 
faivamento. Lançarote com íinco caravelas , 
correndo contra o Cabo Verde 3 foi furgir 
em huma ilheta pegada com a terra firme , 
cm que acharam muitas cabras , que lhe foi 
mui bom refrefco , e-aífi acharam pelles 
freícas d'outras , como que havia poucos 
dias que fe fizera alli alguma matança del- 
ias ' y e o que lhe certificou fer aquelia obra 
dos noífos, foi acharem efcrito em a cafca 
de humas grandes arvores : EJie motto da 
divifa do Infante y Talent de Bien faire , 
o qual final leixou Álvaro Fernandes fobri- 
nho de João Gonçalves , Capitão da parte 
do Funchal na Ilha da Madeira , que veio 
alli ter , e pelejou com féis almadias de ne- 
gros , que o vieram commetter , de que fo- 
mente tomou huma com dous deíies , por- 
que os mais fe íalváram a nado. E deita 
viagem paflbu ainda té onde ora chamam 
o Cabo dos Maftos , nome , que lhe elle 
então poz por razão de humas palmeiras 
feccas , que á viíla reprefentavam maftos ar- 
vorados , e daqui fe tornou pêra o Reyno. 
O Capitão Lançarote em dous dias , que 
cfteve com as finco caravelas nefta Ilha, 
onde Álvaro Fernandes poz o motto, fez 
fua aguada , e matança de cabras , e de íi 
paííou-fe á terra firme , com a viíla do qual 
Tom. L H acu- 



ii4 ÁSIA deJoao de Barros 

acudiram á praia muitos negros. Gomes Pi- 
res , a quem o Capitão Lançarote mandou 
em hum batel , que foífe a ellcs , parecen- 
do-lhe que os provocava mais a paz , que 
lhe o Infante muito encommendava em leu 
Regimento , lançou-lhes em terra hum bol- 
lo 5 hum elpelho , e huma folha de papel , 
em que hia debuxada huma cruz. Mas el- 
les eftavam tão çafaros da cubica daquellas 
coufas , e tão efeandalizados do que lhe 
Álvaro Fernandes fez , que não fomente as 
não quizeram , mas ainda as quebraram , e 
romperam tudo , como fe nellas fora algu- 
ma peçonha , ou peite , que lhes podia em- 
pecer , e fobre iíío começaram de tirar ás 
frechadas ao batel. Vendo Gomes Pires que 
com elles não havia algum modo de paz > 
mandou a huns béíteiros , que comfígo ti- 
nha , que lhe refpondeíTem com o feu al- 
jnazem , dando-lhes eíla efpedida. Os Ca- 
pitães com eíla moílra , que os negros dç- 
ram de íl , aífentáram de ao outro dia da- 
rem nelles da maneira que coílumavam dar 
nas aldeãs dos Mouros ; mas fobreveio fu- 
pitamente hum temporal , que os fez cor- 
rer como cada hum pode marear feu na- 
vio. Lourenço Dias efeudeiro do' Infante foi 
ter ao lugar , onde o negro luítou com Vi- 
cente Dias ; e vendo-fe mal apercebido de 
mantimentos ; armas, e outras coufas , que 

lhe 



Década I. Lxv. I. Cap. XIII. 115- 

lhe convinham pêra defcubrimento do rio, 
não oufou de o commetter , e veic-fe na 
volta do Reyno. Gomes Pires Patrão que 
era outro deita conferva de Lançarote , veio- 
fe per o rio do Ouro , e alli tratou com os 
Mouros , dos quaes houve per reígare hum 
Negro , promettendo-lhe que ao feguinte an- 
uo fe alli tornaffe os acharia apercebidos 
de ouro 5 e efcravos , com que pudeíle car- 
regar o navio , porque começavam já de 
goílar do proveito , que lhe os noííbs da- 
vam com as coufas que haviam deiles , de 
maneira , que os dias , que Gomes Pires al- 
li efteve , vinham ao navio feguramente ; e 
mais por amizade que per refgate , eiles lhe 
deram huma boa fomma depelles de lobos 
marinhos , com que fe veio pêra o Reyno, 
Lançarote , Álvaro de Freitas , e Vicente 
P Dias , affi como todos três naquella tormen- 
ta , que lhe deo no Cabo Verde , mantive- 
I ram coníèrva , aífi foram todos em confe- 
I lho 5 que de caminho deflem na Ilha Ti- 
■ j der ? onde tomaram ílncoenta e nove almas , 

• com que fe vieram ao Reyno com mais 
' \ proveito que os outros. Diniz Fernandes Ca- 
• ! pitão da caravela de D. Álvaro de Caftro 9 
i i e Paíaçano Capitão da fuíla , como ambos 

• j mantiveram companhia na ida das quatorze 
í caravelas 5 que efte anno partiram deíle R.ey- 

I{ no y quando chegaram a Arguim , e acha- 
H ii ram 



n6 ÁSIA de João de Barros 

ram nova em as outras caravelas, que fo- 
ram no feito da UhaTider, como as Ilhas 
eram já delpejadas , determinaram de paflar 
adiante té o rio Çanagá , e entrar dentro 
na fufta , por Diniz Fernandes faber já aquel- 
la cofta quando alli veio ter; e tendo paf- 
fado a ponta chamada de San&a Anna , que 
he áquem do rio Çanagá obra de fincoenta 
léguas , por levarem calmarias , quizeram lan- 
çar hum homem fora , que deícubriíTe fe ha- 
via alguma povoação junto da praia ; mas 
como o mar com a calmaria andava ban- 
zeiro , eram tão grandes as vagas , que não 
oufava algum dos mareantes de fe lançar a 
nado : com tudo movidos d'algumas pala- 
vras, com que Palaçano quiz envergonhar 
doze homens mancebos, que fabiam nadar, 
levando fomente armas offeníivas , puzeram 
o peito á agua. Tomada a praia per cami- 
nho , começaram de a feguir té irem dar 
com doze Mouros , que caminhavam per 
ella , dos quaes tomaram nove , com que 
fe tornaram recolher ao navio. E parece 
que o tempo os eftava efperando que fe re- 
colheífem , porque fobre aquelle grande pra- 
zer da preza que trouxeram , fobreveio tan- 
to tempo fupitamente , que abrio a fufta de 
Palaçano , e a grande dita fe falvou toda 
a gente em o navio de Diniz Fernandes , o 
qual com a fúria do temporal correo ao 

Ca- í 



Década L Liv. I. Cap. XIII. 117 

Cabo Verde , onde não fez mais que haver 
viíta dos negros , que defendiam a praia 
com frechas d'herva ; e com outra mudança 
que fez o tempo tornou ao lugar onde 
perdeo a fuila , de que ainda acharam o caf- 
co, que os Mouros nao quizeram desfazer 
com propofito que feria anagaça aos noífos , 
quando alli tornaífem : como houvera de 
íer , fenao fahíram com boa vigia 5 porque 
detrás de huns medaos eítavam lançados obra 
de fetenta Mouros em filada > os quaes não 
fizeram mais que receberem damno 5 pere- 
cendo a maior parte delles , e os outros que 
fe falváram haviam de ter que curan Aca- 
bado eíte feito , com que Diniz Fernandes , 
ePalaçano na honra delle recobraram a per- 
da da fuíla que lhe alli ficou , e da pouca 
fazenda que tinham havido per toda aquel- 
la coíh , fizeram-fe á vela 5 paíTando pela 
ponta de Lyra , onde fomente tomaram dous 
Mouros a coifo , por andarem já tão teme- 
rofos do ferro dos noífos , que tomavam os 
pés por armas de fua falvaçao : e daqui fe 
fizeram na volta deite Reyno , onde chega- 
ram a falvamento , e nelles fe acabaram de 
recolher todalas caravelas , que aquelle an- 
no partiram defte Reyno , de que fomente 

! fe perdeo a fuíla de Palaçano , como diífe- 

! mos* 

CA- 



lio ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO XIV. 

Como Nuno Trijlão , e dezoito homens* 
foram mortos com herva das frechadas , que 
houveram em huma peleja com os negros 
em hum rio de Guiné , em que entraram : 
e como pajfou Álvaro Fernandes além do 
Cabo Verde cem léguas : e do que também 
aconteceo a finco caravelas > que foram a 
efie defcubriynento. 

OAnno de quatrocentos e quarenta c féis 
tornou Nuno Triftão cm huma cara- 
vela per mandado do Infante a defeubrir 
mais cofta , alem do que Álvaro Fernandes 
leixava defeuberto , que foi té o Cabo dos 
Mattos ; e como era diligente neftas coufas , 
paíTou além do Cabo Verde obra de feífen- 
ta e tantas léguas , té chegar onde ora cha- 
mam o rio Grande ; e furto o navio na bo- 
ca delle , metteo-íe no batel com vinte e dous 
homens , com tenção de entrar pelo rio aô 
íima defeubrir alguma povoação , por ter 
huma grande entrada ; a qual entrada fez 
a tempo que a maré fubia tão teza pêra den- 
tro , que em breve efpaço os affaftou da bar 
ra hum bom pedaço , té irem dar em mei 
de treze almadias , em que haveria té 
tenta negros 3 homens valentes 5 e que fe eí 
colheram pêra aquelle feito , como quer 

"ti- 



Década L Liv. L Cap. XIV- 119 

tinha primeiro viíto o poufo do noflb na- 
vio , c depois á entrada do batel pelo rio. 
Nuno Trilião quando vio as almadias jun- 
tas , e com ília chegada íe apartarem humas 
pêra huma parte 3 e outras pêra outra , pa- 
receo-lhe que de gente barbara c não cof- 
tumada a ver aquella maneira de homens 
fugiam pêra terra , porque os negros mof- 
travam que fe queriam acolher a ella. Peró 
como viram o noffo batel em meio delies ? 
de maneira que huns ficavam abaixo , e ou- 
tros aílima , remetteram á força de remo 
todos com huma grande grita 9 e lançaram 
fobre elle huma chuva de frechas , affi re- 
partidos 5 e adeftrados pêra eíle modo de 
peleja , que quando o noflb batel remava 
contra huns , acudiam da outra parte ou- 
tros , andando ás voltas com elle da manei- 
ra que fe hão os genetes com a gente der- 
mas. E como as frechas eram hervadas , e 
a fúria da peleja lhes accendia mais o fa li- 
gue ? começaram alguns dos noffos embar- 
bafcar, e cahir, que caufou tornar-fe Nu- 
no Triílão ao navio a tempo que defcia a 
maré. Mas pouco lhe aproveitou eíla ajuda 
delia 5 porque affi tinha lavrado a herva > 
que primeiro que chegaílem ao navio > hiam 
a maior parte delies mortos , o que Nuno 
Tiiftao fentio tanto , que entre dor 5 e pe- 
çonha também os acompanhou na morte ; 

os 



120 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

os quacs mortos foram João Corrêa , Duar- 
te (POlanda , Eflevao d' Almeida , Diogo 
Machado , todos homens de fangue , e que 
de moços íe creáram na camará do Infan- 
te , e afli outros eícudeircs, e homens de 
pé de ília creação , que com os mareantes 
podiam fer dezenove peflbas. E ainda pêra 
maior defaventura , de íete que ficavam , 
dous entrando em o navio per cajão huma 
ancora os ferio de maneira , que acompa- 
nharam na morte aos outros. Alguns di- 
zem , que efte cafo aconteceo em o rio , a 
que ora chamamos de Nuno , que he além 
do rio Grande vinte léguas , c que deita 
morte de Nuno Triftão lhe ficou o nome, 
que ora tem de Nuno. E o que neíte cafo 
fe pode haver por mais maravilhofo , he , 
que cortadas as amarras , por nao haver quem 
as levaíTe , não ficando cm o navio mais 
que hum moço da camará do Infante , cha- 
mado Aires Tinoco natural de Olivença, 
que viera por Efcrivão com quatro moços , 
per eípaço de dous mezes , afli os ajudou 
Deos em governar o navio , que o trouxe- 
ram a Lagos , não tendo nenhum delles fa* 
ber pêra iífo. O Infante , porque a eíle tem- 
po cftava nâquelía Villa , quando lbube par- 1 
te de tão defaventurado cafo , ficou mui 
trifte , porque a maior parte dos mortos 
creára de pequenos, e era Príncipe mui ma-; 

vic- 



Década I. Liv. I. Cap. XIV. 121 

viofo pêra os criados. Mas como em ou- 
tra coufa lhes não podia aproveitar , mof- 
trou o amor que lhes tinha em o amparo 
dos filhos, e mulheres daquelles que as ti- 
nham. E de quão defaítrado aquecimento 
foi efte de Nuno Triítão , tão profpero acon- 
teceo a Álvaro Fernandes , Íobrinho de João 
Gonçalves Capitão da Ilha da Madeira, 
o qual neíte mefmo anno tornou outra vez 
a Guiné , paliando deíla viagem mais de 
cem léguas além do Cabo Verde. E a pri- 
meira coufa que fez, foi dar em huma al- 
deã, o fenhor da qual matou per fuás pró- 
prias mãos , por elle como homem animofo 
vir ante os feus commetter os noffos , cuja 
morte aíli os efpantou , que tomaram por 
faivação os pés , os quaes como eram li- 
geiros , e defpejados de roupa , não houve 
algum dos noíTos , que fe atreveííe aos al- 
cançar, nem menos fe quizeram mettcr no 
mato , onde fe embrenharam , e tornando- 
fe ao navio , tomaram duas negras , que an- 
davam marifcando. Álvaro Fernandes co- 
mo fe queria aventajar dos outros defcu- 
bridores , paíTou mais avante, té chegar á 
boca de hum rio , a que ora chamam Ta- 
bite , que fera além do rio do Nuno trinta 
e duas léguas , onde o logo finco almadias 
vieram receber. E porque o cafo de Nuno 
Triítão os fazia temer eíías entradas dos rios , 

não 



122 ÁSIA de JoÃo de Barros 

não fe quiz metter em lugar eftreito * e com 
tudo não fe pode livrar de perigo , porque 
huma das almadias confiada em fua ligeire- 
za tanto fe chegou ao batel, té que fizeram 
feu emprego de fetas em a própria peílba 
de Álvaro Fernandes ; o qual como já de 
cá hia provido pcra cila herva , de que os 
negros alli ufavam , a poder de triaga , 6 
d'outras mezinhas efcapou da morte, e aíli 
maltratado , como era homem de animo , 
paífou mais avante té huma ponta de aréa , 
onde quizera fahir , vendo a terra efcampa- 
da , e defcuberta pêra iíTo ; mas obra de 
cento e vinte negros , que lhe fahíram ao 
encontro, lha defenderam com muita frecha- 
da toda com herva. E porque o Infante en- 
commendava muito aos Capitães , que não 
rompeflem guerra com os moradores da 
terra que deícubriíTem , fenão mui forçados , 
e ifto depois de lhes fazer fuás amoeílaçoes , 
e requerimentos da fé , paz , e amizade ; 
vendo Álvaro Fernandes que a fua fahida , 
íègundo fe os negros difpunham , e davam 
pouco pelos iinaes de paz , não podia fer 
íèm cuftar a vida d 5 algum dos noíTos , não 
os quiz aventurar á peçonha , de que elle 
já tinha experiência , e contentou-fe com ter 
defcuberío mais terra , que quantos Capitães 
té então tinham ido áquellas partes \ com a 
qual determinação partio pêra efte Reyno, 

on- 



Década I. Liv. I. Cap. XI V: 123 

onde foi recebido do Infante D. Henrique 
com muita honra , e afli do Infante D. Pe- 
dro feu irmão , que então era Regente , ca- 
da ]ium dos quaes lhe fez mercê de cem 
cruzados. Efías mercês , e honras animavam 
mais aos homens a feguir efte defeubrimen- 
to 3 do que os mettia em temor o cafo de 
Nuno Triítão , de maneira , que neíle mef- 
mo anno fe armaram dez caravelas , de que 
eítes eram os Capitães , Gilianes cavalleiro 
morador em Lagos , Fernão Valarinho ho- 
mem mui experimentado nas coufas da guer- 
ra , principalmente em Cepta , onde elle fez 
honrados feitos ; Eílevão Afonfo , Louren- 
ço Dias , e João Fernandes Piloto , tedos 
homens mui honrados , e os mais delíes 
criados do. Infante, com os quaes hia tam- 
bém huma caravela do Bifpo do Algarve, 
e outras três dos moradores de Lagos ; os 
quaes juntos em huma eonferva per manda- 
do do Infante paliaram pela Ilha da Ma- 
deira pêra tomar algum mantimento , e tam- 
bém porque com elles fe haviam d 5 ajuntar 
duas caravelas mais , huma de Triítão Vaz 
Capitão de Machico , e outra de Garcia 
Homem genro de João Gonçalves Capi- 
tão do Funchal. E daqui da Ilha foram to- 
dos á Gomeira a levar os Canareos , que 
atrás diíTemos , que João de Cartilha , e os 
outros Capitães falteáram , os quaes hiam 

em 



1^4 ASIÀ de João de Barros 

em os navios de Lagos per mandado do 
Infante mui contentes , e fatisfeitos das mer- 
cês , e dadivas que lhe deo. Com ajuda dos 
quaes quizeram os noííòs fazer huma entra- 
da na Ilha da Palma , e por ferem fentidos 
nao lhes fuccedeo a fahida como cuidaram , 
que foi caufa de os Capitães das caravelas 
da Ilha da Madeira fe tornarem dalli , por- 
que parece íêrem fomente vindos a cite fei- 
to da Ilha da Palma , e os outros fizeram 
ília derrota caminho do Cabo Verde. Na 
qual parte por razão da terra fer mui apau- 
lada , e cheia de arvoredo no modo de pe- 
leja , ajudavam-fc dos negros tão mal 5 que 
fempre recebiam mais damno delles do que 
lhe faziam ,, como lhes aconteceo eíla vez, 
perdendo finco homens , que morreram ás 
frechadas por caufa da herva de que ufa- 
vam , e aíli perderam em hum banco d'a- 
rêa a caravela do Bifpo do Algarve. E por- 
que fempre dos Mouros levavam mais vi- 
toria que deíles negros , tornáram-fe a Ar- 
guim , e no cabo do refgate em huma al- 
deã tomaram quarenta e oito almas ; e co- 
mo de caminho , ( vindo-fe os outros pêra 
o Reyno , ) paífou Eílevao Afonfo peia Ilha 
da Palma , onde tomou duas mulheres, que 
houveram de euftar a vida de quantos fahí- 
rain em terra , íènao fora pelo esforço de 
Diogo Gonçalves j o qual vendo que hum 

lio- 



Dbg. I. Liv. I. Ca?. XIV. e XV. 12? 

homem de pé fe embarcava com huma bei 1 
ta que tinha , tomou-lha das mãos , e afli 
íe ajudou delia , que derribou fete Cana- 
reos , entre os quaes foi hum Rey y que por 
iníignias de feu eftado real trazia hum ra- 
mo de palma na mão. E aprouve a Deos 
que defta feita , ficando eile morto com fita 
palma , os nofíòs levaram a vitoria , porque 
com a morte delle todolos feus fe puzcram 
em fugida , e os noflbs em falvo em Por- 
tugal. 

CAPITULO XV. 

Como o Infante mandou Gomes Pires 
ao rio do Ouro > onde cativou oitenta al- 
mas : e ajji mandou a Diogo Gil ajjentar 
trato em Meca , e Antão Gonçalves ao mef- 
mo rio do Ouro : e como veio a efle Rey no 
hum gentil-homem da Cafa delRcy de Di- 
namarca , com defejo de ver as coufas de 
Guiné j e o Infante o mandou em hum na- 
vio , e lá pereceo. 

COmo vimos atrás, os Mouros, que no 
rio do Ouro deram as pelles dos lo* 
bos marinhos a Gomes Pires , promettêram- 
ihe de fazer com elle refgare de ouro , e 
efcravós , fe lá tornaffe. O Infante , porque 
•o tempo deita promefla era chegado , man- 
dou-lhe armar dous navios , com os quaes 
chegando ao rio 5 achou que a verdade dos 

Mou- 



I2Ó ÁSIA de João de Barros 

Mouros era conforme a ília Sefta 5 porque 
em lugar de paz , e refgate que tinham 
promettido , armavam muitas traições , que 
caufou tomar Gomes Pires emenda delles , 
per oitenta almas que cativou , com que íe 
veio pêra o Reyno no meímo anno de qua- 
trocentos e quarenta e fete , em que delíe 
partio ; e no feguintc mandou o Infante a 
hum Diogo Gil , homem de mui bom fa- 
ber, que fofle aíTentar trato com os Mou- 
ros de Meça , que he doze léguas além do 
Cabo de Gue , e féis áquem do Cabo de 
Nam 5 tao pouco tempo havia tão tcmerofo 
na opinião dos mareantes , e ifto porque os 
Mouros do rio do Ouro eram alevantados , 
e tinha por informação que cites de Meça 
defejavam nolía paz, e commercio j e pêra 
fe ifto melhor fazer , dos Mouros que eram 
vindos daquellas partes , houve alguns da 
Comarca de Meça , que promettiam por íl 
huma boa fomma de negros ; em compa- 
nhia do qual foi João Fernandes , o que fi- 
cou entre os Mouros na terra de Arguim , 
per meio do qual , tendo já Diogo Gil res- 
gatados íincoenta negros per dezoito Mou- 
ros que levou , de fubito fobreveio tama- 
nho vento travefsão na cofta , que fe fez á 
vela , ficando João Fernandes em terra , e 
trouxeram hum Lião ao Infante , o qual el- 
le mandou a hum Fidalgo Inglez grande 

íèu 



Década I. Liv. I. Cap. XV. 127 

feu fervidor, que vivia em Galveu. Corno 
a fama deites navios, que deícubríram no- 
vas regiões , e povos , corria per toda a 
Chriftandade , foi ter á Corte delRey de 
Dinamarca , em cafa do qual andava hum 
homem Fidalgo per nome Balarte , mui cu- 
riofo de coufas novas , e defejando de fe 
experimentar em as deite defcubrimento , ha- 
vendo licença delRey de Dinamarca , veio 
ter a efte Reyno encommendado ao Infan- 
te D. Henrique. A requerimento do qual 
Balarte o Infante lhe mandou armar hum 
navio 5 e pelo mais honrar, mandou com 
elle hum Cavalleiro da Ordem de Chriíto , 
a que chamavam Fernão d 5 Afonfo , o qual 
hia em modo de Embaixador ao Rey do 
Cabo Verde y levando dous negros por lín- 
gua 5 per meio dos quaes o Infante lhe man- 
dava que trabalhafle por converter aquella 
gente pagã. Balarte , como era defejofo de 
ver a coita que os noííòs tinham defcuber- 
ta por fer povoada de Mouros , e negros , 
pedio a Fernão d'Afonfo que fizeflem fua 
viagem ao longo delia ; e aífi a efta caufa x 
como pelos tempos lhes ferem contrários , 
do dia que partiram té chegar ao Cabo Ver- 
de puzeram féis mezes. Os negros da ter- 
ra por já ferem coítumados ver os noífos 
navios, tinham olho no mar, como quem 
fe vigiava j e havendo yifta deite ? vieram a 

ei- 



128 ÁSIA DE JOÃO DE BáRROS 

elle cm fuás almadias com mão armada , e 
tenção de fazer algum damno fe pudeífem. 
Mas quando acharam as línguas que lhes 
fallãram , per as quaes fouberam o funda- 
mento a que o Infante mandava o navio, 
e que vinha neíle Embaixador , e algumas 
coufas pêra o feu Rey ? ficaram com ani- 
mo menos indignado , reípondendo a pro- 
pofito , de maneira que foram levar recado 
ao Regedor da terra , por o Rey íer den- 
tro oito jornadas em huma guerra que ti- 
nha. Sabido eíle recado por o Governador 
da terra , a que elles chamam Farim , veio 
á praia mui acompanhado , onde Fernão 
d'Afonfo , e Balarte aiTentáram paz , e fe 
deram reféns , em quanto elle enviava reca- 
do a EIRey da chegada dos nolfos. Da fua 
parte fe deo hum dos honrados da terra, 
e da noíTa hum dos línguas , com que en- 
tre todos começou haver commercio* cen- 
tre as coufas , que fe houveram dos negros , 
foram huns dentes de elefante , que alvoro- 
çaram tanto a Balarte , que tratou com os 
negros fe podia ver hum elefante vivo , e 
quando não , que lhe trouxeíle a pelle , ou 
oflada d'algum , promettendo por iífo gran- 
de premio. Os negros , como lhe promet- 
■têram preço , diíferam , que logo lhe trariam 
hum elefante ao lugar onde o viíTe, e tor- 
nados dahi a três días J vieram chamar Ba- 
lar- 



Década I. Liv* I. Ca?. XV. 129 

Iarte , dizendo trazerem o que lhe tinham 
promettido. Balarte entrado no batel do na- 
vio fomente com os marinheiros que o re- 
mavam , chegou á terra ; e fobre tomar 
liuma cabaça de vinho de palma , que hum 
Negro dava a hum marinheiro , debruçou-fe 
tanto no bordo do batel , que cahio o ma- 
rinheiro ao mar \ e na preiTa de recolher o 
marinheiro , defcuidáram-fe do batel de 
maneira , que deram as ondas com elle em 
terra por o mar andar hum pouco empo- 
lado. Os Negros vendo que os noíTos não 
podiam fer lòccorridos do navio , deram 
fobrelles, dos quaes não efcapou mais que 
hum que fabia nadar , o qual deo razão def- 
te cafo 3 e que vindo nadando olhara pêra 
trás , e vira eftar Balarte em a popa do ba- 
tel pelejando como homem esforçado. Per 
efta maneira acabou eíle gentil homem com 
defejo de ganhar honra fora de faa pátria': 
tão remontado anda o defejo dos homens 3 
que fendo efte Balarte nafcido em Dina- 
marca , veio bufcar per própria vontade lua 
lepultura em Guiné , terra a ella tão con- 
traria em todalas coufas. Com a morte do 
qual , ( que todos muito fentíram , affi por 
fua peífoa , que o merecia , como por ir 
acompanhada de tantos ) , Fernão d'Afoníò 
fe tornou pêra o Reyno 5 ficando os Negros 
110 próprio eílado em que d ? ante eftavam^ 
Tom. L I fem 



130 ÁSIA de João de Barros 

fem os noíTos com elles poderem ter algu- 
ma prática , porque pela maldade que ti- 
nham feito nunca mais vieram almadias ao 
navio , nem os noíTos puderam ir a terra 
por caufa do batel que tinham perdido. E 
porque nefte anno EIRey D. Afonfo , fo- 
brinho defte Infante , fahio da tutoria do 
Infante D. Pedro feu tio , e houve inteira- 
mente poífe do governo de feus Reynos em 
idade de dezeíète annos , pofto que o Infan- 
te viveo té o anno de quatrocentos feífen- 
ta e três ? fempre profeguindo neíle defeu- 
brimento , entraremos com o novo Rey em 
os feitos , que em leu tempo paífáram , pois 
já em feu nome o mefmo negocio proce- 
dia. Peró ante que faiamos deites fundamen- 
tos da noíTa Afia., aos quaes podemos cha- 
mar trabalhos , e induftrias defte Infante , e 
pofto que em as Chronicas do Reyno fel 
pode ver parte dos feus feitos , aqui, co-j 
mo em lugar mais próprio , trataremos par- j 
ticularmente delle. 



CA^ 



Década I. Livro I. 131 

CAPITULO XVI. 

Das feições da peffba do Infante D. Hen- 
rique : e dos coftumes , que teve em to- 
do o decurfo de fua vida. 

ESte excellente Príncipe foi filho tercei- 
ro delRey D. João o primeiro de glo- 
| riofa memoria , e da Raynha Dona Filip- 
! pa fua mulher , filha do Duque João d\Alem 
| Caftro , e irmã delRey D. Henrique o Quar- 
! to de Inglaterra. Ecomo da excellencia do 
| fangue pela maior parte procedem todalas 
inclinações da pefíba , podemos crer que fo- 
j bre efte fundamento Deos edificou nelle as 
I outras da alma , que em quanto viveo mof- 
! trou em fuás obras. Dizem que a eílatura 
! de feu corpo era de compafíada medida , e 
I de largos, e fortes membros , acompanha- 
dos de carne , a cor do qual era branca , e 
j corada 5 em que bem moítrava a boa com- 
i pleiçao dos humores. Tinha os cabellos al- 
I gum tanto alevantados , e o acatamento , á 
; primeira vifta , (por a gravidade de fua pe£ 
foa , ) hum pouco temerofo a quem delle 
não tinha conhecimento ; e quando era pro- 
vocado a ira , moftrava huma vifta efquiva y 
e ifto poucas vezes , porque na maior força 
de qualquer defprazer que lhe fizeííem 5 ef- 
tas eram as mais efcandalofas palavras que 
I ii di- 



132 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

dizia : Dou-vos a Deos , fejais de boa ven- 
tura. A continência do ícu vulto era aflò- 
cegada , a palavra manca , e confiante no 
que dizia 9 e fempre eram caftas , e -honcf- 
tas ; e efta religião de honeftidade guardou 
não fomente em as obras , mas ainda nos 
veftidos , trajos de fua peíTos , e ferviço de 
cafa. Todas eftas coufas procediam da lim- 
peza de fua alma , porque fe crê que foi 
virgem. Em feus trabalhos , e paixões era 
mui foffrido , e fenhor de fi, e cm ambas 
as fortunas humildofo , e tão benigno em 
perdoar erros , que lhe foi tachado. Teve 
grande memoria , e coníclho acerca dos ne- 
gócios 5 e muita authoridade pêra os gra- 
ves 9 e de muito pezo. Foi magnífico em 
defpender, e edificar, e folgava de provar 
novas experiências em proveito commum, 
ainda que foífe com própria defpeza de fua 
fazenda. Foi mui amador da creação dos 
Fidalgos por os doítrinar em bons coftu- 
mes ; e tanto zelou efta creação , que fe po- 
de dizer fua cafa fer huma efeola de vir- 
tuofa nobreza , onde a maior parte da Fi- 
dalguia defteReyno fe creou, aos quaes el- 
le liberalmente mantinha , e fatisfazia de feus 
ferviços. E era aíH confiado da creação , e 
peífoa de cada hum delles , que em feu te[- 
lamento , encommendando elle a EIRey 
D. Afonfo y e ao Infante D. Fernando , que 

el- i 



Década I. Llv. I. Gap. XVI. 133 

dle adoptou per filho , que lhes aprouveflb 
que feus criados houveífem as tenças , e con- 
tias - que tinham delle , diffe , que lhes pen- 
dia que recebeífem feu ferviço como de 
criados , porque a Deos louvores taes eram 
elles $ que haveriam por bem empregada to- 
da a mercê que lhes fizeffem. E dado que 
em a honeítidade de feu trajo \ palavras > 
jejuns , rezar de Officio Divino , e inftitutos 
de fua Capella toda a fua vida pareceo hu- 
ma perfeita religião , não lhe faleceram pen- 
famentos de altas emprezas , e obras de ge- 
nerofo animo , quaes convém aos de Real 
langue. Parte das quaes fe viram, quando 
fe achou em Africa , principalmente na to- 
mada de Cepta 5 de que já tratámos na par- 
te de Africa 5 e aíll nefta empreza tão nova 
de defcubrir o que té o feu tempo citava 
encuberto. Em que não fomente encommen- 
dou as coufas ao bom fuccedimento delias , 
mas ainda teve nelle muita induftria , e pru- 
dência pêra confeguirem profpero fim ; por- 
que pêra eíle defcubrimento mandou vir da 
Ilha deMalhorca hum Meftre Jacome , ho- 
mem mui doílo na arte de navegar ? que 
fazia cartas, e inftrumentos , o qual lhe cuf- 
tou muito pelo trazer aefteReyno pêra en- 
finar fua fciencia aos officiaes Portuguezes 
daquelle meíter. E também pêra a Ilha da 
Madeira mandou vir de Cicilia canas d'a- 



134 ASIÀ de JoXo de Barros 

cucar , que fe nella plantaflem , e mcílrcs 
deite lavor , moftrando em eftas, e outras 
coufas, que commctteo de bem commum , 
ter no coração plantada a vontade de bem 
fazer , como elle trazia per motto de fua di- 
vifa neílas palavras Francezas : Talent de 
Bien faire ; pois acerca das letras , não tra- 
tando das fagradas , que elle per devoção , 
e veneração muito amava , acerca das hu- 
manas era mui eftudiofo , principalmente na 
fciencia da Cofmografia , decujofrufto tem 
ora efte Reyno o fenhorio de Guiné, com 
todolos mais titulos , que depois fe acere f- 
centáram á fua Coroa. E não fomente aqui 
leixou efte teftemunho do amor, e inclina- 
ção , que tinha ás letras , mas ainda na li- 
beralidade , de que ufou com os cftudos de 
Lisboa 5 dando fuás próprias cafas pêra el- 
les } com outras coufas , cuja memoria lèm-? 
pre nelles he celebrada em o princípio de 
cada hum anno , paífadas as vacações delle. 
Leixou em fua vida defeuberto do Cabo 
Bojador , que eftá em trinta e fete gráos 
d'altura da parte do Norte, té aferraLioa, 
que eftá em fete, edous terços, que fazem 
de cofta trezentas e fetenta léguas, da qm' 
ferra o derradeiro defeubridor foi hum Pe 
dro de Cintra Cavalíeiro de fua cafa. 
pofto que nos princípios defte defeubrimer 
to houve grandes difficuldades , e foi mi 

mur- 



Década I. Liv. I. Cap. XVI. 135" 

murmurado , como atrás diflemos , teve tan- 
ta conílancia , e fé na efperança \ que lhe o 
feu efpirito favorecido de Deos promettia , 
que nunca deíiftio deite defcubriinento , (era 
quanto pode , ) per efpaço de quarenta an- 
nos. Começando em o de quatrocentos e 
vinte 5 ( não contando os atrás , que foram 
fem fruéto 5 ) em que a Ilha da Madeira foi 
deícuberta , té treze de Novembro de qua- 
trocentos feíTenta e três , que em Sagres fa- 
leceo , íèndo de feíTenta e fete de lua ida- 
de. E foi fepultado em a Villa de Lagos , 
e dahi paíTado ao Mofteiro de Sandia Ma- 
ria da Viéloria , a que chamam a Batalha , 
na Capella delRey feu Padre ; o qual In- 
fante ? e Príncipe de grandes emprezas , fe- 
gundo fuás obras , e vida , devemos crer 
que eftá em o Paraifo entre os eleitos de 
Deos. 



DE- 



DÉCADA PRIMEIRA. 
LIVRO II. 

Dos feitos j que os Portuguczes fizeram 
no defcubrimento , e conquifta dos 
mares, e terras do Oriente : em 
que fe contém o que fe acha fer 
feito em tempo delRey Dom 
Áfonfo o Quinto defte no- 
me em Portugal. 

CAPITULO L 

Como EIRey D. Afonfo o Quinto àejle 
nome houve pojjè da governança defte Rey- 
110 , por fahir da tutoria em que eftava\ 
peró que o Infante D. Henrique em quan* 
to viveo profeguio nefte defcubrimento , con* 
ti nu amos a hiftoria com EIRey , e não com 
elle : e das caufas que houve , porque não 
efcrevemos mais feitos do tempo defte Rey. 

COmo EIRey D. Afonfo fahio da tu- 
toria cm que eftava por íua tenra 
idade , e começou governar, fendo de 
dezefete annos , logo mandou alguns navios 
a efte defcubrimento. Poíto que o Infante 
per fua parte também nelle profeguiffe , e 
EIRey em Santarém a dous de Setembro 

de 



Década L Liv. II. Cap. I. 137 

de quatrocentos quarenta e oito lhe pafiaJP- 
fe Carta, que nenhuma pefíba pudeffe def- 
cubrir do Cabo Bojador em diante : e aíli 
houvefle , em quanto foffe fua mercê , o 
quinto , e dizimo de tudo o que as partes 
de lá trouxeíTem , da qual doação o Infan- 
te ufou em quanto viveo. Mas como logo 
no princípio que EIRey começou gover- 
nar, antrelle, e o Infante D. Pedro feu tio, 
que fora Regente deites Reynos , houve a 
difFerença , que na parte de Europa relata- 
mos , e afíi idas de Africa , e Caílella , que 
quaíi occupáram a vida delRey , eauíòu 
não levar o fio defte defcubrimento tão con- 
tinuado , como no tempo do Infante D. Hen- 
rique foi ; de efcrevcr os quaes feitos teve 
cuidado Gomezeanes de Zurárai Chronifta 
deíles Pveynos , homem neíle mfter da his- 
toria aíTás diligente , e que bem mereceo o 
nome do officio que teve ; porque fe algu- 
ma coufa ha bem efcrita das Chronicas def- 
te Reyno he da fua mão 5 aíli dos tempos , 
em que elíe concorreo , como d'alguns atrás , 
de coufas de que não havia efcritura : e eftas 
que ellc eícreveo defte defcubrimento do 
tempo do Infante D, Henrique , (íègundo el- 
le diz , ) já as recebeo de hum Àfoníb Cer- 
veira , que foi o primeiro que as poz em 
ordem, do qual Afoníb Cerveira nós achá- 
mos algumas cartas efcritas em Beny , citan- 
do 



138 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

do elle alli feiturizando por parte delRey 
D. Afonfo. E poílo que tudo , ou a maior 
parte do que té qui efcrevcmos , feja tira- 
do da eícritura de Gomezeanes 5 e alli def- 
te Afonfo Cerveira , não foi pequeno o tra- 
balho que tivemos em ajuntar coufas derra- 
madas 5 e per papeis rotos , e fora da or- 
dem j que elle Gomezeanes levou no pro- 
ceífo deixe defcubrimento. As coufas do tem- 
po delRey D. Afonfo, como elle promet- 
teo , não as achámos , parece que teria a 
vontade , e não o tempo ; ou fe as cfcre- 
veo , lerão perdidas , como outras efcritu- 
ras , que o tempo confumio. Por tanto o 
que efcrevemos do tempo delRey D. Afon- 
Jò não são mais que algumas lembranças , 
que achámos no Tombo , e nos livros da 
íua fazenda , fem aquella ordem de annos 
que íeguimos atrás , fomente huns fragmen- 
tos deite defcubrimento. Nas quaes lembran- 
ças achámos , que no anno de quatrocentos 
quarenta e nove deo EIRey licença ao In- 
fante D. Henrique , que pudeífe mandar 
povoar as fete Ilhas dos Açores , as quaes 
já naquelíe tempo eram defcubertas , e nel- 
las lançado algum gado per mandado do 
mefmo Infante , per hum. Gonçalo velho 
Commendador de Aímourol junto da Villa 
de Tancos. E no anno de quatrocentos íin- 
coenta e fete fez EIRey mercê ao Infante 

D. 



Década I. Liv. TL Cap. I. 139 

D. Fernando feu irmão de todalas Ilhas , 
que té então eram defcubertas , com jurif- 
dicção deCivel, e Crime, e com certas li- 
mitações. E no de quatrocentos e feffenta 
fez o Infante D. Henrique doação ao In- 
fante D. Fernando feu fobrinho , e filho ado- 
ptivo deitas duas Ilhas , Jefus , e Graciofa , 
refervando fomente pêra fi a efpiritualidade , 
que era da Ordem de Chrifto , que elle go- 
vernava, a qual doação confirmou EIRey 
em Lisboa a dous de Setembro do mefmo 
anno. E em o feguint£ de quatrocentos fef- 
fenta e hum , porque ás Ilhas de Arguim 
concorria refgate de ouro , e negros de Gui- 
né , mandou EIRey fazer o Caftello de Ar- 
guim , que hoje eftá em pé , per Soeiro Men- 
des Fidalgo de fua Gafa , morador em Évo- 
ra , ao qual deo a Alcaidaria mor pêra íi , 
e pêra feus filhos. Neíle mefmo tempo achá- 
mos também que fe defcubríram as Ilhas , 
a que ora chamamos do Cabo Verde , per 
hum António de Nóile Genovez de nação , 
e homem nobre , que per alguns defgoííos 
da pátria veio a eíleReyno com duas náos r 
e hum berineí , em companhia do qual vi- 
nha hum Bartholomeu de Nólle feu irmão , 
e Rafael de Nólle feu fobrinho , aos quaes 
o Infante deo licença que foflem defcubrir; 
e do dia que partiram da Cidade de Lis- 
boa a dezefeis dias foram ter á Ilha de 

Maio , 



140 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

Maio , á qual puzeram efte nome , porque 
a viram em tal dia ; e no feguinte , que era 
de Sant-Iago , e S. Filippe , defcubríram 
duas , que tem ora o nome deftes Sanftos , 
no qual tempo eram também idos ao def- 
cubrimento delias huns criados do Infante 
D. Fernando , os quaes defcubríram as ou- 
tras ? que per todas são dez , chamadas per 
commum nome Ilhas do Cabo Verde , por 
eítarem ao Ponente delle per diílancia de 
cem léguas , e per os antigos Geógrafos as 
Fortunadas , de que em a nofía Geografia 
falíamos largamente , das quaes EIRey fez 
doação ao Infante D. Fernando feu irmão 
em dezenove de Setembro do anno de mil 
e quatrocentos feflenta e dous ; c a primei- 
ra que fe povoou foi a chamada Sant-Iago 
per o mefmo Infante D. Fernando j a quem 
EIRey deo as liberdades , que ora tem , per 
Carta feita a doze de Junho de quatrocen- 
tos feflenta e féis. Mas depois, porque os 
moradores ufavam deílas primeiras liberda- 
des , acerca de tratar em Guiné ; com mais 
licença do que a vontade delRey queria , 
per outra Carta lhe deo a limitação delias , 
conforme a tenção que teve quando lhe 
fez a primeira mercê. 



CA- 



Década I. Livro II. 141 

CAPITULO II. 

ComoElRey arrendou orefgate de Gui- 
né a Fernão Gomes per tempo de finco an- 
nos , com obrigação que nefte tempo havia 
de defcubrir quinhentas léguas de cofta : 
e porque defcubrio o refgate do ouro da 
Mina , foi dado a Fernão Gomes appellido 
da Mina com Armas defta nobreza. 

AEÍle tempo o negocio de Guiné an- 
dava já mui corrente entre os noííos , 
e os moradores daquellas partes , e huns 
com os outros fe communicavam em as cou- 
fas do commercio com paz , e amor, fem 
aquellas entradas , e faltos de roubos de 
guerra , que no princípio houve. O que não 
pode fer d' outra maneira 5 principalmente 
acerca de gente tão agreíle , e barbara , aííl 
em lei, e coítumes , como no ufo das cou- 
ías deita noiTa Europa ; a qual gente em 
quanto não goítou delias , fempre fe mof- 
trou mui efquiva. Peró- depois que tiveram 
alguma noticia da verdade pelos benefícios, 
que recebiam , aíTi na alma , como no enten- 
dimento , e coufas pêra feus ufos , ficaram 
tão domeílicos , que não havia mais que 
partirem os navios deite Reyno , e chega- 
dos a feus portos , concorriam muitos povos 
do fertão ao commercio de noíTas mercado- 
rias , 



142 AS1A de João de Barros 

rias , que lhes davam a troco (Palmas y as 
quaes mais vinham receber falvação que ca- 
tiveiro. E andando aíli eítas coutas tão cor- 
rentes , e ordinárias em as partes de coibi 
já dcfcuberta , como EIRey pelos negócios 
do Reyno andava occupado , e não havia 
por feu ferviço per íi mandar grangear ef- 
ta propriedade do commercio , nem menos 
leixallo correr no modo que andava acerca 
do que as partes pagavam , por lhe fer com- 
mettido em Novembro do anno de mil e 
quatrocentos e feífenta e nove, o arrendou 
por tempo de íinco annos a Fernão Gomes , 
hum Cidadão honrado de Lisboa , por du- 
zentos mil reis cada anno. Com condição , 
que em cada hum deites finco annos foífe 
obrigado deícubrir pela coita em diante cem 
léguas de maneira , que no cabo de feu ar- 
rendamento déífe quinhentas léguas defcu- 
bertas ; o qual defcubrimento havia de co- 
meçar na ferra Lioa 5 onde acabaram Pêro 
de Cintra , e Soeiro da Coita , que foram 
ante deite arrendamento os derradeiros def- 
cubridores , porque depois eíte Soeiro da 
Coita defcubrio o Rio , a que ora chama- 
mos o de Soeiro , que eítá entre o Cabo 
das Palmas , e as três pontas , vizinho a ca- 
ía de Axem , onde fe faz a feitoria do ref- 
gate do ouro. E entre outras condições , que 
ie continham neíte contrato , era $ que todo 

o mar- 



Década I. Liv. II. Cap. TL 143 

o marfim havia de fer delRey a preço de 
mil e quinhentos reaes por quintal , e Ei- 
II ey o dava a outro maior preço a hum 
Martimannes Boaviage , por lhe fer obri- 
gado per outro contrato feito ante defte ? 
a todo o marfim que fe refgataífe em Gui- 
né. E por coufa mui eftimada naquelle tem- 
po tinha Fernão Gomes licença pêra poder 
reígatar em cada hum dos ditos finco ân- 
uos hum gato d'algalea , o qual contrato 
foi feito no anno de quatrocentos feílenta 
e nove , com limitação que não refgataíTe 
em a terra firme defronte das Ilhas do Ca- 
bo Verde por ficar pêra os moradores dei- 
las por ferem do Infante D. Fernando. Nem 
menos lhe foi concedido o refgate do Caí- 
tello de Arguim , por EIRey o ter dado ao 
Príncipe D. João feu filho em parte do aí- 
fentamento que delle tinha ; peró depois hou- 
ve*o mefmo Fernão Gomes do Príncipe ei- 
te refgate de Arguim por certos annos , por 
preço de cem mil reaes em cada hum del- 
les. E foi Fernão Gomes tão diligente, e 
ditofo em efte defcubrimento , e refgate del- 
le , que logo no Janeiro de quatrocentos 
fetenta e hum defcubrio o refgate do ouro , 
onde ora chamamos a Mina 3 per João de 
Santarém , e Pêro Efcovar, ambos Caval- 
Jeiros da Cafa delRey : e eram Pilotos Mar- 
tim Fernandes morador em Lisboa , e Al- 
va- 



144 ÁSIA de João dê Barros 

varo Eíteves morador em Lagos , o qual 
Álvaro Eíteves naquelle tempo foi o mais 
eftremado homem , que havia em Hefpa- 
n ha do feu officio. O primeiro refgate do 
ouro , que íe fez nefta terra , foi em huma 
aldeã chamada Sammá , que naquelle tem- 
po feria de quinhentos vizinhos ; e depois 
ie fez mais abaixo contra, onde ora eítá a 
fortaleza , que EIRey D. João mandou fa- 
zer , (como veremos em feu lugar , ) o qual 
lugar fe chama pelos noflòs Aldeã das duas 
partes. E não fomente defeubrio Fernão Go- 
mes cite refgate do ouro , mas chegaram os 
feus defeubridores pela obrigação do feu con- 
trato té o Cabo de Santa Catharina , que 
hc além do Cabo de Lopo Gonçalves trin- 
ta e fete léguas 3 e em dous gráos e meio 
d'altura da parte do Sul , no qual tempo 
ganhou Fernão Gomes mui groíTa fazenda , 
com que depois fervio EIRey , aíli em £e- 
pta , como na tomada de Alcácer , Arzila , 
e Tangere , onde EIRey o fez Cavalleiro. 
E no anno de quatrocentos fetenta e qua- 
tro , que foi o derradeiro de feu arrenda- 
mento , lhe deo nobreza de novas Armas , 
hum efeudo timbrado com o campo de pra- 
ta , e três cabeças de negros , cada hum com 
três arrieis d'ouro nas orelhas , e narizes, 
e hum collar d'ouro ao collo , e por ap- 
pellido da Mina 7 em memoria ao deícubri- 

men- 



Década L Liv. II. Cap. II. 14? 

mento delia ; e diíTo lhe paíTou Carta a vin- 
te e nove deAgoílo do dito anno. Depois 
pafíados quatro annos o fez do feu Confe- 
lho i porque já nefce tempo era o commer- 
cio de Guiné, e. reígate da Mina de tanto 
proveito , e ajudava tanto em fubítancia ao 
eílado do Reyno , pola boa induftria de 
Fernão Gomes , que aííi por efle ferviço , 
como por outros particulares de fua peflba , 
merecia toda a honra , e mercê que lhe fof- 
íè feita. Nefte tempo fe defcubrio também 
a Ilha Formofa per hum Fernão do Pó , 
a qual tem ora o nome de feu deícubridor , 
e perdeo o que lhe elle então poz. E o der- 
radeiro defcubridor em vida deite Rey Dom 
Afonfo , foi hum de Sequeira Cavalleiro de. 
fua Cafa , o qual defcubrio o Cabo , a que 
chamamos de Catharina ? nome , que lhe 
elle então poz polo defcubrir em o dia del- 
ta Santa. E não fomente nefte tempo por 
mandado delRey , depois que começou go- 
vernar , mas ainda per o mefmo Infante 
D. Henrique , que , como atrás vimos , vh 
veo té o anno de quatrocentos feíTenta e 
três 5 fempre houve conquiftas , e defcubri- 
mentos , aííi como da cofta 5 donde veio a 
primeira malagueta 5 que fe fez per o In- 
fante D.Henrique; da qual alguma que em 
Itália fe havia , antes deite defcubrimento , 
era per mãos dos Mouros deitas partes de 
Tom. L K Gui- 



146 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

Guiné , que atraveífavam a grande região de 
Mandinga , e os defertos da Libya , a que 
elles chamam Çahará , té aportarem em o 
mar Mediterrâneo em hum porto per elles 
chamado Mundi barca , e corruptamente 
Monte da Barca. E de lhe os Italianos não 
íaberem o lugar de feu nafeimento , por fer 
efpeciaria tão preciofa , lhe chamarão Gra- 
na paradiíi , que he nome , que tem entrel- 
les. Também íe deícubrio a Ilha de S. Tho- 
mé , Anno bom , e a do Príncipe per man- 
dado delRey D. Afonfo , e outros refga- 
íes , e Ilhas , das quaes não tratamos cm 
particular por não termos quando, e perque 
Capitães foram defeubertas ; porém fabemos 
na voz commura ferem mais coufas palia- 
das , e defeubertas no tempo deite Rey do 
que temos eferito : aíTi como huma Ilha , 
que ainda hoje per nós não he fabida , e foi 
achada no anno de quatrocentos trinta e oi- 
to annos ; e por não parecer eílranho o 
que digo, trarei hum teílemunho , em que 
entram muitas teílemunhas deita verdade, 
AtraveíTando o anno de quinhentos e vinte 
e íinco huma Armada de Caítella , da cof- j 
ta de Guiné pêra a coita do Brafíl , a qual | 
hia pêra as noífas Ilhas de Maluco , de que ; 
era Capitão mor Fr. Garcia de Loais , Com- 
mendador da Ordem de S. João , da qual 
viagem nós houvemos hum roteiro , conta 

o Au- 



Década L Liv. II. Cap. II. 147 

o Author delle humas razões ., que neíla pa- 
ragem houveram hum D. Rodrigo da Cu- 
nha , FidaJgo Andaluz , Capitão da náo 
Sant-Iago daquella Armada , e Sant-Iago 
Guevara Bifcainho , Capitão de huma patara 
í chamada também Sant-Iago. Ifto fobre com- 
1 petencia de quem levaria ante o Capitão mor 
íium navio Portuguez , a que ambos arri- 
baram y o qual vinha da Ilha de S. Thomé 
carregado de negros ; e de palavras vieram 
eíles Capitães ás bombardadas 5 e com tudo 
a caravela foi levada ante o Capitão mor, 
o qual teve prática com o Piloto pêra o le- 
var comíigo ; mas leixou de o fazer por ef- 
tar o navio em paragem , que carregaria fo- 
bre elle a morte de tantas almas , como nd- 
I la vinham , por lhe não ficar peffoa que as 
[ foubeíTe navegar pêra efte Reyno , na qual 
| determinação o trouxe hum dia comfigo em 
perguntas das coufas do mar, té que o e£- 
1 pedio fem lhe fazer damno algum : do qual 
| Piloto 5 (fegundo conta o Author do rotei- 
ro , ) fouberam como os Portuguezes eflavam 
em Maluco , onde tinham feito huma for- 
taleza ; c que feguindo clles fua viagem y 
fendo dous gráos da parte do Sul 3 adia- 
ram huma Ilha defpovoada de gente , cha- 
mada S. Mattheus , em que havia duas agua- 
das , huma muito boa , e outra não tal : e 
em duas arvores eíhva efcrito , que havia 
K ii oi- 



148 ÁSIA de João de Barros 

oitenta e fetc annos que nella eíliveram Por- 
tuguezes , e tinha maneira de fer já apro- 
veitada por haver nella muita fruta 5 efpe- 
ciaJmente laranjas doces , palmeiras 3 e gal- 
linhas , como as deitas partes de Hefpanha , 
de que mataram muitas á béfta , que anda- 1 
vam per fima do arvoredo. Conta mais 
outras coufas que acharam nella , de que 
fomente tomei cilas por teftemunho do que 
aíTima diflemos , terem os noíTos mais teryl 
ras defeubertas naquelle tempo , do que| 
achamos na eferitura de Gomezeanes de Zu- 
rara. E não he novidade achar-fe cila me- 
moria de eferitura em as arvores , porque! 
os noflbs naquelle tempo o coítumavam 
muito : e alguns por louvor do Infante Dom, 
Henrique efereviam o motto de liia divifa J| 
que como vimos atrás era Talent de Bien 
faire ; porque fomente eíla memoria eferi- 
ta na cafea dos dragoeiros haviam que baf- 
tava por poíTe do que defeubríram , e al-j 
gumas cruzes de páo. Depois , (como adiaivj 
te veremos , ) EIRey D. João o Segundo err( 
feu tempo mandou poer Padrões de pedr^ 
com letreiro , em que diz o tempo , e peí 
quem aquella terra foi defeuberta , e iílc 
bailava por poíTe real , e ao prefente aind; 
as fortalezas feitas na própria terra não baf 
tam , porque veio a cubica dos homens i 
inventar leis conformes a ella. E como toí 

do- 



Década L Liv. II. Cap. II. 149 

dolos principaes a maior parte da vida gai- 
taram nas obras de fua inclinação , veio El- 
Rey D. Afonfo a fe deícuidar das coufas 
deite deícubrimento , e celebrar muito as da 
guerra de Africa com a tomada das Villas 
de Alcácer 5 e Arzilla , e Cidade de Tan- 
gere , (iegundo contamos em a nofla Africa ,) 
as vezes que lá paliou em peffoa : na qual 
guerra de Africa teve tanto contentamento y 
por as boas venturas que nelle houve , que 
emprendeo , (fe lhe os negócios do governo 
do Reyno deram lugar , ) ir tomar per fua 
peffoa a Cidade de Fez , e todo feu Rey- 
no , pêra que tinha ordenado huma Ordem 
chamada da Efpada. E aíli mandou a Go- 
mezeanes de Zurara feu Chronifta mor á 
Vilía de Alcácer Ceguer em Africa , pêra que 
com fé de viíla pudeífe efcrever os feitos 
daquella guerra ; ao qual efcreveo huma Car- 
ta de fua própria mão em louvor do traba- 
lho que lá tinha por razão da obra que 
fazia : e ifto não com palavras taxadas , e 
avaras , fegundo o ufo dos Principes , mas 
em modo eloquente , e de pródigo Orador , 
como quem fe prezava diífo ; o qual Go- 
mezeanes vendo a deleitação , que EÍRey 
tinha nas coufas deíla miiicia ? efcreveo a 
Chronica da tomada de Cepta , e outra 
Chronica dos feitos do Conde D. Pedro de 
Menezes , e do Conde D. Duarte feu filho , 

re- 






15*0 ÁSIA de João de Barros 

relatando os feitos daquella guerra mui par- 
ticularmente , e per eítylo claro , e tal que 
bem mereceo o nome do officio que teve. 
E porque cada hum não perca feu traba- 
lho , também efcreveo a Chronica defte Rey 
D. Afonfo , té a morte do Infante D. Pe- 
dro , e a Chronica delRcy D. Duarte feu 
Padre , as quaes Ruy de Pina , que o fuc- 
cedeo no officio , fez fuás , pelo que emen- 
dou , e accrefcentou nellas , principalmente 
na delRey D. Afonfo , acerca das coufas , 
que paífáram depois da morte do Infante 
D. Pedro- Fez ainda Gomezeanes outra obra 
no Tombo defte Reyno , que alumeou mui- 
to as coufas delie , que foram os livros dos 
regiftros , recopilando em certos volumes 
as forças de muita eferitura que andava fol- 
ta , começando em EIRey D. Pedro té El- 
Rey D.João de gloriofa memoria: ifto por 
razão de fer Guarda mor do mefmo Tom- 
bo , officio mui próprio dos Chroniílas , por i 
fer huma euftodia de toda a eferitura do : 
Reyno , a qual convém fer paliada pelos 
olhos do Chronifta delle , pêra com mais ' 
verdade , e cópia de coufas poder eferever 
todo o difeurfo dos feitos do Rey , de que 
he offícial , porque aqui fe acham Ordena- í 
coes 5 Cortes, Cafamentos , Contratos , Ar- 
madas , Feftas , Obras , Doações , Mercês , aífi 
per regiftro da Chancelíaria , e Fazenda , ; 

cc- 



Década I. Liv. II. Cap. II. 15T 

como per contas de todo o Reyno , fe el- 
le quizer , e fouber ufar da cópia de tanta 
efcritura. E verdadeiramente, (tornando a 
Gomezeanes , em quem concorreo Chronif- 
ta , e Guarda mor da Torre do Tombo , ) 
eu não fei quanto elle viveo , nem o tem- 
po que teve eíles officios ; mas fei , fegun- 
do o que leixou feito per fua mão 3 que 
não foi fervo fem proveito , mas digno dos 
cargos que teve , aííi pelo eftylo , como di- 
ligencia das coufas que tratou. 



DE- 



DÉCADA PRIMEIRA. 
LIVRO III. 

Dos feitos, que os Portuguezes fizeram 

no defeubrimento , e conquifta dos 

mares y e terras do Oriente: em 

-que fe contém o que fe acha 

fer feito em tempo delRey 

. D. João o fegundo. 

CAPITULO I. 

Como EIRey D. João , fuecedendo no 
Reyno per falecimento delRey D. Afonfo 
feu Pai , mandou logo huma grande Ar- 
mada às partes de Guiné a fazer o Caf 
tello , que agora chamamos de S*. Jorge da 
Mina , da qual Armada foi Capitão mor 
Diogo d? Azambuja : e como fe vio com Ca- 
ramança Senhor daquelle lugar. 



^ Lrey D.João como já em vida del- 
Rey D. Afonfo feu Pai tinfra o ne- 

** gocio de Guiné em parte do aílen- 
tamento da fua cafa , e per- experiência dei- 
le fabia reíponder com ouro , marfim , cf- 
cravos ,' e outras coufas , que enriqueciam 
o feu Reyno 5 e cada anno fe defeubriam 
novas terras , e povos , com que a efperan- 
ça do defeubrimento da índia per eítes feus 

ma- 



Década I. Liv. III. Cap. I. t$$ 

mares fe accendia mais nelle : com funda- 
mentos de Chriftianiífimo Príncipe , e Ba- 
rão de grande prudência , ordenou de maft- 
dar fazer huma fortaleza , como primeira 
pedra da Igreja Oriental , que elle em lou- 
vor, e gloria de Deos defejava edificar per 
meio deita poíle real, que tomava de todo 
' o defcuberto , e por defcubrir fegundo tinha 
per doações dos Summos Pontifices , como 
atrás dinemos. E fabendo que na terra , on- 
de acudia o refgate do ouro , folgavam os 
Negros com pannos de feda , de la , linho , 
e outras coufas do ferviço , e policia de ca- 
fa , e que em feu trato tinham mais claro 
entendimento , que os outros daquella cof- 
tâ , e que no modo de feu negociar, e 
communicar com os noífos davam de li ÍI- 
naes pêra facilmente receberem o Baptifmo , 
ordenou que efta fortaleza fe fizeíTe em aqucl- 
la parte , onde os noífos ordinariamente fa- 
ziam o refgate do ouro, porque com efta 
ifca de bens temporaes , que fempre alli ha- 
viam de achar , recebeflem os da Fé , me- 
diante a doátrina dos noífos , o qual eífeíto 
era o feu principal intento. E dado que pê- 
ra efta obra da fortaleza houveífe em feu 
Confeího contrarias opiniões , reprefentando 
a diftancia do caminho , e os ares da terra 
ferem peftiferos á faude dos homens que lá 
eftiveífem , e aífi os mantimentos da terra , 

e o 



1^4 ÁSIA de João de Barros 

e o trabalho de navegar , houve EIRey por 
maior bem huma fó alma , que por caufa 
da fortaleza podia vir á Fé per Baptifmo > 
que todolos outros inconvenientes , dizendo 
queDeos proveria nelles, pois aquella obra 
íe fazia em feu louvor , e a fim pêra que 
léus vaííallos pudeflem fazer algum provei- 
to y e também o património defte Reyno 
foíle accrefcentado. Aííentado que fe fizef- 
fe efta fortaleza , mandou aperceber huma 
Armada de dez caravelas , e duas urcas , 
çm que fofle pedra lavrada , telha , madei- 
ra , e aíli todalas outras munições , e man- 
timentos pêra feiscentos homens , de que os 
cento eram officiaes pêra efta obra , c os 
quinhentos de peleja ; dos quaes navios era 
Capitão mor Diogo d' Azambuja peíToa mui 
experimentada nas coufas da guerra ; e os 
outros Capitães eram Gonçalo da Fonfeca , 
Ruy de Oliveira , João Rodrigues Gante , 
João Afonfo 3 que depois mataram em Ar- 
guim , fendo Capitão daquella fortaleza João 
de Moura , Diogo Rodrigues Inglez , Bar- 
tholomeu Dias , Pêro d 5 Evora , e Gomes 
Aires efeudeiro delRey D. Pedro d 5 Aragão , 
o qual entrou em lugar de Pêro d'Azam- 
buja, irmão dclle Diogo d 5 Azambuja, por 
morrer de peite primeiro que partiífem de 
Lisboa , que a efte tempo andava nella , to- 
dos homens nobres, e criados delRey. E 

os 



Década I. Liv. III. Cap. I. 157 

os Capitães das urcas eram Pêro de Cintra, 
e Fernão dAibnfo ; por levarem toda a mu- 
nição deita fortaleza partiram diante alguns 
dias , e era fua companhia Pêro d'Evora 
em hum navio pequeno , pêra que fe as ur- 
cas não pudeflem chegar a fazer a pefcaria 
no porto de Bezeguiche , onde haviam de 
efperar que efte navio a fízefle , o qual ne- 
gocio Pêro d'Evora fez com muita diligen- 
cia , e outro mais principal , que foi fazer 
paz com Bezeguiche Senhor daquella cofta , 
donde ficou o nome , que hoje tem aquel- 
le porto. Diogo d 5 Azambuja acabando de 
confirmar efla paz , depois que alli chegou , 
que foi vefpera de Natal do anno de qua- 
trocentos oitenta ehum, havendo doze dias 
que partira de Lisboa, tornou a fua derro- 
ta ; e deo-lhc Deos tão boa viagem ? poílo 
que teve algum trabalho com huma urca, 
que fazia muita agua > que a dezenove de 
Janeiro d'aquelle anno feguinte chegou ao 
lugar , onde fe havia de fazer o Caftello-, 
que naquelíe tempo fe chamava Aldeã das 
duas partes ; no qual lugar achou João Ber- 
nardes com hum navio delRey fazendo ref- 
gate d'ouro com Caramança Senhor daquel- 
la aldeã; e per elíe lhe mandou dizer, que 
era alli vindo com aqueíla grande frota , 
que EIRey de Portugal feu Senhor manda- 
va , em a qual vinha muita gente nobre pê- 
ra 



i$6 ÁSIA de JoXo de Barros 

ra bem , e honra de fua peíToa , como de- 
pois per elle mefmo faberia ; que lhe ro- 
gava houveíle por bem de fe verem ambos 
ao outro dia , em que elle efperava de fer 
em terra. Vinda a refpofta de Caramança , 
moftrando contentamento de fua chegada , 
fahio Diogo d' Azambuja em terra com to- 
da ília gente veílida de louçainha , e fuás 
armas fecretas , fe o tempo as pediífe. E da 
primeira coufa que tomou poíle foi de hu- 
ma grande arvore , que citava em hum te- 
fo , aífaílada algum tanto da aldeã , lugar 
mui difpoílo pêra fe fazer a fortaleza ; cm 
a qual arvore mandou arvorar huma ban- 
deira das Quinas Reaes , e ao pé delia ar- 
mar hum Altar , onde fe celebrou a primei- 
ra MiíTa dita naquellas partes da Ethiópia , 
a qual foi ouvida dos nolfos com muitas 
lagrimas de devoção, dando muitos louvo- 
res a Deos em os fazer dignos , que na for- 
ça de tanta idolatria o pudeífem louvar, e 
glorificar em facrificio de louvor; pedindo- 
Uie pois lhe aprouvera ferem elles os pri- 
meiros , que levantaífem Altar de tão alto 
Sacrifício , que lhes déífe faber , e graça pe-* 
ra attrahir aquelle povo idólatra a fua Fé , 
com que a Igreja que alii fundaífem foíle 
durável té fim do Mundo. Acabada eíla Mif- 
fa , que foi em dia de S. Sebaftião , ( em 
memoria do qual ficou eíte nome a hum val- 



Década I. Liv. III. Cap. I. 157 

le , per que corre hum efteiro , onde pri- 
meiro fahíram , ) porque Diogo d'Azambuja 
efperava por Caramança , o qual abalava já 
de fua aldeã , poz em ordem a toda fua gen- 
te. Eíle aííentado em huma cadeira alta ver- 
tido em hum pelote de brocado , e com hum 
colar d'ouro , e pedraria , e os outros Ca- 
pitães todos veftidos de feíta ; e affi orde- 
nada a outra gente , que faziam huma com- 
prida , e larga rua , pêra que quando Cara- 
mança , como também era homem 3 que 
queria moftrar feu eftado , veio com muita 
gente poíla em ordenança de guerra, com 
grande matinada de atabaques , bozinas, 
chocalhos y e outras coufas , que mais es- 
trugiam que deleitavam os ouvidos. Os tra- 
jos de fuás peífoas eram os naturaes de fua 
própria carne , untados , e mui luzidos , que 
davam mais pretidão aos couros , coufa que 
elles coftumavam por louçainha. Somente as 
partes vergonhofas eram cubertas delles com 
peíles de bugios , outras com pannos de 
palma , e os mais principaes com alguns 
pintados , que per refgate houveram dos 
noífos navios , que alli hiam refgatar ouro. 
Porém geralmente em feu modo todos vi- 
nham armados , huns com azagaias , e et» 
cudos , outros com arcos , e coldres de fre- 
chas ; e muitos , em lugar de arma da cabe- 
ça , huma pelle de bogio 7 o cafco da qual 

to- 



153 ÁSIA de J0A0 de Barros 

todo era encravado de dentes d'alimarias , 
todos tão disformes com fuás invenções por 
moftrar ferocidade de homens de guerra , 
que mais moviam a rifo que a temor. Os 
que entre elles eram eíKmados por nobres, 
como infígnias de fua nobreza , traziam dous 
pages trás íi ; hum lhe trazia hum aífento 
redondo de páo pêra fc aífentar a tomar re- 
poufo onde quizeífc ; e outro o efeudo da 
peleja , e eftes nobres pela cabeça , e barba 
traziam alguns arrieis , e jóias d'ouro. O 
leu Rey Caramança em meio de todos vi- 
nha cuberto pernas , c braços de barceletes , 
e argolas d'ouro , e ao peícoço hum colar , 
do qual dependiam humas campainhas miú- 
das , e pela barba retorcidas humas vergas 
d'ouro , que aífi lhe chumbavam os cabei- 
los delia , que de retorcidos os faziam cor- 
ridos. A continência de fua pelfoa era vir 
com huns paíTos mui vagarofos pé ante pé 
fem mover o rofto a parte alguma. Diogo 
d 5 Azambuja, em-quanto elle vinha com eí- 
ta gravidade, eíleve quedo em feu eílrado , 
té que fendo já mettido entre a noíía gen- 
te abalou a elle, e ajuntando-fe ambos, to- 
mou Caramança a mão a Diogo d' Azam- 
buja , etornando-a a recolher deo hum trin- 
co com os dedos, dizendo eíla palavra, be- 
re , bere , que quer dizer paz , paz , o qual 
trinco entre elles he o final da maior cor- 
te- 



Década I. Liv. III. Cap. I. 15^ 

tczia , que fe podia fazer. Affaítado ElRey 
a huma parte, deo lugar que chegaflem os 
feus fazer outro tanto a Diogo d'Azambu- 
ja ; mas no modo de tocar os dedos fize- 
ram efta differença delRey : molhado o de- 
do na boca , e de fi limpo no peito , o to- 
caram , couía , que fe faz do menor ao maior 
em final de falva , que fe cá toma aos prih- 
cipaes ; porque dizem elles , que pode levar 
peçonha neíle dedo , fe ante o não alimpa- 
rem per efte modo. Acabadas eílas ceremo- 
nias de cortezia , que duraram hum bom 
pedaço , por fer muita a gente que Cara- 
mança trazia , e feito íilencio , começou Dlo^ 
go d' Azambuja per meio de huma língua 
a lhe propoer a caufa de fua ida , a qual 
era ter ElRey feu Senhor fabido a vonta- 
de , e defejo deile Caramança acerca das 
coufas de feu ferviço , e quanto trabalhava 
de o moftrar no bom , e breve aviamento 
que dava aos feus navios que áquelle porto 
chegavam ; c que por eílas coufas procede- 
rem de amor, ElRey lhas queria pagar com 
amor , que tinha mais vantaje que o feu > 
que era amor dafalvaçáo de fua alma, cou-< 
fa mais preciofa que os homens tinham, 
por ella fer a que lhe dava vida , entendi- 
mento pêra conhecer , e entender todalas 
coufas , e per a qual o homem era difFeren- 
tc dos brutos. E aquelle , que a quizefle co- 

nhe- 



i6o ÁSIA de João de Barros 

nhecer , era neccíTario ter primeiro conhe- 
cimento do Senhor que a fizera , o qual era 
Deos , que fizera o Ceo , Sol , Lua , e Ter- 
ra, com todalas coufas quenella ha: aquel- 
le , que fazia o dia , e noite , chuvas , tro- 
vões , relâmpagos , e creava todalas novida- 
des , de que fe os homens mantinham , ao 
qual Deos , EIRey de Portugal feu Senhor , 
e todos os outros Principaes da Chriftanda- 
de , (que era huma grande parte da terra do 
Mundo ,) reconheciam por Creador , e Se- 
nhor , e a elle adoravam , e nelle criam , 
como aquelle de quem tinham recebido to- 
dalas coufas , e a quem a fua alma havia 
de ir dar conta depois da morte do bem , 
e mal que nefta vida fizera. Por fer hum Se- 
nhor tãojuílo, que aos bons levava ao Ceo, 
onde elle citava , e aos máos lançava no 
abyfmo da terra , lugar chamado Inferno , 
habitação dos diabos , atormentadores dei- 
tas almas ; as quaes coufas pêra elle Cara- 
mança poder entender ? era neceífario fer la- 
vado em huma agua faníta , a que os Chri- 
ftaos chamam Baptifmo da Fé ; porque bem 
como as aguas do rio lavam os olhos pêra 
melhor verem quando eftam pejados dal- 
gum pó , ou coufa que os cega , aífi efta 
agua baptifmal lavava os olhos d'alma pê- 
ra poderem ver , e entender as coufas , que 
tratam da mefma alma > e eíte Deos era o 

que 



Década I. Liv. III. Cap. I. 161 

que EIRey D.João íèu Senhor lhe manda-* 
va pedir que reconheceífe por feu Creador 
pêra o adorar , proteílando de viver , e mor- 
rer em fua Fé 3 e acceitando o Baptifmo em 
teftemunho delia ; o qual Baptifmo ? fe elle 
Caramança aceptaíTe , e recebeííe 5 elle Dio- 
go d'Azambuja em nome delRey feu Se- 
nhor lhe promettia dalli em diante de o ha- 
ver por amigo i e irmão nefta Fé de Chri- 
fto , que profeflava , e de o ajudar em to- 
dalas coulas , que delle tiveífe neceíUdade : 
e que em final defte promettímento elle 
era aili vindo com toda aquella gente pêra 
o que cumpriíTe a fua honra \ e bem de feu 
eflado y e não fómenre per aquella vez acha- 
ria aquella ajuda , mas em todo o tempo , 
ue elle permaneceíTe naqueíla Fé de Chri-» 
o, Deos y e Senhor noífo , que lhe elle 
amoedava. E porque ao preíente elle vinha 
bem provido de mercadorias , e coufas mui 
ricas 5 que ainda alli não foram viftas , pê- 
ra guarda das quaes lhe era necelíarío fa- 
zer huma cafa forte , em que eíliveffem re-* 
colhidas , e aífi alguns apofentos 3 onde fe 
pudeífe agazalhar aquella gente honrada „ 
que com elle vinha , lhe pedia que houvef- 
fe por bem que elle fizeífe efte recolhimen-* 
to , o qual elle efperava em Deos que feria 
penhor pêra EIRey ordinariamente mandar 
fazer alli refgate , com que elle Caramança 
Tom. L L fe- 



t 



l6^ ÀSIÀ de JoÂo de Barros 

feria podcrofo em terras , e Senhor dos co-i 
marcãos, fem alguém o poder anojar, por- 
que a mefma cafa \ e o poder delRey que 
nella eftaria o defenderiam. E dado que Bayo 
Rey de Sarna , e outros Príncipes feus vi- 
zinhos houveífe por grande honra íèr eíta 
fortaleza feita em fuás terras , e ainda por 
iífo faziam hum grande ferviço a EIRey, 
elle houve por bem fer efta obra feita an- 
te em fua terra , que pelo amor , e amiza- 
de , que elle Caramança tratava as coufas 
de feu ferviço- 

CAPITULO II. 

Do que refpondeo o Príncipe Caraman- 
ça ás palavras de Diogo d? Azambuja : e 
do confentimento que deo a fe fazer a for- 
taleza , com a qual ficou a troco do Com- 
vier cio ajfentado em paz té hoje. 

CAramança peró que foífe homem bár- 
baro , aífi per fua natureza , como pe- 
la communicaçao que tinha com a gente dos 
navios , que vinham ao refgate -, era de bom 
entendimento 3 e tinha ojuizo claro pêra re- 
ceber qualquer coufa , que eftiveíTe em boa 
razão. E como quem defejava entender as 
coufas que lhe eram propoítas , não fomen- 
te efteve prompto a ouvir quanto lhas a lin- 
gua refumia, mas ainda eíguardava todalas 

con- 



Década L Lív. III. Cap. II. 163 

continências que Diogo d' Azambuja fazia ; 
e em todo o tempo que ifto paflbu , afli el- 
le, como os feus efliveram em hum perpé- 
tuo íllencio 5 fem haver quem fomente ef- 
carraíTe ; tão obedientes 5 e enfinados os tra- 
zia. E como homem 5 que queria recorrer 
pela memoria o que ouvira , e confiderar o 
que havia de refponder , acabada a falia , 
pregou os olhos no chão per hum pequeno 
efpaço 5 e de íi diífe : Que elle tinha em 
mercê a EIRey feu Senhor a vontade que 
lhe moftrava , ajjl na f alva cão de fua ah 
ma , como em as outras coufas de fua hon- 
ra ; e que certo elle lho merecia em o bom 
defpacho dos feus navios, que áquelle por- 
to vinham refgatar , fendo mui bem trata- 
dos com toda a fé \ e verdade em feus com- 
mercios , e refgates , em o qual tempo nun- 
ca em a gente delles vira coufa , de que fe 
pudejfe tanto efpantar y como daquella fua 
vinda ; porque em os navios paffados via 
homens rotos , e mal roupados , os quaes fe 
contentavam com qualquer coufa que lhes 
davam a troco de fuás mercadorias , e efte 
era o fim de fua vinda dquellas partes , e 
todo feu requerimento era que os defpachaf 
fem logo y como quem fazia mais fundamen- 
to da fua pátria , que da habitação das 
terras alheias \ mas nelle Capitão via ou- 
tra coufa y que era muita gente , e muitQ 
L ii mais 



\ 



164 ÁSIA de J0Â0 de Barros 

mais ouro , e jóias , do que havia naqueU 
las partes , onde elle na feia 5 e com ijlo no- 
vo requerimento de querer fazer cafa de 
vivenda em terra , donde conjetlurava duas 
coufas : a primeira , que elle não podia fer 
fenao mui chegado parente delRey de Por- 
tugal \ e a fegunda , que hum homem tão 
principal como elle era , não podia vir fe- 
não a grandes coufas , e taes como eram as 
que elle dizia do Deos , que fazia o dia, 
e noite , e de quem tantas coufas dijfera , 
cujo fervi dor era ofeu Rey. Porém queren- 
do efguardar a natureza de hum homem 
tão principal , como elle Capitão era , e af 
fi daquella luzida gente , que o acompa- 
nhava , via que homens de tal qualidade 
fempre haviam de querer coufas conformes 
a elles ; e porque o animo de tão generofa 
gente, como era afua, mal fe poderia con- 
formar com a pobreza , e fimplicidade da- 
quella barbara terra de Guiné , donde ás 
vezes podiam recrefcer contendas , e pai- 
xões entre todos , lhe pedia houvejfe por 
bem que os navios foffem , e viefjem como 
fohiam , cá per efta maneira fempre ejla- 
riam em paz 5 e concórdia ; porque os ami- 
gos , que fe viam de tarde em tarde , com 
mais amor fe tratavam y que quando fe viA 
zinham : e ijlo caufava o coração do homem 7 
púr fer como as ondas do mar > que batiam 

na~ 



Década L Liv. III. Cap. II. 165 

naquelle recife ãe pedras , que alli ejlava i 
o qual mar pela vizinhança que tinha com 
elle , e lhe empedir eftender-fe pela terra d 
fua vontade , quebrava tão fortemente no 
vizinho , que de bravo ] e foberbo levanta- 
va fuás ondas té o Ceo 1 e com efla fúria 
fazia dous damnos , hum a Ji mejmo aça- 
nhando-fe 5 e outro ao vizinho em o ferir. 
Que ifto não dizia por fe efcufar de obede- 
cer aos mandados delRey de Portugal 7 mas 
por aconfelhar ao bem da paz , e d muita 
preflança , que elle defejava ter com todo- 
los naturaes dofeu Reyno , que dquelle por- 
to vieffem : e também porque havendo efta 
paz entre ambos ? todo aquelle feu povo com 
mais amor folgaria de ouvir as coufas do 
feu De os , que lhe elle vinha dar a conhe- 
cer ; por iffò em quanto o tempo nioftrava 
a experiência deftes inconvenientes ? lhe pe- 
dia que os evitajfem , leixando correr o ref- 
gate no modo em que ejlava. A eílas pala- 
vras , e dúvidas , que pareciam impedir fa- 
zer-fe a fortaleza , refpondeo Diogo d'A- 
zambuja : Que a caufa delRey feu Senhor 
o enviar com tão grande apparato àquel- 
la terra , fora defejar paz , e mais ejlrei- 
ta amizade com elle , do que té então ti- 
veram \ e como penhor dejfle defejo queria 
alli fazer cafa , em que fe puzeffe fua fa- 
zenda > em a qual obra Sua Alteza mojlra- 

va 



i66 ÁSIA de João de Barros 

va a muita confiança que tinha nelle Ca* 
ramança , e em feus vajfallos , porque nin- 
guém punha fua fazenda em lugar fufp ei- 
to fo de enganos : Que quando ahi houvejjè 
alguma coufa que temer , aelleDiogo d A- 
zambuja y e a toda aquella gente que o 
acompanhava convinha efte temor , pois con- 
fiavam fuás vidas , e fazendas da terra 
efiranha , e mais tão alongada do adjuto- 
rio da fua ; epofio que o coração do homem y 
como elle dizia , era per fua natureza li- 
vre , efies eram aquelles , que não tinham 
Rey tão amigo dajufiiça, como era EIRey 
feu Senhor , donde os feus vajfa lios affi eram 
obedientes a feus mandados , que mais te- 
miam defobedecer-lhe que a mefma morte : 
Que ellç não era filho , nem irmão delRey , 
como elle cuidava , mas hum dos mais pe- 
quenos vajfallos de feu Reyno ; e tão obri- 
gado a cumprir o que lhe mandava acerca 
da paz , e concórdia em a obra daquella 
cafa , que antes perderia a vida , que traf- 
paffar feu mandado. Da qual palavra os Ne- 
gros vendo que EIRey fe efpantava de tan- 
ta obediência , e que fegundo feu coftume 
dava com huma mão na outra y elles por fi- 
nal de obedientes deram também outras pal- 
madas , com que romperam a palavra de 
Diogo cPAzambuja ; e ante que mais pro- 
çedeile, acabado o rumor, Caramança lhe 

ata- 



Década I. Liv. III. Cap. II. 167 

atalhou , tomando por conclusão que era 
contente fazer-fe a cafa que pedia , admoef- 
tando-lhe a paz , e verdade , porque fazen- 
do os feus o contrario , mais enganavam , 
e danavam a li que a elie , porque a terra 
era grande , e onde quer que chegaíTem el- 
ie , e os feus , não lhe faleceriam huns pou- 
cos de páos , e rama , com que fizeíTem ou- 
tra morada. Acabando EIRey íiia conclu- 
são fobre o fazer da cafa , fem refponder ao 
mais do Baptifmo 5 que lhe foi amoedado , 
efpedio-fe do Capitão , tornando na ordem 
em que veio , e elle ficou com os meftres 
da obra , entendendo no eleger donde fe 
fundaria a fortaleza. Ao íèguinte dia come- 
çando os pedreiros quebrar huns penedos, 
queeftavam fobre o mar junto, onde tinham 
elegido os alicerces da fortaleza , não po- 
dendo os negros foíFrer tamanha injúria , co- 
mo fe fazia áquella faníHdade que elles ado- 
ravam por Deos , accendidos em fúria , que 
lhe o demónio atiçava pêra todos alli pere- 
cerem ante do Baptifmo , que depois alguns 
delles receberam , tomaram fuás armas, e 
com aquelle primeiro impeto deram rijo em 
os officiaes, que andavam neíla obra. Dio- 
go d 5 Azambuja como a eíle tempo eftava 
com. os Capitães fazendo tirar as munições 
dos navios , tanto que vio correr a gente 
contra a praia > acudio rijo; e porque fou- 

be 



i68 ÁSIA de JoXo de Barros 

be da Lingua dos Negros , que a caufa prin- 
cipal do alvoroço delles fora por ainda não 
terem recebido o preíente que cfperavam , 
e que maior mágoa tinham por a tardança , 
que por a injúria dos feus deoíes , entreteve 
a gente o melhor que pode , de maneira que 
não houveíTe fangue , e mandou a grão pref- 
fa ao Feitor , que trouxeífe dobrados lam- 
beis , manilhas , bacias, e outras coufas, 
que tinha mandado que lcvaíTe a EIRey , e 
a feus CavaUeiros , por aífi eftar em coftu- 
me ; e ainda por mais comprazer aos Ne- 
gros , publicamente entre elles bradou com 
elle , com o qual prefente , depois que o re- 
ceberam , aífi ficaram contentes , e brandos 
da fúria , que entregaram os filhos , quanto 
mais os penedos ; tanto poder tem o dar , 
que , como dizem , quebrantou Diogo d'A- 
zambuja as pedras , que eram es corações 
daquelíes Negros em fua indignação, emais 
quebrou os penedos que elles defendiam. 
Porém em quanto a obra durou , fempre fe 
teve grande vigia , e tento nelles , não fe 
lhe antolha (Te outra vaidade alguma , em 
fazer a qual obra fe deo tal defpacho , que 
em vinte dias puzeram a cerca do caílello 
em boa altura , e a torre da menagem em 
o primeiro fobrado. E por a íingular devo- 
ção que EIRey tinha nefte Sanfto , foi cha- 
mada eíta fortaleza S.Jorge, a qual depois 

em 



Década I. Liv. III. Cap. II. 169 

em o anno de quatrocentos oitenta e féis , 
a quinze de Março em Santarém EIRey 
a fez Cidade , dando-lhe per fua Carta Pa- 
rente todalas liberdades , privilégios , e pre- 
eminências de Cidade. Pofto que por parte 
dos noífos , em quanto durou efta obra , fe 
trabalhava não haver com os Negros rom- 
pimento , fizeram elles tantos furtos , e mal- 
dades , que conveio a Diogo d' Azambuja 
queimar-lhe a aldeã , com que entre eíle caf- 
tigo , e benefícios , que mais parte tinham 
nelles , ficaram em fegura paz. Acabada a 
obra , e a terra corrente em refgate , efpe- 
dio Diogo d 5 Azambuja os navios , e a gen- 
te fobreleíente 3 que fe veio pêra o Reyno 
com boa cópia d 5 ouro , que refgatáram , e 
elle ficou com feífenta homens ordenados á 
fortaleza ., fegundo hia per regimento dei-* 
Rey \ e outros ficaram enterrados ao pé da 
arvore , onde fe diííe a primeira MiíTa 5 que 
ficou em adro da Igreja de vocação de São 
Jorge 5 em que hoje Deos he louvado , e 
glorificado , não fomente dos noíTbs , que 
vão áquella Cidade , mas ainda dos Ethio- 
pas da fua Comarca , que per Baptifmo são 
contados em o numero dos fieis. Na qual 
Igreja em memoria dos trabalhos do Infan- 
te D. Henrique , por íèr auílor defte deA 
cubrimento, fe diz huma MiíTa quotidiana 
por fua alma com próprio Capellão a ella 

or- 



170 ÁSIA de J0X0 de Barros 

ordenado. Em dous annos , e fete mezcs > 
que Diogo d 5 Azambuja alli efteve , aprou- 
ve a Deos que na terra não houve tanta 
enfermidade como fe receava ; e aíTentou 
com tanta prudência os preços , e modo do 
refgate das coufas , que ainda hoje dura a 
maior parte deftc feu bom regimento , por 
onde quando veio EIRey o galardoou com 
accreícentamento de honra. 

CAPITULO III. 

Como foi àefcuherto o Reyno de Congo 
-por Diogo Cam C avalie ir o da cafa delRey : 
e além delle defcubrio duzentas , e tantas 
léguas , em o qual defcubrimento afjentou 
três Padrões , que foram os primeiros de 
pedra , das quaes terras trouxe algumas 
pejfoas , que foram baptizadas por EIRey : 
e também foi defcuberto o Reyno de Benij. 

A O tempo que EIRey mandou fazer ef- 
ta fortaleza de S. Jorge da Mina , já 
foi com propoíito que per ella tomava poí- 
íe de toda aquella terra ? que habitavam os 
Negros , com a qual poíle efperava de ac- 
creícentar á ília Coroa novo titulo de cita- 
do por haver a benção de feus avôs , cujos 
titulos elles fempre conquiftáram da mão 
dos infiéis. E também por haverem eífe&o 
ás doações > que os Summos Pontiíices tinham 

con- 



Década L Liv. III. Cap. III. 171 

concedidas ao Infante D. Henrique feu tio y 
e a EIRey D. Afonfo feu Padre , e a elle 
de todo o que defcubriíTem do cabo Boja- 
dor té as índias tnclufive , (como atrás fi- 
ca.) Peró não quiz notificar efte titulo de Se- 
nhor de Guiné em fuás Cartas 5 .e doações , 
fenao dahi a três annos , que efte Caftello 
de S.Jorge era fundado, que foi depois que 
Diogo d' Azambuja veio a efte Reyno. Nem 
dahi por diante confentio que os Capitães > 
que mandava a defcubrir efta cofta , puzef- 
fem cruzes de páo per os lugares notáveis 
delle , como fe fazia em tempo de Fernão 
Gomes , quando defcubria as quinhentas lé- 
guas de cofta per condição do contraílo 
que fez com EIRey D. Afonfo ; mas orde- 
nou que lev.aíTem hum Padrão de pedra d'al- 
tura de dous eftados de homem com o ef- 
cudo das Armas Reaes deite Reyno , e nas 
coitas delle hum letreiro em Latim , e ou- 
tro em Portuguez , os quaes diziam , que 
Rey mandara defcubrir aquella terra , e em 
que tempo , e per que Capitão fora aquel- 
le Padrão aíli pofto , e em fima no topo 
huma cruz de pedra embutida com chumbo. 
E o primeiro defcubridor , que levou efte 
Padrão , foi Diogo Cam Cavalleiro de fua 
cafa , o anno de quatrocentos e oitenta e 
quatro , indo já pela Mina , como lugar , 
onde fe podia prover d'alguma neceffidade, 

e da- 



172 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

e dahi foi demandar o Cabo de Lopo Gon- 
çalves , que eftá hum gráo da banda do Sul. 
Pagado o qual Cabo , e adi o de Cathari- 
na , que foi a derradeira terra , que fe def- 
cubrio em tempo delRey D. Afonfo , che- 
gou a hum notável rio , na boca do qual 
da parte do Sul metteo efte Padrão , como 
quem tomava poffe por parte delRey de 
toda a coíla que leixava atrás. Por caufa do 
qual Padrão , però que elle fe chamava São 
Jorge , por a íingular devoção que EIRey 
tinha nefte Saneio , muito tempo foi nomea- 
do efte rio do Padrão , eora lhe chamavam 
de Congo por correr per hum Reyno aílí 
chamado ? que Diogo Cam efta viagem def- 
cubrio , pofto que o feu próprio nome do 
rio entre os naturaes he Zaire , mais notá- 
vel , e illuftre per aguas que per nome ; por- 
que o tempo que naquellas partes he o in- 
verno y entra tão foberbo pelo mar , que a 
vinte léguas dacofta fe acham as fuás aguas 
doces. Diogo Cam , depois que afTentou o 
Padrão , por ver a grandeza que o rio mos- 
trava em boca , e em cópia de aguas , bem 
llie pareceo que tão grande rio havia de fer 
mui habitado de povos ; e entrando per el- 
le aííima hum pequeno efpaço , vio que pe- 
la margem delle apparecia muita gente , da 
que era coftumado ver pela cofta atrás , to- 
da mui negra com feu cabello revolto : e 

pof- 



Década I. Liv. III. Cap. III. 173 

pofto que levava algumas Línguas da gente 
que tinham defcuberta , em nenhuma coufa 
íe puderam entender com efta 3 de maneira , 
que íe converteo aos acenos , per os quaes 
entendeo terem Rey mui poderoíò, o qual 
eftava dentro pela terra tantos dias de anda- 
dura. Vendo elle o modo da gente \ e a fe- 
gurança com que oeíperavam, ordenou de 
enviar com alguns delles certos dos noíTos 
com hum prefente ao Rey da terra , dando 
por iíTo alguma coufa , como aquelles , que 
os haviam de encaminhar j com promefía 
que dahi a tantos dias feria fua tornada. 
Mas o termo do tempo , que elles toma- 
ram j paífou dobrado , fem Diogo Cam ver 
recado algum ; e em todo elle os que alli 
ficavam , e outros muitos , que concorreram 
aos pannos , e coufas , que lhe elle manda- 
va dar 5 aífi entravam , e fahiam em o na- 
vio tão feguramente ? como fe houvera mui- 
to tempo que fe conheciam. Diogo Cam 
vendo quanto os outros tardavam , determi- 
nou de acolher alguns daquelles negros , que 
entravam em o navio , e vir-fe com elles 
pêra eíle Reyno, com fundamento que en- 
tretanto os noíTos lá onde eram podiam apren- 
hender a lingua , e ver as coufas da terra , 
e os Negros que elle trouxefle também apren- 
deriam a noífa , com que El Rey poderia fer 
informado do que havia entre elles. E por- 
que 



174 ÁSIA de João de Barros 

que partindo-fe elle fem leixar algum reca- 
do poderia danar aos noflbs que ficavam, 
tanto que recolheo em o navio quatro ho- 
mens delles , difle aos outros per feus ace- 
nos , que elle fe partia pêra levar a mol- 
trar ao feu Rey aquelles homens , porque 
os defejava ver , e que dahi a quinze luas 
elle os tornaria, e que pêra mais fegurança 
elle leixava entre elles os homens , que ti- 
nha enviado ao feu Rey. Chegado Diogo 
Cam a eíle Reyno, folgou EIRey D. João 
muito em ver gente de tão bom entendi- 
mento j porque como eram homens nobres , 
aíli aprenderam o que lhe Diogo Cam en- 
íinou pelo caminho , que quando chegaram 
aefteReyno davam já razão dascoufas que 
lhe perguntavam. EÍRey por caufa do tem- 
po , em que Diogo Cam limitou fua tor- 
nada , por os noflbs não padecerem algum 
mal , mandou que tornaíle logo , levando 
muitas coufas a EIRey de Congo , e com 
«lias lhe encommendava que fe quizefíe con- 
verter á Fé de Chrifto. Chegado Diogo 
Cam á barra do rio do Padrão , foi rece- 
bido pelos da terra com muito prazer , ven- 
do os feus naturaes que elle trouxera vivos, 
€ também tratados como hiam. E pelo re- 
gimento que elle levava delRey D. João , 
mandou hum dos quatro negros com alguns- 
da terra y que elle conhecia y com recado a ' 

El- 



Década I. Liv. III. Cap. IIT. 175- 

EIRey de Congo , fazendo-lhe faber como 
era chegado , e trazia os feus vaflallos , que 
dalli levava , fegundo lhe aquelle diria. Pe- 
dindo que por quanto lhe EIRey feu Senhor 
mandava quepaíTaífe mais avante peraquel- 
]a cofta a fazer algumas coufas de feu fer- 
viço 3 lhe enviaífe os Portuguezes , que ti- 
nha per algum feu Capitão , ao qual elle en- 
tregaria os outros três vaífalios que trazia y 
e que da tornada que em boa hora vieííe y 
elle lhe iria fallar algumas coufas , que EI- 
Rey feu Senhor mandava que com elle pra- 
ticaífe, e affi aprefentar outras que lhe en- 
viava. Vindo os noííos em poder de hum 
Capitão 5 que EIRey de Congo enviou 3 ao 
qual Diogo Cam entregou os feus com al- 
gumas dadivas pêra EIRey 5 efpediííe del- 
les 3 entrando em feu defcubrimento pela 
coita adiante 3 na qual viagem paliou elle 
Diogo Cam além defte Reyno de Congo 
obra de duzentas léguas 5 onde poz dous 
Padrões 3 hum chamado Saneio Agoftinho y 
que deo o nome do Padrão ao mefmo lu- 
gar 3 o qual eítá em treze gráos d 5 altura da 
parte do Sul , e outro junto da manga das 
arêas , por razão do qual fe chama o lugar 
o Cabo do Padrão 5 em altura de vinte e 
dous gráos. Enefte caminho fez alguns fal- 
tos na terra , nos quaes tomou algumas al- 
mas pêra linguas do que defeubrifíbj como 

le- 



176 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

levava per regimento ; e depois de eníini- 
dos , os tornaram alli , como veremos. Tor- 
nado Diogo Cam deite defcubrimcnto ao 
rio do Padrão do Reyno de Congo , foi-fe 
ver com EIRey , o qual pola informação 
que já tinha dos feus 5 que fe conformavam 
com os noífos do que lhe tinham. dito das 
coufas deite Reyno , quando vio Diogo 
Cam , aíli polo que lhe diíTe , e deo da par- 
te delRey D. João , não fabia que honra 
lhe fizeíTe , e era tão ciofo delle , que o não 
fiava de ninguém. E no tempo que Diogo 
Cam eíteve com elle , como já o Efpirita 
Sancto começava obrar feus myíterios n 5 al- 
ma daqueile Rey pagão , alli andava namo- 
rado do que lhe Diogo Cam dizia das cou- 
fas de nolla Fé , que nunca o leixava 5 per- 
guntando-lhe algumas de efpirito já alumia- 
do. O que logo começou moítrar , man- 
dando com Diogo Cam a eíte Reyno hum 
dos Fidalgos , que já cá viera ? chamado 
Caçuta , e a/Ti alguns moços em modo de 
embaixada , pedindo a EIRey que lhe aprou- 
veífe de lhe enviar Sacerdotes pêra o bap- 
tizar , e a todo feu Reyno , e lhe darem 
dotlrina de fua falvação. Que aquelles mo- 
ços por ferem filhos dos principaes do feu 
Reyno lhe pedia que osmandaííe baptizar y 
e doélrinar em as coufas da Fé , pêra per 
elles poder fer multiplicada entre os feus 

na- 



Década L Liv* III. Gap. III. tyy 

naturáes , quando embora tornaffem ; e com 
eíle requerimento mandou a EIRey hum 
prefente de marfim , epannos de palma por 
em fua terra não haver outras policias. EI- 
Rey D. João vindo Diogo Cam com eíle 
requerimento de conversão de hum Príncipe 
fenhor de tão grande povo i como eíle era 
o mais principal intento que tinha neíles 
deícubrimentos , por moítrar o contentamen- 
to deíla obra , e louvar a Deos nelía , eílan- 
do em Beja , levou o Embaixador Caçuta 
á pia ao fazer Chriílao , e affi aos moços i 
que com eíle vieram 5 e a Rainha foi a Ma- 
drinha , veítindo-fe ella 5 e EIRey de feíla 
por mais folemnizar eíle adio : o qual Ca- 
çuta houve nome D. João por amor del- 
Rey , com appellido da Silva , do outro Pa- 
drinho , que foi Aires da Silva Camareiro 
mor deíRey , e os moços tomaram os no- 
mes , e appeílidos dos Padrinhos que os 
aprefentáram. E quanto frudliíicou em lou- 
vor de Deos a Chriílandade deíles homens 
de Congo , pela conversão do feu Rey, (co- 
mo adiante veremos , ) tão pouco aprovei- 
tou o que EIRey fez em o requerimento 
delRey de Benij , cujo Reyno jaz entre o 
Reyno de Congo , e o Caílello de S. Jor- 
ge da Mina ; porque neíle tempo em que. 
Diogo Cam veio da primeira vez de Con- 
go , que foi no anno de quatrocentos oiten-« 
Tom. L M ta 



173 ÁSIA de João de Barros 

ta e féis: também eíle Rey de Benij man- 
dou pedir a EIRey , que lhe mandaíTe lá 
Sacerdotes pêra o doílrinarem em Fé. Sen- 
do já vindo o anno paffado hum Fernão 
do Pó , que também com cila coifa defcu- 
brio a Ilha , que fe ora chama do feu no- 
me, que eftá vizinha á terra firme, a qual 
por fua grandeza elle chamou a Ilha Fer- 
mofa , e eJla perdeo eíte , e ficou com o no- 
me do feu defcubridor. Eíle Embaixador 
delRey de Benij trouxe-ojoão AlFonfo d'A- 
veiro , que era ido a deicubrir eíla coíla 
per mandado delRey ; e afii trouxe a pri- 
meira pimenta que veio daquellas partes de 
Guiné a eíle Reyno , a que nós ora chama- 
mos de Rabo , poia differenca que tem da 
outra da índia , por nella vir pegado o pé 
em que nafce , a qual EIRey mandou a Fran- 
des , mas nao foi tida em tanta cílima como 
a da índia. E porque eíle Reyno de Benij 
era perto do Caílello de S. Jorge da Mi- 
na , e os Negros , que traziam ouro ao ref- 
gate delia , folgavam de comprar efcravos 
pêra levar fuás mercadorias , mandou EI- 
Rey aífentar feitoria em hum porto de Be- 
nij , a que chamam Gato , onde fe reígata- 
vam grande numero delles , de que na Mi- 
na fe fazia muito proveito , porque os mer- 
cadores do ouro os cofripravam por dobra- 
do preço do que valiam cá no Reyno. Mas 

co- 



Década I. Liv. III. Cap. III. 179 

como EIRey de Benij era mui fubjedto a 
fuás idolatrias , e mais pedia aos Sacerdotes 
por fe fazer poderofo contra feus vizinhos 
com favor nofíò , que com defejo de Bap- 
tifmo , aproveitaram mui pouco os Minis- 
tros deile , que lhe EIRey lá mandou. Don- 
de fe cauíou mandallos vir , e aíTi aos Of- 
íiciaes da Feitoria 5 por o lugar fer mui doen- 
tio ; e entre as pelíoas de nome \ que nella 
faleceram , foi o meímo João Afoníb d 5 Â- 
veiro que a primeiro aíTentou. Porém depois 
per muito tempo , aííi em vida delRey Dom 
João , como delRey D. Manuel 3 correo cfT 
te reígate de efcravos de Benij pêra a Mi- 
na : cá ordinariamente os navios , que par- 
tiram deite Pveyno , os hiam lá refgatar , e 
dahi os levavam á Mina , té que elte nego- 
cio fe mudou por grandes inconvenientes 
que niíTo havia. Ordenando-fe andar hum 
caravelao da Ilha de S. Thomé , onde con- 
corriam aííl os efcravos da coíla de Benij , 
como os do Reyno de Congo , por aqui 
virem ter todalas armações , que fe faziam 
pêra eftas partes , e defta Ilha os levava ef- 
ta caravela á Mina. E vendo EIRey D. João 
o Terceiro Noífo Senhor , que ora reina , 
como efta gente pagã , que já eftava emnof- 
fo poder , tornava outra vez ás mãos dos 
infiéis , com que perdiam o mérito do Bap- 
tifmo , e fuás almas ficavam eternalmente 
M ii per- 



180 ASIÀ de João de Barkos 

perdidas , peró que lhe foi dito que niíío 
perdia muito , como Príncipe Chriítianiífí- 
mo , mais lembrado da falvaçao deitas almas , 
que do proveito de fua fazenda , mandou 
que ceífalTe eíle trato delles. E perefte mo- 
do ficaram mettidos em o conto dos fieis da 
Igreja mais de mil almas , que cada hum 
anno ante deite fanéto precepto eram pof- 
tas em perpétua fervidão do demónio , fi- 
cando gentios como eram , ou fe faziam 
Mouros ? quando per via do refgate , que 
os Mouros fazem com os Negi*os da pro- 
w vincia de Mandiga , os haviam a feu po- 
der. A qual obra por fer em feu louvor, 
Deos deo logo o galardão a EIRey ; por- 
que como elle antepoz a falvaçao das almas 
deites pagãos ao muito ouro , que lhe di- 
ziam perder no refgate deites eferavos , abrio- 
lhe outra mina abaixo da Cidade S.Jorge, 
donde começou a correr té hoje grande có- 
pia d'ouro , o íomma do qual importa mais 
do que fe havia por venda dos eferavos. 



CA- 



Década 1. Livro III. 181 

CAPITULO IV. 

Como EIRey , pelo que foube de João 
Afonfo tf Aveiro , e ajji dos Embaixadores , 
que elle trouxe do Reyno de Benij , mandou 
Bartholomeu Dias , e João Infante a def 
cubrir \ na qual vi agem def cubríram o gran- 
de Cabo de Boa Efperança. 

ENtre muitas coufas , que EIRey D. João 
foube do Embaixador delRey de Be- 
jiij , e aífi de João Afonfo d 5 Aveiro , das 
que lhe contaram os moradores daquellas 
partes , foi , que ao Oriente delRey de Be- 
nij per vinte Luas de andadura, que fegun- 
do a conta delies , e do pouco caminho que 
andam, podiam fer até duzentas e ílncoen- 
ta léguas das noífas , havia hum Rey o mais 
poderofo daquellas partes , a que elles cha- 
mavam Ogané , que entre os Príncipes pa- 
gãos das Comarcas de Benij era havido em 
tanta veneração , como acerca de nós os 
Summos Pontífices. Ao qual per coíhime 
antiquiilimo os Reys de Benij , quando no- 
vamente reinavam, enviavam feus Embai- 
xadores com grão preíènte , notificando-lhe 
como per falecimento de Foão íuccedêram 
naquelle Reyno de Benij , no qual lhe pe- 
diam que os houveífe por confirmados. Em 
íinal da qual confirmação efte Príncipe Oga- 
né 



i8z ÁSIA de JoÃo de Barros 

né lhes mandava hum bordão, ehuma cu- 
bertura da cabeça da feição dos capacetes 
de Hefpanha , tudo de latão luzente , em lu- 
gar de íceptro , e coroa : e aíTi Uiq enviava 
huma Cruz do mefmo latão pêra trazer ao 
pcícoço , como coufa religiofa , e fanéta , 
da feição das que trazem os Commendado- 
res da Ordem S. João , fem as cjuacs peças 
o povo havia que não regnavam juítamente, 
nem fe podiam chamar verdadeiros Reys. 
E em todo o tempo que eftc Embaixador 
andava na Corte deite Ogané , como coufa 
religiofa , nunca era vifto delle , fomente 
via humas cortinas de feda , em que elle 
andava mettido : e ao tempo que defpacha- 
vam o Embaixador , de dentro das cortinas 
lhe moííravam hum pé , cm final que cita- 
va alli dentro , e concedia nas peças que le- 
vava , ao qual pó faziam reverencia como 
a couíà íandta. E também em modo de pre- 
mio do trabalho de tanto caminho , era da- 
da ao Embaixador huma Cruz pequena da 
feição da que levava pêra EIRey, que lhe 
lançavam ao coílo , com a qual elle ficava 
livre , e izento de toda fervidão , e privile- 
giado na terra donde era natural , ao modo 
que entre nós são os Commendadores. Sa- 
bendo eu ifto , pêra com mais verdade o 
poder eferever, (neró que EIRey D.João 
em feu tempo o tinha bem enquirido , ) o an- 

no 



Década L Liv. III. Cap. IV- 183 

no de quinhentos e quarenta, vindo a efte 
Reyno certos Embaixadores deíRey de Be- 
nij , trazia hum delles , que feria homem de 
fetenta annos , huma Cruz deitas ; e pergun- 
tando-lhe eu por a caufa delia , reipondeo 
conforme ao aíTima efcrito. E porque nef- 
te tempo delRey D.João, quando fallavam 
na índia , fempre era nomeado hum Rey 
mui poderofo, a que chamavam Preítejoao 
das índias , q qual diziam fer Chriftao , pa- 
recia a EIRey que per via deite podia ter 
alguma entrada na índia. Porque per os 
Ahexijs Religiofos , que vem a eítas partes 
de Hefpanha , e aíTi per alguns Frades , que 
de cá foram ajerufalem, a que elle encom- 
mendou que fe informaííem deite Príncipe , 
tinha fabido , que feu eítado era a terra , que 
citava fobre Egypto , a qual fe eítendia té 
o mar do Sul. Donde tomando EIRey com 
os Cofmografos deite Reyno a taboa geral 
de Ptholomeu da defcripção de toda Áfri- 
ca , e os Padrões da coita delia , fegundo 
per os feus defcubridores eftavam arruma- 
dos 5 e aííi a diftancia de duzentas e íincoen- 
ta léguas pêra Leite , onde eítes de Benij di- 
ziam fer o eítado do Príncipe Ogané , acha- 
vam , que eile devia fer oPrefteJoão, por 
ambos andarem rnettidos em cortinas de fe- 
da , e trazerem o final da Cruz em grande 
veneração. E também lhe parecia que pro- 

fe- 



184 ÁSIA de João de Barros 

feguindo os feus navios a coita que hiam 
delcubrindo , não podiam leixar de dar na 
terra , onde eítava o Prafo promontório , 
fim daquella terra. AíTi que conferindo to- 
das eftas coufas , que o mais aícendiam em 
defejo do defcubrimento da índia , determi- 
nou de enviar logo neíte anno de quatro- 
centos e oitenta e féis dobrados navios per 
mar , e homens per terra, pêra ver o fim 
deitas coufas , que lhe tanta efperança da- 
vam. Armados dous navios de té fincocnta 
toneis cada hum , e huma naveta pêra levar 
mantimentos fobreíelentes porcauia de mui- 
tas vezes desfalecerem aos navios deite def- 
cubrimento , com que fe tornavam pêra o 
Reyno , partiram no fim de Agoíto do dito 
anno. A capitania da qual viagem deo a 
Bartholomeu Dias Cavalleiro de fua cafa , 
que era hum dos deícubridores deita coita , 
o qual hia em hum navio , de que era Pi- 
loto Pêro d'Alanquer , e Meítre o Leitão , 
e João Infante outro Cavalleiro era Capitão 
do fcgundo navio, Piloto Álvaro Martins, 
e Meítre João Grego. E em a náo , que 
levava os mantimentos , hia por Capitão Pê- 
ro Dias irmão de Bartholomeu Dias , de 
que era Piloto João de Sant-Iago i e Mef- 
tre João Alves , todos cada hum em feu 
miíter mui efpertos. E poíto que Diogo Caia 
tinha defcuberto per duas vezes trezentas c 

fe- 



Década L Liv. III. Cap. IV. 18? 

fetenta e íínco léguas de coita , começando 
do Cabo de Catharina té o Cabo chamado 
do Padrão , todavia paliado o rio de Con- 
go começou Bartholo meu Dias feguir a cof- 
ra té chegar onde ora fe chama a Angra do 
faito , por razão de dous Negros , que Dio- 
go Cam alli falteou. Os quaes EIRey per 
elle Bartholomeu Dias já enfinados do que 
haviam de fazer , mandava tornar áquelle 
lugar, eaíli levava quatro Negras d'eftoutra 
coita de Guiné. A primeira das quaes leixou 
na Angra dos Iiheos , onde aíTentou o- pri- 
meiro Padrão , e a fegunda na Angra das 
voltas y e a terceira morreo , e a quarta fi- 
cou na Angra dos Iiheos de Sandia Cruz 
com duas , que alli tomaram , que andavam 
marifcando ; e não as quizeram trazer , por- 
que mandava EIRey que não fizeífem for- 
ça , nem efcandalo aos moradores das ter- 
ras que defcubriííem. A caufa de E1R co- 
mandar lançar eíla gente per toda aqúella 
coíla veftidos , e bem tratados com moílra 
de prata , ouro , e efpeçarias , era porque 
indo ter a povoado pudeíTem notificar de 
huns em outro? a grandeza do feu Reyno y 
e as couíàs que nelle havia , e como per to- 
da aqueila coíla andavam os feus navios 5 e 
que mandava defcubrir a índia , e principal- 
mente hum Príncipe , que fe chamava Pref- 
tejoão^ o qual lhe diziam que habitava na- 

quel- 



i86 ÁSIA de JoXo de Barros 

quella terra , tudo a fim que pudeffe ir ter 
eíta fama ao Prefte , e foffe azo pêra eile 
mandar de lá de dentro donde habitaífe a 
cita coita do mar , porque pêra todas cilas 
coufas os Negros, e Negras Iiiam enfinados , 
e principalmente as Negras , que como não 
eram naturaes da terra , ficavam com clpe- 
rança de tornarem aos navios per alli , e as 
trazerem a eíte Reyno. Que entre tanto ci- 
las entraflem pelo lertao 5 e aos moradores 
notificaíTem eítas coufas , e aprendeífem mui- 
to bem as que pudeífem fabcr das que lhes 
eram encommendadas , e que podiam ficar 
feguras , porque como eram mulheres , com 
quem os homens não tem guerra , nao lhes 
haviam de fazer mal algum. Além de afTen- 
tarem os Padrões , que levavam nas diítan- 
cias do comprimento da coita que lhe bem 
parecia , eram poítos em lugares notáveis , 
aíTi como o primeiro Padrão chamado Sant- 
iago , no lugar a que puzeram nome Serra 
parda , que eítá em altura de vinte e quatro 
gráos , cento e vinte léguas além do derra- 
deiro que poz Diogo Cam. Punham tam- 
bém os nomes aos cabos Angras , e moítras 
da terra que defeubríram , ou por razão do 
dia que alíi chegavam , ou por qualquer ou- 
tra cauía , como a Angra a que ora chama- 
mos das voltas , que por as muitas em que 
então alli andaram lhe deram eíte nome An- 
gra 



Década L Liv. III. Cap. IV. 187 

gra das voltas, onde fe Bartholomeu Dias 
deteve finco dias com tempos que lhe não 
leixavam fazer caminho , a qual Angra eftá 
em vinte e nove gráos da parte do Sul. 
Partidos daqui na volta do mar, o meímo 
tempo os fez correr treze dias com as ve- 
las a meio maílro ; e como os navios eram 
pequenos , e os mares já mais frios , e não 
taes como os da terra de Guiné , poíto que 
os da coita de Hefpanha em tempo de tor- 
menta eram mui feios , eítes houveram por 
mortaes ; mas ceifando o tempo que fazia 
aquella fúria do mar , vieram demandar a 
terra pelo rumo de Leite , cuidando que cor- 
ria ainda a coita Norte-ful em geral , como 
té alli a trouxeram. Porém vendo que por 
alguns dias cortavam fem dar com ella , car- 
regaram íbbre o rumo do Norte , com que 
vieram ter a huma angra , a que chamaram 
dos Vaqueiros , por as muitas vacas que vi- 
ram andar na terra guardadas per feus paf- 
tores. E como não levavam lingua que os 
entendeífe , não puderam haver falia delles ; 
antes como gente efpantada de tal novida- 
de, carcáram feu gado pêra dentro da terra , 
com que os noífos não puderam faber mais 
delles , que verem fer Negros de cabello re- 
volto , como os de Guiné. Correndo mais 
avante a coita já per novo rumo , de que os 
Capitães hiam mui contentes , chegaram a 

hum 



i88 ÁSIA de JoÁo de Barros 

hum ilheo , que eftá em trinta e três gráos , 
e três quartos da parte do Sul , onde puze- 
ram o Padrão chamado da Cruz , que deo 
nome ao ilheo, que eftá da terra firme pou- 
co mais de meia légua ; e porque nefte ci- 
tavam duas fontes , muitos lhe chamavam o 
Penedo das Fontes. Aqui como a gente vi- 
nha canfada , e mui temerofa dos grandes 
mares que pairaram , toda a huma voz co- 
meçou de íè queixar , e requerer que não 
foílem mais avante , dizendo como os man- 
timentos fe gaitavam pêra tornar a bufcar a 
náo , que leixáram atrás com os fobrefelcn- 
tes , a qual ficava já tão longe , que quan- 
do a ella chegaííem feriam todos mortos á 
fome i quanto mais paliar avante. Que aííás 
era de huma viagem defcubrirem tanta cof- 
ta , e que já levavam a maior novidade que 
fe daquelle defcubrimento levou : acharem 
que a terra fe corria quafi em geral pêra 
Leite , donde parecia que atrás ficava algum 
grande cabo , o qual feria melhor confelho 
tornarem de caminho adefeubrir. Bartholc- 
meu Dias por fatisfazer aos queixumes de 
tanta gente , iahio em terra com os Capi- 
tães , e Officiaes , e alguns Marinheiros prin- 
cipaes; dando-lhes juramento , mandou-lhes 
que diíTeflem a verdade do que lhes parecia 
que deviam fazer porferviço delRey ; e to- 
dos aííentáram que fe tornaíTem pêra o Rey- 

no , 



Decadá L Liv. IIL Cap- IV. 189 

no > dando as razoes de íima , e outras de 
tanta neceffidade , do qual parecer mandou 
fazer hum aâo 5 em que todos affináram* 
Peró como feu defejo era ir avante , e fo- 
mente quiz fazer efte cumprimento com a 
obrigação de feu officio , e regimento dei- 
R ey , perque lhe mandava que as coufas de 
importância foífem confultadas com as prin- 
cipaes peífoas que levava , pedio a todos , 
quando veio ao aíTmar da determinação em 
que aíTcntáram , que houveífem por bem 
correrem mais dous , ou três dias a cofia ; 
e quando não achaífem coufa que es obri- 
gaíTe profeguir mais avante , que então fa- 
riam a volta ; o que lhes foi concedido. 
Mas no fim deites dias que pedio , não fize- 
ram mais que chegar a hum rio , que eílá 
vinte e finco léguas avante do ilheo da Cruz 
em altura de trinta e dous grãos , e dous 
terços. E porque João Infante Capitão do 
navio S. Panteleão , foi o primeiro que ía- 
hio em terra , houve o rio o nome que ora 
tem do Infante , donde fe tornaram por a 
gente tornar repetir feus queixumes. Chega- 
dos ao ilheo da Cruz , quando Bartholomeu 
Dias fe apartou do Padrão que alli aíTen- 
tou , foi com tanta dor , e fentimento , co- 
mo feleixára hum filho defterrado perafem- 
pre , lembrando-lhe com quanto perigo de 
lua peífoa 3 e de toda aquelia gente ? de tão 

lon- 



190 ÁSIA de João de Barros 

longe , vieram fomente áquelle effefto , pois 
lhe Deos não concedera o principal. Parti- 
dos dalli 5 houveram viíta daquelle grande , 
e notável Cabo \ encuberto per tantas cente- 
nas de annos , como aquelle , que quando 
fe moftraíle não defeubria fomente aíli , mas 
a outro novo Mundo de terras. Ao qual Bar- 
tholomeu Dias , e os de fua companhia per 
caufa dos perigos , e tormentas , que em o 
dobrar delle paflaram , lhe puzeram nome 
Tormentofo ; mas EIRcy D. João , vindo 
elles ao Reyno , lhe deo outro nome mais 
illuítre , chamando-lhe Cabo de Boa Efpe- 
rança , pola que elle promettia deíle deícu- 
brimento da índia tão efperada 5 e per tan- 
tos annos requerida. O qual nome como foi 
dado per Rey , e tal que Hefpanha fe glo- 
ria delle , permanecerá com louvor de quem 
o mandou deícubrir , em quanto efta noífa 
lembrança durar : a deferipção , e figura do 
qual deferevemos cm a noífa Geografia por 
fer lugar mais próprio , peró que aqui fe 
efpere. Bartholomeu Dias depois que notou 
delle o que convinha á navegação , e aífen- 
tou hum Padrão chamado S. Filippe , por- 
que o tempo lhe não deo lugar a fahir em 
terra , tornou a feguir fua cofta em buica da 
náo dos mantimentos , á qual chegaram 5 
Jiavendo nove mezes juftos que delia eram 
partidos. E de nove homens que alli fica- 
ram 3 



Década I. Liv. III. Cap. IV. 191 

ram , eram vivos três fomente , hum dos 
quaes a que chamavam Fernão Colaço , na- 
tural do Lumiar , termo de Lisboa 5 que era 
Efcrivao , affi pafmou de prazer em ver os 
companheiros que morreo logo , andando 
bem fraco de enfermidade, E a razão que 
deram dos mortos , foi fiareni-fe dos Negros 
da terra , com quem vieram ter communi- 
cação 5 os quaes fobre cubica d'algumas cou- 
fas que refgatavam 5 os mataram. Tomados 
muitos mantimentos que acharam 5 e poíío 
fogo á naveta , que já eftava bem comeíio 
do gufano, por não haver quem a pudeíTe 
marear , vieram ter á Ilha do Príncipe , on- 
de acharam Duarte Pacheco Cavalleiro da 
cafa delRey mui doente , o quai por não 
eílar em difpofição pêra per íi ir deícubrir 
os rios da cofta , á que o EIRey mandava , 
enviou o navio a fazer algum refgate , on- 
de fe perdeo , faivando-fe parte da gente , 
que com elle fe veio em eítes navios de Bar- 
tholomeu Dias. E porque já a efte tempo 
era fabido hum rio , que fe chama do Ref- 
gate , polo que fe alli fazia de Negros , por 
não virem com as mãos vaíias , pairaram 
per elle, e aíli pelo Caftello de S.Jorge da 
Mina , eílando nelle João Fogaça por Ca- 
pitão , o qual lhe entregou o ouro que ti- 
nha refgatado , com que fe vieram pêra o 
Reyno , onde chegaram em Dezembro do 

an- 



192 ASXA de JôXo de Barros 

anno de quatrocentos e oitenta e fetc , ha- 
vendo dezefeis niezes , e dezefete dias que 
eram partidos delle. Leixando Bartholomeu 
Dias defeuberto nefta viagem trezentas e 
íincoenta léguas per coita , que he outro tan- 
to como Diogo Cam deícubrio per duas ve- 
zes. Em o qual efpaço de fetecentas e íin- 
coenta léguas , que eítes dous principaes Ca- 
pitães deícubríram , eítam féis Padrões : o 
primeiro chamado S. Jorge em o rio Zai- 
re , que he do Reyno de Congo ; o fegun- 
do Sanílo Agoílinho eítá em hum cabo do 
nome do meímo Padrão ; o terceiro , que 
he o derradeiro de Diogo Cam , na Manga 
das arêas ; o quarto cm ordem , e primeiro 
de Bartholomeu Dias , na Serra parda ; o 
quinto S. Filippe no grande , e notável 
Cabo de Boa Efperança ; e o íexto Sanóta 
Cruz no ilheo deite nome , onde fe acaba- 
ram os Padrões , que poz Bartholomeu Dias, 
e acabou o derradeiro deícubrimento que 
fe fez em tempo delRey D. João. 



CA^ 



Década I. Livro III. 193 

CAPITULO V. 

Como EIRey mandou per terra dous 
criados feus \ hum a ãefcubrir os portos y 
e navegação da índia , c outro com cartas 
ao Prefte João : e como de Roma foi envia- 
do a EIRey hum Abexij Religiofo daquel- 
las partes , por meio do qual elle também 
enviou algumas cartas ao Prejle. 

POr caufa das coufas , que atrás eícreve- 
nios \ e da informação que EIRey Dom 
Joáo tinha da Província em que o Prefte 
João habitava , antes que Bartholomeu Dias 
vielle deíle deícubrimento , determinou de 
o mandar defcubrir per terra. Tendo já a 
iílb enviado duas peffoas per via de Jerufa- 
lem 3 por faber que vinham áqueila fandta 
Cafa em romaria muitos Religiofos do leu 
Reyno ; mas não houve effeíto efta ida co- 
mo EiPvey defejava. Porque hum Fr. Antó- 
nio de Lisboa , e hum Pêro de Montaroyo , 
que eile mandou a iíTo , por não faberem o 
Arábigo , não fe atreveram irem em com- 
panhia deites Religiofos , que acharam em 
Jerufalem. E vendo EIRey quão neceiTaria 
coufa pêra fazer efte caminho era a língua 
Arábia , mandou a efte negocio hum Pêro 
de Covilhã Cavalieiro de fua cafa,, que era 
homem que a fabia mui bem , e em íua 
Tom. I. N com- 



ip4 ÁSIA de JcÁo de Barros 

companhia outro per nome Afonfo de Pai- 
va , os quaes foram deípachados em Santa- 
rém a fete de Maio do anno de quatrocen- 
tos oitenta e fete , fendo prefente ao feu def- 
pacho o Duque de Beja D. Manuel. E des- 
pedidos ambos dclRey, foram ter á Cida- 
de de Nápoles , onde embarcaram pêra a 
Ilha de Rodes ; e chegando a cila 5 poufá- 
ram em cafa de Fr. Gonçalo , e Fr. Fernan- 
do , dous Cavalleiros da Religião , que eram 
Portuguezes , os quaes lhe deram todo avia- 
mento , com que fe pairaram a Alexandria , 
onde fe detiveram algum tempo por adoe- 
cerem de febres á morte. Tanto que eítive- 
ram pêra poder caminhar , paífáram-fe ao 
Cairo , e dahi foram ter ao Toro em com- 
panhia de Mouros de Tremecem , e de Fez , 
que paliavam a Adem ; e por fer tempo da 
navegação daquellas partes , apartara m-fe 
hum do outro , Afonfo de Paiva pêra a ter- 
ra de Ethiopia , e Pêro de Covilhã pêra a 
índia, concertando ambos que a hum certo 
tempo fe ajuntaífem na Cidade do Cairo. 
Embarcado Pêro de Covilhã em huma náo , 
que partia de Adem , foi ter a Cananor 3 e 
dahi a Calecut , e a Goa , Cidades princi- 
paes da coita da índia 5 e aqui embarcou 
pêra a Mina de Çofala, que he na Ethio- 
pja fobre Egypto. Tornado outra vez á Ci- 
dade Adem , que eílá íituada na boca do 

eí- 



Década L Liv. III. Cap. V. iqf 

eftreito do mar Roxo , na parte de Arábia 
Félix , embarcou-fe pêra o Cairo , onde 
achou nova que feu companheiro Afoníò 
de Paiva na própria Cidade havia pouco 
que era falecido de doença» E eílando pêra 
íe vir a eíte Reyno com recado deitas cou- 
fas que tinha fabido , foube que andavam 
alli dous Judeos de Hefpanha em fua bu£ 
ca , com os quaes fe vio mui fecretamente , 
a hum chamavam Rabi Habrao natural de 
Beja , e a outro Jofepe çapateiro de Lame- 
go ; o qual Jofepe havia pouco tempo que 
viera daquellas partes ; e como foube cá no 
Reyno o grande defejo que ElRey tinha 
da informação das coufas da índia , foi-lhe 
dar conta como eftivera cm a Cidade de 
Babylonia , a que ora chamam Bagodad , 
lituada no rio Eufrates , e que alli ouvira 
failar do trato dá Ilha chamada Ormuz > 
que eílava na boca do mar da Períia , em 
a qual havia huma Cidade a mais célebre 
de todas aquellas partes , por a ella con- 
correrem todalas efpeciarias , e riquezas da 
índia , as quaes per cáfilas de camelos vi- 
nham *ter ás Cidades de Aleppo , e Damaf- 
co. ElRey, porque ao tempo que foube ef- 
tas , e outras coufas deite Judeo, era já Po- 
j ro de Covilhã partido , ordenou de o man-* 
1 dar em bufca delíe , e aíli o outro chamado 
\ Rabi Habrao : o Jofepe pêra lhe trazer re* 
N ii ca- 



i<)6 ÁSIA de JoÃo de Barros 

cado das cartas , que per elles mandava z 
Pêro de Covilhã ; e Habrão pêra ir com 
elle ver a Ilha de Ormuz , e dahi fe infor- 
mar das coufas da índia. Em as quaes car- 
tas EIRey encommendava muito a Pêro de 
Covilhã, que fe ainda não tinha achado o 
Prefte João , que não receaíTe o trabalho té 
fe ver com elle, e lhe dar fua carta, e re- 
cado ; e que em quanto a ifto foífe , per 
aquelie Judeo Jofepe lhe efcrevcífe tudo o 
que tinha vifto , e fabido , porque a efte ef- 
feílo fomente o enviava a elle. Pêro de Co- 
vilhã ainda que andava canfado de tanta na- 
vegação , e caminhos , como tinha vifto , e 
fabido , além de efcrever a EIRey , enfor- 
mou miudamente ajoíèpe. Efpedindo-fe do 
qual foi com o outro Judeo Habrão á Ci- 
dade Adem , onde ambos embarcaram pêra 
Ormuz ; e notadas todalas coufas delia , lei- 
xou alli o Judeo Habrão pêra vir per via 
das cáfilas de Aleppo , e elle Pêro de Cdr 
vilhã tornou-fe ao mar Roxo , e dahi foi 
ter á Corte do Preíle per nome Alexandre > 
a que elles chamam Efcander , o qual o 
recebeo com honra , e gazalhado , eftiman 
do em muito Príncipe da Chriftandade das 
partes da Europa mandar a elle Embaixa- 
dor, o que deo efperança a Pêro de Covi- 
lhã poder fer bem defpachado. Porém co- 
mo efte Alexandre depois de fua chegada a 

pou- 



Década I. Liv. III. Cap. V- 197 

poucos dias faleceo , e em feu lugar rei- 
nou Naut feu irmão , : que fez mui pouca 
conta delle , e fobre iífo ainda lhe não quiz 
dar licença que fahiíle do feu Reyno , por 
terem coftume , que fe lá acolhem hum ho- 
mem deftas partes não o leixão mais tornar y 
perdeo Pêro de Covilhã toda a eíperança de 
mais tornar a efte Reyno. Depois paliados 
muitos annos , em o de quinhentos e quin- 
ze 5 reinando David filho defte Naut , reque- 
rendo-lhe por efte Pêro de Covilhã D. Ro- 
drigo de Lima , que lá eftava por Embai- 
xador delRey D. Manuel , ainda lhe negou 
a vinda 5 dizendo , que feus anteceífores lhe 
deram terras i e heranças , que as comeífe , 
e lografíe com fua mulher , e filhos que ti- 
nha. E per via deita embaixada , que levou 
D. Rodrigo , ( da qual em feu lugar fare- 
mos relação,) viemos a faber todo o dif- 
curfo defta viagem de Pêro de Covilhã. Por- 
que entre os Portuguezes que foram com 
elle 5 era hum Francifco Alvres Clérigo de 
Miífa , a quem elle Pêro de Covilhã deo 
conta de fua vida , e fe confeífou a elle; 
do qual Francifco Alvres , e affi de hum tra- 
tado , que elle fez da viagem defta embai- 
xada , que levou D. Rodrigo y foubemos ef- 
tas ? e outras coufas daquellas partes. E lo- 
go no anno feguinte , havendo pouco mais 
de nove mezes que Pêro de Covilhã era par- 
ti- 



i<?8 ÁSIA de João de Barros 

tido , por EIRey ter em todalas partes de 
Levante intelligencias pêra efte negocio , cn- 
viáram-lhe de Roma hum Sacerdote da ter- 
ra do Prefte , o qual havia nome Lucas Mar- 
cos , homem de que EIRey ficou mui fatis- 
feito na prática que teve com elle por dar 
boa razão das coufas. E ordenou logo que 
da fua parte fofle ao Prefte com cartas , cá 
por elle fer natural da terra , e converfado 
naquellas partes cem os bárbaros , podia 
fazer efte caminho mais certo do que o fa- 
ria hum feu menfajeiro , que o anno paífa- 
do enviara a elle. Ordenou mais EIRey com 
o mefmo Marcos que trasladalfe huma car- 
ta per três , ou quatro vias , a qual moftra- 
va fer delle Marcos enviada ao Prefte , dan- 
do-lhe conta como era vindo a efte Reyno 
á inftancia delRey , e o defejo que tinha de 
fua amizade 3 e modo de fua navegação per 
toda a coíía de Africa , e Ethiopia. E os 
Reys , e povos que tinha 'defeuberto , e os 
íinaes dag coufas que naquellas partes ha- 
via , e coftumes que as gentes entre fi tinham , 
e muitos vocábulos que ufavam nas cou- 
fas geraes em fua linguagem , aífi como 
Deos , Ceo , Sol , Lua , Fogo , Ar , Agua , 
Terra ; porque per noticia des taes vocábu- 
los veria em conhecimento fe eftava perto 
da gente que os ufava , a qual toda habi- 
tava na fralda da terra , que cerca o mar 

Ocea- 



Década I. Liv. III. Cap. V. 199 

Oceano , per o qual navegavam os navios 
delRey. Na qual carta também particulari- 
zava todalas informações , que EIRey tinha 
da grandeza das terras de leu império ; e 
pêra que o Prefte lhe déffe credito , fe ante 
elle foífe a carta , nomeava-fe Marcos por 
leu nome , e cujo filho era , e de que co- 
marca 5 povoação , e freguezia. Feitas eftas 
cartas , mandou EIRey a Levante , que as 
entregafíem aos Religiofos da fua nação Abe- 
xij 5 as quaes peró que não foíTem per pef- 
foas mui ceitas,. alguma podia ir ter ámão 
do Prefte , com que acreditaííe a Pêro de 
Covilhã 5 fe lá foíTe ter , quando d'outra cou- 
fa não ferviífem. E per elle Lucas Marcos 
também efcreveo EIRey ao Prefte per o e£ 
tylo das còufas que hiam nas cartas de Mar- 
cos 3 dando-lhe conta como mandara a Ro- 
ma bufcar efte feu natural 5 a fim de lhe po- 
der efcrever per elle Lucas , ao qual podia 
dar fé como a vaíTallo. Pedindo-lhe que 
houveíTe por bem enviar-lhe hum menfajei- 
ro pêra em fua companhia lhe poder enviar 
outro ; porque alguns 5 que lá eram 3 e aílí 
cartas derramadas per mãos de homens feus 
naturaes 5 não fabia fe poderiam paliar per 
as terras dos infiéis , que fe mettiam entre 
elle 3 e a Chriftandade da Europa. E como 
elle por caufa da vizinhança que tinha com 
o Soldão do Cairo feguramente lhe manda- 
va 



aoo ÁSIA de João dê Barros 

va feus Embaixadores 3 e dahi vinham aje- 
rufalem , c a Roma , fegundo efte fcu vaf- 
fallo Lucas contava , podia fer efte hum ca- 
minho pêra per cartas , e embaixadas fe co- 
nhecerem ? e depois NolTo Senhor moftra- 
ria outro , com que fem impedimento dos 
Mouros imigos do nome Chriílão fe po- 
diam preftar com obras de irmãos , pois que 
o eram em Fé. 

CAPITULO VI. 

Como hum Príncipe das partes de Gui- 
né chamado Bemoij veio a efte Reyno , por 
caufa de huma guerra que teve , em que 
perdeo feu ejiado : e como EIRey por o gran- 
de conhecimento que tinha delle , o recebeo , 
fazendo-lhe muita honra. 

SObre a vinda deite Lucas Marcos , fen- 
do já a efte tempo deípachado delRey ? 
e mui fatisfeito das mercês que lhe fez , fuc- 
cedeo outra de outro Ethiopia de não me- 
nos contentamento delRey ; porque citan- 
do em Setúbal lhe veio nova como a Lis- 
boa era chegado hum navio do Caítello de 
Arguim , em o qual vinha hum Príncipe da 
terra de Jalof chamado Bemoij 3 acompa- 
nhado de parentes , e homens nobres dsquel- 
la Provinda. EIRey como per as razoes que 
abaixo diremos tinha muito conhecimento 

dei- 



Década L Liv. III. Gap. VI. 201 

dclle, mandou a Lisboa a que o agazalhaf- 
fem bem, e dahi o paíTaíFem honradamen- 
te ao Caíiello da Villa de Palmela , em o 
qual eiteve alguns dias , em quanto elle , e 
os feus foflem veílidos 5 e encavalgados pê- 
ra poderem ir antelle ; íèndo fempre fervido 
em todalas coufas , não como Principe bár- 
baro , e fora da lei , mas como podia fer 
hum dos Senhores da Europa coítumado ás 
policias , e ferviços delia. E outro tanto lhe 
foi feiro em o dia da fua entrada na Cor- 
te , vindo por elle D. Francifco Coutinho 
Conde de Marialva y acompanhado de mui- 
ta Fidalguia. Pêra o qual dia EIRey , e a 
Rainha fe aperceberam com apparato de 
cafas armadas cada hum em a lua : EIRey 
na fala em eílrado alto com hum docel de 
brocado rico , acompanhado do Duque de 
Beja D. Manuel , irmão da P v ainha , e aíli 
de Condes , Bifpos , e outras peíToas notá- 
veis ; e com a Rainha eítava o Principe Dom 
Afonfo feu Filho , e muitos dos Nobres da 
Corte , com todalas Damas veítidas de fe£ 
ta. E porque na falia ? que Bemoij fez nei- 
ta primeira chegada , e viíla delRey , fe- 
gundo anda efcrita per Ruy de Pina 5 Chro- 
nifta mor que foi deite Reyno , aíli na Chro- 
nica , que deite Rey compoz , a relação da 
fortuna deite Principe Bemoij eítá tão cur- 
ta, quanto he copiofa em os louvores dei- 

Re 7 , 



202 ÁSIA de João de Barbos 

Rey , e admirações , que eile Bemoij fazia 
de ver feu eftado , leixaremos a eloquência 
delia neíla parte , e tomaremos o noflb in- 
tento 5 que he contar os fundamentos do 
feu deílerro , e o que fuccedeo deita fua 
vinda , por ifto fer próprio da hiítoria. No 
princípio , quando o commercio de Guiné 
começou correr entre os noflbs , e os povos 
da região de Jalof , a qual jaz entre cites 
dous notáveis rios Çanaga , e Gambea , ha- 
via hum Rey mui poderofo naquellas par- 
tes chamado Bór Byrão , o qual poíto que 
foíTe cio fangue gentio dos Príncipes de Gui- 
né , era já feito Mouro pela communicaçao 
que tinha com os Mouros chamados Aze- 
negues. E entre os filhos , que leixou per 
fua morte de mulheres differentes , ( iegun- 
do feu ufo,) foram Cybitah , e Camba, 
que eram de huma mulher , e Byrão de ou- 
tra , que já fora caiada com outro marido , 
do qual marido ella tinha havido efte Be- 
moij de que falíamos. E porque naquella 
terra as mais vezes , morto EIRey , o pc- 
vo toma hum dos filhos que o governe , 
qual lhe mais apraz, elegeram por feu Rey 
a Byrão j o qual mettido em poííe de gover- 
no da terra , fez mui pouca conta deites 
dous irmãos Cybitah , e Camba , por ferem 
léus competidores no Reyno por parte do 
pai 7 e muita eítima de Bemoij feu irmão 

da 



Década I. Liv. III. Cap. VI. 203 

da parte da mai , com quem não tinha com- 
petência deita herança ; ao qual em ódio dos 
outros não fomente deo o regimento de to- 
do feu eítado per ofíicio , lègundo feu cos- 
tume , mas ainda fe defcuidou tanto do go- 
verno , e occupou em coufas de feu prazer > 
que o povo não conhecia , nem obedecia 
já fenão á peíToa de Bemoij. E como elle 
era homem prudente , vendo que com os 
noííbs navios , que andavam no refgate da- 
quella cofia , a terra engroífava cem cavai- 
los , e outras mercadorias , de que ella ca- 
recia , as quaes coufas fe lhe vieífem á mão 
o podiam fazer mais poderofo , leixou as 
terras do fertao , e veio bufear os portos do 
mar , onde noífos navios hiam fazer refga- 
te. Na maneira de contratar com os quaes 
ufava deita prudência , mandar pagar qual- 
quer cavallo que morria em o navio , e baf- 
tava por teítemunho moftrarem-lhe o cabo 
delle; porque dizia que quando o tal cavai- 
lo fe embarcara , já fora em feu nome , e 
que não era razão que os homens perdei- 
fem o feu 5 pois hiam tão longe a lhe levar 
o que elie havia miíter. E não fomente ti- 
nha efte modo de contentar as partes , mas 
ainda em as coufas do ferviço delRey Dom 
João 5 em cujo tempo elie concorreo , co- 
mo homem que efperava de fe aproveitar 
de fua amizade $ tanto que os fetis navios 

vi- 



204 ÁSIA de JoÁo de Barros 

vinham ao porto , logo eram com diligen- 
cia defpachados \ e iòbre iíTo mandava-lhe 
alguns prefentes das coufas da terra. Com 
que EIRey , além do defejo geral que ti- 
nha de trazer á Fé todos aquelles Prínci- 
pes de Guiné , a eíle mais particularmente 
tinha affeição , por lhe também dizerem ter 
peffoa , engenho , e hum claro Juízo pêra 
receber a dodlrina Evangélica. E a cila cau- 
fa fempre encommendava aos Capitães, que 
hiam ao refgate daquelles feus portos , que 
tiveflem prática com elle fobre as coufas da 
Fé ; e per algumas vezes lhe mandou men- 
fajeiros com cfte requerimento , levando-lhe 
dadivas y e prefentes , e muitas oíFertas da 
crefeentamento de feu eítado por o mais ani- 
mar. Mas elle , ou porque no tal tempo não 
merecia a Deos tamanha mercê , ou porque 
lhe eftava promettida per outros meios de 
mais fua honra , com que a fua memoria 
andaífe em as Chronicas dos Reys deite 
Reyno , por então não acceptou o Baptif- 
mo , dando fempre de li muita efperança 
no contentamento que tinha em folgar de 
ouvir a quem lhe fallava neílas coufas da 
Fé. E efta profperidade lua caufou a mor- 
te a feu irmão , que lhe deo o governo do 
Reyno , e a elle fer deíterrado ; porque os 
dous irmãos Lybitab , e Camba á traição 
nia taram a EIRey Bór Birão , intitulando- fe 

por 



Década L Liv. III. Cap. VI. 205^ 

por Rey Cybitah, que era mais velho, o 
qual cruamente começou fazer guerra a Be- 
moij. E como a guerra neceffita os homens , 
principalmente fe he comprida , polo tra- 
balho que Bemoij neíla teve , perdendo al- 
gumas batalhas , começou defcahir do po- 
der que tinha ; mas confiado nós ferviços que 
fazia a ElRey D. João , em hum navio do 
refgate mandou a elle hum feu fobrinho , pe- 
dindo-lhe ajuda de cavallos , armas , e gen-^ 
te. Ao qual requerimento ElRey refpondeo , 
que fe elle algum adjutorio delle queria ^ 
recebeffe o Baptifmo , e então que o ajuda- 
ria como irmão per lei , e Fé , e como ami- 
go por as obras que delle tinha recebido °> 
porém polo confolar em fua neceffidade , e 
animar a fe converter , mandou-lhe finco ca- 
vallos ajaezados pêra fua peífoa , e o Du- 
que de Beja D. Manuel lhe mandou hum, 
e arreios pêra outros. Ás quaes coufas le- 
vou Gonçalo Coelho , que depois foi Ef~ 
crivao da Fazenda dos Contos da Cidade 
de Lisboa , de quem nós foubemos a maior 
parte deitas' coufas *, e em fua companhia 
foi o menfajeiro , que veio de Bemoij, e 
aíli alguns Clérigos pêra praticarem com el- 
le em as coufas da Fé. Com a qual ida de 
Gonçalo Coelho , alguma gente da que hia 
em os navios do refgate , tomou oufadia de 
entrar pela terra firme em fua companhia 

pe- 



2o6 ASIx\ de JoÁo de BaiUos 

pêra poderem melhor vender fuás mercado- 
rias > porque já por razão da guerra náo cor- 
ria reigate coítumado aos portos de mar. E 
foi efte negocio de os noífos irem , e virem 
áo arraiaj de Bemoij em tanto crefcimento , 
e cllc por caufa da guerra , pêra a qual os 
havia miíler , tomava tantos câvaílos fem 
os poder pagar , que andava lá muita gen- 
te , huns por arrecadar o que lhe deviam y 
c outros por desbaratar o que não podiam 
vender em os portos de mar. Bemoij , como 
€ra homem fagaz , vendo que ema detença 
do defpacho , afli Gonçalo Coelho , como 
as partes , que alli andavam , o favoreciam 
em os feus negócios da guerra , trouxe-o 
lá em efperança de fua conversão perto de 
hum anno. Gonçalo Coelho fentindo eíta 
fua tenção , e mais vendo como fe os ho- 
mens perdiam em as mercadorias fiadas a 
Bemoij , efreveo a EIRey o pouco fruto 
que fazia , e o damno que caufava a fua 
citada lá. EIRey vifta a carta de Gonçalo 
Coelho , mandou que logo fe vieífe , efpe- 
dindo-fe de Bemoij fem efcandalo ; e que 
notificaífe as partes que lá andavam , que fe 
vieííem em fua companhia, fob graves pe- 
nas náo o querendo fazer. Bemoij quando 
lhe Gonçalo Coelho diffe de fua vinda 3 fi- 
cou mui trifte , porque via chegar-fe fua 
perdição, por o grande favor que com el- 

le 



Década L LiV. HL Cap. VI. 207 

le recebia pêra as coufas da guerra , e tam- 
bém porque lhe convinha , por não perder 
o credito , pagar o que devia ás partes. Po- 
rém vendo eile que não podia deter Gon- 
çalo Coelho , com ajuda dos feus pagou o 
que devia y e mandou o mefmo fobrinho, 
que do Reyno viera com Gonçalo Coelho y 
que tornaífe em fua companhia , enviando 
per elle a EIRey cem peças d'eícravos bem 
difpoftos dos que havia na guerra , e aíli hu- 
ma groíTa manilha d ? ouro , como carta de 
crença , fegundo feu coftume. E entre algu- 
mas caufas, per que fe mandou defculpar a 
EIRey de não acceptar o Baptifmo , foi y 
que o povo que o leguia andava aíevanta- 
do com a guerra , e que mudar elle lei , e 
modo de vida era neceíTario obrigar a to- 
dos que fizeflem outro tanto. E como he 
coufa dura em breve tempo a gente barba- 
ra leixar os ritos , e ufos , em que fe creá- 
ram , feria caufa que per eííe modo primei- 
ro leixariam a elle que a elíes , donde fe 
perderia azo de em outro tempo per elle 
todos poderem receber Baptiímo , o qual 
tempo elle efperava em Deos que o daria 
com aífocego daquelles trabalhos , em que 
andava com feus imigos. Finalmente pare- 
ce que aífi o queria Deos , que per efta for- 
tuna , e trabalho vieífe efte Príncipe Bemoij 
ao Baptifmo , porque aíli ficou desbaratado > 

e de- 



2o8 ÁSIA deJoXo de Barros 

e defemparado dos fcus em huma batalha 
que lhe deram : que tomou por emparo de 
íua vida vir ao longo do mar per efpaço 
demais defetenta léguas bufcar anofía for- 
taleza de Arguira , onde embarcou com 
aquelles poucos que o feguíram , poílo na 
eíperança da grandeza , e liberalidade del- 
Rey , de quem tanta offerta em palavras , 
e tanta honra , e mercê em obras tinha re- 
cebido. A qual confiança o não enganou ; 
porque lembrando aElPvey quanta verdade 
iempre achou em Bemoij cm tempo de fua 
proíperidade ^ e também com defejo de o 
trazer per taes benefícios ao Baptifmo , cau- 
fou recebello com tanta honra , e apparato ; 
porque também grande confolaçao he aos 
triíles a facilidade , com que os recebem na 
primeira entrada de feu requerimento. E 
fendo elle já dentro na fala 3 onde EIRey 
o eftava efperando , como diífcmos , fahio 
dous , ou três paífos do eftrado com o bar- 
rete hum pouco fora. Bemoij , fegundo feu 
coílume , tanto que fe vio ante EIRey com 
todolos feus , íe debruçou aos feus pés , 
moílrando que tomava a terra debaixo del- 
les , e a lançava fobre fua cabeça em. íinal 
de humildade , e obediência , o qual EIRey 
fez alevantar ; e tornando-fe ao eílrado , 
encoílou-fe em pé a huma cadeira , man- 
dando ao interprete que lhe diíTeífe que fal- 

laf- 



Década I. Liv. III. Cap. VL 209 

laíTe. Bemoij como era homem grande de 
corpo, bem difpoílo, e de bom afpeéto, e 
eítava em idade de quarenta annos , com 
huma barba crefcida , e bem pofta , repre- 
fentava não homem de fuás cores , mas hum 
Príncipe , a quem fe devia todo acatamen- 
to; com a qual mageílade de peíToa come- 
çou, e acabou fua oração com tantos affe- 
&os de provocar a fe condoerem do caio 
miferavel de feu defterro , que fomente ven- 
do eftas noticias naturaes , ellas per 11 mos- 
travam o que o interprete depois dizia. E 
acabando de relatar feu cafo , como podia 
fazer hum natural Orador, pondo todo o 
remédio delle na grandeza delRey , em que 
fe deteve hum bom pedaço, refpondeo-lhe 
em poucas palavras tanto a feu contenta- 
mento , que logo efte prazer deo a elle Be- 
moij outro roílro , outro animo, outro ar, 
e graça ; e efpedindo-fe delRey , foi beijar 
a mão á Rainha , e ao Príncipe , a quem 
diífe poucas palavras , no fim das quaes pe- 
dio que fofíem feus interceífores ante El- 
Rey , e dahi foi levado a feu apoufentamen- 
to per toda aquella Fidalguia que o acom- 
panhava. 



TonuL O CA- 



aio ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO VIL 

Como o Príncipe Bemoij recebeo agua 
de Baptifmo , e houve nome D. João Be- 
moij : e dasfejias , que EIRey por fua cau- 
fa mandou fazer : e ajji foram feitos Chri- 
jiãos lodo/os outros que vieram em fua 
companhia. 

PAíTado eíle dia da chegada de Bemoij , 
depois per muitas vezes eíleve EIRey 
com elle em prática particular, da qual fi- 
cou tão contente como da peflba ; porque 
aíli no que dizia , e perguntava , como no 
que refpondia ao que era perguntado , mof- 
trava ler dotado de mui claro entendimen- 
to. Entre as quaes coufas , as de que EIRey 
muito lançou mão , foram as que contava 
d'alguns Reys , e Príncipes daquellas partes , 
principalmente de hum , que elle chamava 
Rey dos povos Mofes , cujo eílado come- 
çava alem de Tungubutu , e fe eftendia con- 
tra o Oriente , o qual não era Mouro , nem 
Gentio , e que em muitas coufas fe confor- 
mava em coílumes com o povo Chriílao : 
donde EIRey vinha a conjedhirar , que o 
dizia por o Prefte João , que elle tanto de- 
fejava defeubrir , as quaes coufas muito apro- 
veitaram pêra o bom defpacho de Bemoij 
poios fundamentos que fobre ellas fazia. E 

a pri- 



Década L Liv. "III. Cap. VIL 211 

a primeira , em que EIRey entendeo de feus 
negocio? , foi entregallo a Theologos , que 
lhe praticaflem as coufas da Fé pêra eítar 
mais difpoílo pêra receber o Baptifmo ; o 
qual Sacramento recebeo a três de Novem- 
bro defte anno de quatrocentos oitenta e no- 
ve huma noite em caía da Rainha , fendo 
EIRey , e Ella, o Príncipe, o Duque de- 
Beja , hum CommuTario do Papa , o Bifpo 
de Tanger, e o de Cepta, que fez o offi- 
cio , padrinhos delle , e d'outros dous Fi- 
dalgos dos principaes de fua companhia, e 
houve nome D. João por amor delRey. 
Ao outro dia fobre efta honra d'alma , que 
he eterna , houve outra temporal , fazendo-o 
EIRey Cavalíeiro , e dando-lhe armas de 
nobreza : huma cruz d 'ouro em campo ver- 
melho , e as quinas de Portugal por orla : 
e elle em retorno defta honra fez omenage 
a EIRey de todo o eílado que ganhafíe , e 
íiveíTe ; e per o CommiíTario do Papa lhe 
mandou fua obediência em forma , como 
qualquer Príncipe Chriftao. Depois delle re- 
ceberam Baptifmo vinte e quatro homens Fi- 
dalgos dos feus , pêra o qual auélo fe ar- 
mou de tapeceria a cafa dos Contos da di- 
ta Villa ; e em quanto duraram eftas hon- 
ras do Baptifmo de D. João Bemoij , e dos 
feus , fempre houve feitas de canas , touros , 
mommos 7 e grandes ferões polo contenta- 
O U men- 



212 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

mento que EIRey tinha de fua conversão* 
Elle D. João Bemoij , também a feu mo- 
do , quiz fazer as fuás ; porque como tra- 
zia alguns homens grandes cavalgadores , 
diante delRey corriam a carreira em pé , 
virando-fe , e aííentando-fe , e tornando-fe 
levantar, tudo em huma corrida: e com a 
mão no arção da fella faltavam no chão , 
correndo a toda força do cavallo; e torna- 
vam-fe á fella tão foltos , como o podiam 
fazer a pé quedo. E da mefma fella a grão 
correr apanhavam quantas pedras lhes pu- 
nham ao longo da carreira , e outras^ mui- 
tas defenveituras mui apraziveis dever, em 
que moítravam ferem mais foltos a cavallo , 
e a pé , do que eram os Alarves de Afri- 
ca , que fe prezam muito deitas folturas. 
Paliados eítes dias de feita , começou EIRey 
entender em o defpacho pêra o tornar a reí- 
tituir em feu citado , fobre que houve at- 
guns confeihos , em que fe aífentou man- 
dar EIRey com elle vinte caravelas arma- 
das de gente , e munições , aíli pêra fua res- 
tituição , como pêra huma fortaleza , que fe 
havia de fazer á borda do rio Çanâgá. E 
porque a caufa de EIRey mandar fazer ef- 
ta fortaleza não foi por fer tão neceífaria á 
reítituição deite Príncipe, quanto por outro 
fundamento que fez ; depois que delle fou- 
be o eítado da terra , e o curfo do rio , que 

té 



Década L Liv. III. Cap. VIL e VIII. 215 

té aquelle tempo foi havido por hum braço 
do Nilo : primeiro que mais procedamos 
na armada , convém tratarmos delle , e aíli 
deita Provincia de Jalof , porque fe faiba 
com quanto fundamento de prudência EIRey 
fez tao grande apparato , e defpeza. 

CAPITULO VIII. 

Em que fe defcreve a terra , que jaz 
entre os âous rios Canagd , e Gambea , e 
do curfo delle s : e como Fero Vaz Bifagu- 
do , que levou o Príncipe D. João Bemoij , 
o matou mal , dizendo que armava trai- 
ção , a qual morte EIRey muito fentio. 

ESta terra, que per commum vocábulo 
dos naturaes he chamada Jalof , jaz 
entre eíles dous notáveis rios Çanagá , e 
Gambea , os quaes pelo comprido curfo que 
trazem , recebem diverfos nomes , fegundo 
os povos que os vizinham. Porque onde o 
chamado Çanagá per nós , fe mette no mar 
Oceano Occidental , os povos Jalofos lhe 
chamam Dengueh , e os Tucurôes mais aíli- 
ma Maio , e os Caragoles Cólle ; e quan- 
do corre per huma Comarca chamada Ba- 
gano , que he mais Oriental, charnam-lhe 
Zimbalá, donde ás vezes por caufa delle á 
Comarca dam eítemefmo nome, enoRey- 
no de Tungubutu lhe chamam Iça. E poí- 

to 



214 ÁSIA de JoÁo de Barros 

to que corre per muita diílancia de terras, 
vindo das fontes Orientaes dos Jagos , a que 
Ptholomeu chama Chelonides , Nuba 5 e rio 
Gir , quaíi per direito curfo té fe metter no 
Oceano , em altura de quinze gráos e meio , 
não lhe fabemos o nome que lhe os ou- 
tros povos dam. Acerca de nós geralmente 
he chamado Çanagá , do nome de hum Se- 
nhor da terra , com quem os noflòs no prin- 
cípio do defcubrimcnto delle tiveram com- 
mercio, cá lhe não fabiam chamar fenao o 
rio de Çanagá. E fendo rio , que vem de 
tão longe , não traz tanto pezo d'agua , 
nem a maré fóbe tanto per elle , como o 
rio Gambea de Cantor. Faz algumas Ilhas , 
as mais delias povoadas de animaes , e im- 
nundicias por fua afpereza ; e em certos lu- 
gares fe não leixa navegar com penedias 
que o atraveífava , principalmente obra de 
cento e íincoenta léguas da barra , onde fe 
elle chama Colle , porque alli faz quaíi ou- 
tras catarraélas , como as do Nilo. Ao qual 
lugar os moradores chamam Huaba , e per 
ellas corre tão tezo , e affi eftá cortada a 
pique a penedia íbbre a terra , onde elle ca- 
íie comaquella fúria, que podem parta r per 
baixo a pé enxuto ao longo defta agrura da 
penedia : iílo porém ( fegundo dizem os da 
terra) fepóde fazer, quando venta deíima, 
e,'de baixo não, porque então o vento re- 

ba- 



Década I. Liv. III. Cap. VIII. 215: 

bate as aguas contra a penedia de maneira , 
que impedem efta paflagem, e a efte lugar 
chamam os negros Burto , que quer dizer 
arco , polo que faz o jorro d'agua no ar , 
em quanto não cahe no chão. Mettem-fe neíle 
rio outros mui cabedaes em agua í que por 
virem per defpovoado de gente , e multi- 
dão de animaes , entre os povos , com que 
temos commercio , não tem nome , nem me- 
nos acerca dos noflbs : peró que em as ta- 
voas da noíTa Geografia fituemos feu curfo 
em graduação. Entre alguns rios, que nel- 
le entram, hehum, que vem da parte do Sul 
das terras , a que os Negros propriamente 
chamam Guiné , ou Gennij , (como abaixo 
veremos , ) o qual por vir per lugares bar- 
rentos traz fuás aguas hum pouco verme- 
lhas , e eíle Çanagá tem as fuás dalli pêra 
lima brancas j e ao lugar , onde fe ambos 
ajuntam , chamam-lhe os povos Çaragolees 
Gufitembó , que quer dizer branco , e ver- 
melho. Dizem elles que são ambos compe- 
tidores , e contrários ; porque bebendo das 
aguas de hum , e logo do outro , fazem ar- 
ravezar : o que cada hum per íi fó não faz y 
nem menos depois que fe ajuntam n e cor- 
rem. O outro rio Gambea do refgate de 
Cantor não tem tanta variação em nome, 
porque quaíi todo elle té o refgate do ou- 
ro , onde vam os noíTos navios, que fera 

da 



2l6 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

da barra , por razão das fuás voltas , cento e 
oitenta léguas , e per linha direita oitenta , 
chamam-lhe os Negros da terra Gambu , e 
nós Gambea. A maior parte do qual corre 
tortuofo em voltas miúdas , principalmente 
do refgate pêra baixo , té fe metter no mar 
em altura de treze gráos e meio ao Suefte 
do Cabo , a que chamamos Verde. Traz 
maior pezo d'agua que Çanagá , e muito 
mais profunda , porque fe mettem nelle al- 
guns rios bárbaros mui cabedaes , que tem 
leu nafcimento no fertão da terra chamada 
Mandinga , e as principaes fontes fuás são 
as do rio , a que Ptholomeu chama Niguer , 
e a lagoa Libya. Em vir tortuofo quebram 
as aguas de maneira , que não vem com ím- 
peto contra os noífos navios , quando fobem 
per elle ; e quaíl meio caminho , ante que 
cheguem ao refgate , faz huma ilheta , a que 
os noífos pelos muitos Elefantes que alli ha- 
via, lhe chamam dos Elefantes. Aílima do 
refgate do ouro tem huma pedra , que por 
totalmente impedir a paífagem , eíle Rey 
D. João de que falíamos , mandou lá officiaes 
pêra a quebrarem , o que fe não fez por fer 
coufa mui euftofa , e de grande trabalho. 
Ambos eftes rios Gambea , e Çanagá , ge- 
ralmente criam grão variedade de pefeado 3 
e animaes aquáticos , aííi como cavallos , a 
que chamamos marinhos 5 emui grandes la- 
gar- 



Década I. Liv. III. Cap. VIII. 217 

gartos , que em figura , e natureza são os 
crocodilos do Nilo celebrados per tantos 
Efcritores , e também ferpentes , que tem as 
pequenas , e não tão monftruofas como pin- 
tam, e fabulam as gentes. Animaes terref- 
tes , que bebem as fuás aguas , he coufa fem 
numero a multidão , e variedade delias , por- 
que affi andam os Elefantes em manadas > 
como cá vemos os gados. Gazellas , porcos , 
onças , e todo género de veação fem nome 
entre nós aqui fe moftrou a natureza fecun- 
da , e pródiga em a multidão , e varia- 
ção delia. A terra , que jaz entre eftes dous 
rios , faz hum notável cabo , a que os nof- 
fos chamam Verde , e Ptholomeu Arfinario 
promontório ; e poílo que elle o íitue em 
largura de dez gráos, edous terços , e per 
nós feja verificado em quatorze e hum ter- 
ço , fegundo a figura delle 5 e as Ilhas , que 
ao Occidente lhe eftam oppoíltas , (a que nós 
por razão delle per nome geral chamamos 
do Cabo Verde , e elle Hefpiradas ,) não po- 
de fer outro. E também por ficar entre dous 
notáveis rios , a que elle chama Darago , 
que he Çanagá , e Stachires Gambea , os 
quaes na entrada domar quaíi imitam a ver- 
dade que nós ora temos : peró no curfo de 
cada hum desfaleceo 3 pois lhe dá o nafci- 
rnento mui curto , e elles vem das fontes 
que aíTima diíTemos 5 aos quaes Ptholomeu 

não 



2i8 ÁSIA de JoÃo de Barros 

não dá fahida , como moftra a lua taboa. 
Geralmente a terra , que jaz entre elles , ef- 
tendendo-fe contra o Oriente até cento e 
fetenta léguas , fe chama Jalof , e os feus 
povos Jalofos , pofto que em íi comprehen- 
dem muito mais gerações das que Ptholo- 
meu terminou dentro nas correntes de Da- 
rado 5 e Stachio. A terra em íi he groífa , 
c mui fértil na crcaçao de todalas couíàs , 
e alíi forte , principalmente a que leixam re- 
gada eftes dons rios no tempo de fuás cheias , 
que quando vem no verão , com a força do 
Sol faz greta , que podem nella enterrar 
hum cavallo. E pêra dar os milhos de ma- 
çaroca , a que chamamos zaburro , que he 
o commum mantimento daquelles povos , 
porque lhes poffa nafcer , depois de limpo , 
o cifco que leixou o enxurro , lançam a fe- 
nicnte fem mais lavras , e com huma tona 
de arêa per fima o cobrem ; porque ficando 
enterrada com terra , faz huma côdea per 
fima tão dura , que a quentura do Sol aper- 
ta com a muita humidade debaixo , que não 
leixa íahir a femente aílima , o qual impe- 
dimento lhe não faz a arêa ; e baila pcra a 
corrupção , e creação da femente o laflro 
da terra, que tem debaixo mui húmido das 
aguas pa{Tadas , e os grandes orvalhos da 
noite , que trafpaflam a arêa. Trigo , e ou- 
tras fementes , que temos neftas partes , não 

ufain 



Década L Liv. III. Cap. VIII. 219 

ufam delias , nem parece que o clima as 
coníèntiria que vieffem a madurecer , por fe- 
rem terras mui húmidas , principalmente as 
vizinhas a Gambea. Somente em as terras, 
que habitam os povos Çaragolees , em al- 
gumas vargias já vizinhas aos defertos , co- 
lhem algum trigo mais hortado á enxada 
que lavrado com arado 5 muito mais grof- 
fo , e formofo que o de Heípanha , (fegun- 
do elles dizem.) E efte rio Çanagá per a di- 
visão noíla he o que aparta a terra dos Mou- 
ros dos Negros , pofto que ao longo de fuás 
aguas todos são meíticos , em cor , vida , e 
coílumes 3 per razão da cópula , que fegun- 
do coftume dos Mouros toda mulher ac- 
ceptão. Peró quanto á qualidade da terra , 
parece que a natureza lançou aqueíle rio 
entre ambas , como marco , e divisão ; por- 
que a que jaz da parte do Norte , que pro- 
priamente os Mouros habitam , começando 
no mar Oceano Occidental em largura de 
cem léguas , e ás vezes mais , e menos , á ma- 
neira de huma faixa , de que o rio Çanagá 
he a ourella , fe vai extendendo contra o 
Oriente té ir beber nas aguas do Nilo ; e 
tomando alli alguma humidade da corrente 
delias , torna com aquella feccura , e efteri- 
lidade, que leva té darcomíigo em as aguas 
falgadas do mar Roxo. O qual defeito não 
he aíli tão efteril per todo , que alguma 

par- 



220 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

parte não íeja povoado em empolas , que 
são os Abeíès de que efereve* Eftrabo 5 e o 
mais he paílado de muitos Alarves , que 
per elle andam em cabildas \ e por razão 
das qualidades que tem, lhe dam differentes 
nomes. Porque a terra , que he toda arêa 
miúda ? fem coufa verde , a efta chamam 
elles Çahel ; e á que he cuberta de alguma 
herva , ou mata , como de charneca pobre , 
que he a parte que elles paftam , chamam 
Azagar ; e á que he de pedregulho miúdo 
em modo de groffa arêa , Çahará ; e a efta 
caufa os mais dos moradores deita trifte ter- 
ra fe achegam a eíle rio Çanagá, e outros 
andam buícando as empolas que diflemos , 
que lhes ficam em lugar de pomares. Por 
razão do qual rio a terra mais povoada he 
a que jaz ao longo delle , onde ha algumas 
Cidades , a principal das quaes he Tungu- 
butu , que.eíiá três léguas affaftada delle da 
banda do Norte , onde por caufa do ouro , 
que vem ter a eila da grande Provinda de 
Mandinga , concorrem muitos Mercadores 
do Cairo , de Tunes 5 de Ourão , Treme- 
cem , Fez , Marrocos , e de outros Rey- 
nos ? e Senhorios de Mouros. E aíli con- 
corriam á outra Cidade , que eftá nas cor- 
rentes defte rio chamada Genná , a qual em 
outro tempo era mais célebre que Tungu- 
butu j e ou que ella déíTe nome ao Reyno , 

ou 



Década I. Liv. III. Cap. VIII. 221 

ou que o Reyno o défle a ella , daqui fe 
charria acerca de nós toda aquella região de 
Çanagá por diante Guiné, poílo que entre 
os Negros huns lhe chamam Genná , outros 
Jannij , e outros Gennij. E como eftá mais 
Occidental que Tungubutu , geralmente con- 
corriam a ella os povos , que lhe são mais 
vizinhos : afll com os Çaragolees , Fullos, 
jalofos , Àzaneges , Brabaxijs , Tigurarijs , 
Luddayas , da mão dos quaes per via do 
Caíleilo de Arguim , e de toda aquella cof- 
ta vinha o ouro a noíTas mãos , e outros 
povos do interior de Mandinga acudiam ao 
reígate de Cantor , a que vam os noflbs na- 
vios per o rio Gambea. E não trazendo as 
arêas deites dous notáveis rios Çanagá , e 
Gambea tanto ouro , como as do noífo Te- 
jo , e Mondego 3 eftá tão trocada a opinião 
dos homens , que menos eílimam o que tem 
acerca de íi , que o que efperam per tantos 
perigos , e trabalhos , como paliam em o 
ir buícar a eftes dous rios bárbaros. E por- 
que delias , ed'outras coufas, de que copio- 
samente tratamos em a nofla Geografia , El- 
Rey D. João , de que falíamos 5 era já infor- 
mado ante da vinda de Bemoij , e elle o 
confirmou mais nellas , pareceo-lhe coufa 
mui proveitofa afeueílado, eabem defeus 
naturaes fazer fortaleza nefte rio Canadá, 
como porta, per que com ajuda deftes povos 

Ja- 



222 ÁSIA de João de Barros 

Jalofos , que clle efperava cm Deos , que 
per meio deite Príncipe D. João Bemoij fe 
converteriam a Fé, (como fe convenço o 
Reyno de Congo, ) podia entrar ao interior 
daqueila grão terra té chegar ao Preíle , de 
quem elle tanto fundamento fazia pêra as 
coufas da índia. Também como per o Caf- 
tello de Arguim , relgate de Cantor , Serra 
Lioa , e fortaleza da Mina , grande parte 
da terra de Guiné era fangrada do ouro , 
que em fi continha : com efta fortaleza do 
rio Çanagá ficava fangrada do outro ouro, 
que corria as duas feiras que diíTemos , por 
ambas cftarem íítuadas ao longo das aguas 
delle , com que não iria ter ás mãos dos 
Mouros , os quacs o vinham buícar per 
tantos defeitos em cáfila de camelos , que 
muitas vezes ficavam enterrados em os areaes 
1 da Libya , per que caminhavam. AíTi que 
com eftes fundamentos , e outros de muita 
prudência , mandou EIRey fazer a Armada 
de vinte caravelas que diíTemos , a capita- 
nia da qual deo a Pêro Vaz da Cunha , 
d'alcunha Bifagudo , em que foi muita , e 
luzida gente , aíTi d'armas , como officiaes pê- 
ra a obra da fortaleza , e pêra a conversão 
dos bárbaros alguns Religiofos , o maioral 
dos quaes era Medre Álvaro Frade da Or- 
dem de S. Domingos , e feu ConfeíTor , pef- 
foa mui notável em vida , e letras. Mas pa- 
re- . 



Década I. Liv. TIL Cap. VIII. 223 

rece que ainda aquelles povos não tinham 
merecido a Deos o mérito do Baptiímo ; 
porque entrando Pêro Vaz em o rio Çana- 
gá com aquelle grão poder , que efpantou 
a todolos bárbaros da terra 5 eftando já na 
obra da fortaleza , (a qual fegundo dizem foi 
elegida em máo lugar por razão das cheias 
do rio,) dentro em ofeu navio matou Be- 
moij ás punhaladas , dizendo que lhe orde- 
nava traição. Alguns affirmam que Pêro Vaz 
nefte cafo foi enganado , e que mais con- 
demnou á morte D. João Bemoij começar 
alguma gente adoecer , por fer lugar doen- 
tio , que elle Pêro Vaz mais temeo que a 
traição , como quem havia de ficar na for- 
taleza , depois que foífe feita. Com morte 
do qual Príncipe Pêro Vaz fe tornou a eíle 
Reyno y do qual cafo EIRey ficou mui des- 
contente , e per aquella vez ceifaram os 
feus fundamentos da fortaleza , que manda- 
va fazer naquelle rio Çanagá , de que hoje 
( fegundo alguns dos noíTos dizem ) ainda 
íe nioftra parte das fuás paredes. 



CA- 



224 ÁSIA dé João de Barros 

CAPITULO IX. 

Como EIRey mandou o Embaixador , e 
moços , que vieram de Congo em três na- 
vios , de que era Capitão Gonçalo de Sou- 
fa Fidalgo de fua cafa j em companhia da 
qual hiam Religiofos , c Sacerdotes pêra a 
conversão da gente ãaquella parte , da obra 
que fizeram té a tornada dos navios. 

NEÍle tempo paflava de dous annos, 
que era feito Chriítao o Embaixador 
delRey de Congo , e os moços que com 
elie vieram ; e porque já entendiam bem a 
lingua , de que elles principalmente haviam 
de fervir na conversão delRey , e de todo 
oReyno de Congo, e também em as cou- 
fas da Fé citavam doutrinados , fegundo a 
capacidade de feu entendimento , mandou 
EIRey que pêra eíta paíTagem delles , e dos 
Religiofos , que haviam de miniílrar as cou- 
fas deita conversão , fe fizefíem preftes três 
navios já no fim do anno de quatrocentos 
e noventa. A capitania mor da qual viagem 
deo a Gonçalo de Soufa Fidalgo da fua Ca- 
fa , e dos outros dous navios eram Capitães 
Fernão do Avellar , e Afonfo de Moura 
também Cavalleiro da fua Cafa. Os quaes , 
porque ao tempo que partiram de Lisboa , 
faleciam nella de peite , que havia annos 

que 



Década I. Liv. III. Ca?. IX. 22? 

que andava, não fe puderam tanto refguar- 
dar , que não foíTem ifcados delia , de ma- 
neira , que no Cabo Verde faleceo Gonçalo 
deSoufa, e D. João de Souía Embaixador, 
e o Efcrivão da Armada , e outras peflbas , 
que fez grande confusão em todos ; temen- 
do que poucos , e poucos foíTem morrendo 
todos por efle mar , e também pola diíFe- 
renca que entre elles houve , qual dos Ca- 
pitães fuccederia naquelle cargo. E como 
os Pilotos eram Pêro de Alenquer 5 e Pêro 
Efcovar , peflbas mui eílimadas por razão 
de feu cargo , e cada hum favorecia feu Ca- 
pitão 5 e com elles fe hia toda a gente do 
mar, veio o caio a fe poer em juízo dian- 
te de Fernão de Góes Capitão da Ilha Sant- 
iago polo Duque D. Diogo. Finalmente per 
favor delle , e por tirar efcandalo entre os 
outros , vieram a fazer Capitão mor a Ruy 
de Souía fobrinho de Gonçalo de Soufa de- 
funto , poílo que foíTe naquella Armada fem 
cargo algum , fomente em companhia de 
feu tio. Com a qual eleição todalas diffe- 
renças fe acabaram ; e tornando a fua der- 
rota caminho de Congo , a primeira terra 
que tomaram delle , foi de hum fenhorio , 
a que chamavam Sono , de que era Senhor 
hum tio delRey. O qual como foube da 
chegada dos noífos , e do que traziam , mo- 
vido do efpirito de Deos , acompanhado 
Tom. I. P com 



22Ó ÁSIA de João de Barros 

com grande numero de vaíTàllos, eítrondo 
de bozinas , atabaques , e outros tangeres a 
feu modo por fefta , veio receber Ruy de 
Soufa , moítrando o contentamento de fua 
vinda 5 e. do que trazia a EIRey feu Sobri- 
nho. E per meio de hum dos moços do- 
minados , pedio logo que lhe mandaile dar 
o Baptifmo \ porque como era homem ve- 
lho , e que na tardança de irem a ElPvey 
tornarem a elie , podia correr rifco de mor- 
te 3 não queria perder aquella mercê de 
Deos , que tinha em cafa. Ruy de Soufa 
vendo a inítancia do feu requerimento , deo 
logo ordem com que os Religiofos em meio 
de hum campo mandaram fazer huma gran- 
de cafa de rama , que os mefmos criados 
de Mani Sono cortaram , onde fe armaram 
três Altares com ricos ornamentos , que le- 
vavam pêra efte fanclo a£to , fendo a elle 
prefente todolos filhos que Mani Sono ti- 
nha 3 e os principaes da terra. Aos quaes 
ante que o baptizaílem elle Mani Sono fez 
hum arrezoamento > não de homem bárba- 
ro 5 mas daquelle , a quem o efpirito de 
Deos movia os beiços , reprefentando o er- 
ror em que té li efíiveram , e a mercê , e 
piedade , que Deos com elle obrava em lhe 
mandar a fua cafa doclrina de falvação ; e 
que fe elle tomava a falva delia a EIRey 
feu fobrinho , era por fer tão velho 5 com 

que 



Década I. Ltv. IIL Cap. IX. 227 

qne ficava defculpado ante ellc , e que tam- 
bém cm fuá companhia havia de receber 
Baptifrno aquelle filho , que tinha pela mão 5 
por ter tão pouca idade , que per fi o não 
podia pedir. Ouvindo ifto feu filho maior , 
que também na vontade eftava difpofto pê- 
ra receber o Baptifrno , começou de fe quei- 
xar com feu pai , dizendo , que não lhe ne- 
gafle aquella mercê de o acompanhar na- 
quella honra que recebia de Deos , pois da 
herança que tinha na terra o leixava por feu 
herdeiro , e não quizeífe antepoer a elle 
aquelle menino em outros maiores bens. Fi- 
nalmente pa(Tadas muitas razões entre o fi- 
lho , e o pai , elle o fatisfez 5 dizendo 5 que 
Érííí convinha por então , poía obediência que 
deviam a EÍRey feu Sobrinho , a cuja inf- 
tancia , e requerimento EÍRey de Portugal 
mandava aquellas coufas que viam. Aca- 
bando fuás razoes , que em feu modo eram 
de homem alumiado , fe entregou em mãos 
dos Sacerdotes que o baptizaram , e houve 
nome Manuel , por lhe dizerem que aíli fe 
chamava o maior Senhor do Reyno , que 
era Irmão da Rainha ? e Primo com irmão 
delRey , e o filho houve nome António. Os 
quaes depois pola nobreza do feu fangue 
tiveram o Dom , que refponde em íígnifica- 
do a efte vocábulo , que anda entre elJes 
Mani 5 que quer dizer Senhor 3 e junto | 
P ii So- 



228 ÁSIA DE JOÁO DE BARROS 

Sono , nome daquella Comarca de terra , 
quando dizem Mani Sono , íè entende o 
Senhor de Sono , porque todalas nações tem 
feus termos de nobreza , c honra , caufa 
dos maiores trabalhos da vida. O qual Bap- 
tifmo foi o primeiro, que naquellas partes 
da idolatria fe fez , dia de Pafcoa a três do 
inez de Abril do anno de quatrocentos no- 
venta ehum, fendo a elle prefentes paífan- 
te de vinte e finco mil homens vaífallos def- 
te Principe de Sono D. Manuel , que com 
elle eítavain oíferccidos a receber o Bap- 
tifmo ? fe o elle não impedira por as cau- 
fas que deo a feu filho. E como a nova 
deite Baptifmo chegou aElRey de Congo, 
que eílava dalli fincoenta léguas , foi tão 
grande o contentamento que teve deita obra , 
que pêra exemplo de todos , logo com as 
graças que mandou a feu Tio , também fe- 
gundo feu ufo lhe mandou huma doação de 
mais trinta léguas de coita , e dez pelo fer- 
tão em accrefcentamento de feu eítado. Com 
o qual finai de contentamento , que EIRey 
moítrou polo que elle fez , fe atreveo ao 
que lhe aconfelhavam os Religiofos , que era 
queimar quantos idolos havia em fua terra , 
com aíto folemne. E os dias que os noí- 
fos alli eítiveram ? em quanto não vinha re- 
cado delRey pêra partirem , ouvia D. Ma- 
nuel Miífa , e Officio, que os Sacerdotes 



Década L Liv. III. Cap. IX. 229 

diziam naquella Igreja de rama , moftrando 
elle em o modo de fua adoração íinaes da 
obra , que nelle tinha feito o Sacramento 
do Baptilmo. Porque como homem que de- 
fejava fua falvação , fempre perguntava das 
coufas de Deos ; e como lhe poderia fer 
accepto naquelles derradeiros dias de fua 
vida em que eflava , pois o principal de fua 
idade gaitara em ferviço do demónio. E 
trazia tanto o tento na doftrina que lhe da- 
vam , e na veneração das coufas de Deos , 
que acertando huns feus criados fazer á por- 
ta da Igreja hum arroido , os mandava ma- 
tar , por o pouco acatamento que lhe tive- 
ram , fe os Religiofos o não impediram , 
por não dar caufa a que a gente fe efcan- 
dalizaíTe", poreíles culpados ferem dosprin- 
cipaes da terra. Vindo o recado delRey pê- 
ra irem a elle , leixou Ruy de Soufa a gen- 
te neceflaria pêra guarda dos navios , e com 
a outra fe partio pêra a Cidade i onde elle 
eftava , indo em fua companhia hum Capi- 
tão do Príncipe D. Manuel com duzentos 
homens de fua guarda , e outros , que fer- 
viam de levar á cabeça toda afardagem dos 
noíTos , entre os quaes havia competência 
a quem levaria as coufas que ferviam no 
Altar 5 a que elles chamavam Saneias. Sen- 
do Ruy de Soufa em meio caminho da Ci- 
dade de AmbaíTe Congo , onde eftava El- 

Rey, 



230 ÁSIA de João de Barros 

Rey , veio ter com elie hum Capitão feu 
acompanhado de muita gente , e mais adian- 
te outro ; e no dia de lua entrada , duas lé- 
guas da Cidade , vieram curros três já em 
mais ordenança. Cá eftes vinham em três 
batalhas armados a feu modo , com grande 
eftrondo de atabaques y bozinas , e outros 
bárbaros inftrumentos , afli ordenados em 
fieiras , e em modo de cantar , que pareciam 
virem na ordem das procifsões da invoca- 
ção , e preças dos Sanclos , cantando três , 
ou quatro hum verfo , e o corpo de toda 
a outra gente lhes rcfpondia , aíll entoada- 
mente , que fe deleitavam os noflbs em os 
ouvir. E de quando em quando davam hu- 
ma grita , que parecia romperem os ares : 
as palavras do qual canto eram louvores 
deíPvey de Portugal por as coufas que man- 
dava ao feu Rey. Tornando eftes Capitães 
na ordem que vinham , e em meio de íi 
aos noflbs , foram levados ante EIRey , que 
os eftava efperando em hum grande terrei- 
ro dos léus Paços , tão cubcrto de povo ? 
que com grande trabalho a gente dos Ca- 
pitães podia fazer lugar pêra que os nof- 
fos chegaífem a EIRey. O qual em hum 
cadafalfo de madeira tão alto , que podia 
fer vifto de todalas partes., eílava aiTentado 
em huma cadeira de marfim com algumas 
pecas de páo lavradas ao feu modo mui 

bem: 



Década I. Liv. III. Cap. IX. 231 

bem : os veftidos do qual da cinta pêra íi- 
ma eram os couros da fua carne mui pre- 
tos , e luzidios , e per baixo fe cubria com 
hum panno de damafco , que lhe dera Dio- 
go Cam ; e no braço efquerdo hum brace- 
lete de latão 3 e neíle hombro hum rabo de 
cavallo guarnecido 5 coufa tida entre elles 
por iníignia real , e na cabeça hum barrete 
alto como mitra, feita de panno de palma 
muito fino , e delgado , com lavores altos , 
e baixos , a maneira que acerca de nós he 
a tecedura de cetim avelutado. Ruy de Soa- 
la chegado a elle fez-fe a cortezia ao mo- 
do defte noíTo Reyno , e EIRey também a 
fua , fegundo o leu 3 pondo a mão direita 
no chão 3 como que tomava pó delle , e cor- 
reo eíla mão pelos peitos de Ruy de Sou- 
fa , e depois pelos feus , que era a maior 
cortezia que entre elles fe podia fazer. Aca- 
bado efte aíto da chegada de Ruy de Sou- 
fa, com algumas palavras que diífe a EIRey , 
como elle eftava defejofo de ver as coufas 
fandlas , que lhe traziam pêra o afto do feu 
Baptifmo , quiz logo que diante daquelle 
povo lhe foífern moftradas , pêra que todos 
tomaíTem fabor , e gofto na vifta delias , e 
o feguiiTem em feu propofito. A qual de- 
monftraçao fe fez per mãos dos Religiofos , 
tirando peça a peça com grande reverencia, 
e acatamento. E porque quando vieram a 

mof- 



z$z ASIÀ de João de Barros 

moftrar huma Cruz , todolos noííbs fizeram 
aquella adoração de latria , que fe lhe deve 
por feu íignificado , que he Chrifto Jefus , 
eítavaElRey com tão bom tento em quan- 
tas continências via fazer aos noflbs , e os 
ieus no que elle fazia y que quaíi juntamen- 
te Chriftãos ^ e Pagãos ao levantar delia fe 
puzeram em giolhos. Finalmente acabando 
de aprefentar todas eílas peças , fobre as 
quaes elle fez muitas perguntas , e aia fo- 
bre as que lhe EIRey mandava pcra íiia 
peflba , recolheo-fe da vifta daquclla multi- 
dão de povo pêra os feus Paços , que eram 
de madeira lavrada no cabo daquelle grão 
terreiro , onde outra vez com fúa mulher , 
filhos , e alguns Fidalgos mais acceptos , 
quiz muito de vagar ver cilas peças. E já 
quando lhas moílráram efta fegunda vez , 
alfi lhe ficou na memoria o que os Reiigio- 
fos diziam de cada huma , que elle mefmo 
declarou á Rainha muitas ccufas da íigni- 
ficaçao delias , e ambos receberam as que 
vinham pêra fuás peíToas. Na entrega das 
quaes > e declaração das outras da Igreja , 
porque elle perguntava mui particularmen- 
te j fe paliou todo o dia , e bom pedaço; 
da noite , em que efpedio os noííbs , os 
quaes foram levados per hum feu Capitão 
ao lugar onde os tinham apoufentados. Ruy 
de Soufa com os Sacerdotes , e Reiigiofos , 

de 



Década I. Liv. III. Cap. IX. 233 

de que o maioral delles era Fr. João da 
Ordem de S. Domingos, (paffados os pri- 
meiros dias de lua chegada,) ordenaram 
que fe fizeíTe huma Igreja de pedra , e cal > 
legundo lhe per EIRey D. João era man- 
dado 5 pêra a qual obra traziam feus offi- 
ciaes. E ainda que no fitio da Cidade não 
havia pedra $ deo EIRey cuidado a hum feu 
Capitão 3 que com toda fua gente , donde 
quer que achàífe 5 trouxeffe a neceflaria 5 e 
a outro deo da madeira , repartindo o tra- 
balho per todos pêra fe fazer com mais 
brevidade. De maneira , que chegando os 
noífos á Cidade AmbaíTe Congo a vinte e 
nove dias de Abril , a três de Maio foi pei- 
ta a primeira pedra, e acabou-fe o primei- 
ro de Junho , cujo Orago he de Saneia Cruz > 
cm memoria da feftá da Invenção da Cruz , 
que a Igreja folemniza nefte dia i em que 
eíla fe começou a fundar , a qual depois foi 
Sé Cathedral com Bifpo da melma gente. 
E porque quaíi em chegando os noífos veio 
nova a EIRey , que os povos Mundeque- 
tes , que habitam certas Ilhas , que eíiam 
em hum grande lago, donde fahe o rio Zai- 
re , que corre per elte Reyno de Congo ? 
eram rebelados , e faziam muito damno em 
as terras a elles comarcans , a que cumpria 
acudir EIRey em peíToa , foi caufa que fe 
baptizafíe EIRey , não comaquella folemni- 

da- 



234 ÁSIA de JoÁo de Barros 

dade que elle tinha ordenado depois que a 
Igreja foíTe feita. O qual Sacramento pêra 
fua falvaçao recebeo no próprio dia , que 
fe poz a primeira pedra delia j e por EIRey 
D.João fer audtor deita obra, quiz elle que 
lhe foíTe pofto o feu nome Joanne , fendo 
com elle baptizados féis principaes Fidalgos 
dos que haviam de ir áquella guerra, e jun- 
tas mais de cem mil almas que eram vin- 
dos , aílí por caufa delia , como da chega- 
da dos noííbs. Pêra a qual guerra levou hu- 
ma bandeira com huma Cruz , que lhe Ruy 
de Soufa entregou , em virtude do qual fi- 
nal lhe prometteo que havia de vencer feus 
imigos , a qual bandeira lhe mandava EI- 
Rey , que era da Saneia Cruzada , que lhe 
concedera o Papa Innocencio Octavo pêra 
a guerra dos infleis. A Rainha vendo que 
EIRey fe partia , e que Fr. João o princi- 
pal dos Religiofos era falecido , e outros 
eftavam doentes por logo os apalpar a ter- 
ra , começou de fe queixar a EIRey , pe- 
dindo-lhe que houvefle por bem ante de fua 
partida ella fer baptizada • porque efperar 
que vieífe o Príncipe , que eílava na fron- 
taria dos imigos , como elle leixava ordena- 
do , dizendo que a efte tempo feria já a 
Igreja acabada , era eíle termo mui compri- 
do , e temia falecerem os Miniííros defte 
Sacramento, fegundo já começavam. EIRey 

ven- 



Década L Liv. III. Cap. IX. 235- 

vendo quanta razão ella tinha deite reque- 
rimento , houve por bem que foíTe baptiza- 
da , e puzeram-lhe nome Lionor , como a 
Rainha de Portugal , mulher delRey Dom 
João , com que ambos marido 5 e mulher , 
ficando Chriíláos , ficaram com o mefmo no- 
me que tinham eíles dous Chriílianiífimos 
Principes conjuntos per matrimonio , e fan- 
gue , como netos que eram delRey Dom 
Duarte , e autores defta Chriílandade. Parti- 
do EIRey pêra aquella guerra , que o apref- 
fava , em a qual fegundo diziam alguns dos 
noííbs que lá foram, feriam juntos paíTante 
de oitenta mil homens , mais levemente hou- 
ve vi6loria com a fé , e final que levava, 
do que foi o apercebimento de fua ida. E 
tornando á Cidade , efpedio-fe Ruy de Sou- 
fa pêra efte Reyno , leixando-lhe pêra a con- 
versão dos povos Fr. António , que era a 
fegunda peííba depois de Fr. João , e ou- 
tros quatro Frades , e aífi alguns homens 
leigos pêra os acompanharem , e outros pê- 
ra entrarem o fertão da terra com alguns 
naturaes , como EIRey D. João mandava 
pêra defcubrir o interior daquelle grão Rey- 
no , e paliarem além do grão lago que dif- 
fernos. 



CA- 



236 ÁSIA de JoÂo de Barros 

CAPITULO X. 

Como entre EIRey D. João de Congo > 
e f eu filho o Príncipe D. Afonfo houve al- 
gumas differenças , que fe acabaram per 
falecimento do dito Rey : e ficou por her- 
deiro pacifico do Reyno efie Príncipe Dom 
Afonfo , o qual té fim de feus dias fez> 
obras de Chrijlianijfimo Príncipe. 



p 



ArtidoRuy de Soufa pêra eíle Reyno, 
e o Príncipe filho delRey D. João de 
Congo vindo da frontaria dos imigos on- 
de eítava , fendo já a Igreja acabada , foi 
elle baptizado com muitos Fidalgos y aífi 
dos que andavam com elle , como outros 
que a eíle afto eram vindos ; e por amor 
do Príncipe D. Afonfo , filho delRey Dom 
João de Portugal ? houve elle o mefmo no- 
me. Mas como o demónio com eílas obras 
de fe baptizar cada dia muita gente , elle 
perdia grande jurifdicção , trabalhou por lhe 
ficar em penhor alguma peífoa Real , per a 
qual pudeífe cobrar o perdido , e foi hum 
filho delRey chamado Panfo Aquitimo , o 
qual não queria receber agua de Baptifmo , 
affaítando-fe da converfação de feu pai 5 e 
recolhendo pêra íl alguns daquelíes , que 
eram conformes a feu propofito. Accrefcen- 
tou mais o demónio a cila dureza do filho 

hum 



Década I. Liv. III. Cap. X. 237 

hum novo eftimulo a EIRey , polo quere- 
rem obrigar os Religioíòs que fe apartafíe 
das muitas mulheres que tinha , e ficaííe com 
huma fó , como mandava a Igreja ? as quaes 
porque com efte precepto dos Religioíòs 
perdiam o eftado de mulheres de Rey 3 ti- 
nham léus meios com outras mulheres dos 
privados deiRey , que também polo que 
lhes tocava trabalhavam com feus maridos 
que aconfelhaííem a EIRey que tal não con- 
lèntiffe. EIRey como era homem velho, 
entregue a confelho dos feus 3 e muito mais 
inclinado á vida paííada , começou de fe es- 
friar daquelle primeiro fervor que moftrou > 
tornando a feus ritos , e coftumes. O Prín- 
cipe D. Âfonfo , em quem as coufas da Fe 
eftavam mais firmes , como não era conten- 
te defta mudança , e a todo feu poder de- 
fendia o que confeíTava , começaram aquel- 
les a quem elle reprehendia de indignar EI- 
Rey contra elle, té que o lançaram de íua 
graça, emettêram nella o filho pagão Pan- 
Í6 Aquitimo , com fundamento que ficando 
efte por Rey , viviriam em feus coftumes 
paífados. E como toda a gente defta Ethio- 
pia he mui dada a feitiços , e nelles eftá to- 
da fua crença , e fé , diíTeram a EIRey os 
miniftros do demónio que teciam eftas 
obras, quefoubeífe certo que feu filho Dom 
Afonfo do Cabo do Reyno onde eftava, 

que 



238 ÁSIA de J0A0 de Barros 

que eram oitenta léguas , todalas noites per 
artes 5 que lhe os Chriftãos enfináram vinha 
avoando , e entrava com fuás mulheres , 
aquellas quelheaelle tolhiam, com as quaes 
tinha ajuntamento , e logo á meíma noite 
fe tornava. E que além deita injúria que 
lhe fazia , lábia tanto que feccava os rios , 
e tolhia as novidades não ferem boas , tudo 
afim cPelle não haver tanto tributo doRey- 
no como foia , pêra não ter que dar ácjuei- 
les , que o ferviam fielmente , e elíe fe le- 
vantar com o Reyno. EiRey com citas , e 
outras fabulas indignado contra o filho , ti- 
rou-lhc as rendas que lhe dava pêra fe man- 
ter ; e como diífo foife reprehendido per al- 
guns Fidalgos amigos do Príncipe , dizen- 
do ferem aquellas coufas engano , por quan- 
to feu filho de dia , e de noite era viíto nas 
terras onde eítava ; por fe mais certificar na 
verdade acerca do filho 5 ordenou EIRcy 
hum feitiço que fe ufava antre elles. Atado 
o qual feitiço em hum panno , o mandou 
per hum moço a huma das fuás mulheres , 
em que elle tinha fufpeita , chamada Cufua 
Coanfulo , dizendo da parte do Príncipe 
D. Afonfo , que elle lhe mandava aquelle 
feitiço pêra fe livrar da morte que lhe El- 
Rey ordenava , e aíli a todalas outras fuás 
mulheres. Mas ella como eítava innocente 
da caufa 3 porque lhe era aquelle prefente 

man- 



Década I. Liv. III. Cap. X. 239 

mandado 3 diíEb ao moço que puzeííe opan- 
no no chão , e foi-fe a EIRey , notifican- 
do-llie a offerta de feu filho , e outras pala- 
vras , com que EIRey vio fua innocencia y 
e aífentou que quanto lhe diziam do filho 
era maldade. E dahi a poucos dias , não 
dando conta do' caio a alguém , mandou 
vir o Principe , e o reftituio em fuás rendas 
com mais accreícentamento de terras : e ío- 
bre iííò lhe fez huma faia pública , fendo 
prefente os moveclcres defta fufpeita , que 
elle tivera pêra maior fua confusão , os quaes 
logo mandou matar. Fero nao tardou mui- 
to , que o demónio bufcou outro novo ca- 
minho ; porque tornando-fe o Principe a 
fuás terras , como hia alumiado per Deos , 
e favorecido do pai , mandou lançar pre- 
gão 3 que qualquer peííoa a que foííe acha- 
do idolo em caía 5 que morreíTe por iífo. O 
qual feito logo foi notificado a EIRey per 
os contrários do Principe , aggravando tan- 
to efte cafo , que lhe fizeram crer que an- 
dava o povo tão alvoroçado , que fe a iífo 
nao acudiífe , levantar-fe-hia contra fua Real 
Peífoa. Chamado o Principe fobre efte ne- 
gocio á Corte , aflentou elle ante perder a 
vida , que nefta parte obedecer a feu pai , 
e nao leixou de profeguir na obra que era 
em louvor de Deos. E porque em fua com- 
panhia andava hum D, Gonçalo dos que 

fo- 



240 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

foram baptizados com elle , homem pru- 
dente , e Chriftão per fé, e zelo da honra 
de Deos, trabalhava EIRey por o haver á 
máo. Mas elle com fua prudência , e o 
Príncipe com fuás palavras , e Deos que os 
governava , aííi ordenaram , e dilataram lua 
ida , fingindo ora huma coufa , ora outra , 
tudo applicando ao ferviço delPvey , e oc- 
cupaçoes do governo da terra , e arrecada- 
ção de fuás rendas que lhe mandavam , té 
que Deos quiz tirar efta perfeguição aò Prín- 
cipe , dando tal enfermidade a léu pai de 
que faleceo. A qual morte também defean- 
çou os noífos , muitos dos quaes pola vida 
que EIRey tinha , e pouco fruílo que com 
elle faziam, andavam lançados com o Prín- 
cipe j e per meio dos Religiofos tinha o 
Príncipe convertido , e baptizado grande 
parte do feu fenhorio , a que chamam Ifun- 
di , que era a cauía de maior indignação 
a EIRey , e áquelles , que eram tornados a 
feu primeiro viver. Da qual indignação o 
Príncipe era fabedor, e por iífo em quanto 
o pai foi doente , pofto que foífe chamado 
per alguns Fidalgos , que lhe davam conta 
como eítava em termo de morte , e que feu 
irmão Panfo fe vinha chegando pêra a Ci- 
dade com propoíito de fe apoderar delia 
com a gente que trazia , nunca confiou nef- 
tes recados , parecendo-lhe ler efta doença 

fin- 



Década I. Liv. IIL Cap. X. 24Í 

fingida pêra o acolherem. Porém como foi 
certificado da morte delRey , em três dias 
chegou á Cidade , porque já fe vinha cer- 
cando a ella , depois qiie começaram en- 
viar nova deita fua doença. E ante que en- 
traíTe nella , foi avifado peia Rainha fua mãi , 
que efta entrada foífe de noite fecretamente 
íèm eftrondo de gente , e que quanta vief- 
fe em fua companhia, foííe pouca a pouca 
com ceílos na cabeça , em que trouxeflem 
luas armas , dizendo que era mantimento 
que vinha pêra ella. Feita a entrada delie 
per efte modo , ao outro dia fahio o Prín- 
cipe ao grande terreiro dos paços , onde 
mandou ajuntar os Principaes dá terra , que 
eram na Cidade , e lhes fez hum arrazoa* 
mento. No fim do qual , eíles , fegundo feu 
coftume 5 primeiro que fe dalli mudaífem , o 
levantaram por Rey com grande feita de 
tangeres , e gritas , de maneira , que elte ru- 
mor foi ouvido nos alojamentos fora da Ci- 
dade , onde eftava feu irmão efperando 
mais gente pêra per força d'armas fe fazer 
Rey. E quando foi certificado da cauía da- 
quelle eftrondo , e a pouca gente que feu 
irmão comíigo tinha , fem mais aguardar 
pela gente que efperava, commetteo a en- 
trada da Cidade. Eram a eíte tempo com 
EIRey D. Afonfo trinta e fete Chriítãos fo- 
mente, e como homem induílriofo naquel- 
Tom. L Ct le 



242 ÁSIA de João de Barros 

le miíler da guerra , e mais governado per 
Deos , mandou aos feus que não buliílem 
comfigo , mas que efperaííem a entrada do 
irmão naquelle grande curral , porque qIIq 
eíperava em a piedade de Deos , em que 
elle cria y que lhe daria viétoria de feus imi- 
gos. A qual efperança lhe não faleceo , por- 
que vinda a batalha do irmão , que foi a 
primeira que entrou no curral , da qual cho- 
viam frechas , foi coufa milagrofa , que com 
aquelles poucos que acompanhavam EIRey, 
chamando todos polo Apoílolo Sant-Iago , 
e elle o nome de Jefus por ajuda , nunca 
leixou de o invocar té que eíla batalha do 
irmão lhe virou as coitas , a qual foi dar 
na fegunda , e huma desbaratou a outra. E 
por Deos dar inteira viítoria a efle Catho- 
lico Rey , neíta fugida que o irmão levava 
por hum mato , foi cahir em hum cepo, 
que eílava armado pêra alguma fera , onde 
foi tomado per aquelles que o feguiam , e 
com elle hum feu principal Capitão. O qual 
Capitão defconfiado de fua vida 5 ante de 
chegar a EIRey , lhe mandou pedir que po- 
lo Deos em que elle cria , lhe aprouveííe que 
foíTe baptizado ante de fua morte , cá não 
queria perder alma , pois já tinha perdido 
o corpo , porque elle cria fer aquelle o ver- 
dadeiro Deos , que os homens devem ado- 
rar ; por quanto ao tempo de fua peleja el- 
le 



Década L Liv. III. Cap. .X. 243 

le vira muita gente a cavallo armada , que 
feguia hum final tal , como aquelle que ado- 
ravam os Chriftãos , caufa de todo feu eftra- 
go , por efta ícr a gente que pelejava. El- 
Rey fabendo a peniteiièia defte , e como pe- 
dia o Baptifmo , não fomente lho mandou 
dar , mas ainda lhe perdoou ; e por memo- 
ria deite feito , elle , e todolos de íua li- 
nhagem ficaram obrigados de varrer 5 e alim- 
par a Igreja , e trazer agua pêra fe bapti- 
zarem todolos Pagãos. O qual penitencia- 
do foi entregue aquelle honrado , e catho- 
lico barão D. Gonçalo , que muito ajudou 
a efte Rey nas coufas da Fé; e porque ao 
tempo que fe baptizou efte Capitão , tomou 
o nome d elle D. Gonçalo , elle o fez Ca- 
pitão d 5 alguma parte das fuás terras em o 
recolhimento de fuás rendas. Panfo Aquiti- 
mo irmão delRey aífi das feridas do cepo 
em que cahio, como de nojo do feu cafo, 
faleceo em fua indignação. EIRey , aífenta- 
das fuás coufas , ficou pacífico "em feu Rey- 
no, pofto que teve muito trabalho com al- 
guns Principaes delle , que per muitas par- 
tes fe rebelavam por razão da idolatria ; mas 
Deos lhe deo fempre viétorias delles. x\o 
qual Noífo Senhor deo tanta vida naquelle 
eílado Real , que regnou íincoenta e tantos 
annos , e faleceo em idade de oitenta e fin- 
co; e em todo o tempo, depois querecebeo 
QJÍ a Fé, 



a44 ÁSIA de JoÁo de Barros 

a Fé , té o ultimo dia de fua vida , mof- 
trou não fomente virtudes de Chriftianiílimo 
Príncipe , mas ainda exercitou officio d'A- 
poílolo y pregando , e convertendo per íi 
grande parte do feu povo , zelando tanto. 
a honra de Deos , que nefte exercicio em- 
pregou o mais de fua vida. E pêra melhor 
exercitar efte officio de pregador , apprehen- 
deo a ler a nofla linguagem , e eftudava 
per a vida de Chrifto , e léus Evangelhos , 
vidas dos Sanctos , e outras doétrinas Ca- 
tholicas , que elle com alguma enfinança dos 
noífos Sacerdotes podia apprchender , de- 
clarando tudo áquelle feu bárbaro povo. 
Mandou também a efte Reyno de Portugal 
filhos 5 netos , fobrinhos, e alguns moços 
nobres apprchender letras , não fomente as 
noífas , mas as Latinas , e Sagradas , de ma- 
neira , que de fua linhagem houve já na- 
quelle feu Reyno dous Biípos , que exerci- 
tando feu officio , fervíram a Deos , e de- 
ram contentamento aos Réys defte Reyno 
de Portugal , a cujas defpezas todas eftas 
obras eram feitas. E por memoria defta mi- 
raculofa viftoria , que Noíío Senhor conce- 
deo a efte Rey D. Afonfo , em o qual os 
feus imigos viram o final da Cruz , e a ca- 
valleria celefte dos Anjos em companhia do 
Apoftolo Sant-Iago ; e affi porque em dia 
da Invenção da Cruz feu Padre reçebeo agua 

de 



Década I. Liv. III. Cap. X. e XI. 24? 

de Baptifmo ; e também porque mediante 
efte final , que lhe EIRey D. João mandou y 
(como atrás fica , ) elle houve grandes vito- 
rias dos povos Mundequetes , tomou por 
armas huma Cruz branca de prata florida em 
campo vermelho 5 e o chefe do efcudo 
azul ; e em cada canto do chefe duas viei- 
ras d'ouro , por memoria do Apoftolo Sant- 
iago 3 e o pé de prata 5 com mais hum ef- 
cudo dos finco de Portugal , que he azul 5 
com finco vifantes de prata em afpa > & ce- 
tera. 

CAPITULO XI. 

Como a efte Reyno veio ter hum Chrif- 
tovão Colom , o qual vinha de defcubrir as 
Ilhas Occidentaes , a que agora chamamos 
Antilhas , por fer la ido per mandado del- 
Rey D. Fernando de Cajíella: e do que EI- 
Rey D. João fobre ijfo fez, , e depois per 
o tempo em diante Juccedeo fobre efle cafo. 

PRocedendo per eíla maneira as couías 
deite defcubrimento 5 eftando EIRey o 
anno de quatrocentos noventa e três a féis 
de Março em Vai do Paraifo junto do Mof- 
teiro de Noífa Senhora das Virtudes , Ter- 
mo de Santarém , por razão da pefte , que 
andava per aquella Comarca , foi-lhe dito 
que ao porto de Lisboa era chegado hum 
Chriftovão Colom > o qual dizia , que vi- 
nha 



246 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

nha da Ilha Cypango , e trazia muito ou- 
ro , e riquezas da terra. EIRey , porque co- 
nhecia efte Colom , e fabia que per EIRey 
D.Fernando de Caftella fora enviado a ef- 
te defcubrimento , mandou-lhe rogar que 
quizefle vir a elle pêra faber o que achara 
naquella viagem j o que elle fez de boa 
vontade , não tanto por aprazer a EIRey y 
quanto por o magoar com fua vifta. Por- 
que primeiro que foffe a Caftella 3 andou 
com elle mefmo Rey D. João , que o ar- 
maíTe pêra efte negocio , o que elle não 
quiz fazer por as razoes que abaixo dire- 
mos. Chegado Colom ante EIRey a peró 
que o recebeo com gazalhado , ficou mui 
trifte , quando vio a gente da terra , que 
com elle vinha , não fer negra , de cabello 
revolto, e do vulto como a de Guiné, mas 
conforme em aípedto , cor , c cabello , como 
lhe diziam fer a da índia , fobre que elle 
tanto trabalhava. E porque Colom fallava 
maiores grandezas , e coufas da terra do 
que nella havia , e ifto com huma foltura 
de palavras , aceufando , e reprehendendo 
a EIRey em não acceptar fua oíFerta , indi- 
gnou tanto cfta maneira de fallar a alguns 
Fidalgos , que ajuntando efte avorrecimento 
de fua foltura , com a mágoa que viam ter 
a EIRey de perder aquella empreza , oíFe- 
recêram-íè delles que o queriam matar , e 

com 



Década I. Liv. III. Cap. XI. 247 

com iílo fe evitaria ir efte homem a Caf- 
tella. Cá verdadeiramente lhe parecia que 
a vinda delle havia de prejudicar a efte 
Reyno, e caufar algum deíaiTocego a Sua 
Alteza , por raz#o da conquifta que lhe era 
concedida pelos Summos Pontífices ? da qual 
conquifta parecia que efte Colom trazia aqueí- 
la gente. As quaes offertas EIRey não ac- 
ceptou , ante as reprehendeo como Príncipe 
Catholico , pofto que defte feito de fi mef- 
mo tiveffe efcandalo : e em lugar diíTo fez 
mercê a Colom , e mandou dar de veftir 
de grã aos homens y que trazia daquelle no- 
vo defcubrimento , e com ifto o efpedio. 
E porque a vinda , e defcubrimento defte 
Chriftovao Colom , (como então alguns pro- 
gnofticáram , ) caufou logo entre eftes dous 
Reys , e depois a feus fucceflbres algumas 
paixões , e contendas , com que de hum 
Reyno a outro houve embaixadas 5 aíTentos , 
e paótos y tudo fobre o negocio da índia , 
que he a matéria defta noíía efcritura 5 não 
parecerá eftranho delia tradlar do princípio 
defte defcubrimento , e do que delle ao dian- 
te fuccedeo. Segundo iodos affirmam , Chrif- 
tovao Colom era Genoez de nação , homem 
efperto , eloquente , e bom Latino , e mui 
gloriofo em feus negócios. Ecomo naquel- 
le tempo huma das potencias de Itália : que 
mais navegava por razão de fuás mercado- 



248 ÁSIA de João de Barros 

rias , e comine rcios , era a nação Genoez : 
efte , feguindo o ufo de fua pátria , e mais 
ília própria inclinação , andou navegando 
per o mar de levante tanto tempo , té que 
veio a eftas partes de Hejpanha , e deo-fe 
á navegação do mar Oceano , feguindo a 
ordem de vida que ante tinha. E vendo el- 
le que EIRey D.João ordinariamente man- 
dava defcubrir a coita de Africa com in- 
tenção de per ella ir ter á índia , como era 
homem Latino , e curiofo em as coufas da 
Geografia , e lia per Marco Paulo , que fal- 
lava moderadamente das coufas Orientaes 
do Reyno Cathayo , e aífi da grande Ilha 
Cypango , veio a fanteziar que per efte mar 
Oceano Occidental fe podia navegar tanto , 
té que foííem dar nefta Illia Cypango , e 
em outras terras incógnitas. Porque como 
cm o tempo do Infante D. Henrique fe 
defeubríram as Ilhas terceiras 5 e tanta par- 
te de terra de Africa nunca fabida , nem 
cuidada dos Hefpanhoes , aíli poderia mais 
ao Ponente haver outras Ilhas , e terras , 
porque a natureza não havia de fer tão def- 
ordenada .na compoíiçao do orbe univer- 
fal , que quizeífe dar-lhe mais parte do ele- 
mento da agua , que da terra defeuberta 5 
pêra vidíi^e creaçao dos animaes. Com as 
quaes-imaginaçoes , que lhe deo a continua- 
ção de navegar , e prática dos homens def- 

ta 



Década I. Liv. III. Cap. XI. 249 

ta profifsao, que havia nefteReyno mui ef- 
pertos com os defcubrimentos paffados , veio 
requerer a EIRey D.João que lhe déíTe al- 
guns navios pêra ir defcubrir a Ilha Cy- 
pango per eíle mar Occidental ; não con- 
fiado tanto em o que tinha fabido , (ou por 
melhor dizer fonhado , ) d 5 algumas Ilhas Oc- 
cidentaes , como querem dizer alguns Es- 
critores de Caftella 5 quanto na experiência 
que tinha emeftes negócios ferem mui acre- 
ditados os Eftrangeiros. Affi como Antó- 
nio de Nolle feu natural , o qual tinha def- 
cuberto a Ilha de Sant-Iago 5 de que feus 
íucceííbres tinham parte da capitania ; e hum 
João Baptifta Franccz de nação , tinha a 
Ilha de Mayo , e Jos Dutra Framengo ou- 
tra doFayal. Eperefta maneira, ainda que 
mais não achaíTe que alguma Ilha herma, 
fegundo logo eram mandadas povoar , ella 
baftava pêra fatisfazer a defpeza que com el- 
le fizeílem. Efta he mais certa caufa de fua 
empreza , que algumas ficções , ( que como 
diííemos , ) dizem Eícritores de Caftella 3 e 
affi Jeronymo Cardano Medico Milanez, 
barão certo , doíto , e ingeniofo , mas em 
eíle negocio mal informado. Porque efcre- 
ve em o livro , que compoz de Sapiência , 
que a caufa de Colom tomar efta empre- 
za , foi d'aquelle dito de Ariftoteles } que 
Do mar Oceano b além de Africa ? havia 

ter- 



2^0 ÀwSIA DE JOÃO DE BARROS 

terra , pêra a qual navegavam os Cartaginen- 
fes ; e por Decreto público foi defezo , que 
ninguém navegafle pêra ella , porque com 
abaftança , e mollicias delia fe não apartai^ 
fem das coufas do exercicio de guerra. El- 
Rey , porque via fer efte Chriílovao Colom 
homem fallador , e gloriofo em moílrar fuás 
habilidades , e mais fantaftico , e de imagi- 
nações com lua Ilha Cypango , que certo 
no que dizia, dava-lhe pouco credito. Com 
tudo á força de fuás importunações , man- 
dou que eíliveífe com D. Diogo Ortiz Bif- 
po de Cepta, e com Meítre Rodrigo , e 
Meílrejofepe , a quem elle commettia eílas 
coufas da Cofmografia , e feus defcubrimen- 
tos y e todos houveram por vaidade as pa- 
lavras de Chriílovao Colom, por tudo fer 
fundado em imaginações, e coufas da Ilha 
Cypango de Marco Paulo , e não em o que 
Jeronymo Cardano diz. E com eíle defen- 
gano efpedido elle delRey , fe foi pêra Caf* 
tella , onde também andou ladrando efte re- 
querimento em a Corte delRey D. Fernan- 
do , fem o querer ouvir , té que per meio 
do Arcebifpo de Toledo D. Pêro Gonçal- 
ves de Mendoça , EIRey o ouvio. Finalmen- 
te , recebida íiia offerta , EIRey lhe mandou 
armar três caravelas em Paios de Moguar, 
donde partio a três dias de Agofto do an- 
no de mil quatrocentos noventa e dons : e 

def- 



0ECADA I. LlV. HL CAP. XI. 25T 

deíle dia a dous mezes e meio , que foram 
a onze de O&ubro , viram a Ilha , a que 
os da terra chamam Guanahani, que he hu- 
ma daquellas , a que ora os Caftelhanos cha- 
mam as Ilhas Brancas dos Lucayos, e elle 
Uie poz nome as Princezas por lerem as 
primeiras que fe viram. E a efta Guanaha- 
ni chamou S. Salvador, e dalli fe paliou á 
Ilha Cuba , e delia á que os da terra cha- 
mam Hayte, e os Caftelhanos Hefpanhola. 
E porque elle perguntava aos moradores 
por Cypango ? que era a Ilha do feu pro- 
poíito , e elles entendiam por Cibao , que 
he hum lugar das minas da Ilha Hayte , o 
levaram aella, onde foi mui bem recebido 
do Rey da terra , a que elles chamam Ca- 
cique. E porque acharam nelle , e na gente 
muita facilidade , leixou alli trinta e oito 
homens em hum acolhimento de madeira 
em modo de fortaleza ; q trazendo comíigo 
dez , ou doze naturaes daquella terra , fez- 
fe na volta de Hefpanha , e chegou a Lis- 
boa a féis de Março do anno feguinte , co- 
mo diífemos. EIRey D. João com a nova 
do íitio , e lugar , que lhe Colom diííe da 
terra deite feu defcubrimento , ficou mui 
confufo : e creio verdadeiramente que efta 
terra defcuberta lhe pertencia , eaffi lho da- 
vam a entender as peíToas de feu confelho. 
Principalmente áquelíes , que eram officiaes 

def- 



2^2 ÁSIA DE JOÃO DE BàRROS* 

deite miíter da Geografia, por a pouca dis- 
tancia que havia das Ilhas terceiras , a ef- 
tas , que defeubríra Colom , fobre o qual 
negocio teve muitos coníelhos 5 em que af- 
fentou de mandar logo a D. Francifco d' Al- 
meida , filho do Conde de Abrantes D. Lo- 
po , com huma Armada a efta parte. Da 
qual Armada fendo EIRey D. Fernando 
certificado perfeus menfajeiros, e cartas, fe 
mandou queixar a EIRey , requerendo-lhe 
que a não enviaífe té fe determinar fe era 
da lua conquifta , e que pêra prática do 
cafo podia mandar feus Embaixadores. EI- 
Rey como fua tenção nefta Armada que fa- 
zia era por lhe parecer que no defeuberto 
tinha juftiça , por comprazer a EIRey Dom 
Fernando , mandou ceifar delia té primeiro 
fe determinar. E pêra iífo mandou a Caílei- 
la logo no Junho feguinte defte mefmo an- 
uo ao Dodlor Pêro Dias , e Ruy de Pina 
Cavalleiro de fua cafa , eílando EIRey Dom 
Fernando em Barcelona , ao tempo que per 
EIRey Carlos de França fe fez a íegunda 
concórdia , e entrega de Perpinhão , e Con- 
dado de Rufylhão. Com que EIRey Dom 
Fernando ficou tão profpero em feus negó- 
cios , que eftas peiloas , que EIRey tinha 
mandado a elle , fe vieram fem conclusão , 
fomente que elle lha enviaria per feus Em- 
baixadores , os quaes eílando EIRey em 

Lis- 



Década I. Li v.. III. Cap. XI. zf$ 

Lisboa vieram : a hum chamavam Pêro 
Dayala , e a outro D. Garcia de Cai vajal , 
irmão do Cardeal Saneia Cruz. E como a 
tenção delRey D. Fernando era dilatar efte 
cafo té lhe virem outros navios , que tinha 
enviado a eftas Ilhas , que defeubríra Co- 
lona , pêra que fegundo a qualidade da cou- 
fa aíli fazer a eftima delia • começaram os 
Embaixadores tratar em outras matérias 
com tanta variedade , por fe deter , que en- 
tendendo EíRey D.João o cafo, diííe que 
aquella embaixada delRey feu Primo não 
tinha pés , nem cabeça. Alludindo ifto a Pê- 
ro Dayala , que era manco de hum pé , c 
a D. Garcia por ler homem hum pouco en- 
levado , e vão , e fem, outra conclusão fe 
tornaram pêra Caftella. Pêra o qual cafo 
fe acabar de concluir ? enviou EIRey a Caf- 
tella Ruy de Soufa , e feu filho D. João 
de Soufa , e Aires d' Almada Corregedor 
da fua Corte , e a Eftevão Vaz , que de- 
pois foi Feitor da Cafa da índia , por Secre- 
tario da Embaixada ; e viftas as razões 5 e 
juftiça d'ambos os Reys , foi aííentado , e 
determinado efte defeubrimento não perten- 
cer a efte Reyno , mas fer próprio de Caf- 
tella. E por evitar efcandalos , e debates ? 
que ao diante podiam recrefcer do que ca- 
da hum defcubriíTe , ou feus fueceífores , de- 
marcaram 3 e partiram todo o univerfo em 

duas 



a^4 ÁSIA de João de Barros 

duas partes iguaes per dous meridianos , 
hum oppofito ao outro , dentro dos quaes 
íicaíTe a demarcação de cada hum. O pri- 
meiro meridiano fe lançou vinte e hum 
gráos ao Ponente das Ilhas do Cabo Ver- 
V de , em que fe embebeflem trezentas feifen- 
ta e tantas léguas pêra Aloefte - y e deite me- 
ridiano té o outro a elle oppofito pêra a 
parte do Ponente ao refpeíto daquelles que 
vivemos em Hefpanha , ficaífe a terra , Uiias , 
e mares , que fe entre ambos contém da 
Coroa deCaítella. E a outra parte, que ef- 
tá ao Oriente delia 5 também ao refpeéto 
da noífa habitação , em que fe inclue toda 
a índia com o grande numero das Ilhas 
Orientaes , ficaífe á Coroa de Portugal com 
todalas claufulas , e condições , que fe nos 
contractos contém. Os quaes foram jurados 
pelos ditos Reys , e os houveram por fir- 
mes , e válidos per íi , e per feus fucceílb- 
res ; epromettêram ferem pêra fempre guar- 
dados fem algum outro novo entendimen- 
to. Com o qual concerto cite negocio fi- 
cou na vontade deites dous Principes por 
acabado , fem de hum Reyno ao outro ef- 
ta matéria fer mais praticada té o anno de 
mil quinhentos vinte e finco , que entre El- 
Rey D. João o Terceiro Noífo Senhor , e 
o Emperador Carlos Quinto Rey de Caf- 
telia houve algumas diíFerenças ? por razão 

de 



Década L Liy. III. Cap. XL e XII. 257 

de huma Armada 3 que per via de Caftella 
levou ás Ilhas de Maluco , que eram deite 
Reyno , hum Fernão de Magalhães natural 
Portuguez em ódio deiRey D. Manuel , por 
iè ir aggravado delle a Caftella > como ve- 
remos em feu lugar. 

CAPITULO XII. 

Do que fuccedeo por caufa da grande 
Armada, que EIRey mandou em ajuda do 
'Príncipe D. João Bemoij , ajfi nas lian- 
ças \ e amizades , que EIRey teve com al- 
guns Senhores do Sertão d/aquelle Guiné , 
como no defcuhrimento que teve delle per 
alguns homens , que lã mandou té o Nojjò 
Senhor levar dejla vida. 

Ainda que a morte do Príncipe D. João 
Bemoij , ( como atrás contámos , ) mu- 
dou todolos fundamentos , que EIRey fa- 
zia com fua ida , e fortaleza que mandava 
fazer ? não Jeixou de mandar que fe conti- 
nuaíTem os refgates do rio Çanagá , e Gam- 
bea., como ordinariamente antes deite cafo 
em cada hum anno fe fazia. E per os na- 
vios que de lá vieram foube , que a Arma- 
da , que enviou a Çanagá , não foi tão fem 
fruéto como elle cuidava ; cá fenão fervio 
á reftituiçáo de Bemoijx. aproveitou a bem 
dos refgates , e a fe melhor deícubrir o fer- 

tão 



2$6 ÁSIA de João de Barros 

tão daquella terra do que ante fe podia fa- 
zer. Porque os Príncipes daquellas partes , 
como eram coftumados ver fomente hum , 
ou dous navios em feus portos , em que 
hia gente do mar pobre , e mal roupada , 
tinham pequena opinião do eftado delRey, 
poílo que os línguas lhe diíTeíTcm o que ha- 
via cá no Reyno. Porém quando elles vi- 
ram tantos navios , tanta , e tão luzida gen- 
te 5 e tamanho apparato de guerra , como 
foi naquella Armada , aífi os efpantou , que 
de huns em outros per todo aquelle Gui- 
né correo aquella fama , com que alevan- 
táram mais aeílima acerca da amizade dcl- 
Rey. E como os mais delles andavam em 
grandes contendas , e guerras entre fi , ven- 
do que EIRey fomente pêra reílituição de 
Bemoij mandava tão groíla Armada , fem 
da parte delle Bemoij haver mais méritos 
ante cllc , que o bom defpacho dos feus na- 
vios , quando vinham ao refgate , movidos 
de feu intereífe , com fundamento de pode- 
rem achar em EIRey outra tal ajuda \ fe 
lhe neceífaria foífe , ou com temor de o 
anojarem > começaram todos cada hum em 
feu modo a quem o faria melhor no def- 
pacho dos navios , e enviar prefentes , e re- 
cados a EIRey de grandes offertas. Donde 
procedeo haver tanta entrada naquella ter- 
ra j que começou EIRey já mais feguramen- 

te 



Década I. Liv. III. Cap. XIL %j$ 

te per feus menfajeiros mandar recados aos 
maiores Príncipes delia , e intervir em os 
negócios , e guerras 1 que huns com os ou- 
tros traziam , como amigo conhecido 3 e 
eítimado delles. Porque nefte tempo mandou 
Pêro d'Evora , e Gonçaleanes a EIRey de 
Tucuról , e aífi a EIRey de Tungubutu 5 e 
per outras vezes mandou a Mandi Manfa 
per via do rio Cantor , o qual Príncipe era 
dos mais poderofos daquellas partes da Pro- 
víncia Mandinga. Ao qual negocio foi hum 
Rodrigo Rabello efcudeiro de fua cafa , e 
Pêro Reinei moço d'efporas , e João Col-* 
laço béíleiro da camará ? com outros ho- 
mens de ferviço , que faziam numero de oi- 
to peflbas, É leváram-lhe de prefente ca- 
vallos , azcmalas , e mulas com feus arreios i 
e algumas fortes de coufas eftimadas entrei^ 
les , por já lá ter mandado outra vez. E 
de todos eítes efcapou Pêro Reinei por fer 
homem coftumado andar naquelías partes , 
e os mais faleceram de doença , vindo efte 
Rey fazer guerra a outro Rey dos Fullos 
chamado Temaíá. E aíli ficou deita , e dou- 
tras idas, que EIRey lá mandou, tanta ami- 
zade entre os iloilbs , e eíte Rey Mandi 
Mania , que enviando eu por razão do meu 
cargo de Feitor deitas cafas de Guiné , e ín- 
dias , o anno de mil quinhentos trinta e qua- 
tro a hum Pêro Fernandes a eíle Rey no 
Tom. L R de 



158 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

de Mandi Manfa , cm nome delRey Dom 
João o Terceiro Noflb Senhor , que ora 
reina , por razão do refgate de Cantor , efti- 
mou o Rey muito efte recado , que lhe foi 
dado da parte delRey ; dizendo que havia 
em boa ventura fer-lhe enviado cite menfa- 
jeiro , porque a feu avô , que tinha o feu 
próprio nome , fora enviado outro mcnfa- 
jeiro doutro Rey D.João de Portugal. Tan- 
ta memoria fcm terem letras havia entre ef- 
tes bárbaros das coufas delRey D. João. E 
não fomente per eftes , e per Pêro d'Evo- 
ra , mas ainda per hum Mem Royz efcu- 
deiro de fua cafa , e per Pêro de Aftuniga 
feu moço d'efporas , que elle levava por com- 
panheiro , mandou EIRey algumas vezes 
recados a EIRey de Tungubutu , e ao mef- 
mo Temalá , que fe chamava Rey dos Fui- 
los. O qual Temalá neílcs tempos foi na- 
quellas partes hum incêndio de guerra , le- 
vantando-fe da parte do Sul em huma Co- 
marca chamada Futa com tanto numero de 
gente , que feccavam hum rio , quando a 
elle chegavam ; e aíli era efquivo , e bárba- 
ro efte açoute d^aquella gente pagã , que 
aíTolava quanto fe lhe punha diante. E co- 
mo com efta ferocidade tinha feito grande 
damno em os amigos , efervidores delRey, 
principalmente a EIRey de Tungubutu , 
Mandi Manfa , Uli Manfa , mandou-lhe per 

ai- 



Década L Liv- III. Cap. XII. 25-9 

algumas vezes feus recados de amizade, 
e outros de rogo lbbre os negócios da guer- 
ra , que tinha com eítes. Também nefte mef- 
mo tempo efcreveo per hum Abexij cha- 
mado Lucas , que foi per via .de Jerufalem 
a EIRey dos Mofes , nome mui celebrado 
entre os Negros- deitas partes de Guiné de 
que falíamos , o qual Príncipe naquelle tem- 
po fazia guerra a ElPvey Mandi Manfa. E 
fegundo a noticia que EIRey D. João ti- 
nha deite Rey dos Mofes , e de feus ufos 9 
e coítumes , havia prefumpçao fer algum 
vaífallo , ou vizinho do Preíte João , ou a 
gente dos Nobis ; por elle 5 e os feus terem 
modo de Chriítandade , cá os mais delles 
fe nomeavam per os nomes dos Apoítolos 
de Chriíto , o qual elles confeíTavam. Tam- 
bém per via da fortaleza da Mina mandou 
a Mahamed , bem Manzugul > e neto de 
MuíTa Rey de Songo 5 que he huma Cida- 
de das mais popuiofas daquella grão Pro- 
víncia , a que nós commummente chama- 
mos Mandinga , a qual Cidade jaz no pa- 
rallelo do Cabo das palmas , mettida den- 
tro no fertao per diftancia de cento e qua- 
renta léguas , fegundo a fítuaçao das taboas 
da noifa Geografia. O qual Rey Alouro, 
refpondendo a eíte recado delRey , quafí 
como efpantado de tal novidade , (fegundq 
vimos em as cartas deitas menfajes que te- 
R ii mos 



i6o ÁSIA de João de Barros 

mos em noífo poder , ) dizia y que nenhum 
dos quatro mil quatrocentos e quatro Reys 
de que elle defcendia , ouvio recado , nem 
vio menfajciro delRey Chriftão y nem elie 
tinha noticia, de mais Reys poderofos que 
deites quatro : delRey de Alimaem i delRey 
de Baldac y delRey do Cairo , e delRey de 
Tucurol. Nefte mefmo tempo que EIRcy 
D. João fe viíitava , e carteava com eftes 
Principes bárbaros , mandou também per 
via. do Caftelio de Arguim á Cidade Huá- 
dem , que eftá ao Oriente delle obra de fe- 
tenta léguas , aíTentar huma feitoria com 03 
Mouros por alli concorrer algum refgate 
de ouro , ao qual negocio foram Rodrigo 
Reinei por Feitor 3 Diogo Borges Efcrivão , 
e Gonçalo d'Antes por homem da Feito- 
ria , onde eftiveram pouco tempo por a ter- 
ra ler mui deferta, e fomente virem a ella 
os mefmos Alarves , que ás vezes vinham 
ao Caftello de Arguim , que são Azenegues , 
Ludaias , e Brabarijs , dos quaes não fe po- 
dia haver informação do interior da terra , 
de que elle defejava ter noticia, porque fua 
tenção neftas feitorias , que mandava fazer no 
fertao 5 tanto era por faber as coufas delle , 
e poder penetrar as terras do Preíte João, 
e Oriente , como por o refgate do ouro 
que a ellas concorria. As peífoas de que fe 
EIRey fervia neíte mifter de recados ? e def- 

cu- 



Década I. Liv. III. Cap. XII. 261 

cubrimento per dentro do fertão , eram os 
que nomeámos , e aíTi Rodrigo Rabello 9 
João Lourenço íeus criados , e Vicente An- 
iles , e João Bifpo línguas , aos quaes elle 
agaíardoava de íeus trabalhos , pofío que 
não confeguiíTem o fim principal a que os 
mandava. E não fomente per eftes feus na- 
turaes , mas ainda per eílrangeiros , aíli co- 
mo Abexijs , e alguns Alarves , que vinham 
ao Caftello de Arguim , commettia efte def- 
cubrimento do fertão , por lhe não ficar 
coufa alguma por tentar. Tão occupado, 
e folícito o trazia efte negocio , principal- 
mente depois que vio , e goftou de muitas 
coufas , de que os antigos Efcrkores não ti- 
veram noticia , fallando defta parte de Afri- 
ca , que não lhe repoufava o efpirito. E 
bem como hum lião faminto , a quem a ca- 
ça fe efconde com. temor delie , em meio 
d'alguma grande , e efpinhofa balfa , a qual 
elle rodea , e commette per muitas partes , 
e ferido , e efpinhado das entradas , e fa- 
iadas , já canfado fe lança com o fentido , 
e tento pofto na preá efcondida : aííi EIRey 
cornmettendo per muitas partes , e vezes eí- 
ta grão balfa de Guiné, que té hoje fe.nâo 
leixou penetrar , canfado defta continuação y 
e defpeza de fua fazenda , e aííi dos gran- 
des cuidados que lhe deram os negócios do 
lieyno , principalmente no tempo das trai- 

. Coes, 



2Ôz ÁSIA de João de Barbos 

çóes , fe leixou algum tanto repoufar dcílc 
fervor que trazia. Não porém que leixaíTem 
os navios ordinários de fazerem fuás via- 
gens , té que aprouve a Deos de o levar 
pêra íi , e lhe fuccedeo no Reyno o Duque 
de Beja D. Manuel feu primo , que ( como 
veremos ) no fegundo anno de feu reinado 
confeguio na primeira viagem a eíperança 
de fetenta e finco annos , em que feus an- 
teceífores tinham trabalhado. Parece que af- 
li ó ordena âquella Divina Prudência , que 
huns prantem , e outros colhao o fruéto da 
planta. E que ifto vejamos algumas vezes, 
não temos licença pêra julgar cites juizos 
de Deos , fomente podemos crer que nin- 
guém perde o mérito de fuás boas obras , 
aqui per fama , e na outra vida per gloria. 
Por tanto pois lhe a elíe aprouve que não 
per officio , mas per indignação , não por 
premio , mas de graça , e mais oíFerecido 
que convidado , eu tomaíTe cuidado de ef- 
crever as coufas que paliaram neíle defcu- 
brimento , e conquiíta do Oriente : não per- 
mittirã que eu perca algum premio ., fe def- 
te trabalho o poífo ter , trocando, ou ne- 
gando os méritos de cada hum. A qual fé, 
e verdade guardando nós ao que EIRey 
D. João fez em todo o decurfo de fua vi- 
da acerca deite defcubrimento , podo que 
particularmente atrás fica efcrito , aqui em 

fcm- 



Década I. Liv. TIL Cap. XII. 263 

fomma queremos notar três coufas , que lhe 
efte Reyno deve : huma trata de louvor de 
Deos , outra da gloria , e honra da Coroa 
Real 5 e outra do accrefcentamento do feu 
património. Qyanto ao louvor de Deos > 
que maior pode haver na fua Igreja , que 
per induftria defte Príncipe, no mais remo- 
to lugar da terra , e na gente mais çafára 
do nome de Chrifto , onde podemos crer 
que não chegou a pregação dos Apoftolos , 
hoje em Sé Cathedral citarem Altares cheios 
de oblações , e facrificios , oíFerecidos a el- 
le mefmo Deos em nome de Chrifto Jefus 
noíTa redempção , e feu Filho. O qual Chrif- 
to Jefus crê , adora , e confeífa hum Rey 
bárbaro per fangue , e Catholico per fé , 
com tão grande povo como tem o Reyno 
de Congo , que havendo felTenta annos que 
eftá mettido na Igreja de Deos per Fé , e 
Baptifmo , em todo efte tempo fempre foi 
em accrefcentamento do que profefla , com 
termos delle Bifpos , Sacerdotes , Theolo- 
gos , e Miniftros da publicação Evangélica. 
A fegunda coufa que leixou a efte Reyno ? 
que trata da honra , e gloria da fua Coroa, 
são duas fortalezas : huma em Arguim aca- 
bada per fua induftria , peró quefoífe come- 
çada em vida deiRey D. Afonfo feu Pa- 
dre ; e a outra a de S. Jorge da Mina , no 
meio da grande região da Ethiopia. Por ra- 
zão 



264 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

zao das quaes fortalezas , fundadas como 
pofle real , e au&ual do que tinha defeu- 
berto , e efperava defeubrir per eíle cami- 
nho , acerefeentou á Coroa defte Reyno o 
fenhorio de Guiné que ora tem. Na qual 
poífe como prudente barão , e animofo Prín- 
cipe, por não leixar dúvidas a feus fuecef- 
fores com os Principes da Chriftandade , lo- 
go fe determinou com EIRey D. Fernando 
de Caftella , alfinando termos , e demarca- 
ções do que cada hum podia conquiftar, 
como atrás fica , e mais copiofamente fe 
contém nos aíTentos , e pactos , que fe fize- 
ram entre elles. Quanto ao accrcicentamen- 
to do património Real , eu não fei em eíle 
Reyno jugada , portage, dizima, íiza, ou 
algum outro direito Real mais certo ; nem 
que regularmente cada anno aíli reíponda , 
fem rendeiros allegarem eíterilidade , ou per- 
da , do que he o rendimento do commer- 
cio de Guiné : e tal , que fe o foubermos 
agricultar , e grangear , com pouca femen- 
te nos refponderá com maior novidade que 
os reguengos do Reyno , e liziras do cam- 
po de Santarém. E mais he propriedade 
tão pacífica , mania , e obediente , que fem 
termos huma mão em o murrão accezo fo- 
bre a efeorva da bombarda , e a lança na 
outra , nos dá ouro , marfim , cera , coura- 
rna , ajucar , pimenta malagueta 3 e daria 

mais 



Década I. Liv. III. Cap. XII. 265- 

mais coufas , fe tanto quizeífemos delia de£ 
cubrir, como defcubrimos além dos povos 
Jopócs , que pafsão acerca de nós por An- 
típodes , e Antichthones. Finalmente dá mui- 
to j e bom povo , fiel ? catholico , ferviçal y 
e que nos ajuda em noífas neceílidades ; e 
tão animofo pêra com elle conquiftar as ou- 
tras regiões , que conquiílámos , e que iílo 
não dão , que fe foffe creado na dodrina 
militar , de melhor vontade iria fazer gente 
á terra de Guiné, que á terra dos Soiços; 
e ainda mal , porque os Mouros de Afri- 
ca , e principalmente o Xerife de "Marrocos 
neíle noíTo tempo em efte ufo de guerra fe 
fervem mais delles que nós. E não fallando 
em as policias , du molicias de Afia 5 cuja 
gente he mui viciofa neíle ufo delias , de 
que Saluílio já chamou por ferem caufa da 
corrupção da modeííia , e temperança do 
povo Romano , culpa em que a maior par- 
te da nação Portuguez ao prefente jaz ; mas 
traftando dos fruétos da natureza fem hu- 
mano artificio , que efta terra da Ethiopia 
dá , bem lhe podemos chamar paraifo de 
naturaes delicias. Porque não fomente ella 
dá os neceíTarios , e proveitofos á vida hu- 
mana , mas ainda dá almas creadas na in- 
nocencia de feus primeiros padres , que com 
maníidão , e obediência mettem o pefcoço 
per Fé 3 eBaptifmo, debaixo dojugoEvan- 

ge - 



soo ÁSIA de João de Barros 

gclico. Mas parece que por noflbs pecca- 
dos , ou per algum juizo de Deos occulto 
a nós nas entradas deita grande Ethiopia , 
que nós navegamos , poz hum Anjo percu- 
ciente com huma efpada de fogo de mor- 
taes febres , que nos impede não poder pe- 
netrar ao interior das fontes defte horto , 
de que procedem eftes rios d'ouro , que per 
tantas partes da nofla conquifta fahem ao 
mar. Quanto á mageftadc da- conquifta da 
índia , e á fama, que temos alcançado de 
tão illuftres vistorias 5 como delia houve- 
mos 5 e os títulos que a Coroa defte Rei- 
no por iflb confeguio , depois do faleci- 
mento defte Rey D, João > nos livros fe- 
guintes o ele revemos. 



DE- 



DÉCADA PRIMEIRA. 
LIVRO IV. 

Dos feitos que os Portuguezes fizeram no 
ciefcubrimento , e conquifta dos ma- 
res 5 e terras do Oriente : em que 
fe contém como a índia foi def- 
cuberta per mandado delRey 
D. Manuel defee nome o 
Primeiro de Portugal. 
«■■ ■ ' ■ ■■ ■■ '■ i ' " ■ « 

CAPITULO L 

Como EIRey D. Manuel no fegundo anno 
do feu reinado mandou Vafco da Ga- 
ma com quatro velas ao defeu- 
brimento da índia. 

Alecido EIRey D.João fem legítimo 
filho , que o fuccedeíTe noReyno, foi 
alevantado por Rey , (fegundo elle lei- 
xava em feu teflamento , ) o Duque de Beja 
D. Manuel feu Primo com irmão , filho do 
Infante D. Fçrnando irmão delRêy Dom 
Afonfo , a quem per legítima fuccefsão era 
devida. efta real herança. Da qual recebeo 
poíTe pelo fceptro delia , que lhe foi entre- 
gue em Alcácer do fal a vinte e fete dias de 
O&ubro do anno de noífa Redempçao de 

mil 



a68 ASIÀ de João de Barros 

mil quatrocentos noventa e finco 5 íèndo em 
idade de vinte e féis annos , quatro mezes , e 
vinte finco dias , (como mais particularmen- 
te eícrevemos em a outra noífa Parte inti- 
tulada Europa 9 e afll em fua própria Chro- 
nica. ) E porque com eíles Reynos , e Se- 
nhorios também herdava o profeguimento 
de tão alta empreza , como feus anteceílò- 
res tinham tomado , que era o defcubrimen- 
to do Oriente per eíle noflb mar Oceano > 
que tanta induftria 3 tanto trabalho , e def- 
peza , per difcurfo de fetenta e finco annos 
tinha cuítado ; quiz logo no primeiro anno 
de feu Reinado moftrar quanto defejo tinha 
de accrefcentar á Coroa deite Reyno novos 
títulos fobre o fenhorio de Guine, que por 
razão deite defcubrimento EIRey D. João 
leu Primo tomou , como poífe da efperan- 
ça de outros maiores citados , que per cila 
via' eftavam por delcubrir. Sobre o qual ca- 
io , no anno feguinte de noventa e féis , ci- 
tando em Monte mor o novo , teve alguns 
geraes coníelhos , em que houve muitos , e ; 
<iiíFerentes votos , e os mais foram que kl 
índia não le devia defcubrir; porque além 



de trazer comíigo muitas obrigações por fe 
eftado mui remoto pêra poder conquiítar , 
e confervar J debilitaria tanto as forças do 
Reyno , que ficaria elle fem as neceílarias 
pêra fua confervaçao. Quanto mais , que 

fen- 



Década I. Liv. IV. Cap. I. 169 

fendo defcuberta podia cobrar efte Reyno 
novos competidores , do qual cafo já tinham 
experiência , 110 que fe moveo entre EIRey 
D. João , e EÍRey D. Fernando de Caí- 
tella fobre o defcubrimento das Antilhas : 
chegando a tanto , que vieram a repartir o 
Mundo em duas partes iguaes pêra o po- 
der defcubrir, e conquiftar. E pois defejos 
de eítados não fabidos movia já efta repar- 
tição , não tendo mais ante os olhos que eí- 
perança delles , e algumas moftras do que 
fe tirava do bárbaro Guiné, que feria vin- 
do a efte Reyno quanto fe dizia daqueílas 
partes Orientaes. Porém a eftas razões hou- 
ve outras em contrario , que por ferem con- 
formes ao defejo deJRey , lhe foram mais 
acceptas. E as principaes que o moveram , 
foram herdar efta obrigação com a herança 
do Reyno , e o Infante Dom Fernando feu 
Pai ter trabalhado nefte defcubrimento , quan- 
do per feu mandado fe defcubríram as Ilhas 
do Cabo Verde ; e mais por a fíngular aífei- 
çao que tinha á memoria das coufas do In- 
fante D. Henrique feu Tio , que fora o au- 
&or do novo titulo do Senhorio de Guiné ? 
que efte Reyno houve , fendo propriedade 
mui proveitofa íèm cufto de armas , e ou- 
tras defpezas , que tem muito menores efta- 
dos do que elle era. Dando por razão fi- 
nal áquelles y que punham os inconvenien- 
tes 



ijo ÁSIA de João de Barros 

tes a fe a índia dcfcubrir : que Deos , em 
cujas mãos elle punha cite caio , daria os 
meios que convinham a bem do citado do 
Reyno. Finalmente EIRey aflentou de pro- 
feguir neíte defcubrimento , e depois citan- 
do em Eítrcmoz , declarou a Vafco da Ga- 
ma Fidalgo de ília Gafa per Capitão mor 
das velas , que havia de mandar a elle ; aífi 
pola confiança que tinha de fua peíToa , co- 
mo porteraução neíta ida, cá, íegundo fe 
dizia , Eítevão da Gama feu pai já defunto 
citava ordenado pêra fazer eíta viagem em 
vida delRey D. João. O qual , depois que 
Bartholomeu Dias veio do defcubrimento 
do Cabo de Boa Efperança , tinha manda- 
do cortar a madeira pêra os navios deita 
viagem , por a qual razão EIRey D. Ma- 
nuel mandou ao mefmo Bartholomeu Dias 
que tiveíTe cuidado de os mandar acabar, 
fegundo elle fabia que convinham , pêra fof- 
frer a fúria dos mares daquelle grão Cabo 
de Boa Efperança , que na opinião dos ma- 
reantes começava crear outra fabula de pe-l 
rigos 5 como antigamente fora a do Cabo 
Bojador, de que no principio falíamos. E 
aífí polo trabalho que Bartholomeu Dias! 
levou no apercebimento deites navios , co- 
mo pêra ir acompanhando Vafco da Gama 
té o pôr na paragem que lhe era neceííaria 
a fua derrota - ? EIRey lhe deo a capitania 

de • 



Década I. Liv. IV- Cap. L 271 

de hum dos navios , que ordinariamente 
hiam á Cidade de S. Jorge da Mina. E 
fendo já no anno de quatrocentos noventa 
e íete 3 em que a frota pêra efta viagem ef- 
tava de todo preíles , mandou EiRey, ef- 
tando em Monte mor o novo, chamar Vaf- 
co da Gama , e aos outros Capitães, que 
haviam de ir em fua companhia , os quaes 
eram Paulo da Gama feu irmão , e Nicoláo 
Coelho , ambos peíToas de quem EIRey 
confiava efte cargo. E poílo que per algu- 
mas vezes lhe tiveíTe dito fua tenção acer- 
ca defta viagem , e diflb lhe tinha manda- 
do fazer fua inftrucção , pola novidade da 
cmpreza que levava , quiz ufar com elle da 
íblemnidade que convém a taes cafos , fa- 
zendo efta falia pública a çlle , e aos ou- 
tros Capitães , per ante algumas peflòas no- 
táveis que eram prefentes , e pêra iiTo cha- 
madas. Depois que aprouve a Nofjb Se- 
nhor , que eu recebejje o [ceptro defta real 
herança de Portugal ^ mediante a fua gra- 
ça , ajji por haver a benção de meus avós , 
de quem a eu herdei , os quaes com glorio fos 
feitos , e vitorias , que houveram de jeus 
imtgos , a tem acerefeentado per ajuda de 
tão leaes vajjallos , e c avalie ir os , como fo- 
ram aquelles , donde vós vindes , como por 
caiifa de agalardoar a natural lealdade , e 
emor , com que todos me fervís : a mais 

frin- 



272 ÁSIA dé J0X0 de Barros 

principal coufa que trago 71a memoria , de- 
pois do cuidado de vos reger , e governar 
em paz , ejuftiça , he como poderei accrej- 
centar o património defte meu Reyno , pê- 
ra cjue mais liberalmente pojfa diftribuir per 
cada hum o galardão de jeus fervi cos. E 
confiderando eu per muitas vezes qual feria 
a mais proveitofa , e honrada empreza , e 
digna de maior gloria , que podia tomar 
pêra confeguir efta minha tenção , pois , lou- 
vado Deos > de/las partes da Europa cm as 
de Africa a poder de ferro temos lançados 
os Mouros , e lá tomando os principaes lu- 
gares dos portos do Reyno de Fés , que he 
da noffa conquifia , achei que nenhuma ou- 
tra he mais conveniente a efte meu Reyno , 
{como algumas vezes comvofco tenho con- 
fultado , ) que o defcubrimento da Lídia , e 
cVaquellas terras Orientaes. Era as quaes 
partes , peró quefejam mui remotas da Igre- 
ja Romana > efpero na piedade de Deos 
que não fomente a Fé de Nojjo Senhor 
Jefus Chriflo feu Filho feja per noffa admi- 
mftração publicada , e recebida , com que 
ganharemos galardão ante elle ,fama , e lou~ 
vos acerca dos homens ; mas ainda Reynos , 
e novos eftados com muitas riquezas vendi- 
cadas per armas das mãos dos bárbaros , 
dos quaes meus avós com ajuda , e fervi ço 
dos vojjòs , c vojfo tem conquiftado efte 

meu 



Década I. Liv. IV. Cap. I. 273 

meu Keyno de Portugal , e accrefcentàdo â 
Coroa delle. Porque fe da cofia da Ethio- 
pia , que quaji de caminho he defctiberta y 
ejle meu Keyno tem adquirido novos títu- 
los , novos proveitos , e rendas , que fe po- 
de efperar , indo mais adiante com ejle defcu- 
brimento , fenao pudermos confeguir aquel- 
las orientaes riquezas tão celebradas dos 
antigos Efcritores , parte das quaes per 
comniercio tem feito tamanhas potencias , 
como são Veneza , Génova , Florença , e ou- 
tras mui grandes communidades de Itália. • 
Ajfi que corfderadas todas eflas coufas , de< 
que temos experiência ; e também como era 
ingratidão a Deos engeitar o que nos tão 
favoravelmente oferece , e i?ijúria dquelles 
Príncipes de louvada memoria , de quem eu 
herdei ejle defcubrimento , e offenfa a vús- 
outros que nifjb jofles , defcuidar-me eu 
delle per muito tempo , mandei armar qua- 
tro velas , que como J abeis , em Lisboa ef- 
4am de todo prefles perafeguir efla viagem 
de Boa Efper anca. E tendo eu na memoria 
como Vajco da Gama , que eftá prefente 
em todalas coujas , que lhe de meu fervi ço 
foram entregues , e encommendadas , de o 
boa conta de fi , eu o tenho efcolhido pe- 
va ejla ida , como leal vajfallo , e esforça- 
do cavalleiro 5 merecedor de tão honrada 
empreza. A qual efpero que lhe Nojfo Se+ 
Tom. I. S nhor 



^74 ÁSIA de João de Barros 

nhor leixarã acabar y e nella a elle , e a mim 
faça taes fervi cos , com que o feu galardão 
fique por memoria nelle , e naquelles , que 
o ajudarem nos trabalhos defia viagem ; por* 
que com efta confiança , pela experiência 
que tenho de todos , eu os ej colhi por feus 
adjudadores pêra em tudo o que tocar a 
meu fervi ço lhe obedecerem. E eu Vafco 
da Gama vo-los encommendo , e a elles 
a vós , e juntamente a todos a paz , e con- 
córdia , a qual he tão poder ofa , que vence , 
e pajfa todolos perigos , e trabalhos , e os 
maiores da vida faz leves defoffrer , quanto 
mais os dejie caminho , que efpero em Deos 
ferem menores que os pajfados , e que per 
vos efe meu Reyno configa o fruElo d el- 
les. Acabando EIRey de propor eftas pala- 
vras, Vafco da Gama y e todalas notáveis 
pelToas lhe beijaram a mão ; aífi pola mer- 
cê que fazia a cIIq , como ao Reyno . em 
mandar a eíle defcubrimento continuado per 
tantos annos 5 que já era feito herança dcl- 
le. Tornada acafa aoíilencio que tinha an-il 
te deite aéto de gratificação , aílentou-le. 
Vafco da Gama em giolhos ante EIRey , e 
foi trazida huma bandeira de feda com hu-i 
ma Cruz no meio das da Ordem da Cavai-' 
leria de Chriíto , de que EIRey era Gover- 
nador j e perpétuo Adminiílrador , a qual 
eítendendo o Efcrivao da Puridade entre os 

bra- 



Década \Liv. IV. Cap. I. 27? 

braços em modo cie omenagem , diíFe Va£* 
co da Gama em alta voz eftas palavras : Ett 
Vafco da Gama , que ora per mandado de 
vos mui Alto , e mui Poder ofo Rey meu Se- 
nhor vou defcubrir os mares 5 e terras do 
Oriente da índia , juro em o final ãefta 
Cruz , em que ponho as mãos , que por fer- 
viço de Deos , e vojjo , eu a ponha eftea- 
da y e não dobrada , ante a vifta de Mou- 
ros , Gentios , e de todo género de povo 
aonde eu for : e que per todolos perigos de 
•agua , fogo , e ferro fempre aguarde , e de-* 
fenda até morte. E ajji juro , que na exe-> 
cu cão , e obra dejie defcubrimento , que vós 
meu Rey , e Senhor me mandais jazer , 
com toda fé , lealdade ? vigia, e diligencia 
eu vos firva , guardando , e cumprindo vof 
fos regimentos , que pêra iffo me forem da- 
dos j até tornar onde ora ejlou ante apre- 
fença de vojfa Real Alteza , mediante a 
graça de Deos , em cujo fervi ço me enviais, 
Feita eíta menagem , foi-lhe entregue a me£ 
ma bandeira , e hum regimento 5 em que fe 
continha o que havia de fazer na viagem , 
e algumas cartas pêra os Príncipes , e Reys , 
a que propriamente era enviado ; aiTI como 
ao Prefte João das índias , tão nomeado 
nefte Reyno , e a EIRey de Calecut, com 
as mais informações , e avifos , que EIRey 
D. João tinha havido daquelías partes , íe- 
S ii gim- 



276 ÁSIA de João de Bakros 

gundo já diíTcmos : recebidas as quacs cou- 
ías , EIRey o efpedio , e elle fe veio a Lis- 
boa com os outros Capitães. 

CAPITULO II. 

Como Vafco da Gama partio de Lisboa : 

e do que pajjou té chegar ao Padrão y 

que Bartholomeu Dias poz além 

do Cabo de Boa Ef per anca. 

CHegado Vafco da Gama com os ou- 
tros Capitães a Lisboa na entrada de 
Julho do anno de mil quatrocentos noven- 
ta e fete : tanto que os navios foram pres- 
tes , recolhco fua gente pêra fe partir , íem 
guardar a eleição dos mezes > de que ora 
ufamos pêra ir tomar os ventos geraes , que 
curfam naquellas partes \ porque naquelle 
tempo tão efcura era a noticia da terra que 
hia bufcar , como os ventos que ferviam 
pêra boa navegação. Mas parece que como 
a manifeítação deite novo Mundo , tantas 
centenas de annos encuberto , Deos a poz 
nefte termo , quando EIRey D. Manuel hou- 
veífe a herança deite Reyno; aíli permittio 
que fem a ordem dos mezes naturaes deita 
navegação foííe a partida de Vafco da Ga- 
ma ; porque entendamos que as coufas 3 que 
procedem do feu querer , elle que as orde- 
na pêra algum fim que nós não alcançamos , 

dá 



Década I. Lrv. IV. Ca?. II. 177 

dá os meios pêra fe virem effedhiar no tem- 
po pêra que as elle guarda, E como Vaf- 
co da Gama pêra poder partir não efpera- 
va mais que navios preíles , e hum pouco 
de Norte , que naquelles mezes do verão he 
geral neíla coíla de Hefpanha *, póílos os na- 
vios em rallello, lugar de ancoragem anti- 
ga, hum dia ante daíiia partida foi ter vi- 
gília com os outros Capitães á Caía de Nof- 
fa Senhora da invocação de Bethelem , II- 
tuada neíle lugar de raftello , a qual naquel- 
le tempo era huma Ermida 5 que o Infante 
D.Henrique mandou fundar, onde eílavam 
alguns Freires do Convento de Thomar pê- 
ra adminiítrarem os Sacramentos aos ma- 
reantes. Ao feguinte dia, que era fabbado 
oito de Julho , por fer dedicado a NoíTa 
Senhora, e aCafa de muita romagem \ aííi 
por efta devoção , como por fe irem efpe- 
dir dos que hiam na Armada , concorreo 
grande numero de gente a ella. E quando 
foi ao embarcar de Vafco da Gama , os Frei- 
res da cafa com alguns Sacerdotes , que da 
Cidade lá eram idos dizer MiíTa ., ordena- 
ram huma devota procifsao , com que o le- 
varam ante íi neíla ordem : elle, e os feus 
com cirios nas mãos , e toda a gente da Ci- 
dade ficava detrás refpondendo a huma La- 
dainha , que os Sacerdotes diante hiam can- 
tando ? té os porem junto dos bateis , em 

que 



278 AS1A de J0Â0 de Barros 

que ic haviam de recolher. Onde feito íl- 
lencio , e todos de giolhos , o Vigairo da 
Cafa fez em voz alta huma confifsão geral , 
e no fim delia os abfolveo na forma das 
Bulias , que o Infante D. Henrique tinha 
havido pêra aquelles , que neíle defcubri- 
mento , e conquifta faleceííem , (como atrás 
dillemos.) No qual ado foi tanta a lagrima 
de todos , que neíle dia tomou aquclla praia 
poíTe das muitas ? que nella fe derramam na 
partida das Armadas , que cada anno vam 
a eftas partes, queVafco da Gama hia def- 
cubrir : donde com razão lhe podemos cha- 
mar praia de lagrimas pêra os que vam , 
e terra de prazer aos que vem. E quando 
veio ao desfraldar das velas , que os ma- 
rcantes fegundo feu ufo deram aquelle ale- 
gre principio de caminho , dizendo boa via- 
gem , todolos que eítavam promptos na vif- 
ta delles com huma piedofa humanidade 
dobraram eftas lagrimas , e começaram de 
os encommendar a Deos , e lançar juizos , 
fegundo o que cada hum fentia daquella 
partida. Os navegantes , dado que com o 
fervor da obra 5 e alvoroço daquella em- 
preza embarcaram contentes , também pal- 
iado o termo do desferir das veias , vendo 
ficar em terra feus parentes , e amigos , e 
lembrando-lhes que lua viagem eílava pof- 
ta em efperança , e não cm tempo certo , 

nem 



Década I. Liv. IV. Cap. II. 279 

riem lugar fabido , aíli os acompanharam em 
lagrimas , como em o penfamento das cou- 
fas , que cm tão novos cafos & repreíentam 
jia memoria dos homens. Affi que liuns 
olhando pêra a terra , e outros pêra o mar , 
c juntamente todos occupados em lagrimas , 
e penfamento daquella incerta viagem y tan- 
to eíUveram promptos nifíb , té que os na- 
vios fe alongaram do porto. Seria a com- 
panha defta bem fortunada viagem , entre 
mareantes 9 e homens dermas , até cento e 
fetenta peífoas ; e os três navio? pouco mais , 
ou menos de cento até cento e vinte toneis 
cada hum* Do primeiro chamado S. Ga- 
briel , em que hia Vafco da Gama , era Pi- 
loto Pêro d 5 Alanquer , que fora no defcu- 
brimento do Cabo de Boa Efperança ; e EA 
crivão Diogo Dias irmão de Bartholomeu 
Dias. Do íegundo per nome S. Rafael , 
Capitão Paulo da Gama , era Piloto João 
de Coimbra ? e Eícrivão João de Sá. Do 
terceiro , a que chamavam Berrio , Capitão 
Nicoláo Coelho 5 era Pilota Pêro Efcoíar, 
e Efcrivão Álvaro de Braga. E da náo era 
Capitão hum Gonçalo Nunes criado delle 
Vafco da Gama , a qual hia fomente ama- 
rinhada ? pêra depois que os mantimentos 
dos navios fe foífem gaitando , tomarem os 
que ella levava fobrefelentes , e a gente fe 
paílar a elles. Partidas eítas quatro velas , e 

Bar- 



&8o ÁSIA de João de Barros 

Baitholomeu Dias em fua companhia cm 
o navio pêra a Mina, como eftava alenta- 
do , com bom tempo que tiveram em treze 
dias foram ter á Ilha de Sant-Iago , quehea 
principal das do Cabo Verde , onde toma- 
ram a]gum refrefeo. Depois da partida da 
qual Ilha j Bartholomeu Dias os acompanhou 
té fe por no caminho da derrota pêra a Mi- 
na, Vafco da Gama na fua. E a primeira 
terra que tomou , antes de chegar ao Cabo 
de Boa Efperança , foi a baia, a que ora 
chamam de San&a Helena , havendo finco 
mezes que era partido de Lisboa , onde fa- 
hio em terra por fazer aguada , e afli tomar 
a altura. do Sol \ porque como do ufo do 
aílrolabio^ pêra aquelíe raiíler da navegação 
havia pouco tempo que os mareantes deite 
Reyno fe aproveitavam , e os navios eram 
pequenos , não confiava muito de a tomar 
dentro nelles por caufa do feu arfar. Prin- 
cipalmente com hum aítrolabio de páo de 
três palmos de diâmetro , o qual armavam 
em três páos á maneira de cábrea por me- 
lhor fegurar a linha Solar, e mais verifica- 
da , e diítindlamente poderem faber a ver- 
dadeira altura daquelle lugar ; pofro que 
levaíTem outros de latão mais pequenos, 
tão rufticamente começou efta arte , que 
tanto fruíto tem dado ao navegar. E por- 
que em eíte Pveyno de Portugal fe achou 

o pri- 



Década I. Liv. IV. Cap. II. 281 

o primeiro ufo delle em a navegação , ( pê- 
ro que em a noíla Geografia largamente 
tratamos deita matéria em os primeiros Li- 
vros delia , ) não fera eftranho deite lugar 
dizermos quando, e per quem foi achado, 
pois não he de menos louvor efte fel tra- 
balho , que o d 5 outros novos inventores, 
que acharam coufas proveitofas pêra ufo 
dos homens. No tempo que o Infante Dom 
Henrique começou o defcubrimento de Gui- 
né, toda a navegação dos mareantes era ao 
longo da coita , levando-a fempre por ru- 
mo, da qual tinham fuás noticias perímaes 
de que faziam roteiros , como ainda ao pre- 
fente ufam cm alguma maneira , e pêra 
aquelle modo de defcubrir ifto bailava. Pê- 
ro depois que elles quizeram navegar o def- 
cuberto , perdendo a viíta da cofta , e en~ 
golfando-fe no pego do mar , conheceram 
quantos enganos recebiam na eítirnativa , e 
juizo das fangraduras , quefegimdo feu mo- 
do em vinte e quatro horas davam de ca- 
minho ao navio , aíli por razão das corren- 
tes , como d'outros fegredos , que o mar 
tem, da qual verdade de caminho a altura 
he mui certo moítrador. Peró como a ne- 
ceílidade he meftra de todalas artes , em 
tempo delRey D. João o Segundo foi per 
elle encommendado efte negocio a Medre 
Rodrigo , e a Meíire Jofepe Judeo ? ambos 

feus 



282 ÁSIA de João de Barros 

feus Médicos , e a hum Martim de Boé- 
mia natural daquellas partes , o qual fe 
gloreava fer difcipulo de Joanne de Monte 
Régio , aífamado Aílronomo entre os Pro- 
feílores deíla fciencia , os quaes acharam 
cita maneira de navegar per altura do Sol , 
de que fizeram fuás taboadas pêra declina- 
ção delle , como fe ora ufa entre os nave- 
gantes , já mais apuradamente do que co- 
meçou, em que ferviam eítes grandes aítro- 
labios de páo. Pois citando Vafco da Ga- 
ma com os Pilotos prompto no tomar al- 
tura do Sol per eíte modo , dcram-lhc avi- 
fo que detrás de hum tezo viram andar 
dous Negros baixos á maneira de quem apa- 
nhava algumas hervas i e como iíto era o 
principal que elíe defejava , achar quem lhe 
déífe alguma razão da terra , com muito 
prazer manfamente mandou rodear os Ne- 
gros per huma encuberta pêra ferem toma- 
dos ; os quaes como andavam curvos , e 
promptos em apanhar mel aos pós das mou- 
tas com hum tição de fogo na mão , nun- 
ca fentíram a gente que os rodeava, fenão 
quando remettêram a elles , dos quaes to- 
maram hum. Vafco da Gama , porque não 
tinha língua que o entendefle , e elle de 
aflbmbrado daquelía novidade não acudia 
aos acenos , que a natureza fez communs a 
todolos homens , mandou vir dous grume- 
tes , 



Década I. Liv. IV. Cap. II. 283 

tes , hum dos quaes era Negro , que fe af- 
íèntáram junto delle a comer , e beber, 
apartando-fe Telles por o defaflbmbrar. O 
qual modo aproveitou muito , porque os 
grumetes o provocaram a comer; com que 
quando Vaíco da Gama tornou a elle já 
eftava defaffombrado , e per acenos moftrou 
humas ferras, que feriam dalli duas léguas, 
dando a entender que ao pé delias eílava a 
povoação da fua gente. Vafco da Gama , 
porque não podia enviar melhor defcubri- 
dor pêra appellidar os outros , com alguns 
brincos de cafcaveis , e contas de ciyííalli- 
no , e hum barrete \ mandou que o foltaf- 
fem , acenando-lhe que foíTe , e tornaífe 
com feus companheiros pêra lhe darem ou- 
tro tanto. O que elle fez logo , trazendo 
aquella tarde dez , ou doze , que vinham 
bufcar o que elle levou , que também lhe 
foi dado y e de quantas moílras de ouro , 
prata , efpeciaria lhe aprefentáram de ne- 
nhuma deram noticia. Quando veio a ou- 
tro dia , já com eítes vieram mais de qua- 
renta , tão familiares , que pedio hum ho- 
mem d'armas chamado Fernão Velofo a 
Vafco da Gama , que o leixafle ir com el- 
les ver a povoação , que tinham , pêra tra- 
zer alguma mais noticia da terra do que ellcs 
davam 5 o que lhe Vafco da Gama concedeo 
quaíi a rogo de Paulo da Gama feu irmão* 

CA- 



284 ÁSIA de Joio de Barros 

CAPITULO III. 

Como Vafco da Gama foi ferido em huma 
revolta , que os Negros da baia de San- 
tia Helena fizeram : e feguindo Jua 
viagem , defcubrio alguns rios no- 
táveis té chegar a Moçambique. 

P Arado Fernão Veloíb com os Negros , 
c Vaíco da Gama recolhido ao feu na- 
vio , ficou Nicoláo Coelho em terra a dar 
guarda á gente , em quanto apanhava lenha , 
c outros rnarifeavam lagoftas por haver al- 
li muitas. Paulo da Gama j por não eílar 
ociofo , vendo que entre os navios anda- 
vam muitos baleatos trás o cardume do pe- 
xe miúdo , ajuntou dous bateis pêra andar 
com fifga , c arpões a ellcs , o qual paíía- 
tempo lhe houvera de cufíar a vida. Por- 
que foram os marinheiros do batel ? em que 
elie andava ? amarrar duas arpoeiras das fif- 
gas , com que tiravam , nas toftes do batel ; 
que eílavam atochadas ; e acertando de fe- 
rir hum baleato , aíli barafuftou com a fú- 
ria da dor , que houvera de trebucar o ba- 
tel , fe a arpoeira não fora comprida , e o 
mar de pouco fundo , que caufou dar o ba- 
leato em fecco , fem mais poder nadar , o 
qual lhe fervio de refrefeo. E fendo já fo- 
bre a tarde, querendo-fe todos recolher aos 

na- 



Década I. Liv. IV. Cap. HL 285- 

navios , viram vir Fernão Velofo per hum 
tezo abaixo mui apreífado. Vafco da Ga- 
ma como tinha os olhos em fua tornada 7 
quando o vio com aquella preílli , mandou 
bradar ao batel de Nicoláo Coellio , que 
vinha da terra , que tornaíTem a elle,ao re- 
colher. Os marinheiros do batel , porque 
Fernão Velofo nunca leixava de foliar em 
valentias , quando o viram íbbre a praia 
defcer com paííòs a meio chouto , á cinte 
detiveram-fe em o recolher. A qual deten- 
ça deo fufpeita aos Negros , que eftavam 
em cilada eíperando a fahida delles em ter- 
ra , que o meímo Fernão Vcloíb fizera al- 
gum íinal que não fahiíTem. E em queren- 
do entrar ao batel , remettêram dous Ne- 
gros a elie polo entreter 5 da qual oufadia 
fahíram com os fucinhos lavados em fan- 
gue , a que acudiram os outros ; e foi tan- 
ta a pedrada y e frechada fobre o batel ? 
que quando Vafco da Gama chegou poios 
apaziguar , foi frechado per huma perna, 
e Gonçalo Alvares Meftre do navio S. Ga- 
briel, e dous marinheiros levaram cada hum 
fua. Vendo Vafco da Gama que com elles 
não havia meio de paz 5 mandou remar pê- 
ra os navios ; e porém á efpedida alguns 
béfteiros dos noíTos empregaram nelles feu 
almazem por não ficarem fem caftigo ; e 
dahi a dous dias com tempo feito mandou 

Vaf- 



a86 ÁSIA de João de Barros 

Vafco da Gama dar a vela , fem levar ai- 

Puma informação da terra , como defejava, 
orque Fernão Velofo não vio coula que 
contar , fenão o perigo que elle dizia paf- 
far entre aquelles Negros ; os quacs tanto 
que fe. apartaram da praia , o fizeram tor- 
nar , quaíi como que o queriam ter nella 
por anagaça pêra quando ofoflem recolher 
commetterem alguma maldade , da manei- 
ra que moílráram. Seguindo Vafco da Ga- 
ma feu caminho na volta do mar ? por fe 
defabrigar da terra 5 quando veio ao tercei- 
ro dia , que eram vinte de Novembro , paf- 
fou aquelle grão Cabo de Boa Efperança 
com menos tormenta , e perigo do que os 
marinheiros efperavam 3 pela opinião que en- 
tre elles andava , donde lhe chamavam o 
Cabo das tormentas ; e dia de Sandia Ca- 
iharina chegaram onde fe ora chama agua- 
da de S. Braz , que lie além delle feífenta 
léguas. E pofto que alli acharam Negros 
de cabello revolto , como os paliados , eí- 
tes fem receio chegaram aos bateis a rece- 
ber qualquer coufa que lhe lançavam na 
praia , e per acenos começaram logo de íe 
entender com os noíTos ; de maneira, que 
houve entre elles commutação de darem car- 
neiros a troco de coufas que lhe os noíTos 
davam. Porém de quanto gado vacum tra- 
ziam y nunca puderam haver delles huma 

fá 



Década I. Liv. IV. Ca*. III. 287 

fó cabeça, parece que o eílimavam ; por- 
que alguns bois mochos , que os noflbs vi- 
ram andavam gordos , e limpos , e vinham 
as mulheres fobre elles com humas albardas 
da tábua. E em três dias queVafco da Ga- 
ma fe deteve aqui , tiveram os noffos mui- 
to prazer com elles , por fer gente prazen- 
teira dada a tanger, e bailar, entre os quaes 
havia alguns , que tangiam com huma ma- 
neira de frautas paftoris , que em feu mo- 
do pareciam bem. Do qual lugar Vafco 
da Gama fe mudou pêra outro porto perto 
daquelie , porque entre os Negros , e os, 
noííos começou haver alguma perfia fobre 
refgate de gado, indo elles fempre á vifta 
dos navios ao longo da praia té ancorarem. 
E porque quando chegaram hia já grande 
numero delles , mais em modo de guerra 
que de paz , mandou-lhes tirar com alguns 
berços , fomente por os aífombrar , fem lhe 
fazer damno , e foi tomar outro poufo da- 
hi duas léguas , onde recolheo todoíos man- 
timentos que levava em a náo , e eíla ficou 
queimada. Partido deite lugar dia de Nof- 
fa Senhora da Conceição , quando veio ao 
quarto , que era vefpera de Sandia Luzia , 
faltou com elle tão grande temporal , que 
per outros tantos dias o fez correr arvore 
fecca. E como eíla era a primeira tormen- 
ta, em que os mareantes fe tinham vifto em 

ma- 



288 x\SIA de João de Barros 

mares , c climas nao fabidos , andavam tão 
fora de íi , que nao havia mais acordo en- 
tre clles que clamar por Deos , curando 
mais na penitencia de feus peccados , que 
na mareagem das velas , porque tudo era 
fombra da morte. Mas aprouve a piedade 
de Deos , que neíles cafos confola com bo- 
nança , que os tirou de tanta tribulação, 
e os levou aonde ora chamam os Ilheos 
chãos , finco léguas avante do da Cruz , on- 
de Bartholomeu Dias poz o ícu derradeiro 
Padrão , paliando per elle , polo tempo lhe 
não dar lugar , té irem tomar os outros 
Ilheos. Na qual paragem por cauía das 
grandes correntes andaram ora ganhando , 
ora perdendo caminho ^ té que dia de Na- 
tal pairaram pela coita do Natal , a que el- 
les deram efte nome ; e dia dos Bxys en- 
traram no rio delles , e alguns lhe chamam 
do cobre por o refgate delie em manilhas , 
e aíli marfim , e mantimentos , que os Ne- 
gros da terra com elle refgataram , tendo 
com os noflbs tanta communicação , por Vaf- 
co da Gama os fatisfez com dadivas , que 
foi hum Martim Afonfo marinheiro á aldeã 
delles per licença do Capitão ; o qual veio 
mais contente do gazalhado que lhe fize- 
ram , do que Fernão Veloíb veio dos ou- 
tros; porque não fomente ofenhor da aldeã 
o recebeo com grande feita , mas ainda quan- 



Década I. Liv. IV. Cap. III. 289 

do tornou ao navio polo honrar mandou 
com elíe mais de duzentos homens. Depois 
efte mcímo Senhor com outros mui acom- 
panhados vieram ver os navios , e em feu 
tratamento moftravam habitar em terra fria , 
por virem alguns vertidos de pelles , e que 
tinham communicaçao com gente de boa 
razão ; e por caufa da muita familiaridade , 
que os noffos tiveram com elles em finco 
dias , que Vaíco da Gama fe deteve neíie 
lugar , lhe poz nome Aguada da boa paz. 
E daqui por diante começou de fe affaftar 
algum tanto da terra , com que de noite 
paíTou o Cabo , a que ora chamamos das* 
correntes ; porque começa a coita encurvar- 
fe tanto pêra dentro paliado elle, que íèn- 
tindo Vaíco da Gama que as aguas o apa- 
nhavam pêra dentro , temeo fer alguma en~ 
feada penetrante 5 donde não pudefle fahir. 
O qual temor lhe fez dar tanto reíguardo 
por fugir a terra 3 que paílbu fem haver vif- 
ta da. povoação de Çofala , tão celebrada 
naquellas partes por caufa do muito ouro 
que os Mouros alli hão dos Negros da ter- 
ra per via do commercio , fegundo elle 
adiante foube; efoi entrar em hum rio mui 
grande abaixo delia íincoenta léguas , vendo 
entrar per elle huns barcos com velas de 
palma. A entrada do qual rio, depois que 
viram o Gentio que habitava á borda deile , 
Tom. L T deo 



290 ÁSIA de JoÁo de Barros 

deo grande animo a toda a gente , pêra, 
quão quebrado o levava, tendo tanto nave- 
gado íèm achar mais que Negros bárbaros , 
como os de Guiné , vizinhos de Portugal. 
E a gente deftc rio peró que também foífe 
da cor , e cabello como elles eram , havia 
entre elles homens fulos , que pareciam meí- 1 
ticos de Negros , e Mouros , e alguns en- 
tendiam palavras do Aravigo , que lhe fal- 
lava hum marinheiro per nome Fernão Mar- 
tins , mas a outra lingua própria nenhum i 
dos noííbs a entendia; donde Vaíco daGa-j 
ma fufpeitava , que eíles Negros aíTi nai 
cor. como nas palavras do Arábio podiam; 
ter communicaçao com os Mouros, dama-! 
neira que os Negros de Jalof tem com os; 
Azenégues. E os mais delles traziam derrc-| 
dor de íi huns pannos d' algodão tintos de 
azul , e os outros toucas , e pannos de fe- 1 
da, té carapuças de chamalote de cores. Com; 
os quaes ílnaes , e outros que elles deram , 
dizendo , que contra o nafeimento do Sol 
havia gente branca , que navegavam em! 
náos , como aquellas fuás , as quaes elles 
viam paíTar pêra baixo , e pêra cima d'a- 
iqudk coita , poz Vafco da Gama nome aj 
ePiQ rio dos Bons íinaes. Finalmente com 
cilas novas , e fegurança da gente na com- 
municaçao que tinham com os noíTos per 
modo de commercio de mantimentos da 

Ser- : 



Década I. Liv. IV. Cap. III. 291 

terra , quiz elle dar pendor aos navios por 
virem já mui cujos , no qual tempo com 
ajuda dos da terra poz hum Padrão per no- 
me S.Rafael, dos que levava lavrados pê- 
ra eíle deícubrimento , da maneira dos ou- 
tros , que ficaram poítos do tempo delRey 
D.João. E peró que neíle rio dos Bons II- 
naes foi o maior final que té li tinham vifi» 
to , e que lhe deo grande efperança do que 
hiam deícubrir , por eíle prazer não ir pu- 
ro fem algum deíconto de trabalhos , per 
efpaço de hum mez que alli eíliveram no 
corregimento dos navios , adoeceo muita 
gente , de que morreo alguma. A maior 
parte foi de herifipolas , e de lhes creícer 
tanto a carne das gengivas, que quaíl não 
cabia na boca aos homens , e aífi como 
crefcia apodrecia , e cortavam nella como 
em carne morta ; coufa mui piedofa de 
ver j a qual doença vieram depois conhecer 
que procedia das carnes , pefcado falgado , 
ebiícouto corrompido de tanto tempo. Ti- 
veram mais fobre eíle trabalho té fahirem 
deíle rio dos Bons íínaes dous grandes pe- 
rigos : hum foi , que eílando Valco da Ga- 
ma a bordo do navio de feu irmão Paulo 
da Gama em huma bateira pequena , fomen- 
te com dous marinheiros que a remavam , 
e tendo as mãos pegadas nas cadeias da en- 
xarcea ., em quanto fallava com elle , defcia 
T ii agua 



292 ÁSIA de J0X0 de Barros 

agua tão teza \ que lhe furtou a bateira per 
baixo , e elJe , e os marinheiros não tive- 1 
ram mais falvação que ficarem dependura-: 
dos nas cadeias , té que lhes acudiram. O 
outro perigo aconteceo a eíte mefmo navio. 
o dia de lua partida, que foi a vinte e qua-j f 
tro de Fevereiro : fahindo pela barra do 
rio , foi dar em fecco em hum banco d'arêa J 
onde eíteve em termo de ficar pêra fempre - y 
mas vindo a maré fahio do perigo , com 
que fez feu caminho fempre á vifta da coín 
ta , té que dahi a finco dias chegou a hu-j 
ma povoação chamada Moçambique , e foi( 
pouíar em huns ilheos apartados delia pou- 
co mais de légua ao mar. Surto neíles ilheos j 1 
os quaes ora fe chamam de S. Jorge pai! 
caufa de hum Padrão deite nome, queVaf 
co da Gama netles poz , viram vir três : 
ou quatro barcos , a que os da terra cha- 
mam zambucos , com luas velas de palma- 1 
e a remo. A gente dos quaes vinha tangen, 1 
do, e cantando , a mais delia bem tratada j I 
c entre elies homens brancos com toucaj I 
na cabeça , e veftido d'algodão a modo de 1 
Mouros de Africa , que foi pêra os noífc 1 
muito grande prazer. Chegados eftes barcq | 
ao navio de Vafco da Gama , levantou-i 
3ium daquelles homens bem veftidos , e a 
meçou per Aravigo perguntar que geni 
era y e o que bufeavam ? Ao que Vafco c 

Ga- 



! 



Década I. Liv. IV- Cap. III. 293 

Gama mandou refponder per Fernão Mar- 
tins lingua , que eram Portuguezes vafíallos 
delRey de Portugal; e quanto ao que buf- 
cavam , depois que foubeífem cuja aquella 
povoação era , então refponderiam a iffo. 

Mouro que failava , ( íègundo fe depois 
foube , ) era natural do Reyno de Fez ; e 
vendo que o trajo dos noílbs não era de 

1 Turcos , como eiles cuidavam , creo que 
; diziam verdade ; e como homem íagaz , fi- 
| mulando contentamento de fua vinda , re- 
| fpondeo que aquella povoação fe chamava 
! Moçambique , da qual era Xeque hum Se- 
; nhor chamado Çacoeja : cujo coftume era , 
í tanto que alli chegavam navios eflrangei- 
\ ros , mandar faber delles o que queriam ; 
i e fe foíTem mercadores , tratariam na terra ; 

1 e fendo navegantes , que paífavam pêra ou- 
jtra parte, provelios do que houveífe nella. 
j Vafco da Gama a eftas palavras refpondeo , 
jque fua vinda áquelle porto era paíTagem 
j pêra a índia fazer alguns negócios , a que 

EIRey feu Senhor o enviava , principalmen- 
te com EIRey de Calecut ; e por quanto 
elle não tinha feito aquelle caminho , lhe 
pedia , que diífeíTe ao Xeque , que lhe man- 
áaífe dar algum Piloto daquellas partes , 
que elle o pagaria mui bem. E quanto ao 
negocio do tratar , elle não trazia merca- 
dorias pêra iífo ^ fomente algumas pêra a 

tro- 



294 ÁSIA de JoÃo de Barkos 

troco delias haver o que houveíTe miíter , e 
tudo ornais eramcouíàs pêra dar aos Reys , 
e Senhores , de que recebefle bom gazalha- 
do ; e porque elle efperava de o achar al- 
li , fegundo trazia por noticia , aprefentaíTe 
ao Xeque alguma fruita , que lhe queria 
mandar pêra faber o que havia na terra, 
donde elle vinha. O Mouro como homem 
efperto refpondeo attentamente , dizendo, 
que todas aquellas coufas elle as diria a feu 
Senhor ; e que fe alguma queria mandar , 
elle lha prefentaria da fua parte; e quanto 
ao Piloto que defcançafle , porque alli havia ! 
muitos , que fabiam a navegação da índia, j 
Vafco da Gama com efta facilidade que o 
Mouro moftrou , e nova que deo , mandou 
logo tirar algumas confervas da Ilha da 
Madeira pêra o Xeque , e a elle deo hum; 
capelhar de grã , e outras coufas deita for- 
te, com que fe partio contente. 



CA- 



Década I. Livro IV. 29c 

CAPITULO IV. 

Como depois que Vafco da Gama ajjentou 

paz com o Xeque de Moçambique , e el- 

le lhe prometter Piloto pêra o levar 

d Índia , fe rompeo a paz : e do 

que f obre ijjò fuccedeo. 

PArtido o Mouro mui alegre das peças 
que levava, mais que por ver os noi- 
fos naquellas partes , começaram elles fefte- 
jar a nova que deo > dando louvores a Deos , 
pois já tinha viíto gente que lhe fallava na 
índia ,"e fobre ifío promettia Piloto pêra 
os levar a ella, Vafco da Gama peró que 
fem comparação alguma dava eftes louvo- 
res a Deos , e moítrava maior prazer , aífi 
polo haver nelle, como por animar acom- 
I panha dos trabalhos que tinham paflado , 
todavia como quem efguardava as coufas 
com mais attençao , não ficou mui fatisfeito 
dos modos , e cautelas , que fentio no Mou- 
ro , fallando com elle , porque entendeo 
não ficar tão contente como moftrou , quan- 
do foube que eram Portuguezes. E fem fa- 
ber que era do Reyno de Féz , efcola mili- 
tar delles , do ferro dos quaes podia elle , 
ou coufa fua andar aíTinado ? attribuio que 
a triíleza que lhe vio feria por faber que 
eram Chriftãos j e por não defconfolar a 

gen- 



iy6 ÁSIA DE JOÃO DE BARKOS 

gente em tanto prazer como tinha y não 
quiz communicar ifto que entendeo nelle 
com peílba alguma. O Mouro também por- 
que na diligencia de fua tornada moftraííe 
que lhe tinha boa vontade , veio logo , di- 
zendo quão contente o Xeque eftava com 
as novas que lhe deo de quem eram , e 
quanto cftimára feu prefente > trazendo em 
retorno algum refreíco da terra. E aífi lhe 
diíTe da parte do Xeque taes palavras fobre 
a eftancia 5 que tinha mui longe da povoa- 
ção pêra fe communicarem de mais perto , 
que moveoVafco da Gama a entrar dentro 
no porto. E pofto que niíío houve refguar- 
do dos Pilotos do lugar , quando foi a en- 
trada , levando diante o navio de Nicoiáo 
Coelho , por fer mais pequeno , e elle a 
fonda na mão , deo em parte que lhe lan- 
çou o leme fora , e com tudo laivo o ban- 1 
co furgíram diante da povoação hum pou-l 
co affaftados delia , a qual eftava allentada 
cm hum pedaço de terra torneado d'agua 
falgada com que fica em Ilha > tudo terra 
baixa , e alagadiça , donde fe caufa fer cila 
mui doentia 5 cujas calas eram palhaças, fó-í 
mente huma mefquita , e as do Xeque 5 que: 
eram de taipa com eirados per cima. Os 
povoadores da qual eram Mouros vindos:! 
de fora , os quaes fizeram aquella povoação'' 
como efcala da Cidade Quiloa^ que eftava i 

dian- f 



Década I. Liv. IV. Cap. IV. 297 

diante , e da Mina Çofala que ficava atrás , 
porque a terra em íi era de pouco trato , 
e os naturaes , que eram Negros de cabei- 
lo revolto , como de Guiné , habitavam na 
terra firme. A qual povoação Moçambique 
daquelle dia tomou tanta poffe de nós , que 
em nome he hoje a mais nomeada efcala 
de todo o Mundo , e per frequentação a 
maior que tem os Portuguezes ; e tanto, 
que poucas Cidades ha no Reyno que de 
íincoenta annos a eíta parte enterraffem em 
íi tanto defunto , como elia tem dos no£ 
fos. Cá , depois que neíta viagem a índia 
foi defcuberta té ora , poucos annos paira- 
ram que á ida, ou á vinda que não inver- 
naffem alli as noííbs náos , e alguns inver- 
nou quali toda huma Armada , onde ficou 
fepultada a maior parte da gente por caufa 
da terra ler mui doentia ; porque como o 
fitio delia he hum cotovello á maneira de 
cabo , que eítá em altura de quatorze gráos 
e meio , do qual convém que as náos , que 
pêra aquellas partes navegam hajam viíla 
pêra irem bem navegadas , quando os ven- 
tos lhes não fervem pêra paliar adiante á 
ida , ou vinda , tomam aquelle remédio de 
invernar aili ; e deita neceílídade , e d'outras , 
( como adiante veremos na defcripção de 
toda eíta coita , ) procedeo eleger-fe pêra 
efcala de noiTas náos hum lugar tão doen- 
tio, 



298 ÁSIA de João de Barros 

tio 5 e bárbaro , leixando na mefma coita 
outros mais célebres , e nobres. Vafco da 
Gama , depois que tomou o pouíò diante 
defta povoação Moçambique , ao feguinte 
dia em companhia do Mouro do recado, 
que o veio viíitar, mandou o Efcrivao do 
íeu navio com algumas coufas ao Xeque ; 
o qual prefente obrou tanto depois que o 
elle recebeo , que começaram logo de vir 
barcos aos navios a trazer mantimentos da 
terra , como gente que começava ter fabor 
no retorno que haviam deitas coufas. E per 
eípaço de dez dias , em que fe detiveram 
eíperando tempo , aílèntou Vafco da Gama 
paz com o Xeque , e em íinal delia metteo 
na Ilha S. Jorge o Padrão deite nome que 
diífemos , e ao pé delle fe poz hum Altar , 
onde fe diíTe MiíTa , e tomaram todos o Sa- 
cramento , porque aqui fizeram o primeiro 
termo , e de maior efperança do feu defcu- 
brimento , pêra que convinha difporem-fe 
com as confciencias em eítado 5 que fuás 
prezes foííem acceptas a Deos, e mais por 
fer tempo de Quarefma em que a Igreja 
obriga a iífo. Neíte tempo , entre alguns 
Mouros , que vinham vender aos navios 
mantimentos , vieram três Abexijs da terra 
do Prefte João ; os quaes poíto que feguif- 
fem o error dos Mouros , como foram crea- 
dos naquelia maneira de Religião , e Fé de 

Chri- 



Década I. Liv. IV. Cap. IV. 299 

Chrifto , que feus padres tinham 5 ainda que 
não conforme a Igreja Romana ; em vendo 
a Imagem do Anjo Gabriel pintada em o 
navio do feu nome , que era o de Vafco 
da Gama, como coufa nota a elles por em 
fua pátria haver muitas Igrejas , que tem ei- 
tas Imagens dos Anjos , e algumas do pró- 
prio nome , aíTentáram-fe em giolhos , e fi- 
zeram fua adoração. Quando o Capitão fou- 
be delles ferem de nação Abexij , cujo Rey 
neílas partes era celebrado por Prefte João 
das índias > coufa a elle tão encommenda- 
da , começou de os inquerir per Fernão 
Martins lingua , os quaes pofto que enten- 
diam o Arábigo 3 a muitas palavras não re- 
fpondiam ao propofito , como que differiam 
na lingua , e d'outras não davam razão , di- 
zendo fahirem de fua terra de tão pequena 
idade , que não eram já lembrados. Os Mou- 
ros como entenderam que o Capitão folga- 
va de fallar com elles , polo final que lhe 
via da Chriftandade , fizeram-fe mui apref- 
fados pêra fe tornar a terra , e quaíi por 
força levaram os Abexijs , e aífi os efcon- 
deram , que por muito que Vafco da Ga- 
ma trabalhou por tornar a fallar com elles , 
nunca mais os pode haver. Aífí que por ef- 
tes finaes , e outras cautelas que uíavam com 
elle ? quiz faber fe tinha certo os Pilotos 
que lhe promettêram , e mandou-os pedir 

ao 



30o ÁSIA de João de Barros 

ao Xeque ; o qual como tinha aíTentado o 
que efperava fazer, levemente Die mandou 
dous Mouros ? que acerca da navegação a 
íeu modo praticaram bem j dos quaes o Ca- 
pitão ficou contente , e aflentou com elles , 
que por premio de feu trabalho havia de 
dar a cada hum valia de trinta meticaes 
d'ouro , pezo da terra , que poderão fer até 
quatorze mil reaes dos noflbs , e mais tra- 
ina marlota de grã. As quaes couías elles 
quizeram logo levar na mão , dizendo , que 
não podiam d'outra maneira partir , por 
quanto as haviam de leixar a fuás mulhe- 
res pêra ília mantença. Vaíco da Gama pê- 
ro que fe não fiava delles poios finaes que 
já tinha vifto , levemente o fez , aflentando , 
que quando hum fofle em terra , ficaííe ou- 
tro em o navio , polo haver mifter pêra a 
prática da navegação. Pafiados dous dias y 
que Vafco da Gama tinha feito efte concer- 
to com elles , acertou mandar a manhã 1c- 
.guinte dous bateis bufear lenha , e agua , 
que os Negros da terra foião a pôr na praia 
com premio que lhes davam ; no recolher 
da qual de fubito fahíram a elles fete zam- 
bucos cheios de gente armada a feu modo , 
c com huma grande grita começaram de os 
frechar , de que houveram feu retorno com 
béílas . efpingardas , que os noflbs levavam 
por rcíguardo. Com o qual rompimento 

/ de 



Década I. Liv. IV. Cap. IV. 301 

de paz ficaram em tal eftado , que nunca 
mais appareceo barco , e tudo fe recolheo 
diante -da vifta dos noflbs pêra detrás da 
Ilha. Vaíco da Gama temendo que per al- 
gum modo lhe impediííem íeu caminho , 
havido confelho com os Capitães , e Pilo- 
tos , hum Domingo onze de Março fahio 
dante a povoação , e foi tomar o poufo na 
Ilha de S. Jorge j e depois que ouvio huma 
Miíía , fe fez á vela caminho da índia , le- 
vando comfigo hum dos Pilotos , porque 
ao tempo do rompimento eílava o outro em 
terra, E parece que os trabalhos , que alli 
haviam de paífar , ainda não fe acabavam 
com fua partida ; porque como ella foi mais 
por evitar outro maior defaftre , que polo 
tempo fer bom pêra navegação , aos quatro 
dias de fua partida acháram-fe quatro , ou 
finco léguas áquem do Cabo de Moçambi- 
que , polas aguas correrem tão tezas a ei~ 
le , que lhe abateram todo aquelle cami- 
nho. E vendo Vaíco da Gama que lhe con- 
vinha efperar vento de mais força pêra rom- 
per cita das correntes , a qual mudança fe- 
ria com a Lua nova , (fegundo o Mouro 
Piloto lhe dizia,) foi furgir á Ilha de São 
Jorge, donde partira, fem querer ter com- 
municação com os de Moçambique. Porém 
porque a agua fe lhe hia gaitando , e havia 
já féis y ou fete dias que era chegado , per 

con- 



302 ASIÀ DE JOÃO DE BARROS 

confclho do Mouro Piloto , que prometteo 
levar de noite a gente a lugar onde fízeífe 
aguada , mandou com elle dous bateis ar- 
mados a iíTo. E ou que o Mouro queria 
dar muitas voltas pela terra per onde os le- 
vou y porque nellas tiveíTe algum modo de 
eícapulir da mão de quem o levava , ou que 
verdadeiramente fe embaraçou por fer de 
noite , entre hum grande arvoredo de man- 
gues , nunca pode dar com os poços que 
elle dizia , com que obrigou a Vafco da 
Gama mandar de dia aiífo dous bateis mui 
bem armados , que a pczar dos Negros que 
a vinham defender tomaram agua. E por- 
que ncíta ida fugio a nado o Mouro Pilo- 
to , e hum Negro Grumete > ao feguinte 
dia com mão armada foi demandar a po- 
voação , onde os Mouros em hum grande 
efcampado > que eílava ante ella , e a praia , 
lhe deram moftra de até dous mil homens , 
recolhendo-fe logo detrás de hum repairo 
de madeira entulhado de terra , que fize- 
ram naquelles dias. Vafco da Gama vendo 
leu máo propofito , mandou fazer final de 
paz , como que queria eílar á falia por fa- 
ber o que. tinha nelles ; e acudindo a iíTo 
o Mouro dos recados , começou elle de fe 
queixar do que lhe era feito , e da pouca 
verdade que lhe trataram ; tomando por 
conclusão ? que não queria proceder no mais 

que 



Década I. Liv. IV. Cap. IV. 303 

que mereciam as taes obras ; que lhe man- 
daífe entregar hum Negro que lhe fugira , 
e mais os Pilotos , que tinha pagos pêra 
aquella navegação , e com ifto ficaria fatis- 
feito. O Mouro íem outra palavra diffe., 
que elle tornaria logo com refpoíla , a qual 
foi , que o Xeque eítava muito mais efcan- 
dalizado da fua gente ; porque querendo os 
feus folgar com ella em modo de fefta , fe- 
gundo ufo da terra 5 ao tempo que hiam 
bufcar agua faltaram com elles , matando y 
e ferindo alguns , e mais mettêram-lhe hum 
zambuco no fundo com muita fazenda , das 
quaes coufas lhe havia de fazer emenda. 
É quanto aos Pilotos elle não fabia parte 
delles por ferem homens eftrangeiros , que 
fe lhe alguma coufa deviam , bem podia 
mandar a terra homens que os foliem buf- 
car , que a elle baílava-lhe tellos já envia- 
dos ; e ifto em tempo , que lhe parecia fer 
elle Capitão , e os íeus gente fegura , e que 
fallava verdade ; mas ao prefente o que ti- 
nha entendido era ferem homens vadios 5 
que andavam roubando os portos do mar. 
.No fim das quaes palavras fem mais efpe- 
rar refpoíla fe recolheo pêra o Xeque 3 ' don- 
de fahio huma grita , e trás ella começa- 
ram de chover fettas a chegando-fe aos bateis 
por fazerem melhor emprego , como quem 
ainda não tinha experimentado a fúria da 

nof- 



304 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

noíTa artilheria. A qual dos primeiros tiros 
que lhe Vafco da Gama mandou tirar aíli 
os caítigou , que per detrás da Ilha , onde 
tinham os zambucos , fe paílaram a terra 
firme. Na qual paíTagem rodeando hum dos 
noíTos bateis a Ilha pêra lhe defender o paf- 
fo , tomou hum zambuco carregado de fa- 
to y e de quanta gente hia nelle , fomente 
houveram á mão hum Mouro velho , e dous 
Negros da terra , porque toda a mais fe 
falvou a nado. Deíamparado o lugar per 
efta maneira j pofto que Vafco da Gama lho 
pudera queimar , como fua tenção era af- 
íòmbrallos pêra haver os Pilotos , e Grume- 
te que fugio , não quiz por aquella vez fa- 
zer mais damno > que ficarem ante os pés 
do Xeque quatro , ou finco homens mortos 
d'artilhcria , que foi a caufa de todos fe po- 
rem em falvo. Tornado aos navios , fez lo- 
go per tormento perguntas ao Mouro , do , 
qual íjòube a caufa daquella fugida , e o tra- ; 
to da terra ouro de Çofala , efpeçaria da ín- 
dia ? e que d'alli a Calecut , fegundo ouvi- 
ra dizer , feria caminho de hum mez ; e 
quanto aos poços pêra fazerem aguada J 
aquelles dous Negros , que eram naturaes 
da terra , podiam mui bem encaminhar a i 
gente que lá houveífe de ir. Sabidas cilas 
coufas , que foram pêra Vafco da Gama de 
grande contentamento , por ferem as mais ceiU 

tas, 



Dec. I. Liv. IV. Ca?. IV. e V. 30? 

tas , que té então tinha fabido , ante que o 
Xeque mandaíle pôr guarda nos poços , man- 
dou logo aquella noite os bateis apercebi- 
dos de todo o neceíTario , levando comílgo 
eíle Mouro pêra fallar aos Negros , e elies 
pêra encaminhar a gente ao lugar dos po^ 
ços , onde chegaram com afias trabalho por 
ler de noite , e per muitos alagadiços , de 
maneira y que quando tornaram era já alto 
dia. 

CAPITULO V. 

Como o Xeque veio em concerto comVaf- 

to da Gama , e lhe deo hum Piloto , que o 

levou tê a Cidade Mombaça , donde fugio 

a tempo que os Mouros da mefma Cidade 

lhe tinham ordenado huma traição , de que 

•i * â. 

ej capou., e dahi foi ter a Me linde. 

O Xeque temendo que fe negaíTe o que 
lhe pediam y indignaria osnoflbs a vi- 
rem queimar a povoação , e navios , com 
que além da perda ficava elíe entre os Ne- 
gros da terra firme , que o podiam vir rou- 
bar , aconfelhado defte temor , logo ao íè- 
guinte dia com algumas defculpas mandou 
pedir a Vafco da Gama paz , e concórdia» 
E quanto aos Pilotos , que efte fogo accen- 
dêram , hum delles era aufentado , e metti- 
do peio fertáo , temendo o caíligo que por 
ifto lhe poderiam dar - 7 e o outro eftava j& 
Tom. L V cak 



306 ÁSIA de João de Barros 

caftigado pêra fcmprc , por fer morto com 
artilheria ; que as marlotas , e o mais que 
houveram tudo fora tornado a fuás mulhe- 
res , e alli o mandava ; e em lugar dellcs 
outro Piloto , homem que o havia de fèr- 
vir melhor , por fer mais exercitado naquel- 
le caminho da índia , e a(Ti o Negro fugi- 
do. Vafco da Gama vendo que o tempo 
não era pêra muitas réplicas , e mais lhe 
convinha o Piloto que outra alguma emen- 
da delles y com palavras conformes ao cafo 
acceptou o Piloto , e as marlotas com o 
mais mandou que fe tornaífem ao Xeque 
pêra as dar a quem quizeífe , e foltou o 
Mouro , e Negros da terra veftidos a feu 
prazer. Acabando eílas coufas , ao feguintc 
dia recolheo-fe á Ilha de S. Jorge , onde 
ainda efteve três dias efperando tempo té o 
primeiro de Abril que partio , levando com- 
íigo mais verdadeiramente hum mortal imi- 
go que Piloto. Porque aquelle que lhe foi 
dado , ou pelo ódio que nos tinha 5 ou por- 
que aíli lho mandava o Xeque , deo com 
os navios entre humas Ilhas , affirmando-íe 
queerahuma ponta de terra firme. Por cau-; 
la da qual mentira foi mui bem açoutado, 
donde ficou ás Ilhas nome do açoutado, 
que hoje tem entre os noíTos , que ferao 
adiante de Moçambique feíTenta léguas. O 
Mouro como fobre hum ódio natural fe 

lhe 



Década I. Liv. IV. Cap. V. 307 

lhe accrefcentou cíloutro do caftigo , deter- 
minou metter os navios no porto da Cida- 
de Quiloa , por fer povo groflb , que po- 
deria por força d ? armas desbaratar os nof- 
fos navios. Pêra fazer a qual maldade mais 
a feu falvo , diffe a Vaíco da Gama em 
modo de o querer comprazer, que adiante 
eftava huma Cidade per nome Quiloa , a 
qual era meia povoada de Chriítãos Abe- 
xijs , e d'outros da índia , que fe manda jP- 
fe elle o levaria a ella. Mas aprouve a 
Deos , que pofto que Vafco da Gama lhe 
difie que o levaíTe a efta Cidade , não fuc- 
cedeo o negocio como o Mouro defejava , 
porque com as grandes correntes huma noi- 
te eícorreo o porto ; e com tudo ainda os 
metteo em outro perigo , que foi dar com 
o navio S. Rafael em fecco em huns bai- 
xos , de que fahio com a maré , donde aqueí- 
le lugar fe chama os baixos de S. Rafael y 
não tanto por efta vez , quanto porque a 
vinda fe veio alli perder. Tornando a fua 
viagem aos fete dias de Abril , vefpera do 
Domingo de Ramos , chegaram ao porto 
de huma Cidade chamada Mombaça , em 
a qual o Mouro diífe , que havia Chriítãos 
Abexijs , e da índia , por caufa de fer mui 
abaftada de todalas mercadorias. A íituação 
da qual Cidade eftava mettida per hum es- 
treito , que torneava a terra ^ faz endo dua 
V ii bo- 



308 ÁSIA de João dê Barros 

bocas , com que ficava em modo de Ilha 
tão encuberta aos noíTos , que não houve- 
ram vifta delia fenão quando ampararam 
com a garganta do porto. Defcuberta a Ci- 
dade , como os feus edifícios eram de pe- 
dra , e cal 5 com janellas , e eirados á ma- 
neira de Hefpanha , e ella ficava em hum a 
chapa , que dava grão vifta ao mar , eftava 
tão formofa , que houveram os noííbs que 
entravam em algum porto defte Reyno. E 
pofto que a vifta delia enamoraffe a todos , 
não confentio Vaíco da Gama ao Piloto 
que metteíTe os navios dentro como elle 
quizera , por vir já fufpeitofo contra elles y 
e íurgio de fora. Os da Cidade tanto que 
houveram vifta dos navios , mandaram logo 
a elles tm hum barco quatro homens , que 
pareciam dos principaes , fegundo vinham 
bem tratados : chegando a bordo , pergun- 
taram , que gente era , e o que buícavam ? 
Ao que Vaíco da Gama mandou reípon- 
der , dizendo quem eram , e o caminho que 
faziam , e a neceífidade que tinham de al- 
guns mantimentos. Os Mouros , depois que 
moftráram em palavras o prazer que ti- 
nham , e teria EIRey de Mombaça de íua 
chegada , e fazerem oífertas de todo o ne- 
ceflario pêra fua viagem , efpedíram-fe dei- 
le , os quaes não tardaram muito com 
refpofta , dizendo ; que elles foram notific 

a El- 



Década L Liv. IV- Cap. V. 309 

a EIRey quem eram , de que recebeo mui- 
to prazer com fua vinda ; e que quanto ás 
coufas , que haviam mifter , de boa vonta- 
de lhas mandaria dar, e affi carga de efpe- 
ciaria pola muita que tinha. Porém convi- 
nha pêra eftas coufas lhe ferem dadas , en- 
trarem dentro no porto , como era coííume 
das náos , que aili chegavam por Ordenan- 
ça da Cidade , quando alguma coufa que- 
riam delia ; e os que o não faziam , eram 
havidos por gente fufpeitofa , e de máo tra- 
to , como alguns que havia per aquclla cof- 
ta. Aos quaes muitas vezes os feus com 
mão armada vinham lançar dalli , o que po- 
diam também fazer a elles , não entrando 
pêra dentro ; que lhes mandava efte avifo 
como a gente eftrangeira , que efcolheíTem 
ou entrar no porto pêra lhes fer dado o 
que pediam , ou pafíaíTem avantò. Vafco da 
Gama por fegurar a fufpeita que fe delle 
podia ter , acceptou a entrada pêra dentro 
ao feguinte dia ; e pedio áquelles , que tra- 
ziam efte recado , que quando foífe tempo 
lhe mandaífem algum Piloto pêra o met- 
terem dentro. E pofto que fe teve muito 
refguardo que o Piloto de Moçambique -não 
fallaffe á parte com elles , fenao per ante 
Fernão Martins lingua 5 per qualquer modo 
que foi , elle lhe diífe o que tinha paliado 
com osnoffos, a qual nova os Mouros diC» 



310 ASIÀ de João de Barros 

íimuláram ; e como gente contente do ga- 
zalhado , que lhe Vafco da Gama mandou 
fazer , e dadivas que receberam ? fe efpedí- 
ram delle. Ao feguinte dia tornando hum 
batel a bordo com alguns Mouros honra- 
dos em modo de o vifitar , mandou com 
clles dous homens 3 que levaflcm hum pre- 
fente a EIRey , defculpando-fe de não po- 
der entrar aquelles dous dias , porque acer- 
ca dos Chriftãos eram folemnes , em que 
não faziam obra alguma por ferem da lua 
Palcoa ; mas a tenção fua era mandar per 
eítes homens efpiar o eílado da Cidade , e 
povo delia , e que navios havia dentro. Os 
Mouros ou que entenderam o artificio , ou 
porque fempre ufam de cautelas ? poíto que 
levaram os homens , moílrando contenta- 
mento de o fazer , fempre foram trazidos 
per mão , e de paliada notaram fomente o 
que fe lhes oífereceo a viíla , que tudo foi 
a multidão do povo que concorreo poios 
ver , e a nobreza dos Paços delRey , e a 
maneira de como os recebeo. Vafco da 
Gama paliados dous dias , por não dar má 
fufpeita de íi , quando veio ao terceiro , em 
que affentou fua entrada , vieram da Cida- 
de muitos barcos com gente veílida de fef- 
ta , e tangeres ; moílrando que pelo honrar ; 
vinham naquelle aâo de prazer repartindo- , : 
fe pelos navios. E porque entre Vafco da 

Ga- 



Década I. Liv. IV. Cap. V. 311 

Gama , e os outros Capitães eftava affenta- 
do , que não confentiffem entrar em os na- 
vios mais que dez , ou doze peflbas , com- 
mettendo elles efta entrada , foram á mão 
aos muitos , dizendo , que pejavam a ma- 
reagem , que depois na Cidade tempo lhes 
ficava pêra os verem. No qual tempo fei- 
to hum final, mandou Vafco da Gama des- 
ferir a vela com grande prazer de todos : 
dos Mouros , parecendo-lhe levar a preza 
que defejavam ; e dos noflbs , cuidando que 
em achar tão luzida gente , e as novas , que 
lhe davam da índia , tinham acabado o fim 
de feus trabalhos: eftando elles áquelia ho- 
ra em perigo de perderem as vidas , feguiir 
do a tenção com que eram levados. Mas 
Deos , em cujo poder eílava a guarda delles 
nefte caminho tanto de feu ferviço , não per- 
mittio que a vontade dos Mouros foífe pof- 
ta em obra , porque quafi milagrofamente 
os livrou , defcubrindo fuás tenções per e£- 
te modo. Não querendo o navio de Vafco 
da Gama fazer cabeça por a vela tomar 
vento , começou de ir deícahindo fobre hum 
baixo 'j e vendo elle o perigo , a grandes 
brados mandou foltar huma ancora. E co-* 
mo iílo , fegundo coftume dos mareantes 
nos taes tempos , não fe pode fazer íèm per 
todo o navio correr de huma parte a outra 
aos ap parelhos , tanto que os Mouros , que 

et 



312 ASIÀ de JoXo de Bakr os 

citavam per os outros navios , viram cfla 
revolta , parecendo-Ihes que a traição que 
elles levavam no peito era defeuberta , to- 
dos huns per íima dos "outros lançáram-fe 
aos barcos. Os que eftavam em o navio de 
Vafco da Gama , vendo o que eíles faziam , 
fizeram outro tanto : até o Piloto de Mo- 
çambique , que fe lançou dos caftellos de po- 
pa ao mar , tamanho foi o temor em todos. 
Quando Vafco da Gama, c os outros Ca- 
pitães viram tão fubita novidade , abrio-lhes 
Deos o juizo pêra entende r em a caufa del- 
ia ; e fem mais demora adernaram logo de 
fe partir ao longo daquella coita por terem 
já íabido fer mui povoada , e que podiam 
achar per ella navios de Mouros , de que 
houveífem algum Piloto. Os Mouros , por- 
que entenderam o que elles haviam de fa- 
zer, logo aquella noite vieram a remo far- 
do pêra cortar as amarras dos navios ; mas 
não houve effeíto fua maldade por ferem 
fentidos. Partido Vafco da Gama daquelíe 
lugar de perigo , ao feguinte dia achou dous 
zambucos , que vinham pêra aquella Cida- 
de , de que tomaram hum com treze Mou- 
ros , porque os mais fe lançaram ao mar, 
e delles foube como adiante eítava huma 
Villa chamada Melinde , cujo Rcy era ho- 
mem humano , per meio do qual podia ha- 
ver Piloto pêra a índia. Vendo elle que 

per-j 



Deg. L Liv. IV. Ca?. V. e VI. 313 

perguntado cada hum deíles á parte , rodos 
concorriam na bondade delRey de Melin- 
de , e que no feu porto ficavam três , ou 
quatro navios de mercadores da índia , per 
a pilotagem deíles feguio a coíla , com ten- 
ção de chegar a Melinde pêra haver hum 
Piloto , pois em todos aquelles treze Mou- 
ros não havia algum que fe atreve fle de o 
levar á índia ; porque fe o achara , fem 
mais experimentar os Mouros daquella coi- 
ta , rota batida houvera de atravefíar a ou- 
tra da índia , que fegundo lhe elles diziam y 
podia fer dalli té fetecentas léguas per fua 
conta. 

CAPITULO VI. 

Como Vafco da Gama chegou d Villa de 

Melinde , onde àjjentou paz com o Rey 

delia , e poz hum Padrão \ e havido 

Piloto , fe par tio pêra a índia , 

aonde chegou. 

SEguindo Vafco da Gama feu caminho 
com eíla preza de Mouros , ao outro 
dia , que era de Pafcoa da Refurreiçao , indo 
com todolos navios embandeirados , e acom- 
panha delles com grandes folias por fole- 
mnidade da fefta , chegou a Melinde , on- 
de logo per hum degredado em companhia 
de hum dos Mouros mandou dizer a El- 
Rey quem era , e o caminho que fazia , e 

a ne- 



314 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

a neceffídade que tinha de Piloto , e que ef- 
ta fora a cauía de tomar aquelles homens , 
pedindo que lhe mandafle dar hum. EIRey 
íiavido efte recado , pofto que ao nome 
Chriftão tiveífe aquelle natural ódio 5 que 
lhe tem todolos Mouros , como era homem 
bem inclinado , e fezudo , fabendo per efte 
Mouro o modo de como os noftbs fe hou- 
veram com elles , e que lhe pareciam ho- 
mens de grande animo no feito da guerra , 
e na converfação brandos , e caridofos , íe- 
gundo o bom tratamento que lhe fizeram 
depois de os tomarem , não querendo per- 
der amizade de tal gente com más obras , 
como perderam os outros Príncipes per cu- 
jos portos paliaram , aíTentou de levar ou- 
tro modo com elles , em quanto não viíTe 
final contrario do que lhe efte Mouro con- 
tava. E logo per elle , e pelo degredado 
mandou dous homens ao Capitão , moftran- 
do em palavras o contentamento que tinha 
de fua vinda ; que defeançafle , porque Pi- 
lotos , e amizade tudo acharia naquelle feu 
porto ; e que em final de feguridade lhe 
mandava aquelle annel d'ouro ; e lhe pedia 
houvefle por bem defahir em terra pêra fe 
ver com elle. Ao que Vafco da Gama rê- 
ipondeo conforme á vontade delRey ; pê- 
ro quanto ao fahir em terra a fe ver comi 
(elle ao prefente não o podia fazer por El- 

Re/ : 



Década I. Liv. IV. Cap. VI. 315" 

Uey feu Senhor lho defender , té levar feu 
recado a ElRey de Calecut, e a outros Prín- 
cipes da índia. Que pêra elles ambos aíTen^ 
tarem paz , e amizade , por fer a coufa que 
lhe ElRey feu Senhor mais encommenda- 
va , nenhum outro modo lhe parecia me- 
lhor , por não fahir do feu regimento , que 
ir elle em feus bateis té junto da praia , e 
fua Real Senhoria metter-fe naquelíes zam- 
buços y com que ambos fe podiam ver no 
mar ; porque pêra elle ganhar por amigo 
tao poderoíò Príncipe , como era ElRey de 
Portugal , cujo Capitão elle era 5 maiores 
coufas devia fazer. Efpedidos eíles dous 
Mouros contentes do que íheVafco da Ga- 
ma diífe , e deo , com algumas peças , que 
também levaram pêra ElRey , aíli aprovei-* 
tou ante elle o recado , e prefente , que 
concedeo nas viftas da maneira que Valco 
da Gama pedia , a qual facilidade os nof- 
fos atribuíram mais a obra de Deos que a 
outra coufa ; porque fegundo achavam os 
Mouros d 5 aquellas partes ciofos de fuás ter- 
ras , não podiam dar outra caufa y pois hum 
Rey , fem ter delles mais noticia , que a que 
lhe dera o Mouro , e fem alguma neceíli- 
dade , fe vinha metter no mar tão confiada^ 
mente. E praticando todos fobre efte cafo , 
e do modo que teriam neílas viílas 3 aííen^ 
tou Vafco da Gama que feu irmão , e Ni^ 



3iô ÁSIA de João de Barros 

coláo Coelho ficaflem em os navios a bom 
recado , e tanto a pique , que pudeíTem acu- 
dir a qualquer neceílidade ; e elle com to- 
dolos oateis , e a mais limpa gente da fro- 
ta veítidos de feíla per fora , e armas fecrc- 
tas , com grande aparato de bandeiras , e 
toldo no batel , foiTe ao lugar das viítas ; 
a qual ordem fe teve , quando veio ao dia 
delias , partindo Vafco da Gama dos navios 
com grande eftrondo de trombetas , o que 
tudo refpondia com as vozes de gente , ani- 
mando-fe huns aos outros em prazer da- 
quella feita ; porque como era na terceira 
odiava da Pafcoa , tempo em que elles cá no 
Reyno eram coítumados a feitas , e prazer , 
parecia-lhes que eftavam entre os feus. Vaf- 
co da Gama indo aíTi neíte aóto , a meio 
caminho mandou fufpendcr o remo , por 
EIRey não fcr ainda recolhido ao feu zam- 
buco , o qual vinha ao longo da praia met- 
tido em hum efparavel de leda com as cor- 
tinas da parte do mar alevantadas , e elle 
lançado em hum andor fobre os hombros 
de quatro homens , cercado de muita gen- 
te nobre , e a do povo diante , e detrás 
bem affaílada pêra darem viíta aos noíTòs , 
todos com grande aparato de feita , e tan- 
geres a feu modo. Entrado EIRey no zam- 
buco com algumas peífoas principaes , e me- 
neareis que tangiam y toda a mais gente que 



Década I. Lrv. IV. Cap. VI. 317 

podia fe embarcou per outros barcos , cer- 
cando EIRey per todalas partes ; fomente 
leixáram huma aberta , que tinha a vifta pê- 
ra os noflbs , em modo de cortezia. E o 
primeiro final de paz , que lhe Vafco da 
Gama mandou fazer , calando- fe os inftru- 
mentos de feita , foi mandar tirar os da 
guerra , que eram alguns berços efpingar- 
das , e no fim delles huma grande grita , ao 
que refpondêram os noífos navios com ou- 
tra tal obra té tirarem as camarás da arti- 
lheria j a qual trovoada como era coufa no- 
va nas orelhas daquella gente , foi pêra el- 
les tão grande efpanto , que houve entre 
todos rumor de fe acolher a terra. Peró fcnr 
tindo Vafco da Gama a torvação delles, 
mandou fazer íinal com que ceifou aquelie 
tom , que os affombrava , e de li chegou- 
fe ao zambuco delRey , o qual o recebeo 
como homem , em cujo peito não havia má 
tenção ; e em toda a prática que ambos ti- 
veram , que durou hum bom pedaço , tudo 
foi com tanta fegurança d'ambalas partes, 
como fe entre elles houvera conhecimento 
de mais dias. E deita prática , e modo , que 
Vafco da Gama teve com EIRey, ficou el- 
le tão feguro , e contente de fua amizade , 
que logo quiz ir ver os noífos navios ro- 
deando a todos ; e por honra de fua ida 
lhe mandou Vafco da Gama entregar todo- 

los 



318 ÁSIA de João de Barros 

los Mouros , que tomou no zambuco , os 
quaes guardou pêra dar naquelle dia das 
viftas. O que EIRey muito eítimou , c mui- 
to mais dizer-lhe Vafco da Gama como EI- 
Rey feu Senhor tinha tanta artilheria , e tan- 
tas maiores náos que aquellas , que pode- 
riam cubrir os mares da índia , com as 
quaes o poderia ajudar contra feus imigos , 
porque fazia EIRey conta que .a pouco cuí- 
to per aquella via tinha ganhado hum Rey 
poderofo pêra fuás necefíidades. Efpedido 
Vafco da Gama delle, depois que o leixou 
defembarcado , tornou-fc aos navios , e os 
dias que alli efteve fempre foi vifitado del- 
le com muitos refrefcos , que deo caufa a 
fer também vifitado de huns Mouros , que 
alli citavam do Reyno de Cambaia em as 
náos , que lhe tinham dito os Mouros que 
tomou no zambuco. Entre os quaes vieram 
certos homens , a que chamam Baneanes 
do mefmo Gentio do Reyno de Cambaia : 
gente tão religiofa na fedia de Pythagoras , 
que até aimmundicia que criam cm fi não 
matão , nem comem coufa viva , dos quaes 
copiofamente tratámos em a noíía Geogra- 
fia. Eíles entrando em o navio de Vafco da 
Gama , e vendo na fua camará huma ima- 
gem de NoiTa Senhora em hum retavolo 
de pincel , e que os noífos lhe faziam re- 
verencia > fizeram elles adoração com mui- 
to 



Década I. Liv. IV- Cap. VI. 319 

to maior acatamento ; e como gente que íe 
deleitava na viíta daquella imagem , logo 
ao outro dia tornaram a elia , offerecendo- 
lhe cravo , pimenta , e outras moftras de 
efpeciarias das que vieram alli vender , e fe 
foram contentes dos noííòs pelo gazalhado 
que receberam , e maneira de fua adoração : 
também elies ficaram fatisfeitos do feu mo- 
do , parecendo-lhes fer aquella gente mof- 
tra de alguma Chriítandade , que haveria na 
índia do tempo de S. Thomé , entre os 
quaes vinha hum Mouro Guzarate de na- 
ção chamado Malemo Cana , o qual aíli 
pelo contentamento que teve da converfa- 
ção dos noflbs , como pòr comprazer a El- 
Rey , que bufcava Piloto pêra lhe dar, ac- 
ceptou querer ir com elles. Do faber do 
qual Vaíco da Gama , depois que praticou 
com elle , ficou muito contente , principal- 
mente quando lhe moítrou huma carta de 
toda a coita da índia arrumada ao modo 
dos Mouros , que era em meridianos , e 
parallelos mui miúdos fem outro rumo dos 
ventos ; porque como o quadrado daqueí- 
les meridianos , e parallelos era mui peque- 
no , ficava a coita per aquelles dous rumos 
de Norte Sul , e Leite Oeíie mui certa, 
fem ter aquella multiplicação de ventos, 
d 5 agulha commum da noíía Carta , que fer- 
ve de raiz das outras, E amoíírando-lhe 

Vaf- 



320 ÁSIA de João de Barros 

Vafco da Gama o grande Aílrolabio de páo 
que levava ? e outros de metal , com que 
tomava a altura do Sol , náo fe efpantou 
o Mouro dilfo , dizendo , que alguns Pilo- 
tos do mar Roxo uíavam de inílrumentos 
de latão de figura triangular , e quadrantes 7 
com que tomavam a altura do Sol , e prin- 
cipalmente da eílrella , de que fe mais fer- 
viam em a navegação. Más que elle , e os 
mareantes de Cambaia , e de toda a índia y 
peró que a fua navegação era per certas 
eftrellas , affi do Norte , como do Sul , e 
outras notáveis , que curfavam per meio do 
Ceo de Oriente a Ponente , não tomavam 
a fua diílancia per 'inílrumentos femelhantes 
áquelles , mas per outro de que fe elle fer- 
via , o qual inítrumcnto lhe trouxe logo a 
moílrar, que era de três taboas. E porque 
da figura , e ufo delias tratamos em a nof- 
fa Geografia em o Capitulo dos inílrumen- 
tos da navegação , baile aqui faber que fer- 
vem a elles naquella operação , que ora 
acerca de nós ferve o inílrumento , a que os 
mareantes chamam balheílilha , de que tam- 
bém no Capitulo que diííemos fe dará ra- j 
zao delle , e dos feus inventores. Vafco da j 
Gama com eíla , e outras práticas , que per 
vezes teve com efle Piloto , parecia-lhe ter 
nelle hum grão thefouro , e por o não per- 1 
der > o mais em breve que pode , depois que 

met- 



Década I. Liv. IV. Cap. VI. 321 

metteo per confentimento deiRey hum Pa- 
drão per nome Sanfto Efpirito na povoa- 
ção , dizendo fer em teftemunho da paz , e 
amizade , que com elle afíentára , fe fez á 
vela caminho da índia a vinte e quatro dias 
de Abril. E atraveflando aquelle grande 
golfo de fetecentas léguas que ha de huma 
á outra cofta , per efpaço de vinte dous dias , 
fem achar coufa que o impediííe , a primei- 
ra terra que tomou foi abaixo da Cidade 
Calecut , obra de duas léguas ; e daqui per 
pefcadores da terra , que logo acudiram 
aos navios , foi levado a ella. A qual co- 
mo era o termo de fua navegação , e na 
inílrucçao que levava nenhuma outra coufa 
lhe era mais encommendada , e pêra o Rey 
delia nomeadamente levava cartas , e em- 
baixada 5 como ao mais poderofo Príncipe 
daquellas partes , e Senhor de todalas es- 
peciarias , fegundo a noticia que naquelle 
tempo neííe Reyno de Portugal tínhamos 
delle , pareceo aos noífos , vendo-fe diante 
delia , que tinham acabado o fim de feus 
trabalhos. E poílo que adiante particular- 
mente defcrevemos o íitio defta Cidade Ca- 
lecut, e da região Malavar em que ella ef- 
tá , a qual região he huma parte da Provín- 
cia da índia ò aqui , por fer a primeira en- 
trada em que os noífos tomaram poíTe def- 
íe defcubrknento per tantos annos continua- 
is/. I. X do, 



322 ÁSIA de JoXo de Barros 

do , e requerido , faremos huma univerfal 
relação da Província da índia pêra melhor 
entendimento deita chegada de Vafco da 
Gama. 

CAPITULO VII. 

Em que fe ãefcreve o fitio da terra , 
a que propriamente chamamos Índia den- 
tro do Gange , na qual fe contém a Pro- 
vinda chamada Malavar , hum dos Rey- 
nos da qual he o em que ejld a Cidade 
Calecut , onde Vafco da Gama aportou. 

A Região , a que os Geógrafos propria- 
mente chamam índia, he a terra que 
jaz entre os dous illuftres , e celebrados rios 
Indo , e Gange , do qual Indo ella tomou 
o nome ; e os povos do antiquiílimo Rey- 
no Delij , cabeça per fitio , e poder de to- 
da eíta região , e aífi a gente Parfea a ella 
vizinha , ao prefente per nome próprio lhe 
chamam Indoílan. E fegundo a diliniação 
da Taboa , que Ptholomeu faz delia , e mais 
verdadeiramente pela noticia que ora com 
o noífo defcubrimento temos , per excel- 
lencia bem lhe podemos chamar agrãoMe- 
fopotamia. Porque fe os Gregos deram ef-l 
te nome , que quer dizer , entre os rios ,i 
áquella pequena parte da região Babyloni- 
ca , que abraçam os dous rios Eufrates > 
Tigres ; aílí pela fituação deíla entre as cor- 

ren- 



Década í. Liv. IV. Cap. VIL 323 

rentes^ dos notáveis Indo , e Gange , que 
deícarregam , e vafam fuás aguas cm o 
grande Oceano Oriental , por fazermos dif- 
ferença delia mais notável do que fe faz 
em. dizer índia dentro do Gange , e índia 
além do Gange , bem lhe podemos cha- 
mar a grão Mefopotamia , ou Indoftan , que 
lie o próprio nome que lhe dão os povos 
que a habitam , e vizinham , por nos con- 
formarmos com elles. A qual região as cor- 
rentes deites dous rios per huma parte , e 
o grande Oceano Indico per outra, a cer- 
cão de maneira, que quaíi fica humaCher- 
fonezo entre terras de figura de lijonja , a 
que os Geómetras chamam rhombos , que 
he de iguaes lados , e não de ângulos rc- 
étos. Cujos ângulos oppofítos em maior 
diílancia jazem Norte Sul : o do angulo def- 
ta parte do Sul faz o cabo Comorij , e o 
da parte do Norte as fontes dos mefmos 
rios. As quaes peró que fobre a terra arre- • 
bentem diílincftas em os montes , a que Ptho-* 
lomeú chama Imáo , e os habitadores del- 
les Dalanguer , e Nangracot , são eftes tão 
conjuntos huns aos outros , que quafí que- 
rem efconder as fontes deites dous rios. E 
fegundo fama do gentio Comarcão , parece 
que ambos nafcem de huma vea commum > 
donde nafce a fabula dos dous irmãos que 
anda entre elles, a qual recitamos emanof* 

X ii fa 



324 ÁSIA de João de Barros 

fa Geografia. A diftancia deitas fontes ao 
Cabo Comorij a elles oppofitos íerá pou- 
co mais , ou menos per linha direita qua- 
trocentas léguas ; e os outros dous ângulos , 
que per contraria linha jazem de Levante 
Ponente per diítancia de trezentas léguas , 
fazem as bocas dos meímos rios Indo 
Gange , ambos mui foberbos com as aguas 
do grande numero dos outros que fe nelles 
mettem. E quaíi tanta he a parte da terra 
que elles abraçam , quanta a que per os ou- 
tros dous lados cerca o mar Oceano , que 
ambos fe ajuntam no Cabo Comorij a fa- 
zer aquelle agudo canto que elle tem , com 
que fica a figura da lijonja que diíTemos. E 
pofto que toda efta Província Indoílan feja 
povoada de dous géneros de povo em cren- 
ça , hum Idólatra , e outro Machometa , e 
mui vária em ritos , e coílumes , c todos 
entre íi a tem repartida em muitos Reynos , 
. e eftados ; aílí como em os Reynos do Mol- 
tan , Delij , Cofpetir , Bemgala , em parte , 
Orixá , Mando , Chitor ; Guzarate , 'a que 
commummente chamamos Cambaya. E no 
Reyno Dacani dividido em muitos fenho- 
rios , que tem eftado de Reys com o de Pa- 
le , que jaz entre hum 5 e o outro. E nc 
grande Reyno de Bifhaga, que tem debai- 
xo de íl alguns régulos , com toda a Provín- 
cia do Malabar repartida entre muite 

Reys , 



Década I. Liv. IV. Ca?. VIL 32? 

Reys , e Príncipes de mui pequenos efta- 
dos , em comparação dos outros maiores 
que calamos , parte dos quaes sáo izentos , 
e outros fubditos deftes nomeados. E íè- 
gundo eftes povos entre fi são bellicofos , e 
de pouca fé , já toda. cila grande região fo- 
ra fubdita ao mais poderofo , fe a natureza 
não atalhara a cubica dos homens com gran- 
des , e notáveis rios, montes, lagos, ma- 
tas, e defeitos, habitação cie muitas, e di- 
verfas alimárias , que impedem paliar de 
hum Reyno ao outro. Principalmente al- 
guns notáveis rios , parte dos quaes não 
entrando na madre do Indo , e Gange , mas 
regando as terras , que eíles dous abraçam 
com muitas voltas , vem fahir ao grande 
Oceano; e aíE muitos efteiros d ? agua falga- 
da tão penetrantes á terra , que retalham a 
marítima de maneira que fe navega per den- 
tro. E a mais notável divisão , que a Natu- 
reza poz neíla terra , he huma corda de 
montes , a que os naturaes per nome com- 
rnum , por o não terem próprio , chamam 
Gate , que quer dizer ferra ; os quaes mon- 
tes tendo feu nafeimento na parte do Nor- 
te , vem correndo contra o Sul , aííi como 
a coita do mar vai á vifta delie , leixando 
entre as fuás praias , e o fertão da terra hu- 
ma faixa delia chã , e alagadiça , retalhada 
d'agiia em modo deleziras em algumas par- 
* tes. 



326 ASIÀ de João de Barros 

tes , té irem fenecer no Cabo Comorij , o 
qual curíb de montes fc eítende perto de 
duzentas léguas. Peró começando no rio cha- 
mado Carnate vizinho ao cabo , e monte 
de Lij , mui notável aos navegantes daquel- 
la coita , em altura de doze gráos e meio da 
parte do Norte , entra huma faixa de ter- 
ra , que jaz entre eíte Gate , e o mar , de 
largura de dez té féis léguas , fegundo as 
enleadas , e cotovelos fc encolhem , ou bo- 
jam , a qual faixa de terra fe chama Mala- 
bar 5 que terá de cumprimento obra de oi- 
tenta Jeguas , onde eílá fituada a Cidade 
Calecut. Neíte tempo que Vafco da Gama 
chegou a ella , poíto que geralmente toda 
cita terra Malabar foífe habitada de Gen- 
tios , nos portos do mar viviam alguns Mou- 
ros , mais por razão da mercadoria , e tra- 
to , que por ter algum eítado na terra , por- 
que todolos Reys y e Príncipes delia eram 
do género Gentio , e da linhagem dos Bram- 
manes , gente a mais doíta , e reiigiofa em 
feu modo de crença de todas aquellas par- 
tes. E o mais poderofo Príncipe daquelle 
Malabar era ElPvey de Calecut , o qual 
por excellencia fe chamava Çamorij , que 
acerca delles he como entre nós o titulo de 
Emperador. Cuja metropoli de feu eítado, 
da qual o Reyno tomou o nome , ^ a Ci- 
dade Calecut , lituada em huma coita bra- 
va, 



Década L Liv. IV. Cap. VIL 327 

va, não com grandes, e altos edifícios, fo- 
mente tinha algumas cafas nobres de mer- 
cadores Mouros da terra , e d'outros do 
Cairo , e Meca alli refidentes , por caufa do 
trato da efpeciaria , onde recolhiam íua fa- 
zenda com temor do fogo ; toda a mais 
povoação era de madeira cuberta de hum 
género de folha de palma , a que elles cha- 
mam ola. E como neíla Cidade havia gran- 
de concurfo de varias nações , e o Gentio 
delia mui fuperfdciofo em fe tocar com 
gente fora de feu fangue , principalmente os 
que fe chamavam Brammanes , e Naires ; 
deftes dous géneros de gente , fendo a mais 
nobre da terra , viviam nella mui poucos y 
toda a outra povoação era de Mouros , e 
Gentio mecânico. Pola qual caufa também 
EIRey eílava fora da Cidade em huns pa- 
ços , que feriam delia quafi meia légua , en- 
tre palmares , e a gente nobre apoufentada 
per derredor ao modo que cá temos as quin- 
tas. E porque > (fegundo diíTcmos , ) adiante 
particularmente efcrevemos as coufas deíle 
Reyno Calecut , não procedemos aqui mais 
na relação delias. 



CA- 



328 ÁSIA de J0Â0 de Barros 

CAPITULO VIII. 

Como Vafco da Gama mandou recado a El-* 

Rey de Calecut , que era chegado ao 

porto de fua Cidade : e depois per 

fua licença fe vi o com elle 

duas vezes. 

AO tempo que Vafco da Gama chegou 
a efta Cidade Calecut , que era a vin- 
te de Maio princípio do Inverno naquella 
coita , não havia no porto o grão tráfego , 
e numero de náos , que nelle eítão a carga 
nos mezes de Verão ; porque as eítrangei- 
ras , que alli coftumavam vir, eram torna- 
das a fuás terras , e as do mefmo Reyno 
de Calecut per os rios , e eíleiros citavam 
mettidas em folTas cubertas com folha de 
palma , fegundo coítumam per toda aquel- 
la coita ; e por eíta chegada fer fora do 
tempo da fua navegação , tanto efpanto fez 
aos da terra , como a feição , e mareagem 
dos navios y e lego lhe pareceo gente no- 
va , e não cofrumada navegar aquelles ma- 
res. Vafco da Gama , tantoque ancorou hum 
pouco largo do porto por caufa de hum 
recife em que. o mar quebrava , mandou 
em terra o Mouro Piloto , e hum degre- 
dado , notificando per eiles a EIRey fua 
chegada 3 e o recado que lhe trazia , pe- 

• dii> 



Década L Liv. IV. Cap. VIII. 329 

dindo que lhe mandafle dizer quando ha- 
via por bem que foífe a elle , porque fem 
fua licença não fahiria dos navios. O Mou- 
ro Malemo Cana 3 como quem fabia a ter- 
ra , foi-fe logo aos Paços delRey ; e por- 
que achou nova que era em hum lugar que 
feria dalli íinco léguas , fem tornar aos na- 
vios com recado , íè foi a elle. Vafco da Ga- 
ma por lhe efte Cana ter dito quão peque- 
na diílancia havia da Cidade aos Paços del- 
Rey, vendo que não vinha aquelle dia, e 
que era paliado a maior parte do outro y 
começou tomar má fufpeita delle ; e prin- 
cipalmente porque cie quantos barcos faliiám 
a pefcar , todos fe aíFaílavam dos navios , co- 
mo gente temerofa i ou per qualquer outra 
caufa que foífe. Porém quando veio ao ou- 
tro dia á tarde , tirou toda efla fufpeita 
com a vinda delles , e de hum Piloto do 
Çamorij , per o qual elle lhe fazia faber o 
contentamento que tinha de fua vinda ; e 
que poftos os navios em hum porto fegu- 
ro , onde lhe elle mandava que os levaf- 
fem por caufa do Inverno, depois lhe man- 
daria dizer quando havia por bem que fof- 
fe a elle. Com o qual recado Vafco da Ga- 
ma ficou mui fatisfeito , principalmente na 
mudança dos navios daquell a coíla a lugar 
mais feguro , porque niíío moftrava EIRey 
per obra o que lhe. mandava dizer per pa- 
la- 



330 ÁSIA de João de Barros 

lavra acerca do contentamento que tinha de | 
fua vinda , e que de tal acolhimento do 
primeiro recado que lhe mandava podia ef- 
perar fer bem defpachado. E por moílrar 
maior confiança a eíle Piloto , que lhe El- i 
Rey mandou , dífle , que elíe podia man- 
dar naquelles navios o que quizeíTe , por- 
que todos lhe obedeceriam , e aíli íè fez : 
cá pela ordenança do Piloto fe paíláram a 
hum porto chamado Capocate perto dalli , 
onde Vafco da Gama efteve efperando dous ' 
dias recado delRey , fem da terra virem 
aos navios , nem delles irem a ella. Ante 
que elle vieíTe com os navios a eíle porto , 
o dia que o Piloto delRey lhe trouxefle 
feu recado pêra fe mudar aqui , entre al- 
guns Officiaes da arrecadação dos direitos 
delRey , que vieram com elle , foi hum 
Mouro per nome Monçaide , cujo officio 
era correétor de mercadorias ; o qual por 
fer conhecente do Piloto Malemo Cana, el- 
le o agazalhou em fua cafa , e aííi o de- 
gredado a noite que dormiram em terra. 
Efte Monçaide, (fegundo elle depois con-> 
tou , ) era natural do Reyno de Tunez , e 
tivera já communicaçao com os Pcrtugue- 
zes em a Cidade Ourão , quando alli hiam 
as náos defte Reyno per mandado delRey 
D. João o Segundo bufear lambeis pêra 
o refgate do ouro da Mina } e ou que a 

lem- 



Década L Liv. IV. Cap. VIII. 331 

lembrança deitas partes do Occidente, on- 
de nafcêra , ou qualquer outra boa difpo- 
fição , aíli o demoveram , vendo • e prati- 
cando com os noííos per lingua Caítelha- 
na, que elle fabia, que da hora que entrou 
em os navios afli fe fez familiar a Vafco 
da Gama , que fe veio com elle pêra efte 
Reyno , onde morreo Chriftão. O qual co- 
mo efperava acabar nefte eítado , era tão 
fiel a noíTas coufas , que per meio delle foi 
Vafco da Gama avifado de muitas : e pa- 
rece que Deos o trouxe áquelias partes pê- 
ra proveito noífo 3 íbgundo o que paífou ? 
como veremos. E logo em dous dias ? que 
Vafco da Gama efteve efperando por reca- 
do do Çamorij 5 efte Monçaide o avifou 
de algumas coufas , por razão das quaes el- 
le teve confeiho com os Capitães do mo- 
do que teria em ir ao Çamorij , quando o 
mandafle chamar : e aflentou que feu irmão , 
e Nicolao Coelho ficaffem em os navios , 
dando-lhe regimento do que haviam de fa- 
zer. Vindo o recado do Çamorij que fo£- 
fe, fahio Vafco da Gama com doze peíToas 
em terra , onde o recebeo hum homem no- 
bre 5 a que elles chamam Catual , acompa- 
nhado de duzentos homens a pé delles pê- 
ra levarem o fato dos noífos , e delles que 
ferviam de efpada D e adarga , como guar- 
da de fua peflòa , e outros de o trazer aos 

hom* 



33^ ÁSIA de João de Barros 

hombros em hum andor , porque em toda 
aquella terra Malabar não íe fervem de 
bcftas y hum dos quaes andores foi também 
aprefentado a Vafco da Gama pêra ir ncl- 
]e. Pofto o Catual , e elle em caminho pê- 
ra Calecut , que feria dalli finco léguas ., 
começaram os doze que levava ficar de dous 
em dous ; porque além de o caminho fer 
de arêa , e elles defacoftumados de cami- 
nhar , era tão grande o curfo dos que le- 
vavam o andor , que em todo o caminho 
foi Vafco da Gama fem elles , té á noite 
fe ajuntarem cm hum lugar , onde o Ca- 
tual dormio. Quando veio ao outro dia ? 
que tornaram caminhar 5 chegaram a hum 
grande templo do Gentio da terra , mui bem 
lavrado de cantaria com hum coruchéo cu- 
berto de tijolo, aporta do qual eftava hum 
Padrão grande de latão , e em fima por re- 
mate hum gálio. E dentro no corpo do 
templo eftava hum portal , cujas portas eram 
de metal , perque entravam a huma efcada 
que fubia ao coruchéo ; ao pé do qual , on- 
de ficava o redondo delle em modo decha- 
rola , eftavam algumas imagens da fiia ado- 
ração. Os noíTos como hiarn crentes fer 
aquella gente dos convertidos pelo Apofto- 
lo S. Thomé , fegundo a fama que cá ne£ 
tas partes havia , e elles achavam per dito 
dos Mouros , alguns fe affentárain em gio- 

lhos 



Década í. Liv. IV. Cap. VIII. 333 

lhos a fazer oração áquellas imagens , cui- 
dando ferem dignas de adoração. Do qual 
adio o Gentio da terra houve muito pra- 
zer , parecendo-lhe fermos dados ao culto 
de adorar imagens , o que elles não viam 
fazer aos Mouros. Partidos defte templo, 
chegaram a outro junto de huma povoa- 
ção , onde eftava apoufentado outro Catual , 
peíToa mais notável , que vinha per manda- 
do do Çamorij receber Vafco da Gama. O 
qual quando fahio a elle era com muita 
gente de guerra , todos adargados a feu mo- 
do : tão poftos em ordem com feus inftru- 
mentos de tanger pêra os animar, que fol- 
garam os noflbs em os ver naqueila orde- 
nança , e mais fendo feita por honra de fua 
vinda. Chegado o Catual a Vafco da Ga- 
ma , depois que fegundo feu ufo o recebeo 
com muita cortezia , mandoiv-lhe dar outro 
andor que trazia adeílro , melhor concertado 
que aqueile em que vinha - y e fem fazer mais 
detença , feguíram feu caminho aos Paços 
delRey , onde Vafco da Gama efperou po- 
ios feus , que não podiam aturar o curfo 
daquelles que levavam o andor; e o maior 
damno que recebiam era do grande povo , 
que quaíi os levava afogados poios ver. E 
ainda febre iílb á entrada de hum grande 
terreiro cercado era tanta preza por entra- 
rem na volta delles > que veio o negocio ás 

pu- 



334 ÁSIA de JoÁo de Barros 

punhadas > e dahi ao ferro , em que houve 
feridos , e hum morto, primeiro que os Of- 
ficiaes delRey apagaífem o arroido ; e po- 
rém fempre tiveram tanto refguardo em as 
peííbas dos noflbs , que em toda a revolta 
não lhe foi feito algum defacatamento. Paf- 
fado aquelle terreiro , entraram em hum pa- 
teo de alpenderes , onde acharam Vafco da 
Gama , e o Catual com alguma gente mais 
limpa eíperando por elles ; e fem tomar al- 
gum repouíò daquella aífronta em que vi- 
nham , entraram todos em huma grão cafa 
térrea , em que eítava aquelle grande Ça- 
morij da Província Malabar perelies tão de- 
fejado de ver. De junto do qual fe alevan- 
tou hum homem de grande idade , que era 
o feu Brammane maior , veítido de humas ves- 
tiduras brancas , repreíentando nellas , e em 
fua idade , e continência fer homem religio- 
fo ; e chegado ao meio da cafa , tomou 
Vafco da Gama pela mão , e o foi aprefen- 
tar ao Çamorij , o qual eftava no cabo da 
cafa lançado em huma camilha cuberta de 
pannos de feda , poílo em hum leito , a que 
elles chamam catle, eelle veftido com hum 
panno d'algodão burnido com algumas ro- 
fas d 5 ouro batido femeadas per elle , e na 
cabeça huma carapuça de brocado alta á ma- 
neira de mitra cerrada , cheia de perlas , e 
pedraria , e per os braços > e pernas , que 

eP 



Década I. Liv. IV. Cap. . VIII. 33? 

eílavam defcubertos , tinha braceletes (Tou- 
ro , e pedraria. E a huma ilharga defte lei- 
to , em que jazia com a cabeça pòfía fobre 
huma almofada de feda rafa com lavores 
d'ouro á maneira de broífado , eftava hum 
homem , que parecia em trajo 5 e officio dos 
mais principaes da terra , o qual tinha na 
mão hum prato d'ouro com folhas de be- 
telle , que elles ufam remoer por lhes con- 
fortar o eftomago. O Çamorij , pofto que 110 
ar do roftro recebeo Vafco da Gama com 
graça , tinha tamanha mageílade , e affi ef- 
tava grave naquelle feu catle , que não fez 
mais movimento para elle quando lhe fal- 
lou , que levantar a cabeça d'almofada , e 
de íl acenou ao Brammane > que o fizeíle 
aífentar em huns degráos do eftrado ? em 
que tinha o catle , e aos de fua companhia 
em outra parte hum pedaço affaftados , por 
ver que haviam miíler tomar algum repou- 
fo , fegundo vinham affrontados do cami- 
nho. E depois que per hum efpaço grande 
eíleve notando as peífoas , trajos , e aélos 
delles , e praticando em palavras geraeà com 
Vafco da Gama, recebidas delle duas car- 
tas , que lhe mandava EIRey D. Manuel 7 
huma efcrita em Aravigo , e outra em lín- 
gua Portuguez > que era da mefma íubftan- 
cia , diíTe-lhe , que elle as veria , e depois 
mais de vagar ouviria a elle > que por en- 
tão 



33^ ÁSIA de João de Barros 

tão fe foíTe a repoufar. Que quanto ao fcu 
gazaihado viífe com quem queria que fof- 
íe , fe com Mouros j ou com os naturaes 
da terra , pois alli não havia gente da fua 
nação , fegundo tinha fabido. Ao que Vaf- 
co da Gama refpondeo , que entre os Mou- 
ros , e Chriftãos havia differença acerca da 
lei que tinham ; e outras paixões particula- 
res ; e que com os íeus vaíTallos por elle y 
e os de fua companhia liao faberem feus 
coftumes , e temiam de os poder enojar, 
pedia a Sua Real Senhoria que os mandaí- 
fe apoufentar fem companhia alguma. O 
que approuve ao Çamorij ? mandando ao 
Catual que o contentafle 5 e louvou Vafco 
da Gama de homem prudente , e cautelofo 
nas coufas da paz , fegundo o Mouro Mon- 
çaide lhe veio contando pelo caminho te 
chegarem á Cidade Calecut já bem noite. 
E entre algumas coufas que o Catual fez , 
de que Vafco da Gama teve delle boa ef- 
perança pêra feus negócios , foi mandar a | 
efte Monçaide que fe não apartaífe delle 
pêra poder requerer o que houveífe mifter , 
vendo que lhe era accepto por fe entender | 
em alguma maneira còm elle j o que Mon- •' 
çaide acceptou de boa vontade , e quafi cl- 
4e fe oíFereceo a iflb. Parece que o chama- j 
vaDeos por alguma boa difpoíição que ne!- : 
le havia pêra fe falvar, fegundo logo mos- 
trou 



Década L Liv. IV. Cap. VIII. 33? 

trou na verdade que tratava , e fieis confe- 
lhos que deo , hum dos quaes foi cfte. Que- 
rendo Vafco da Gama ao feguinte dia ir 
ao Çamorij a lhe dar a embaixada que le- 
vava , o Catual o entreteve , dizendo , que 
os Embaixadores , que vinham ao Çamorij , 
e a todolos Principes daquellas partes da ín- 
dia , tinham per coftume não irem ante o 
Principe , fenão quando elíe os mandava 
chamar , e mais que primeiro repoufavam 
alguns dias. No qual cafo aconíelhou Mon- 
paide, pêra efta ida fermais preftes, dizen- 
do , que o mais certo coftume dos Princi- 
pes daquellas partes era não ouvirem al- 
guém , fem lhe primeiro levar alguma cou- 
£a; e quanto o Embaixador era mais eftra- 
nho , tanto maior prefente efperavam ; e que 
deíle não ter ifto feito , EIRey o não ouvio 
logo : por tanto fe queria fer bem aviado , 
começaffe deufar do coftume da terra, por- 
que ante o Rey não pode ir alguém com 
as mãos vafias. E também os feus Officiaes , 
per cuja mão os negócios cornam , convi- 
nha per efte modo ferem contentes : cá d'ou~ 
tra maneira feria tarde ouvido , e fobre if- 
fo mal defpachado. Vafco da Gama , pofto 
que não lhe efquecia fer efta a entrada , e 
fahida 5 com que fe acabam os negócios em 
toda parte , não lhe pareceo que tardava 
em hum dia j mas fabendo per Monçaids 
Tom. I. Y quan- 



338 AwSIÀ de João de Barros 

quanto lhe importava, mandou Jogo a El- 
Rey algumas coufas , as quaes foram com 
cite recado de defculpa ; que quando par- 
tira de Portugal , por não ter certo que 
podia paíícir á índia , e ver fua Real Pef- 
iba, não fora apercebido como devia; que 
aquelias coufas eram das que trazia pêra 
fcu ufo , que lhas enviava , não tanto por 
fua valia , quanto por moílra das que ha- 
via em Portugal ; e ainda aquelias efcapá- 
ram da humidade do mar por haver mui- 
to tempo que andava nelie. Tanto que o 
Çamorij teve efte prefente , e os feus Of- 
ficiaes foram fatisfeitos , fegundo o confe- 
lho de Monçaide , foi Vafco da Gama le- 
vado ante eíle , ao qual recebeo já com 
mais honra em outra cafa , e mandando-o 
aífcntar , lhe diífe ; que elle tinha viílo hu- 
ma das cartas , que lhe dera efcrita em 
Aravigo , e nella lê continha a boa vonta- 
de, eamor, queElRey de Portugal feu Se- 
nhor lhe moílrava ter , e aífi enviallo a el- . 
le pêra algumas coufas , que faziam a 
bem de paz , e commercio d'antre ambos > . 
que lhe elle diria , por tanto podia fallar 1 
inflo. Vafco da Gama havida eíta licença , 
como já eftava amoedado per Monçaide do , 
ufo daquelles Príncipes , que he ferem mui , 
taxados em ouvir , e refponder , e terem as j 
orelhas mais promptas no feu proveito > que 

na : 



Década I. Liv. IV. Cap. VIII. 339 

na eloquência da embaixada , e mais quan- 
do he relatada per terceiro , os quaes in- 
terpretes geralmente dizem a fubftancia da 
caufa , e não as vivas razões delia 5 por fe 
conformar com o modo da terra neíías pa- 
lavras , refumio o que lhe era mandado: 
Que a caufa principal 3 que movera a El- 
Rey leu Senhor enviallo áquellas partes 
Orientaes tão remotas do feu eftado , fora 
fer ante elle mui celebrada a fama da Real 
P-eíToa delle Çamorij , e da grandeza do feu 
fenhorio , e eílarem em feu poder a maior 
parte das efpeciarias , que per mãos dos 
Mouros fe navegavam pêra as partes da 
Chriftandade : E porque elle tinha defcu- 
berto per feus Capitães novo caminho pêra 
entre elles haver amor , preílança , e com- 
xmmicação decommercio, com que oRey- 
no delle Çamorij foííe mais rico por caufa 
do muito ouro , prata , fedas , e outra mui- 
ta forte de preciofas mercadorias , de que 
o feu Reyno de Portugal era tão abadado y 
quanto o de Calecut de pimenta , elle Se- 
nhor Rey o enviava com aquelles três na- 
vios a lhe notificar eíla lua tenção ; e fen- 
do-lhe accepta , armaria mui groíías náos 
carregadas deíla fazenda ; e a ordem , e 
modo do commercio , e preço das coufas fe- 
ria aquelle que foííe em proveito d ? ambos„ 
O Çamorij a eílas palavras relpondeo com 
Y ii ou- 



34o ÁSIA de João de Barros ■ 

outras muito mais breves , em que moílrou 
ter contentamento da caulà da vinda delle 
Vafco da Gama , e acabou dizendo , que 
elle o delpacliaria mui cedo , e com iíto o ef- 
pedio. 

CAPITULO IX. 

Da confulta \ que os principaes Mouros de 
- Calecut tiveram fobre a ida de Vafco da 
Gama ãquellas partes : e como o Ca- 
morij por caufa delles o efpedio. 

OS Mouros , afli naturaes da terra , como 
alguns eftrangeiros , que citavam na- 
quella Cidade Calecut por razão do trato da 
efpeciaria , (do qual negocio elles eram fe- 
nhores , navegandc-a per o mar Roxo , ) 
quando viram que a embaixada de Vafco 
da Gama era a fim do commercio deitas 
cfpeciarias , ficaram mui triíles , principal- j 
mente fabendo o contentamento que o Ça- 
morij tinha de hum Rcy de tão longe ter- 
ra , como era o Ponente , lhe enviar embai- 
xada , e que louvava os noíTos , dizendo , 
que lhe parecia gente de boa razão , e que 
feria proveitofa vindo áqueíie feu Reyno , 
pois eram fenhores de tantas mercadorias , 
como diziam. Sobre o qual calo os princi- 
paes aqueifto mais tocava, tiveram conful- 
ta; e entre muitas razões, que foram trazi-í 
das do grande dainno > que todos receberiam , 

fe 



Década I. Liv. IV. Cap. IX, ->ai 



0^- 



fe entraíTcmos na índia , foi o que contou 
hum delles , dizendo , que o anno paííado 
fobre duas náos de Meca que tardavam, 
em que lhe vinha fazenda, fizera pergunta 
a algumas peííbas , que ufam do officio de 
Aftrologia , e d'outras artes , que daqui de- 
pendem : huma das quaes peííbas , que elle 
daria por teftemunha , como aétor da obra y 
em hum vaio d 9 agua lhe moílrára as náos 
perdidas 5 e mais outras á vela , que dizia 
partirem de mui longe pêra vir á índia , 
que a gente delias feria total deílruiçao dos 
Mouros daquellas partes. E porque em ver- 
dade ellas eram perdidas , como todos fa- 
biam , pois a todos tocara efta perda , po- 
dia-fe tomar fufpeita do mais na vinda 3a- 
quelles navios aí li chegados , pois a gente 
delles era Chriftã , capital imiga de Mou- 
ros. Finalmente com efta hiftoria , ora foí- 
íè fingida pêra induzir os outros , (poíto que 
fem ella eiles eftavam bem movidos contra 
os noífos , ) ora que o Demónio lhe quiz re- 
prefentar aquelle feu futuro mal • a conclu- 
são da coníiilta acabou, que buícaffem to- 
dolos modos poíliveis pêra fumir os noífos 
navios no fundo do mar ; e que as peífoas 
como ficaífem em terra 5 hum , e hum os 
iriam gaitando, com que não houveíTe me- 
moria delles , nem do que tinham defeuber- 
to. Porém temendo que o Çamorij fe po- 
dia 



342 ÁSIA de João de Barros 

idia efcandalizar , fe publicamente niíTo fíze£ 
fem alguma coufa , pareceo-lhe mais fegu- 
ro modo fereíle cafo commettido pelo exe- 
cutor de todalas más fentenças , que he o 
dinheiro , fubornando com elle ao Catual , 
que tinha cargo dos noíTos , pêra que indi- 
naffe aElRey contra clíes com algumas ra- 
zoes apparentes, que lhe deram pêra o ca- 
fo y affirmando ferem verdadeiras , e que 
convinham ao bem , e paz da terra. O Ca- 
tual , como lhe encheram as mãos , e as ore- 
lhas , começou logo fazer feu officio , e a 
primeira obra foi não confentir que os nof- 
los fahilfem da cafa em que eílavam , por 
mo verem a Cidade , nem o trato delia ? dan- 
do' a entender a Vafco da Gama , que em 
quanto não foííe defpachado y não tinham 
licença pêra andar foltamente pela Cidade \ 
c mais convinha a elle fer ifto aífi , por evi- 
tar algum efcandalo , que podiam receber 
dos Mouros , pois entre todos havia pai- 
xões por razão do que cada hum cria acer- 
ca das coufas de Beos. Com as quaes pa- 
lavras , per que cll^ moftrava ordenar tudo 
a bem de paz em obras , negava-lhe o ne- 
ceflario que haviam miíler , em que Vafco 
da Gama entendia parte da fia tenção , e 
começou logo requerer feu defpacho fem. 
outra carga de efpeciaria ; porque tornando 
elle a efte Reyno com nova do que tinha 

der- 



Década I. Liv. IV. Cap. IX. 343 

defcuberto , tempo ficava pêra EIRey man- 
dar frota y com que haveria quanta quizef- 
fe , fem temer as náos de Meca , com a 
vinda das quaes o aíTombrava o Mouro 
Monçaide , dizendo ferem grandes , e po- 
deroíàs , de que poderia receber damno , 
por tanto trabalhaífe por fe efpedir daquel- 
la terra ante que ellas vieífem. Vafco da Ga- 
ma como per eftes , e outros avifos que ti- 
nha dado , entendeo ler homem fiel , per el- 
le eícreveo a feu irmão Paulo da Gama, 
fazendo-lhe faber o que paífava , e íentia 
dos Mouros , encommendando-lhe refguar- 
do na communicação da gente da terra j 
que foífem a bordo dos navios , porque os 
.Mouros tudo haviam de tentar pêra os met- 
ter em ódio com o Gentio da terra. O Ca- 
tual tanto que vio tempo pêra ifíb , diífe ao 
Çamorij , que geralmente todolos homens do 
Ponente , que eftavam naquella Cidade , di- 
ziam que aquelles 5 que alli eram vindos na 
fua própria terra , viviam mais deíle officio 
de coíTairos , que de trato , e mercadoria ; 
e como homens perfeguidos na terra de 
feus naturaes , fe deílerravam pêra parte 5 on- 
de não foífem conhecidos : Que as cartas > 
que lhe deram em nome de Embaixadores , 
que traziam , tudo era artificio pêra encu- 
brir a infâmia de vagabundos ; cá não efta- 
va em razão humRey de tão longe > como 

era 



344 ÁSIA de João de Barros 

era o Occidente da terra da Franquia , man- 
dar-lhe embaixada , que não trazia mais fun- 
damento , que defejo de íua amizade , e que 
a mefma coufa per íi moftrava não poder 
fer ) porque huma das razões da amizade , 
era a communicaçao das peííoas , e preftan- 
ça nas obras 5 e que eftas entre elles eram 
mui contrarias , afii por razão da crença dif- 
ferente que cada hum tinha , como por a 
grande diftancia de feus citados. E mais , que 
hum Rey tão poderofo , e rico J como el- 
les diziam fer ofeu 5 mal moftrava eíte po- 
der no prefente que lhe mandara , pois 
eram peças , que qualquer mercador , que vi- 
nha do eftreito, as dava melhores. Quanto 
a dizerem fer enviados por razão da cfpc- 
ciaria , elles não traziam mercadorias que 
deíTem final diíTo ; e ainda que tudo foíTe 
como elles diziam , nao devia querer per- 
der proveito tão certo , como tinha nos 
Mouros 5 pelo que promettiam homens , que 
habitavam nos fins da terra ■ os quaes ha- 
viam miíler dous annos de navegação. 
Quanto mais , que vendo os Mouros como 
fua Real Senhoria favorecia homens novos , 
e de que fe tanto mal dizia , e fobre tudo 
feus imigos > era caufa de grande efcandalo 
para elles , e não feria muito perdellos ; cou- 
fa , que elíe devia muito temer , > pois per- 
dendo adies, perdia vaífallos., e nao virem 

mais 



Década L Liv. IV. Cap. IX. 34^ 

mais a feu porto náos de Meca , Judá, 
Adem 5 Ormuz , e d'outras muitas partes > 
no commercio das quaes eftava todo feu ef- 
tado : Que cllc em dizer iílo , comprazia com 
a obrigação que lhe devia , que era repre- 
ícntar-lhe as coufas de feu ferviço ; que além 
do feu , devia tomar parecer d'outras pef- 
foas , apontando-lhe logo em alguns feus 
officiaes , queelle Catual fabia já eftarem da 
parte dos Mouros 5 cá pelo teílemunho def- 
tes ficavam fuás palavras com maior fé. El- 
Rey , ainda que era homem prudente , e ri- 
nha tenteado quanto proveito podia rece- • 
ber neíle novo caminho , que os noííos abri- 
ram pêra dar maior fahida ás fuás efpecia- 
rias , tanto poder tiveram neíle eftas pala- 
vras do Catual , que fem mais examinar a 
verdade , com os outros teílemunhos , que 
lhe o mefmo Catual nomeou , depois que 
lhe pedio feu parecer , ficou aífi traílorna- 
do , que teve os noííos na conta que lhe 
elles pintaram , de maneira que faleceo pou- 
co de lhe ordenarem couía com que nunca 
cá vieram. Mas como as que Deos ordena 
nao fe podem contrariar pelos homens , ain- 
da que em alguma maneira pareça que as 
impedem , o modo que eíles Mouros buf- 
cáram de os deftruir , eíTa foi a caufa de 
ferem mais cedo defpachados , ante que vief- 
fem as náos de Meca - 7 porque tanto que o 

Ga-* 



34^ ÁSIA de JoÂo de Barros 

Çamorij concebco o que Uie diziam , man- 
dou chamar Vaíco da Gama , e diííc , que 
lhe defcubriíTe huma verdade, queclle pro- 
mettia de lha perdoar , por fer couía na- 
tural aos homens bufearem cautelas , e mo- 
dos de fua abonaçao pêra fazerem feu próV í 
veito ; e que fe andavam delterrados por alr 
gum caio , elle os ajudaria cm tudo • cá , ; 
legundo tinha fabido d'alguns homens das j 
partes da Franquia , donde diziam fer , elle* 
não tinham Rey ; ou fe o havia na fua ; 
pátria , o feu officio mais era andar pelo 
mar d'armada á maneira de coíTairos , que 
por razão do commercio. Vafco da Gama ! 
-quando ouvio taes palavras , fem leixar ir 
EIRey mais avante com ellas , diífe , que i 
verdadeiramente elle não punha culpa cui- 
darem delles muitas coufas , porque grão 
novidade devia fer a todolos feus vaífallos : 
verem naquellas partes nova gente em reli- 
gião , e coílumes ; e mais vindos per cami- 
nho nunca navegado , com embaixada de 
hum poderofoRey , que não pertendia mais 
interefíe que fua amizade , e communicaçao 
de commercio, pêra dar nova fahida ás ef- 
peciarias daquelle feu Reyno Caiecut- por-í 
que homens, armas, cavailos , ouro, pra- 
ta , feda , e outras coufas a humana vida 
neceflàrias no íeu Reyno as havia tão abaf-: 
tadamente y que não tinha neceífidade de as 

ir 



Década I. Liv. IV. Cap. IX. 347 

ir bufçar aos alheios , e mais tão remotos 
como eram os da índia , porém làbendo 
elle Çamorij o que EiRey feu Senhor quiz 
de mil e feiscentas léguas de coíla , que el- 
]e , e feus aníeceflbres mandaram defcubrir , 
haveria não fer nova coufa enviar mais avan- 
te per cila meíma coita tá chegar a fua Real 
Senhoria 5 cuja fama era mui celebrada nas 
partes da Chriftandade. E neílas mil e feis- 
centas léguas que mandou defcubrir , achan- 
do-fe muitos Reys , e Príncipes do género 
Gentio , nenhuma coufa quiz delíes , lomen- 
te doârinallos em a Fé de Chrifto Jefus 
Redemptor do Mundo , Senhor do Ceo , e 
da terra , que elle confeífava , e adorava 
por feu Deos , por louvor , e ferviço do 
qual elle tomava eíta empreza de novos def- 
cubrimentos da terra. E com efte beneficio 
da falvação das almas , que EIRey D. Ma- 
nuel procurava áquelles Reys , e povos , que 
novamente defcubria 5 , também lhes enviava 
navios carregados de couías de que elles 
careciam , aíH como cavallos , prata , feda , 
pannos , e outras mercadorias. Em retorno 
das quaes os feus Capitães traziam outras , 
que havia na terra, que era marfim, ouro, 
malagueta , pimenta , dous géneros d 5 efpe- 
claria de tanto proveito , e tao eílimada nas 
partes da Chriftandade , como a pimenta 
daquelle feu Reyno de Calecut. Com as 

quaes 



348 ÁSIA de JoÃo de Barros 

quaes commutações , os Reynos que ília 
amizade acceptavam ? de bárbaros eram fei- 
tos politicos , de fracos poderofos , e ricos 
de pobres , tudo á cuíta dos trabalhos , e 
induftria dos Portuguezes. Nas quaes obras 
EIRey feu Senhor não bufcava mais que 
a gloria de acabar grandes coufas por íer- 
viço de leu Deos , e fama dos Portugue- 
zes. Porém com os Mouros , por íerem feus 
contrários , contrariamente fe havia , cá per 
força de armas nas partes de Africa , que 
elles habitam , lhe tinha tomado quatro prin- 
cipaes forças , e portos de mar do Reyno 
de Fez: por iííò onde quer que fe achavam y 
não fomente infamavam de boca o nome 
Portuguez , mas ainda maliciofamente lhe 
procuravam a morte , e não roílro a roftro 
por terem experimentado o feu ferro. O tes- 
temunho da qual verdade fe vio no que lhe 
fizeram em Moçambique , e Mombaça , co- 
mo fua Real Peífoa já teria fabido do Pi- 
loto Cana , o qual engano , e traição nunca 
achara per quantas terras de Gentios tinha 
defcuberto ; porque eftes naturalmente eram 
amigos do povo Chriílão por todos virem 
de hu ma geração , e ferem mui conformes 
em alguns coííumes , e no modo dos feus 
templos , fegundo tinha viílo naqueile feu* 
Reyno de Calecut. Té os feus Brâmanes 
na religião que tinham da Trindade de três 



Década I. Liv. IV. Caf. IX. 349 

PeíToas , e hum fó Deos , que acerca dos 
Chriftaos era o fundamento de toda ília 
fé 5 fe conformavam com elles , ( peró que 
per outro modo mui differente , ) a qual 
coufa os Mouros contradizem. E delles fa- 
berem eíla conformidade d 5 antre o povo 
Gentio , e Chriííao , trabalhavam que os 
Portuguezes ante elle Çamorij foííem infa- 
mados , e avorrecidos , fendo-lhe já tão 
obrigado aos defender; pois não preceden- 
do mais caufas pêra EIRey feu Senhor de- 
fejar fua amizade , que huma fama da gran- 
deza delle Çamorij , folgara de o enviar a 
elle polas caufas que lhe tinha dito. E iílo 
não commettêra fomente aquelle anno , mas 
era já tão continuado per tantos , e EIRey 
tão defejofo de ter defeuberto cfte caminlio 
de Portugal pêra a índia , que ainda que 
elle Vafco da Gama per qualquer defaftre 
não tornaíTe a Portugal , foubeíte certo que 
EIRey havia de continuar tanto eíte defeu- 
brimento , té lhe levarem recado delle Ça- 
morij. Por tanto lhe pedia , como a Empe- 
rador de toda aquella região Malabar , pois 
Deos a elle Vafco da Gama , e aos feu? 
companheiros tinha feito tanta mercê > que 
foílem os primeiros que vieram aotelle , qui- 
zeíTe metter a mão de feu poder nefte ódio , 
que lhe os Mouros tinham , e não confen- 
tiffe ferem elles caufa d'algum grande in- 

cen- 



35*0 ÁSIA de João de Barros 

cendio de guerra naquellas partes , porque 
a gente Portuguez não diííimulava injurias , 
e principalmente a Mouros , dos quaes ti- 
nha havido grandes vistorias. Mui attento 
efteve o Çamorij a todas eftas palavras de 
Vafco da Gama , olhando muito a continên- 
cia com que as dizia , como homem, que 
do fervor , e conftancia que lhe vifle , que- 
ria conjeéturar a verdade delias. E que de 
feu natural fofle homem prudente , e nos fi- 
naes que efguardou julgaíTe a verdade do 
cafo , quiz comprazer cm parte a tenção 
dos Mouros , que foi efpedir Vafco da Ga- 
ma , mandando-lhe que fe tornaííe aos na- 
vios , e que alli lhe mandaria o defpacho 
de fua embaixada, dizendo, que por então 
ifto lhe parecia convir a elle Vafco da Ga- 
ma , pois confeífava que entre clles , e os 
Mouros havia aquelles ódios \ porque fican- 
do mais tempo na Cidade , per ventura huns 
com os outros travariam em palavras , que 
foífe caufa delle receber contra lua vontade 
algum damno , de que elle Çamorij teria 
deíprazer, e com ifto o efpedio. 



CA- 



Década I. Livro IV. 35*1 

CAPITULO X. 

Como per indujlria dos Mouros Vafco 
da Gama , e os que com elle eftavam , fo- 
ram reteudos ; e depois de recolhido aos 
navios , e pofto em terra Diogo Dias \ e 
Álvaro de Braga , também foram prezos , 
té que o Camorij mandou prover nijjò , e 
os efpedio de todo. 

OS Mouros quando fouberam o que El- 
Rey mandava a Vafco da Gama , não 
ficaram mui fatisfeitos , porque todo feu tra- 
balho era ordenar que os léus navios fof- 
íem mettidos no fundo , com fundamento 
que ficando a gente em terra , poucos 5 e 
poucos os iriam gaitando ; e pêra executar 
eíle propofito , fizeram com o Catual que os 
retivefle 5 e obrigaífe a tirar os navios em 
terra pêra de noite lhe porem fogo. O Ca- 
tual como em tudo queria comprazer aos 
Mouros , levou Vafco da Gama fora de 
Calecut, moftrando que o acompanhava té 
o meio caminho de fua embarcação i e fc- 
cretamente tinha mandado aosOfficiaes del- 
Rey , que eftavam em Capocate , onde fe 
I efpedio delle , que o retiveíTem , como ho~ 
! mens que faziam aquillo por razão de feus 
officios, Quando elle vio que o retinham, 
bem lhepareceo fer mais induftria dos Mou- 
ros .> 



3p ASIÀ de João de Barros 

ros , que mandado pelo Çamorij , e porque 
pudeífe ir ter á fua noticia , começou de fc 
queixar gravemente com os miniftros do ca- 
io , os quaes refpondêram , que elle fe quei- 
xava mais fem caufa , do que a elles tinham 
em o reter , como oíliciaes que eram del- 
Rey , obrigados a olhar o bem , e feguran- i 
ça da terra , porque a elle não o retinham 
com tenção de o querer anojar , mas com 
receio de elle fazer algum nojo á gente da 
terra , depois que fe vifle em os navios , 
fegundo fe dizia que elles fizeram nos por- 
tos per onde vinham ; que fe elle , e os feus 
eram gente pacifica , deviam ufar o coftume 
d'aquellas partes , principalmente naquelle 
tempo do inverno 5 varando feus navios em 
terra , e não eftar fempre com a verga dal- 
to, como gente que tinha animo de commetter 
algum mal. Ao que Vafco da Gama refpon- \ 
deo , que os feus navios eram de quilha, e 
não de feição dos da terra , e por iífo era 
coufa impoílivel poderem fer varados , por 
não haver alli os apparelhos que noReyno 
de Portugal havia pêra aquella neceílidade- 
Finalmente tanto aperfiárom fobre o varar 
dos navios , ou que leixaífe em terra alguns 
homens com mercadorias , e iílo em modo 
de reféns, em quanto o Çamorij o não def-i 
pachava, dizendo, que agente do mar lho; 
requeria 7 pêra poderem ir peicar fegura-í 

men- 



Década I. Liv. IV. Cap. X. 35-3 

mente delles : que conveio a Vafco da Ga- 
ma leixar em terra com alguma pouquida- 
de diflò que levavam pêra compra de man- 
timentos a Diogo Dias por Feitor , Alvará 
de Braga porEícrivão, Fernão Martins lín- 
gua , e quatro homens do feu ferviço , te 
ver em que parava o defpacho do Çamo- 
rij. Os miniftros deita obra tanto que per 
ella ficaram feguros , confentíram que Vaf- 
co da Gama fe embarcaíTe ; mas quanto a 
dar modo pêra que Diogo Dias comprafle 
alguma coufa , tudo eram artifícios pêra o 
não poderem fazer ; de maneira i que per 
efpaço de féis , ou fete dias elles fe haviam 
por prezos , e não por Feitores , té que á 
força de queixumes de Vafco da Gama acu- 
dio o Catual , que era o auftor deílas Cou- 
fas 5 e mandou-íe defculpar a eíle , fingindo 
não fer diífo fabedor ; e porém que os of- 
ficiaes tinham razão , por quanto o Çamo- 
rij o não tinha de todo defpachado. E que 
por haver pouco que comprar , ou vender 
naquelle lugar, elle mandava levar os feus 
Feitores a Calecut , onde havia cópia de 
tudo : por tanto lhe parecia bom confelho 
que elle com os feus navios fefoíTe ao por- 
to da Cidade por fer mais perto donde ef- 
tava o Çamorij pêra feus negócios ferem 
mais em breve defpachados. Vafco da Ga- 
ma , pofto que fentiffe , que todos eftes arti- 
Tom. I Z « fi- 



35*4 ÁSIA de João de Barros 

íicios eram dilações pêra o deter té a vinda 
das náos de Meca , fegundo lhe tinha dito 
o Mouro Monçaide j (o qual já nefte tem- 
po efcondidamente vinha communicar com 
elle ; ) todavia , porque eftando mais perto 
delRey , per meio do meímo Monçaide lhe 
poderia mandar algum recado , e mais íaber 
o que fe fazia com Diogo Dias , e Álvaro 
de Braga , foi-fe com os navios poer ante 
a Cidade de Calecut , onde foube per Mon- 
çaide , que fe os Mouros nao temeram po- 
der com iílb indignar o Çamorij , já os ti- 
veram mortos. Vafco da Gama vendo efte 
negocio táo damnado , e que o Çamorij 
era mudado dos paços , donde lhe fallára y 
pêra mais longe , íem haver commemora- 
çao de feu defpacho , e que clles nao ti- 
nham outro meio pêra o requerer fenao i 
Monçaide ? que já não oufava communicar; 
com elles , fenao dando a entender aos Mou- 
tos que era ília efpia ? ajuntou-fe com Pau- 
lo da Gama , Nicolao Coelho , e os prin- 
cipâes da companha dos navios, eteve con-i 
felho fobre o que deviam fazer. E deter-, 
minarem-fe que nao deviam efperar maisi 
refpofta delRey que os defenganos , que lhe 
tinha dado em palavras , e no modo de os 
efpedir, leixando-os em poder de feus imi- ; 
gos tanto tempo fem lhe mandar refpofta. • 
AíTentado çfte confdho ; efereveo Vafco da 
♦ Ga- 



Década I. Liv. IV. Cap. X. 357 

Gama per Monçaide a Diogo Dias , que 
o mais lècreto que pudeflem pêra tal dia 
ante manhã fe vieflem á praia , porque alli 
achariam bateis pêra os recolher; peró co- 
mo os Mouros tinham vigia fobre elles, 
tanto que os fentíram , faltaram com elles > 
! e os prenderam , tomando-lhes quanta fa- 
I zenda levavam. Vaíco da Gama vendo que 
| a maldade dos Mouros não fe podia reme- 
I diar com a paciência , e foífrimento que 
í com elles teve , nem tinha efperança d'al- 
! gum defpacho delRey, houve á mão obra 
| de vinte tantos pefcadores , que vinham pef- 
car ao mar, e com elles fe fez á vela, que 
foi pêra os Mouros grande prazer , vendo 
alvoroçado todo o Gentio com a grita , e 
brados das mulheres deites pefcadores. A 
nova do qual cafo tanto que foi ao Çamo- 
rij , podo que os Mouros per feus meneos 
o queriam indignar contra os noífos , di- 
zendo, que per alli veria quem elles* eram, 
todavia por ter fentido o ódio que lhe ti- 
nham , ante de fe determinar em outra cou- 
fa , mandou dous homens principaes dos 
Gentios fem fufpeita , que lhe vieíTem fa- 
ber como aquelle negocio paífava. Per os 
quaes fendo informado , como aquillo pa- 
recia fer mais repreífaria por os feus ho- 
mens , que lhe os Mouros prenderam , que 
por outra caufa , e mais que elie Capitão 
Z ii an- 



35'6 ASIÀ de João de Barrgs 

andava á vela huma volta ao mar , e ou- 
tra á terra , como quem queria fazer razão 
de fi , fe a fizelTem com elle , tornou logo 
a enviar eíles meímos homens , que levaf- 
fem ante elle Diogo Dias , e os outros > 
que com elle eftavam , com os quaes teve 
prática fobre o modo de feu defpacho. E 
mandou-lhe que eícrevcflem a Vafco da 
Gama, que trataíle bem os homens que to- 
rnara y porque elle , e feus companheiros es- 
tavam mui bem tratados em poder delle 
Camorij , e per ellcs , e lhe queria mandar 
o defpacho. Vafco da Gama com eíla car- 
ta ficou mui contente ; peró temendo algu- 
ma malicia dos Mouros , duas , ou três ve- 
zes fe fez na volta do mar , e outras tantas 
furgio diante da Cidade , porque as partes 
a que tocava a liberdade da gente que ti- 
nha tomado , clamaífem ao Camorij lua li- 
berdade a troco dos noífos. Finalmente pe- 
la informação que teve da verdade, defpa- 
chou Diogo Dias , mandando per elle a 
Vafco da Gama huma carta , que efereveo 
a EIRey D. Manuel , em que lhe dizia co- 
mo recebera outra fua > e ouvira feu Em- 
baixador , e lhe refpondêra ; e que a caufa 
de fua partida per aquelle modo , foram dif- 
ferenças antigas diante Chriftãos , e Mou- 
ros. Que elle teria muito contentamento de 
fua amizade ; e do commercio das coufas 

do 



Década I. Liv. IV. Cap. X. 357 

do feu Reyno , podendo fer fem aquelles 
efcandalos , porque os Mouros eile os ha- 
via por naturaes do feu Reyno por fer gen- 
te mui antiga naquelle aílo do commercio. 
Com a qual carta ? e algumas coufas 5 que 
deo a Diogo Dias , o efpedio , mandando 
aquelles dous fenhores Gentios que o entre- 
gafíem a Vafco da Gama com a fazenda 
que lhe era tomada , e houveíTem delle os 
pefcadores que tinha em reprefaria. O que 
elles fizeram com algumas cautelas no mo- 
do da entrega , querendo ainda os Mouros 
ufar de fuás maldades \ mas com tudo re- 
colhidos todolos noífos > por caufa d'algu- 
ma fazenda , que lhe não quizeram entre- 
gar , Vaíco da Gama reteve certos índios , 
que trouxe com figo , e aííím o fiel Monçai- 
de , partindo logo aquelle dia , que eram 
vinte e nove de Agoílo , havendo fetenta e 
quatro dias que chegara áquella Cidade Ca- 
lecut. 



CA- 



3)3 ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO XI. 

Como Vafco da Gama fe par tio do por- 
to de Calecut , e foi ter d Ilha Anche di- 
va , onde veio hum Judeo , o qual Vafco 
da Gama prendeo i e elle fe fez Chriftao : 
e domais que paffou nafua viagem té che- 
gar ao Reym. 

PArtido Vafco da Gama , não mui con- 
tente da efpedida que houve em leu 
defpacho 5 quando veio ao feguinte dia , an- 
dando em calma pouco mais de légua e meia 
de Calecut , vieram a elle obra de feííenta 
tones , que são barcos pequenos atulhados 
de gente , parecendo-lhe que por fer muita 
tinham pouco que fazer com a noíía ; peró 
como fentíram feu damno com a artilheria 
que ao longo os foi receber ? e principal- 
mente com huma trovoada que os derra- 
mou , clles tomaram por acolheita a terra, 
e os nofíbs o mar 5 feguindo feu caminho 
á viíta da coíla. E defejando Vafco da Ga- 
ma metter nella hum dos Padrões que leva- 
va , porque outro que mandou ao Çamorij 
per Diogo Dias pêra fe poer na Cidade , 
fegundo ficava na vontade dos Mouros , era 
certo que não havia de cílar muitas horas 
em pé , tanto fe chegou a terra pêra efeo- 
Iher lugar notável*,, onde o puzeíTe , que 

veio 



Década I. Liv. IV. Cap. XI. 35^9 

veio dar com elle hum tone de pefeadores. 
Per o qual efereveo ao Camorij per mão 
de Monçaide , em que fe queixou dos en- 
ganos , que com elle ufáram na entrega da 
gente , e fazenda que tinha em terra , onde 
lhe ficava boa parte. E que não houveiTe 
por mal levar elle comíigo alguns dos feus 
naturaes , porque não era a fim de repreía- 
ria da fazenda ; mas pêra EIRey feu Se- 
nhor per elles fe poder informar de feu ef- 
tado , e das coutas do feu Reyno , e elle 
Camorij per o mefmo modo faber as de 
Portugal 3 quando elle Vafco da Gama , ou 
outro Capitão tornaííe áqueíla fua Cidade , 
que feria o anno feguinte , como elle efpe- 
rava em Deos , pêra confusão dos Mouros. 
Efpedido efte barco , tornou feguir feu ca- 
minho com defejo de metter o Padrão que 
diffemos j e por não achar lugar mais á fua 
vontade , em huns iíheos pegados com a 
terra metteo hum per nome Saneia Maria , 
donde os ilheos fe chamam ora de Sandia 
Maria y os quaes eftam entre Bacanor , e 
Baticalá , dons lugares notáveis daquella cof- 
ta 3 e no arvorar delle fe achou algum Gen- 
tio da terra , que o fizeram com muito pra- 
zer, por o bom tratamento que lhe Vafco 
da Gama fazia, ecoufas que dava. Aífi que 
com efte Padrão , que foi o derradeiro em 
tempo ^ lehtou Vafco da Gama neíla viagem 

pof- 



360 ÁSIA de João de Barros 

poftos finco Padrões , S. Rafael no rio dos 
Bons Sinaes , S. Jorge em Moçambique , 
Saneio Efpirito em Melinde , Sanita Ma- 
ria neíles ilheos , e o ultimo per fitio em 
Calecut chamado S. Gabriel. Os quaes pê- 
ro que não fejam poítos per nação tão glo- 
riofa de efcrever , como foi a gente Grega , 
nem o noífo eftylo poíTa alevantar a gloria 
deite feito no gráo que elle merece , ao me- 
nos fera recompenlado com a pureza da 
verdade que em íi contém. Não contando 
os fabulofos trabalhos de Hercules em poer 
fuás columnas , nem pintando alguma Argo- 
nautica de Capitães Gregos em tão curta , 
c fegura navegação 5 como he de Grécia ao 
rio Fafo , fempre á viíla da terra , jantando 
cm hum porto , e ceando em outro , nem 
eferevendo os errores de UlyíTes fem fahir 
de hum clima , nem os vários cafos de Eneas 
cm tão breve caminho , nem outras fabulas 
<ia gentilidade Grega , e Romana : que com 
grande engenho na fua eferitura aííi decan- 
taram j e celebraram a empreza , que cada 
hum tomou 3 que não fe contentaram com 
dar nome de illuílres Capitães na terra aos 
auetores deitas obras , mas ainda com no- 
me de Deofes os quizeram collocar no Ceo. 
E a gente Portuguez Catholica per Fé , e 
verdadeira adoração do culto , que fe deve 
aDeos., arvorando aquella Divina bandeira 

de 



Década I. Liv. IV. Cap. XI. 361 

de Chrifto , final de nolTa Redempção , de 
que a Igreja canta Vexilla Regis prodeunt , 
não fomente á vifta dos Mouros de Africa , 
Períia , e índia , pérfidos a ella , mas diante 
de todo o paganifmo deftas partes , que del- 
ia nunca tiveram noticia, e iíto navegando 
per tantas mil léguas , que vem a fer antí- 
podas de fua própria pátria , coufa tão no- 
va , e maravilhofa na opinião das gentes > 
que té doítos , e mui graves barões em fuás 
efcrituras puzeram em duvida de os haver; 
nas quaes partes elles houveram vistorias 
de todas eílas nações , contentando com os 
perigos do mar trabalhos de fome , e fede , 
dores de novas enfermidades , e finalmente 
com as malicias , traições , e enganos dos 
homens , que he mais duro de foffrer : Aífi 
são próprias todas eílas coufas em a Nação 
Portuguez , e as tem por tão natural manti- 
mento , depois que nafcem , que os faz faf- 
tientos no trabalho de as querer contar , e 
efcrever , como fe tiveííe a feus próprios 
feitos ódio pêra os ouvir depois que os faz y 
como são appetitofos pêra os commetter , 
e apreífados no acto de os fazer , e conf- 
iantes em os íèsurar. Certo grave , e pie- 
doía couia de ouvir , ver numa Nação, a 
que Deos deo tanto animo , que fe tivera 
creado outros Mundos já lá tivera mettido 
outros Padrões de vidlorias : aífi he defcui- 

da- 



362 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

dada na pofteridade de íèu nome , como íc- 
não folTe tão grande louvor dilatallo per 
pcnna , como ganliaílo pela lança. E tornan- 
do a Vafco da Gama auélor de tão illuílre 
feito , que na diftancia da terra , cm que 
poz eííes finco Padrões per linha direita de 
Ponente a Levante , defeubrio mil e duzen- 
tas léguas j começando do rio do Infante , 
onde acabou Bartholomeu Dias , té o porto 
da Cidade Calecut : tanto que leixou poílo 
cftc Padrão Sanóla Maria i foi ter per en- 
cuíca do Gentio da terra , defejando de em- 
palmar os navios em outros ilheos pegados 
com terra firme , aos quaes nós agora cha- 
mamos Angedivida , e os Canarijs Anche- 
diva , anche , quer dizer finco , diva , Ilhas , 
por elles ferem finco, poílo que o notável 
lie hum , de que ao diante faremos maior 
relação, por caufa de huma fortaleza, quei 
EIRey D. Manuel nelle mandou fazer. Na 
qual parte eftando Vafco da Gama em tra- 
balho de efpalmar feus navios , e fazendo! 
aguada , por fer a melhor de toda aquellai 
çofta , onde geralmente todalas náos , que; 
per aili navegam, a vem fazer, e o Gentio \ 
dalli mui fatisfeito polascaufas queiheman-í 
dava dar, veio a elle hum coífario por no- 
me Timoja , que depois, como adiante fe ! 
verá , foi grande noífo amigo. Eíle tanto 
que teve noticia dos noífos navios, eque a 

gen- 



Década I. Liv. IV. Cap. XI. 363 

gente delles era eftrangeira , fahio de hum 
lugar, onde eile vivia chamado Onor per- 
to dalli; ecomo homem fagaz, quiz com- 
mettcr os noííòs per eíle artificio , ajuntando 
oito navios de remo pegados huns em ou- 
tros , rodos cubertos de rama , que pare- 
ciam huma grande baífa delia. Vafco da 
Gama quando vio que de terra eíta balia 
vinha contra eile , perguntou aos índios, 
que alli andavam familiares , que visão era 
aquella : ao que elies refpondêram , que não 
fe efpantaíle delia , que eram invenções de 
hum fraco coíTairo , que coftumava ccmmet- 
ter alguns navios que per alli paliavam. 
Todavia Vafco da Gama, ante que Timoja 
fe chegafle mais a eile , mandou a feu ir- 
mão Paulo da Gama , e a Nicoláo Coelho , 
que o foífem faivar com a artilheria , como 
elies fizeram ^ e foi a falva de maneira , que 
os barcos enramados fe derramaram lego , 
acolhendo-fe a terra ; na qual fugida Nico- 
láo Coelho tomou hum delles , em que acha- 
ram arroz , e outro mantimento da terra 
com alguma pobreza de fuás provisões. Paf- 
fado o dia defte coíTairo Timoja , que per 
aquelle modo quizera commetter os noííbs 
navios , como a terra era já chea da eftan- 
cia , que elies alli faziam , fobreveio outro 
cafo , que fe fora avante lhe houvera de 
dar muito trabalho , e foi eíle. Hum fenhor 

Mou- 



364 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

Mouro chamado Sabayo , cuja era huma 
Cidade per nome Goa , que ora he a Me- 
tropoli , que efte Reyno tem naquellas par- 
tes , daquella Ilha de Anchediva té doze 
léguas , como era homem , que tinha com- 
figo Arábios , Parfeos , Turcos , e alguns 
Levantiícos arrenegados , com ajuda , e in- 
duftria dos quaes tinha naquellas partes adqui- 
rido grande eftado , tanto que íbube como 
os noííbs navios eram de gente deitas partes 
da Chriftandade , dclejando haver informa- I 
çao delia , chamou hum Judeo natural de 1 
Polónia 3 que lhe fervia de Xabandar , e 
perguntou-lhe fe tinha fabido de que nação 1 
era a gente , que vinha naquelles navios : 
ao que efte Judeo refpondeo ter fabido que i 
fe chamavam Portuguezes , que habitavam 
nos fins da terra da Chriftandade , a qual 
gente fempre ouvira nomear por guerreira , | 
ibffredora de trabalho , e mui leal ao Se- 
iihor que ferviam ; que fe ella era a que lhe 
diziam devia trabalhar pola haver a leu ler- 
viço , porque com os taes homens fe po- 
diam fazer grandes conquiftas. O Sabayo 
ouvindo efte louvor dos noífos , como pro-i 
curava haver em feu ferviço gente de guer- 
ra , mandou a efte Judeo que fofíe a clles , 
e os commettefle da fua parte com algum 1 
partido favorável; e quando o não acceptaf- 
íèm 9 elle mandaria três > ou quatro navios 

ar- 



Década I. Liv. IV- Cap. XI. 36? 

armados , que eftiveflem em feu refguardo y 
pêra que dando-lhe avifo , os vieíTem com- 
metter, que fe partiffe elle, porque os na- 
vios iriam logo nas fuás coílas. Partido o 
Judeo com efte fundamento , veio ter em 
hum pequeno barco junto de huma ponta 
da terra firme , que eftava fobre os noífos 
navios ; e poíío fobre aquelle tezo , come- 
çou em altas vozes bradar que queria fal- 
lar ao Capitão , e que o feguraíTem per aquel- 
le final , moftrando huma Cruz de páo. Vaf- 
co da Gama quando vio a Cruz , fez-lhe 
em feu coração reverencia 5 dizendo , que 
debaixo daquelle final de fua Redempção 
elle não efpcrava engano , ou mal , que lhe 
foííe feito y e convertendo-fe aos Gentios > 
que alli andavam familiares com elle, per- 
guntou-lhes fe conheciam aquelle homem 
quejbradava ; os quaes como andavam con- 
tentes do bem que lhe elle mandava fazer y 
diíferam : Senhor , não te fies defte , porque 
he foldaâo do fenhor de huma Cidade cha- 
mada Goa y que efia perto daqui * e como 
he Mouro , gente com que vós-outros efiais 
em ódio , per ventura virá com algum en- 
gano. Vafco da Gama como teve eíta noti- 
cia delle , mandou-lhe refponder , que fe 
queria alguma coufa, e elle era homem fe- 
guro, que o fegurava. Ao que o Judeo re- 
fpondeo, que elle vinha com muita verda- 
de , 



366 ÁSIA de João de Barros 

de , c que na confiança delia fe entregava 
em fcu poder: com as quaes palavras def- 
eco do lugar onde eíiava , e fe veio a el- 
le , moftrando feuma feguridade , como quem 
não trazia no peito outra coufa ; mas Vaf- 
co da Gama de boa entrada lha defeubrio 
logo , querendo-o metter a tormento. Quan- 
do o Judeo fe vio naquelle eílado , come- 
çou de pedir que por amor de Deos o não 
mandaífe atormentar, que elle diria toda a 
verdade a que era vindo ; e que primeiro 
de vir a eíle cafo lhe queria contar o prin- 
cipio de feu nafeimento , e vida , per a 
qual , e pelo que ao prefente fentia delia y 
e da vinda delles naquellas partes , lhe pa- 
recia que não era íomente porfaivação del- 
le , mas ainda poía de tantas mil almas , co- 
mo havia no Gentio daquellas partes ; por- 
que não eíiava em razão homens tão occi- 
dentaes , como era a gente Portuguez , os 
quaes viviam nos fins da terra , virem ás 
partes do Oriente per tanta diííancia de ma- 
res , e caminhos não fabidos , fenão pêra 
algum grande myíterio > que Deos queria 
obrar per elies. Então começou a contar o 
principio de fua vida 5 dizendo , que no an-. 
no de Chrifto de mil quatrocentos e íin- 
coenta , EIRey de Polónia mandara lançar 
hum pregão per todo feu Reyno , que quan- 
tos Judeos nelle houveíle , dentro de trinta 

dias 



Década I. Liv. IV. Cap. XI. 367 

dias fe fizeííem Chriftaos , ou fe fahifíem 
do feu Reyno ; e paliado efte termo de 
tempo , os que achaítem foffem queimados. 
Donde fe caufou que a maior parte dos Ju- 
deos fe fahíram fora do Reyno pêra diver- 
fas partes , e neíta fahida fora feu pai 5 e fua 
ftíai , que eram moradores em huma Cida- 
de chamada Bofna 5 os quaes vieram ter a 
Jerufalem, edahi fe paliaram á Cidade Ale- 
xandria , onde elle nafceo ; e depois que 
chegou a perfeita idade , diícorrendo per 
muitas partes , fora ter áquellas da índia 
ao ferviço do Sabayo Senhor de Goa , per 
cujo mandado era alli vindo provocar a el- 
le , e aos feus , que o quizeflem ir fervir a 
foldo, da maneira que com elle lá andavam 
alguns Levantifcos. Eque efte defejo toma- 
ra ao Sabayo de os querer em fua ajuda y 
por lhe elle gabar a gente Portuguez ; e que 
verdadeiramente cila era acaufa de fua vin- 
da : que lhe pedia nao recebeífe mal delle , 
e houveífe por bem de o receber , como 
a gente Chriíta coíluma áquelles , que fe 
chegam ao Baptifmo , por quanto elle o 
queria acceptar , e morrer na Fé de Chri- 
fto. Vafco da Gama como vio neíta práti- 
ca , e em outras , que com clh teve, fer 
homem experto , e que mui particularmente 
dava razáo das coufas daquellas partes , co- 
mejou de o confolar ; e que quanto ao fi- 
lho, 



368 ASIÀ de João de Barros 

lho, e fazenda, que dizia ficar-lhe em Goa > 
que fe não agaítaífe ; porque EIRey feu fe- 
nhor, tanto queelle chegafle com ajuda de 
Deos ao Reyno de Portugal , logo havia 
de mandar huma grofla Armada áqucllas 
partes , em que elle tornaria , na qual via- 
gem poderia cobrar leu filho, e muito mais 
fazenda nas mercês que lhe EIRey faria , 
que quanta leixava em Goa. Finalmente el- 
le foi baptizado , e houve nome Gafpar, 
tomando por appcllido Gama por caufa de 
Vafco da Gama , que o trouxe áquelle ef- 
tado ; e per avifo delle logo ao feguinte 
dia , ante que vieflem os navios , que o Sa- 
bayo havia de mandar , Vafco da Gama , 
por eítar já preítes , fe fez á vela via deite 
Reyno , atraveííando aquelle grande golfão , 
que ha da coita da índia a eftoutra de Me- 
linde na terra de Africa , em que lhe adoe- 
ceo , e morreo muita gente das enfermida- 
des pa{fadas por razão de grandes calma- 
rias que teve. E a primeira terra que to- 
mou , foi abaixo da Cidade Magadaxo íi- 
íuada na coita brava , per a qual paliou 
fem fazer mais detença que fal valia com ar- 
íilheria , por ver no apparato de feus edi- 
fícios fer tão grande coufa , que não quiz 
fazer mais experiência da verdade dos Mou- 
ros daquella coita. Peró não fe pode efpe- 
dir fem algum encontro delles > cá fenda 

tan- 



Década L Liv. IV. Cap. XI. 369 

tanto avante , como outra chamada Patê , 
lhe fahíram ao caminho fete , ou oito zam- 
bucos da terra mui bem armados , com fun- 
damento de o commetter , aos quaes elle fal- 
vou de maneira com artiiheria , que não o 
quizeram mais feguir. Chegado a Melinde , 
onde, elle levava poíta a proa , foi recebida 
pelo Rey noíTo amigo com muito prazer; 
e a gente enferma que trazia recebeo re- 
feição com os refrefcos da terra , pofto que 
alguns ficaram alli enterrados em linco dias 
que fe deteve ; em tal eftado vinham. E 
tornando a feu caminho , no lugar dos bai- 
xos , onde o navio S. Rafael tocou , (co- 
mo atrás diíTemos , ) deo outro toque , com, 
que ficou alli pêra fempre : que não deo 
muita paixão a Vafco da Gama por vir já 
tão falecido de gente pêra marear três na- 
vios , que pêra dous ainda toda a defte era 
pouca. A qual repartida per elles , chega- 
ram aos ilheos de S.Jorge defronte de-Mon 
çambique , onde ao pé do Padrão chamado 
S. Jorge , que deo nome ao ilheo , dia da 
Purificação de NoíTa Senhora , em feu lou- 
vor ouviram huma MiíTa , e outra na agua- 
da de S. Braz , e a vinte de Março dobra- 
ram o grão Cabo de Boa Efperança , na 
qual paragem a gente começou a convales- 
cer pêra poderem todos fervir em a nave- 
gação. Chegados com aííás trabalho junto 
Tom. L Aa das 



37o ÁSIA de João de Barros 

das Ilhas do Cabo Verde com hum tem- 
poral forte que alli tiveram , Nicoláo Coe- 
lho fe apartou de Vafco da Gama ; e cui- 
dando elle que o trazia ante íi , veio ter á 
barra de Lisboa a dez de Julho daquelle 
anno de quatrocentos noventa e nove , ha- 
vendo dous annos que fahíra per elia ; e 
quando foube que Vafco da Gama não era 
ainda chegado , quizera fazer volta ao mar 
em fua bulca. Peró fabendo EIRey , que en- 
tão eftava na Cidade , da fua chegada , e co- 
mo queria tornar em bufca de feu Capitão , 
mandou que cntraflc pêra dentro. Vafco da 
Gama com aquelle temporal foi ter á Ilha 
de Sant-Iago ; e por trazer feu irmão Paulo 
da Gama mui doente , leixou per Capitão 
em o feu navio a João de Sá, que fe vief- 
fe a Lisboa ; e elle por remediar a faude 
de feu irmão 5 em huma caravela que fre- 
tou , paííou-fe á Ilha terceira , onde o veio 
enterrar no Morteiro de S. Francifco por 
vir já mui debilitado. A morte do qual deo 
muita dor a Vafco da Gama , porque além 
de perder irmão , tinha Paulo da Gama qua- 
lidades pêra íèntir fua morte quem delle ti- 
veífe conhecimento , e mais por falecer ás 
portas do galardão de feus trabalhos. Par- 
tido Vafco da Gama daquella Ilha terceira,; 
a vinte e nove d'Agofto chegou ao porto 
de Lisboa , e fem entrar na Cidade, teve 

hu- 



Década I. Liv. IV. Cap. XI. 37Í 

humas novenas em a Caía de NoiTa Senho- 
ra de Bethlem , donde elle partio a eíte def- 
cubrimento. E aqui foi vifitado de todolos 
Senhores da Corte té o dia de fua entrada , 
que fe fez com grande folemnidade ; e por 
fe mais celebrar fua vinda , houve touros > 
canas , mommos , e outras feftas , em que 
EIRey quiz moftrar o grande contentamen- 
to que tinha de tão illuftre ferviço , como 
lhe Vafco da Gama fez : que foi hum dos 
maiores que fe vio feito per vaffailo , em 
tão breve tempo , e com tão pouco cafto. 
Por caufa do qual , como adiante fe dirá , 
EIRey accreícentou á fua Coroa os títulos 
que ora tem de Senhor da conquifta , nave- 
gação , e commercio da Ethiopia , Arábia y 
Períia, e índia. E na fatisfaçao deíle gran- 
de ferviço moílrou EIRey quanto o eftima- 
va , fazendo logo , e depois mercê a Vafco 
da Gama deitas coufas : Que elle , e feus ir- 
mãos fe chamaíTem de Dom, e que no-ef- 
cudo das Armas de íua linhagem accrefcen- 
taffe huma peça das Armas Reaes deíle Rey- 
no , e o officio de Almirante dos mares da 
índia 5 e mais trezentos mil reaes de ren- 
da: e que em cada hum anno pudeífe em- 
pregar na índia duzentos cruzados em mer- 
cadorias , os quaes regularmente na efpe- 
ciaria , que lhe vem do emprego delles y 
reípondem cá no Reyno dous contos e oi- 
Aa ii to- 



372 ÁSIA de João de Baruos 

tocentos mil reaes , e tudo ifto de juro , e 
aífi Conde da Vidigueira , correndo depois 
o tempo j em que as coufas da índia mof- 
tráram fer a grandeza delias maior do que 
parecia nos primeiros annos. E fe Valco 
da Gama fora de nação tão gloriofa , como 
eram os Romanos , per ventura accreícen- 
tára ao appellido da fua linhagem , poílo 
que folie tão nobre como he, efla alcunha, 
da Índia , pois fabemos fer mais gloriofa 
coufa pêra infignias de honra o adquirido, 
que o herdado , e que Scipião mais fe glo- 
riava do feito que lhe deo por alcunha, 
Africano , que do appellido de Cornclio , 
que era da fua linhagem. 

CAPITULO XII. 

Como EIRey Z). Manuel em louvor de Nof-< 
fa Senhora fundou na fua Ermida de Be- 
thlem , que eflava em Raftello , hum 
fumpiuofo Templo , que depois to- 
mou por jazigo de fua fepultura. 

O Infante D. Henrique, (como atrás es- 
crevemos j ) por razão deita empreza , 
que tomou de mandar defeubrir novas ter- 
ras em as partes , donde as fuás Armadas 
partiam a efte defeubrimento , por louvor de 
Noífa Senhora , mandava-lhe fazer huma 
Cafa , huma das quaes foi a de Raftello em 

Lis- 



Década I. Liv. IV. Ca?. XII. 373 

Lisboa da invocação de Bethlem , na qual 
tinha certos Freires da Ordem da Milícia 
de Chriíto, de que dle era Governador, e 
Adminiftrador, á qual Ordem elle tinha da- 
do eíla cafa com todalas terras , pumares , 
e aguas , que para eile comprara. Iíto com 
encargo , que o Capellão obrigado a ella 
cada íabbado diíTeííe por elle Infante huma 
Miffa a NoíTa Senhora ; e quando foíTe ao 
lavar das mãos, íè volveííe ao povo, e em 
alta voz lhe pediffe quizeííem dizer hum 
Pater nofter , e huma Ave Maria pola alma 
delle Infante por mandar fazer aqueíla Igre- 
ja ; e affi poios Cavalleiros da Ordem de 
Chrifto , e por aquelles a que elle era obri- 
gado. O fundamento das quaes cafas , e 
principalmente deita de Bethlem , era pêra 
que os Sacerdotes , que alli reíidiílem , mi- 
niftraflem os Sacramentos da Confífsao , e 
Communhao aos mareantes que partiam pê- 
ra fora ; e em quanto efperavam tempo , 
( por fer quaíi huma légua da Cidade , ) ti- 
veíTem onde ouvir Miífa. EIRey D. Ma- 
nuel , como imitador deite fandlo , e catho- 
lico avoengo , vendo que fuccedêra a eíte 
Infante em fer Governador , e perpétuo Ad- 
miniítrador da Ordem da Milicia de Chri- 
lto , e aíli em profeguir eíte defcubrimento , 
tanto que veio Vafco da Gama , em que fe 
terminou a efperança de tantos annos , que 

era 



374 ÁSIA de JoÁo de Barros 

era o defcubrimento da índia , quiz , como 
premirias deita mercê , que recebia de Deos 
em louvor de fua Madre 5 ( a quem o In- 
fante tinha tomado por fua Proteítora pêra 
eíla obra , ) fundar hum fumptuofo Templo 
na fua Ermida da vocação de Bethlem. E 
acceptou» ante eíle , que outro lugar , por 
fer o primeiro poílo , donde haviam de par- 
tir todalas Armadas a eíle defcubrimento , 
e conquiíla ; e também porque como a cau- 
fa que elle teve de fazer tamanha defpeza 5 
como fe neíle Templo tem feito , procedeo 
da mais notável , e maravilhofa obra , que 
os homens viram , pois per ella o Mundo 
foi eílimado em mais do que fe delle cui- 
dava , ante que defcubriíTemos eíla fua tão 
grande parte , convinha que huma tal me- 
moria de gratificação foíle feita em lugar , 
onde as nações de tão varias gentes , como 
o mefmo Mundo tem , quando entraflem 
neíle Reyno , a primeira coufa que viífem , 
foíTe aquelle fumptuofo edifício fundado das 
vistorias de toda a redondeza delle. E co- 
mo o lugar de P^aílello he o mais célebre y 
e iilu.dre , que cite Pveyno de Portugal tem , 
por fer nos arrabaldes de Lisboa Monarca 
d eíla oriental conquiíla , e porta per onde 
haviam de entrar neíle Pveyno os triunfos 
delia , nefta entrada convinha fer feito não 
hum pórtico de pompa humana ; nenhum 

tem- 






Década I. Ltv. IV. Cap. XII. 37? 

templo a Júpiter protector , como os Ro- 
manos tinham em Roma no tempo de fcu 
império 3 a que offereciam as iníignias de 
fuás viítorias ; mas hum Templo dedicado 
áquelle vivo, e divino Templo, que he a 
Madre de Deos da vocação de Bethiem ; 
porque como neíle adio de fer Madre , e 
Virgem triunfou do principe das trevas , 
dando efpiritual viéloria a todo Género hu- 
mano , aífi era coufa mui jufta que os triun- 
fos das temporaes vidlorias , que per fuás 
intercefsoes os Portuguezes haviam de ha- 
ver dos príncipes, e reys das trevas da in- 
fidelidade de todo o Paganifmo , e Mouros 
daquellas partes do Oriente , quando entraf- 
fem pela barra deRaílello comas náos car- 
regadas delles , achaflem cafa fua tão gran- 
de pêra os recolher , como. eila fora liberal 
em conceder as petições delles nos a6los de 
fuás neceffidades , a qual cafa EIRey deo 
aos Religiofos da Ordem de S. Jeronymo 
pola ÍIngular devoção que tinha neíle San- 
ílo : e por a mefma caufa a elegeo por ja- 
zigo de fua fepultura. E porque a Ermida 
com todalas propriedades da cala , (como 
diíTemos , ) era da Ordem de Chrifto , por a 
ter dotada o Infante ao Convento delle , que 
eftá em a Villa de Thomar , per autorida- 
de Apoftolica deo EIRey por ella ao mef- 
mo Convento a Igreja de Noífa Senhora 

da 



376 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

da Conceição de Lisboa , a qual elle fe2 
de efnoga , que era dos Judcos , onde ora 
reíidem Freires da mefma Ordem de Chri- 
flo , e lhe applicou renda não íómente pêra 
os Freires , mas ainda pêra huma Commen- 
da que fez daquella cafa. E foi ainda EI- 
Rey D. Manuel tão magnânimo na gloria 
da edificação deite Templo de Bethlem , que 
tomou pêra o lugar de fua Imagem, e da 
Rainha D. Maria fua mulher a porta mais 
pequena fronteira ao Altar mor: e mandou 
pôr a imagem daquelle excellente Príncipe 
Infante D. Henrique na porta traveífa por 
fer mais principal em vifta , armado como 
hoje apparece iobre a columna do meio. E 
mais por fe não perder a memoria do que 
clíe Infante mandava , que á fua MiíTa o 
Sacerdote pediife ao povo que o encom- 
mendaíTem a Deos : per eíle mefmo modo 
são obrigados os Religiofos a outra MiíTa , 
que EIRey ordenou que fe diíTeífe per el- 
le ; que o Sacerdote peça também ao po- 
vo , que roguem a Deos pola alma do In- 
fante D. Henrique primeiro Fundador da- 
quella Cafa 5 e aíTi por EIRey , e por feus 
fucceííores , com a qual obra fica o Infante 
D. Henrique louvado no que fez por lou- 
vor de Noífa Senhora , e EIRey D. Ma- 
nuel com muito maior , porque então fe 
çpnfegue elie dobrado ante Deos per glo- 
ria, 



Década I. Liv. IV. Cap. XIL 377 

ria 5 e acerca dos homens per fama 5 quan- 
do dasnoffas obras por razão d'alguma pe- 
quena parte que nellas outrem poz ? lhe 
queremos dar o todo ; e o contrario 5 quan- 
do queremos eíconder o todo pola parte 
que nella puzemos. 



DE- 



DÉCADA PRIMEIRA. 
LIVRO V. 

Dos feitos y que os Portuguczes fizeram 
no defcubrimento dos mares, e ter- 
ras do Oriente , no qual fe contém 
o que Pedralvares Cabral fez no an- 
no de quinhentos , que defte Rcyno 
par tio com hum a groíTa Armada : e 
o que fez João da Nova no anno fe- 
guinte de quinhentos e hum com 
outra de quatro náos. 

CAPITULO I. 

Como EIRey por razão da nova , que Dom 
Vafco âa Gama trouxe da índia , man- 
dou fazer huma Armada de treze ve- 
las , da qual foi por Capitão mor 
Pedralvares Cabral. 



E 



Lkey D.Manuel, como era Príncipe 
Catholico , e que todas fuás coufas 
^ oíFerecia a Deos , por eíla mercê que 
delie tinha recebido , dava-lhe muitos lou- 
vores , pois lhe aprouvera fer elle o inftru- 
mento per quem quizera conceder hum bem 
tão univerfal , como era abrir as portas dou- 
tro novo Mundo de infiéis > onde o feu no- 
me 



Década I. Liv. V. Cap. I. 379 

me podia fer conhecido , e louvado , e as 
chagas de feu preciofo Filho Chrifto Jefus 
recebidas per Fé , e Baptifmo pêra redem- 
pçao de tantas mil almas, como o demónio 
naquelias partes da infidelidade imperava. 
Pêra gratificação da qual mercê que tinha 
recebida de Deos , e porque o feu povo fe 
gloriaííe nella , efereveo a todalas Cidades > 
e Villas notáveis do Reyno , notifícando-lhes 
a chegada de D. Vaíco da Gama , e os 
grandes trabalhos que tinha paliado í e o 
que aprouve a Noffo Senhor que no fim 
delles defcubriííe 5 encommendande-lhes que 
folemnizaííem tamanha mercê 3 como efte 
Reyno tinha recebido de Deos , com mui- 
tas procifsoes , e feftas efpirituaes em feu 
louvor. E como nos taes ajuntamentos fem- 
pre concorrem diverfos pareceres em tão no- 
vos cafos 5 leixando aquelles que perderam 
pai , irmão , filho ? ou parente nefta viagem , 
cuja dor não leixava julgar a verdade do 
cafo , toda a outra gente a huma voz era 
no louvor defie defeubrimento. Quando viam 
neíte Reyno pimenta, cravo, canela, aljo- 
fre , e pedraria , que x>s noílbs trouxeram , 
como moftra das riquezas daquella Orien- 
tal parte que defeubríram , lembrando-lhes 
quão efpantados os fazia alguma deftas cou- 
fas , que as galés de Veneza traziam a efte 
Reyno. As quaes práticas todas fe conver- 
tiam 



g#o ÁSIA de João de Baruos 

tiam cm louvores delRey , dizendo > que eft 
lc era o mais bem afortunado Rey da Chri- 
ftandade , pois nos primeiros dous annos de 
feu reynado defcubríra maior eílado á Co- 
roa defte Reyno , do que era o património 
que herdara ; coufa que Deos não concede- 
ra a nenhum Príncipe de Hefpanha , nem 
a feus anteceífores , que niflb bem trabalha- 
ram per difeurfo de tantos annos , nem fe 
achava eferitura de Gregos , Romanos , ou 
d'alguma outra nação 5 que contafle tama- 
nho feito , como era três navios com obra 
de cento e feíTenta homens , quafi todos doen- 
tes de novas doenças , de que muitos fale- 
ceram , com a mudança de tão vários cli- 
mas per que paííaram , diíferença dos man- 
timentos que comiam , mares perigofos que 
navegavam , e com fome , fede , frio , e te- 
mor , que mais atormenta , que todalas ca- 
íras neceílidades , obrar nelles tanto a vir- 
tude da conílancia , e precepto de feu Rey , 
que pofpoftas todas eftas coufas , navegaram 
três mil e tantas léguas , e contenderam com 
três , ou quatro Reys tão diíferentes em lei , 
çoílumes , e linguagem , fempre com vido- 
ria de todalas induftrias , e enganos da guer- 
ra que lhe fizeram. Por razão das quaes cou- 
fas , pofto que muito fe deveífe ao esforço 
de tal Capitão , e vaffallos , como EIRey 
mandara > mais fe havia de attribuir á boa 

for. 



Década I. Liv. V. Cap. I. 381 

fortuna deite feu Rey, porque não era cm 
poder, ou faber de homens, tão grande, e 
tão nova coufa como elles acabaram. El- 
Rey de todas eftas práticas, e louvores do 
cafo era fabedor , porque naquelles dias não 
fe fallava em outra coufa , que era para 
elle dobrado contentamento , faber quão 
prompta eftava a vontade de feu povo pê- 
ra profeguir efta conquifta. E porque pek 
informação que tinha da navegação d'aquel- 
las partes , o principal tempo era partir da- 
qui em Março , e por fer já muito curto 
pêra no feguinte do anno de mil e quinhen- 
tos fe fazer preftes a Armada , teve logo 
confelho no modo que fe teria nefta con- 
quifta : cá , lègundo o negocio , ficava íuípei- 
tofo polas coufas que D. Vafco da Gama 
paliara , parecia que mais havia de obrar 
nelíes temor de armas , que amor de boas 
obras. Finalmente aífentou EiRey , que em 
quanto o negocio de íi não! dava outro con- 
felho , o mais feguro , e melhor era ir lo- 
go poder de náos , e gente , porque nefta 
f)rimeira vifta que fua Armada déíle àquel- 
as partes , que já ao tempo de fua chega- 
da toda a terra havia de eftar pofta em ar- 
mas contra ella , convinha moftrar-fe mui 
poderofa em armas , e em gente luzida. Das 
quaes duas coufas , os moradores d*aquellas 
partes podiam conjecturar ? que o Reyno 

de 



382 ÁSIA de João de Barros 

de Portugal era mui poderofo pêra profe- 
guir efta empreza ; e a outra , vendo gente 
luzida , a riqueza delle , e quão proveitofo 
lhe feria terem íua amizade. E não fomente 
fe aíTentou no Confelho o numero das náos , 
e gente d'armas , que havia de ir nefta Ar- 
mada , mas ainda o Capitão mor delia , que 
por as qualidades de fua peífoa foi efeo- 
Ihido Pedralvares Cabral filho de Fernão 
Cabral. Chegado o tempo que as náos ef- 
tavam preítes pêra poderem partir , foi EI- 
Rey, que então eftava em Lisboa , hum Do- 
mingo oito dias de Março do anno de mil 
e quinhentos com toda a Corte ouvir Mif- 
fa a Noífa Senhora de Bethlem , que he em 
Raílello , onde já as náos eílavam com feu 
alardo da gente d'armas feito. Na qual Mif- 
fa ouve Sermão , que fez D. Diogo Ortiz 
Bifpo de Ccpta , que depois foi de Vifeu , 
todo fundado fobre o argumento deita em- 
preza. Eftando no Altar , em quanto fe diífe 
a Miíla , arvorada huma bandeira da Cruz 
da Ordem da Cavalleria de Chriílo , que 
no fim da MiíTa o mefmo Bifpo benzeo, 
e de íi EIRey a entregou a Pedralvares Ca- 
bral 5 com aquella folemnidade de palavras , 
que os taes a£tos requerem , ao qual , em 
quanto fe diífe a MiiTa , EIRey por honra 
do cargo que levava, teve comíigo dentro 
na cortina. Acabado efleado, aíficomo ef- 

ra- 



Década I. Liv. V. Cap. I. 383 

tava arvorada 5 com huma folemne Procifsao 
de Relíquias , e Cruzes , foi levada aquella 
bandeira , íínal de noffas efpirituaes , e tem- 
poraes viótorias , a qual EiRey acompa- 
nhou , té Pedralvares com íèus Capitães 
na praia lhe beijarem a mão , e efpedirem 
delie. A qual efpedida geralmente a todos 
foi de grande contemplação , porque a maior 
parte do povo de Lisboa , por fer dia de 
feíla , e mais tão celebrado porElRey, cu- 
bria aquellas praias , e campos de Bethlem , 
e muitos em bateis que rodeavam as náos, 
levando huns , trazendo outros , aííi ferviam 
todos com fuás librés , e bandeiras de cores 
divifas 5 que não parecia mar , mas hum 
campo de flores , com a flor d'aquella man- 
cebia juvenil que embarcava. E o que mais 
levantava o efpirito deitas couíàs , eram as 
trombetas , atabaques , feftros , tambores , 
frautas , pandeiros , e té gaitas , cuja ventu- 
ra foi andar em os campos no apafcentar 
dos gados , naquelle dia tomaram poíTe de 
ir íòbre as aguas falgadas do mar , neíta , e 
outras Armadas que depois afeguíram, por- 
que pêra viagem de tanto tempo tudo os 
homens bufcavam pêra tirar a trifteza do 
mar. Com as quaes differenças , que a vif- 
ta , e ouvidos fentiam , o coração de todos 
eítava entre prazer, e lagrimas, por efta fer 
a mais formofa , e poderofa Armada , que 

té 



384 ÁSIA dé J0Ã0 de Barros 

té aquellc tempo pêra tão longe deite Rey* 
no partira. A qual Armada era de treze ve- 
las , entre náos , navios , e caravelas , cujos 
Capitães eram eíles : Pedral vares Cabral Ca- 
pitão mor 5 Sancho de Toar filho de Mar- 
tim Fernandes de Toar, Simão de Miran- 
da filho de Diogo de Azevedo , Aires Go- 
mes da Silva filho de Pêro da Silva , Vaf- 
co de Taíde , e Pêro de Taíde d'alcunha 
Inferno , Nicoláo Coelho que fora com Vaf- 
co da Gama , Bartholomeu Dias o que de£ 
cubrio o Cabo de Boa Efperança 5 e feu ir- 
mão Pêro Dias , Nuno Leitão , Gafpar de 
Lemos , Luiz Pires , e Simão de Pina. Se- 
ria o numero da gente que hia neíla frota , 
entre mareantes , e homens d'armas , té mil 
e duzentas peííbas , toda gente efeolhida , 
limpa y bem armada , e provida pêra tão 
comprida viagem. E além das armas mate- 
riaes , que cada hum levava pêra feu ufo, 
mandava EIRey outras efpirituaes , que eram 
oito Frades da Ordem de S. Francifco , de 
que era Guardião Fr. Henrique , que depois 
foi Bifpo de Cepta , e Confeííòr delRey , 
barão de vida mui religiofa , e de grão pru- 
dência , com mais oito Capellães , e hum 
Vigairo pêra adminiílrar em terra os Sacra- 
mentos na fortaleza que EIRey mandava fa- 
zer 5 todos barões eleolhidos pêra aquella 
obra Evangélica, E a principal couía do 

re- 



Década I. Liv. V. Cap. I. 385* 

regimento que Pedralvares levava , era pri- 
meiro que commettelTe os Mouros , e gen- 
te idólatra daquellas partes com o gladio 
material , e fecular, leixaíTe a eíles Sacer- 
dotes , e Religioíòs ufar do feu efpiritual, 
que era denunciar-lhes o Evangelho com 
amoeítações , e requerimentos da parte da 
Igreja Romana , pedindo-lhes que leixaííem 
fuás idolatrias , diabólicos ritos , e coílumes , 
e fe converterem á Fé de Chriílo , pêra to- 
dos fermos unidos , e adjuntados em cari- 
dade de lei , e amor , pois todos éramos 
obra de hum Creador , e remidos per hum 
Redemptor , que era efte Chriílo Jefus , pro- 
mettido per Profetas , e efperado per Pa- 
triarcas tantos mil annos ante que vieíTe* 
Fera o qual cafo lhe trouxeífem todalas ra- 
zões naturaes > e íegaes , ufando daquellas 
ceremonias , que o Direito Canónico dif- 
põe. E quando foífem tão contumazes , 
que nao acceptaífem eíla lei de Fé , e negaf- 
fem a lei de paz , que fe deve ter entre os 
homens , pêra confervação daefpecia huma- 
na , e defendeflem o commercio , e com- 
mutaçao , que he o meio per que fe conci- 
lia , e trata a paz , e amor entre todolos 
homens , por eíle commercio fer o funda- 
mento de toda a humana policia , peró que 
os contratantes diíTeram , em lei , e crença 
de verdade, que cada hum he obrigado ter, 
Tom. L $3b e crer 



386 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

e crer de Deos , em tal cafo lhe puzeíTem 
ferro , e fogo , e lhe fizeíTem crua guerra ; 
e de todas eílas couías levava mui copio- 
los regimentos. 

CAPITULO II. 

Como partido Pèdr alvar es teve hum 
temporal na paragem do Cabo Verde \ e fe- 
guindo Jua derrota , defcubrio a grande 
terra , a que commummente chamamos Bra- 
zil , A qual elle poz, nome Sanita Cruz : 
e como ante de chegar a Moçambique , paj 1 
fou hum temporal , em que per de o quatro 
velas. 

AO feguinte dia , que eram nove do mez 
de Março , differindo fuás velas , que 
eftavam a pique , fahio Pedralvares com to- 
da a frota , fazendo fua viagem ás Ilhas do 
Cabo Verde , pêra ahi fazer aguada , onde 
chegou em treze dias. Peró ante de tomar \ 
eíle Cabo , fendo entre eílas Ilhas , lhe deo í 
Jium tempo , que lhe fez perder de fua com- í 
paaha o navio, de que era Capitão Luiz Pi- í 
res , o qual fe tornou a Lisboa. Junta a fro- 1 
ta, depois que paliou o temporal, por fu-í 
gir da terra de Guiné , onde as caJmariasi 
lhe podiam impedir feu caminho , empe-: 
goti-fe muito no mar , por lhe ficar feguro 
poder dobrar o Cabo de Boa Efperança* 



Década I. Liv. V. Cap. II. 387 

E havendo já hum mez que hia naqueíla 
grão volta , quando veio a fegunda oitava 
da Pafcoa , que eram vinte e quatro de Abril 3 
foi dar em outra coíla de terra firme , a qual , 
fegundo a eítimação dos Pilotos , lhe pare- 
ceo que podia diílar pêra Aloefte da coíla 
de Guiné quatrocentas íincoenta léguas , e 
em altura do pólo Antartico da parte do 
Sul dez gráos. A qual terra eílavam os 
homens tio crentes em não haver alguma 
firme occidental a toda a cofta de Africa, 
que os mais dos Pilotos fè affirmavam fer 
alguma grande Ilha , aíli como as Tercei- 
ras , e as que fe acharam per Chriítovão 
Colom , que eram de Caftella , a que os 
Caftelhanos commummente chamam Anti- 
lhas. E por fe affirmar no certo fe era Ilha , 
ou terra firme , foi cortando ao longo del- 
ia todo hum dia , e onde lhe pareceo mais 
azada pêra poder ancorar 7 mandou lançar 
hum batel fora. O qual tanto que foi com 
terra 3 viram ao longo da praia muita gen- 
te nua , não preta , e de cabello torcido co- 
mo a de Guiné , mas toda de cor baça , e 
de cabello comprido, e corrido, e a figu- 
ra do roítro coufa mui nova 5 porque era 
tão amaçado, e fem a commum femelhan- 
ça da outra gente que tinham vifto , que fe 
tornaram logo os do batel a dar razão do 
que viram , e que o porto lhe parecia bom 
Bb ii fur- 



388 ÁSIA DE JOÃO DE BARBOS 

íiirgidouro. Pedralvarcs, por haver noticia 
da terra , encaminhou ao porto com toda a 
frota , mandou ao batel que fe chegaíTe bem 
a terra , e trabalhaíTe por haver á mão al- 
guma peííoa das que viram , fem os ame- 
drentar com algum tiro que os fizefle aco- 
lher; maselles não elperáram poriffo, por- 
que como viram que a frota fe vinha con- 
tra ellcs 5 e que o batel tornava outra vez, 
á praia , fugiram delia , e puzeram-fe em 
Jium tezo foberbo , todos apinhoados , a ver, 
o que os noflbs faziam. Os do batel , cm 
quanto Ped raivares furgia hum pouco largo 
do porto 5 por não amedrentar aquella no-; 
va gente mais do que o moftrava em fe 
acolher ao tezo , puzeram-fe debaixo no 
mefmo batel , e começou hum Negro GruH 
mete faltar a língua de Guiné , e outros que 
fabiam algumas palavras do Aravigo; mas 
elles nem á lingua , nem aos acenos , em 
que a natureza foi commum a todalas gen- 
tes , nunca acudiram. Vendo os do batel . 
que nem aos acenos, nem áscoufas que lhe 
lançaram na praia acudiam , canfados de ef 
perar algum final de entendimento dellesj 
tornáram-fe a Ped raivares 5 contando o que 
viram. Tendo elle determinado ao outre 
dia de mandar lançar mais bateis 3 e genu 
fora 3 faltou aquella noite tanto tempo corr 
elles ; que lhe conyeio levar as ancoras , < 

cor- 



Década L Liv. V. Cap. II. 389 

correram contra o Sul 9 fempre ao longo da 
coita, por lhes fer per aquelie rumo o ven- 
to largo , té que chegaram a hum porto 
de mui bom furgidouro , que os fegurou 
do tempo que levavam , ao qual por eíla 
razão Pedralvares poz o nome , que ora 
tem ? que he Porto feguro. Ao outro dia , 
como a gente da terra houve vifta da fro- 
ta j poílo que toda aquella foííe huma , pa- 
rece que permittio Dcos não fer efta tão eí- 
quiva como a primeira , íegundo logo ve- 
iemos. E porque em a quarta Parte da es- 
critura da noffa conquifta , a qual 5 como no 
principio diffemos , fe chama Saníia Cruz , 
e o principio delia começa neíle defcubri- 
mento , lá fazemos mais particular menção 
defta chegada de Pedralvares $ e aífi do fír 
tio , e couías da terra : Ao prefente baila fa- 
ber <:) que ao fegundo dia da chegada , que 
era Domingo da Pafcoa , elle Pedralvares 
fahio em terra com a maior parte da gen- 
te , e ao pé de huma grande arvore fe ar- 
mou hum Altar , em o qual diífe MiiTa 
Fr. Henrique Guardião dos Religiofos , e 
houve pregação. E naquella barbara terra 
nunca trilhada de povo Chriílão , aprouve 
a Noíío Senhor per os méritos daquelle 
Saníto Sacrifício , memoria de noffa Redem- 
pção 5 fer louvado , e glorificado , não fó- 
íuehte^ daquelle povo fiel d' Armada > mas 

ain- 



390 ÁSIA de JoÃo de Bakros 

ainda do pagão da terra, o qual podemos 
crer eítar ainda na lei da natureza , com o 
qual logo Deos obrou fuás mifericordias , 
dando-lhe noticia de íi naquelle Sanftiílimo 
Sacramento , porque todos fe punham cm 
giolhos , ufando dos a&os que viam fazer aos 
noífos, como fe tiveram noticia da Divin- 
dade a que fe humildavam , e ao Sermão 
eíliveram mui promptos , moftrando terem 
contentamento na paciência , e quietação que 
tinham , por feguir o que viam fazer aos 
noífos 7 que foi caufa de maior contempla- 
ção , e devoção , vendo quão oífe reciclo cf- 
tava aquelle povo pagão a receber dodrina 
de fua falvação , fe aJIi houvera pefíba que 
os pudera entender. Pedralvares vendo que 
por razão de lua viagem outra coufa não 
podia fazer, dalli efpedio hum navio, Ca- 
pitão Gafpar de Lemos , com nova pêra El- 
Rey D. Manuel do que tinha defeuberto ; 
o qual navio com fua chegada deo muito 
prazer a EIRey , e a todo o Reyno , aíll 
por faber da boa viagem que a frota leva- 
va , como pola terra que defeubríra. Palia- 
dos alguns dias , cm quanto o tempo não 
fervia, e fizeram fua aguada, quando veio 
a três de Maio , que Pedralvares fe quiz par- 
tir, por dar nome áquella terra per elle no- 
vamente achada , mandou arvorar huma 
Cruz mui grande no mais alto lugar de hu- 
ma 



Década I. Liv. V. Cap. II. 391 

•ma arvore ; e ao pé delia fe diffe Miíía , 
a qual foi poíta com folemnidade de ben- 
ções dos Sacerdotes , dando efte nome á 
terra Sanfla Cruz , quafí como que por 
reverencia do Sacrifício , que fe celebrou ao 
pé dkquella arvore , e final que íé nella ar- 
vorou com tantas benções , e orações 3 fica- 
va toda aquella terra dedicada a Deos ., on- 
de elle por fua mifericordia haveria por 
bem fer adorado per culto de Catholico 
povo , pofto que ao prefente tão çafaro deí- 
le eíliveííe aquelle Gentio. E como primí- 
cias deita eíperança 3 dVdguns degredados 
que hiam ir Armada, ieixou Pedralvares ai- 
li dous ? hum dos quaes veio depois a efte 
Reyno 5 e fervia de lingua naquellas partes > 
<:omo veremos em feu lugar : per o qual 
■nome Saw£la Cruz foi aquella terra nomea- 
da os primeiros annos>, e a Cruz arvorada 
alguns durou naquelie lugar. Porém como 
-o demónio per o final da Cruz perdeo o 
domínio que tinha fobre nós 5 mediante a 
Paixão de Chrifto Jefus confummada nella; 
tanto que daquella terra começou de vir o 
páo vermelho chamado Brazil , trabalhou 
que efte nome ficaífe na boca do povo 5 e 
que fe perdeffe o de Sanãa Cruz , como 
que importava mais o nome de hum páo 
que tinge pannos , que daquelle páo , que 
deo tintura a todolos Sacramentos per que 

fiv- 



39* ÁSIA DE João DE BARROá 

fomos falvos , por o fangue de Chrifto Je- 
fus , que nelJe foi derramado : e pois em ou- 
tra coufa neíla parte me não poíío vingar 
do Demónio , amoefío da parte da Cruz de 
Chrifto Jefus a todolos que eíle lugar le- 
rem 5 que dem a efta terra o nome que com 
tanta folemnidade lhe foi pofto , fob pena 
de a mefma Cruz , que nos ha de fer mof- 
trada no dia final , os accufar de mais de- 
votos do páo Brazil , que delia ; e por hon- 
ra de tão grande terra chamamos-lhe Pro- 
víncia , e digamos a Província de Saneia 
Cruz , que foa melhor entre prudentes , que 
Brazil poílo per vulgo , fem coníideração , 
e não habilitado pêra dar nome ás proprie- 
dades da Real Coroa. Tornando a Pedral- 
vares , que fe partio do porto feguro da- 
quella Província SanEta Cruz , fendo elle na 
grande travéíTa que ha entre aquella terra de 
Saneia Cruz ao Cabo de Boa Efperança , 
aos doze dias do mez de Maio apparcceo 
no ar hum grande Cometa com hum raio , 
que demorava contra o Cabo de Boa Ef- 
perança, a qual foi vifta per todolos d 5 Ara- 
mada per efpaço de oito dias , fem fe mover 
daquelle lugar : parece que prognoílicava o 
trifte cafo que logo viram , porque como 
defappareceo , ao feguinte dia que foram vin- 
te e três de Maio , depois do meio dia , indo 
% frota já do dia pa fiado com hum rnar 

grof- 



Década I. Liv. V. Cap. II. 393 

groflb empolado , como que vinha feito de 
longe , armou-íe contra o Norte hum ne- 
grume no ar, a que os marinheiros de Gui- 
né chamam bulcão , com o qual acalmou o 
vento , como que aquelle negrume o forvê- 
ra todo em íi pêra depois lançar o fôlego 
mais furiofo. A qual coufa logo fe vio, 
rompendo em hum inílante tão furiofamen- 
te, que fem dar tempo a que fe mareaflem 
as velas , foçobrou quatro , de que eftes eram 
os Capitães , Aires Gomes da Silva , Simão 
de Pina , Vaíco de Taíde , e Bartholomeu 
Dias , o qual tendo paliado tantos perigos 
de mar nos defcubrimentos que fez j e prin- 
cipalmente no Cabo cie Boa Efperança , (co- 
mo atrás contámos , ) eíía fúria de vento deo 
fim a elle , e aos outros, mettendo-os no 
abyfmo da grandeza daquelle mar Oceano , 
que naquelie dia encetou em nós , dando 
ceva de corpos humanos aos peixes daquel- 
les mares , os quaes corpos podemos crer 
ferem os primeiros , pois ò foram em aquei- 
la incógnita navegação , poílo que o a£to 
deite impeto do vento foi a todos a coufa 
mais efpantofa , que quantas tinham viílo 7 
por fe verem huns aos outros , junta , e tão 
miferavelmente perder , muito mais temero- 
íb lhe pareceo verem fobre fi hurna efeu- 
riíTima noite , que a negridao do tempo der- 
ramou fobre aquella região do ar, de ma- 
nei- 



394 ÁSIA de João de Barros 

neira , que huns aos outros não fe podiam 
ver, ecom o aífoprar do vento muito me- 
nos ouvir , fomente fentiam que o Ímpeto 
dos mares ás vezes punha as náos tanto no 
cume das ondas y que parecia que as lança- 
va fora de íi na região do ar , e logo fubi- 
tamente as queria lòrver 5 e ir enterrar no 
abyfmo da terra. Finalmente aíTi cortou o 
temor deftas coufas o animo de todos , que 
no geral da gente não havia mais que o no- 
me dejefus, e de fua Madre , pedindo per- 
dão de feus peccados , que he a ultima pa- 
lavra daquelles , que tem a morte prefente. 
E como as náos com a fúria do mar , e 
fraqueza dos mareantes andavam á vontade 
das ondas , fem acudir a leme 3 as quaes com 
aquelles Ímpetos muitas vezes pareciam cor- 
tarem pelo ar, e não pela agua, aj untou- íe 
a náo de Simão de Miranda com a de Pc- 
dralvares , e quiz a piedade de Deos que a- 
mefma fúria dos mares que as ajuntava 5 
quando veio ao feguinte movimento , furtou- 
fe cada huma pêra fua parte , com que fi- 
caram livres daquelle grande perigo. Pcró 
nem por iflb ellas , e as outras efeapáram 
de muita fortuna, em que cada dia fe lhe 
reprefentava a morte , per efpaço de vinte 
dias 5 que correram á arvore fecca , fem nef- 
íe tempo darem mais vela que finco vezes 
cemmetterem metter algum bolfo pequeno 3 

mas 



Década I. Liv. V. Cap. II. 395" 

mas o vento não confentia ante íi coufa 
que o impediífe. E porque cada hum per 
fi paliou tanto trabalho, que daria muito a 
nós em o eícrever, e muito maior a quem 
o houveííe de ouvir , fe particularizaflemos 
os paflbs delle , bafta faber que de toda e£- 
ta frota Pedralvares fe achou a dezefeis dias 
de Julho no parcel de Çofaia com féis ve- 
las tão defapparelhadas de moftos, vergas, 
velas , e enxarcea , que mais eítavam pêra 
fe tornar a efte Reyno , fe fora perto delle , 
que ir avante a conquiftar os alheios. E 
ainda que a gente Portuguez naturalmente 
hc foffredora , emui pacienta em trabalhos, 
e nos cafos de tanto perigo , e neceííidade 
fe fabe bem animar , como nefta primeira 
moítra da boa ventura que á índia hiam 
bufcar , á vifta dè feus olhos perderam pa- 
rentes , e amigos , era tamanha confusão em 
toda agente não coftumada a navegar, que 
per toda anáo de Pedralvares fe apartavam 
os homens huns com outros , principalmen- 
te a gente commum , tratando de dúvida , 
e inconvenientes de'profcguir aquelle cami- 
nho. A qual coufa fentindo Pedralvares , com 
palavra , e favor no que podia , animava , 
e conformava a todos , té que o tempo cef- 
fou 5 e lhe trouxe coufa ante os olhos que 
os alvoraçou , perdendo da memoria o temor 
paliado ' 7 porque fendo tanto avante como 

as 



396 ÁSIA de João de Barros 

as Ilhas , a que ora chamam as Primeiras , 
houveram viíia de duas náos , que lhe fica- 
vam entre ellas , e a terra , as quaes vendo 
tamanha frota, começaram de fe cozer com 
terra pêra tomar algum porto. Pedral vares 
quando entendeo que o temor lhe fazia to- 
mar aquelle caminho , mandou a ellas , e 
não puderam os noílbs navios fazer ifto tão 
preftes , que quando chegaram , já hum a ti- 
nha dado comílgo em terra , e a gente ef- 
tava poíta em falvo , e a outra foi tomada ; 
na qual acharam hum Mouro , que deo ra- 
zão a Pedralvares , que o temor delle os fi- 
zera varar em íecco , e que daquelias duas 
náos vinha por Capitão hum Mouro prin- 
cipal chamado Xeque Foteima , que era tio 
d 5 ElRey de Melinde , o qual viera a Çofa- 
la fazer refgate com fazenda , que trouxera 
naquellas duas náos , e que fe tornava pêra 
Melinde. Sabendo Pedralvares vir alli pcí- 
íba tão principal , o mandou fegurar , c veio 
a elle Xeque Foteima , homem de idade , 
e que em fua prefença reprefentava quem 
elle diffe ler , ao qual Pedralvares fez hon- 
ra , e gazalhado por ler iio delRey de Me- 
linde, de quem D. Vafco da Gama , quando 
per alli paliou 5 tinha recebido o gazalhado 
que atrás vimos, e peró que elle confeílaf- 
fe vir da Mina de Çofala , como todos eram 
ciofos delia , não defeubrio o que fe depois 

fou- 



Década I. Liv. V. Cap. II. 397 

foube per outros , nem menos Pedralvares 
íhe quiz fobre iífo fazer muitas perguntas y 
por lhe não dar mais fufpeita , antes dan- 
do-lhe algumas coufas, o efpedio defi com 
palavras de que foi contente , e muito mais 
efpantado , vendo quão bom tratamento lhe 
fizeram os noííbs , tendo per aquella cofta 
entre os Mouros fama de mui cruéis , e que 
não perdoavam á fazenda , nem ás peílbas. 
Tornado Xeque Foteima á fua náo a fe 
adjuntar com a outra > feguio Pedralvares 
feu caminho té chegar a Moçambique a vin- 
te dias de Julho 5 onde foi mui bem rece- 
bido da gente da terra , por quanto damno 
que tinham feito a D, Vafco da Gama , e 
aííi do que delle receberam eftavam tão te- 
morizados de lhe fobrevir outro maior , que 
moftráram grande prazer com fua chegada , 
e em féis dias que Pedralvares alli eíteve , fe 
repairou do damno que lhe a tormenta fez 
nas coufas da mareagem , e houve Piloto 
mais facilmente do que fe deo a D. Vafco 
da Gama , quando per alli paliou, 



CA- 



398 ASIÀ de João de Barros 

CAPITULO III. 

Como Tear alvares Cabral fe vio comFJRey 

de Ouiloa , e do pouco que acabou com 

elle , e depois foi ter a Melinde , onde 

EIRey orecebeo c om muito prazer y 

e dahi fe par tio pêra a Índia. 

PArtido Pedralvares de Moçambique com 
as féis velas que lhe ficaram , veio fem- 
pre ao longo da coita com rcfguardo de 
não efcorrer á Cidade Quiloa , onde che- 
gou a vinte e féis de Julho , na qual reina- 
va hum Mouro per nome Habrahemo , que 
per aquella coíla era homem mui eílimado , 
e a Cidade huma das mais antigas que fe 
alli fundaram , ( da qual ao diante faremos 
maior relação , ) o qual polo trato de Ço- 
fala eftar muito tempo debaixo de fua mão , 
le tinha feito rico, cpoderoíb, e com elle 
mandava EiRey a Pedralvares que fe vifle , 
e alTentaífe paz , e fobre iflb lhe trazia car- 
tas. Surto elle diante da Cidade , mandou 
em hum batel AfFonfo Furtado , que hia 
por Eferivao da Feitoria que fe havia de 
fazer em Çofala , com recado a EiRey , fa- 
zendo-lhc faber como EIRey de Portugal 
leu Senhor lhe mandava que chegaífe áquel- 
le feu porto , e lho déííe certos recados , 
que lhe pedia houveíle por bem que fe vifi- 

fem 



Década I. Liv. V. Cap. III. 399 

fcm ambos , ao que EIRey refpondeo com 
palavras de contentamento de lua chegada > 
e quanto a fe verem ambos , elle era con- 
tente , e pêra iíTo podia fahir em terra quan- 
do mandaffe 3 e com eíle recado lhe enviou 
refrefco de carneiros , e outros mantimen- 
tos da terra , pedindo-lhe perdão por o to- 
mar em tempo que ella eftava hum pouco 
fecca 3 e mal provida pêra tal peíiba. Pe- 
dralvares com os agradecimentos do prefen- 
te 3 e retorno d'algumas coufas do Reyno , 
lhe mandou dizer , que quanto a elle fahir 
em terra pêra fe verem , o regimento del- 
Rey feu Senhor lho defendia , e fomente 
lhe era concedido fahir em terra pêra dar 
huma batalha a quem não acceptaífe fua 
amizade; porém por honra de hum tal Prín- 
cipe como elle era , o mais que faria na- 
quelle cafo de fe verem ambos 5 feria elle 
Pedralvares fahir da fua náo em algum na- 
vio 3 ou batel 3 e que elle fe podia mettér 
em hum zambueo 3 e que defronte da Ci- 
dade no mar fe veriam. EIRey vendo eíle 
recado ? per efpaço de dous dias andou pai- 
rando com cautelas 5 e modos pêra efcufar 
efta vifta ; mas porque os recados , e répli- 
cas de Pedralvares o apertaram muito 3 con- 
cedeo nilfo 3 mais com temor 3 que com 
boa vontade , e o dia que havia de fer 5 quiz 
elle moílrar oapparato de feu efíado, vindo 

em 



400 ASIÀ DE JOÃO DE BARROS 

em dous zambucos junto hum ao outro com 
a principal gente, e o outro povo commum 
nos outros zambucos o acompanhavam , 
mas não que elle fe aíFaítaíTe da terra. Pe- 
dralvares também em feus bateis embandei- 
rados , e gente veílida de louçainha , e ao 
longo das toftes dos bateis refguardo der- 
mas , chegou a EIRey , onde ceifou o ef- 
trondo das trombetas , e atabales , e come- 
çaram entrar na prática , depois que fe tra- 
taram as cortezias , e cçremonias da primei- 
ra viífa. E porque Pedral vares gaitou mui- 
tas razoes acerca de contentamento que EI- 
Rey feti Senhor teria em elle acceptar as 
coufas da nofla Fé , leixou EIRey de re- 
fponder ás em que lhe apontou acerca do 
trato de Çofala , e tomou argumento pêra 
fe efpedir delias, dizendo, que eftas coulás 
por ferem novas , e fora do coítume , e cren- 
ça em que elle , e todolos feus naturaes fe 
creáram , compria pcra poder refponder a 
ellas ter mais tempo do que ambos alli ti- 
nham , e mais fendo de qualidade pêra fe 
haverem de communicar com os principaes 
de feu confelho , a maior parte dos quaes 
não era prefente ; que lhe pedia , que por 
aquelle dia houveífe por bem fer gaitado em 
fe ambos verem , e elle poder dizer per li 
o contentamento que tinha de EIRey de 
Portugal folgar de o ter por fervidor. E 

com 



Década I. Liv. V. Cap. III. 401 

com cilas palavras , concertando que dahi 
adous dias daria refpofta do mais, fe cfpe- 
díram. EIRey quando veio ao outro dia, 
por moítrar que eftava contente da prática , 
mandou muito maisrefrefco da terra, e fol- 
iou que alguns Mouros vieffem vender ás 
náos mantimentos , eifío mais em modo de 
efpiar o numero da noíTa gente , e poder 
que traziam, que a outro algum fim. Pedral- 
vares como entendeo neíles ao que vinham , 
mandou a todolos Capitães que tiveflem 
fuás náos como homens que eftavam apon- 
to de fahir em terra cada hora que lho 
mandaffem , e que aquelles Mouros tudo 
viííem armas ; porém que foflem bem tra- 
tados , e no modo de comprar , e vender 
fe houveífem liberalmente com elles , por- 
que efta maneira tinha com aquelles, que vi- 
nham á fua háo ; e ainda pêra os mais le- 
gurar , fe entre os que vinham vender man- 
timentos acertava de virem alguns , que pa- 
reciam homens honrados , dava-lhes algumas 
peças com que hiam contentes , mas não 
convertidos de feu máo propofito , porque 
mais podia o ódio que nos tinham , que os 
dons que lhes davam. Finalmente em três 
dias , que Pedralvares alli efteve depois das 
viílas , nunca pode haver d^ElRey conclu- 
são alguma , e tudo eram efcufas , que os 
principaes homens de feu confelho eram 
Tom. L * Ce idos 



402 ÁSIA de JoÁo de Barros 

idos a huma guerra , que tinha com os Ca- 
fres 5 que como vieflcm , romaria determi- 
nação nas coufas em que praticaram : que 
lhe pedia , e rogava muito que fe não agaí- 
taíle , porque não podiam tardar por os ter 
já mandados vir. Porém neíles dias todo 
feu cuidado era mettcr muita gente dos Ca- 
fres dentro comíigo , e repairar a Cidade y 
como quem efperava de a defender, e que 
eílc havia de ler o fim de fua refpofta , das 
quaes coufas Pedralvares era avifado , por- 
que acertou d'cftar alli com huma náo, fa- 
zendo mercadoria , hum Mouro chamado 
Xeque Homar irmão d'ElRey de Melinde , 
o qual era prefente ás amizades, que Dom 
Vai co da Gama a (Tentou com feu irmão , { 
quando paífou por Melinde 5 e daqui ficou 
tanto noífo amigo , e mais vendo o poder 
da noífa Armada, que foi Pedralvares avi- 
fado per elle do que paífava dentro , e mais 
houve-lhe fecretamente alguma agua , a qual 
EIRey tinha promettido , e depois indo os 
noíTos por ella , acharam os calões , que são 
huns vafos de barro , em que os da terra a 
traziam 5 todos quebrados , e agua vertida 
A borda da praia \ dizendo fer ifto feito per 
hum Mouro chamado Abrahemo meio fan- 
deu. Pedralvares quando per derradeiro víom 
que efte negocio não fe podia determinar 
fenão com fahir em terra , poíto o cafo em 

con- 



Década I. Liv. V. Cap. III. 403 

çonfelho , aífentou-fe nelle fer grande incon* 
veniente % por caftigar a maldade daquelle 
Mouro , aventurar gente em tão baixo em- 
prego , c. que era mais ferviço d 5 ElRey fe- 
guirem fua viagem , e leixar eíle caftigo pê- 
ra outro tempo. Pofto que a Pedralvares 
foíTe grande tormento leixar aquelle Mou- 
ro fem caftigo 5 teve mais conta comfeguir 
o principal intento , a que era mandado áquel- 
las partes , que a fua paixão , e fem lhe mais 
mandar algum recado \ ao terceiro dia das 
viftas partio-fe peraMelinde, onde chegou 
a dous dias de Agoíto , e foi mui bem re- 
cebido , e feítejado d'EÍRey ; porque além 
da amizade que comnofco tinha , dobrou 
efta boa vontade a nova , que lhe deo Xeque 
Foteima da honra i que lhe Pedralvares fize- 
ra y e a razão porque : e mais com a noífa 
Armada ficou mui favorecido , porque polo 
gazalhado que fizera a D. Vaíco da Gama y 
EIRey de Mombaça eftava com elle em 
guerra de fogo , e fangue , em que elle ti- 
nha perdido muita gente , e fazenda , por 
EIRey de Mombaça fer mais poderoíò do 
que elle era. E ainda por não publicar tan- 
to a amizade que tinha comnofco , efcon- 
deo o Padrão de marmor > que D. Vafco da 
Gama alli leixára mettido , (como atrás fica , ) 
porque indo João de Sá com hum recado 
a elle de Pedralvares no primeiro dia da 
Ce ii che^ 



404 ASIÀ de Joiío de Barros* 

chegada, como homem, que fora alli com 
D. Vafco da Gama , a primeira coufa por- 
que lhe perguntou foi polo Padrão > dizen- 
do que o não via onde elle o ajudara met- 
ter. Ao que EIRey refpondeo, que elle o 
tinha mui bem guardado em huma cafa j e 
tomando João de Sá pela mão , o levou á 
caía , onde o tinha almagradas as armas de 
freíco , como que havia algum dia que fo- 
ra feito , pêra quando lhe fora pedido con- 
ta delle o moftrar aíTi , como coufa tida em 
veneração ; dando-lhe por defculpa , que em 
quanto o tivera no lugar público, onde fe 
elle metteo , foi tão perfeguido d'E!Rey de 
Mombaça , fazendo-lhe crua guerra , que lhe 
conveio mandallo efconder naquella cafa per 
coníelho de feus vaífallos , com efperança 
de vir aquella Armada d'ElRey de Portu- 
gal , e lhe fazer queixume daquelle máo 
vizinho , que tanto damno lhe tinha feito , 
tudo por fer leal amigo aos Portuguezes. 
Tornado João d.e Sá com recado a Pedral- 
vares , efobreelle enviados per EIRey dous 
homens principaes com prefente de refref- 
co , ao feguinte dia mandou Pedral vares ao 
Feitor Aires Corrêa bem acompanhado com 
as coufas que levava pêra efte Rey , levan- 
do diante do prefente muitas trombetas ; o 
<qual prefente EIRey mandou receber com 
grão íòlemnidade ? porque ao batel donde 

Ai- 






Década I. Liv. V. Cap. IIT.v 403: 

Aires Corrêa defembarcou , vieram doS mais 
principaes homens que EIRey tinha 5 e com 
muita honra , e feita o foram acompanhan- 
do té o prefentarem ante EIRey : e em to- 
dalas ruas per onde hia , eítavam ás portas 
perfumes cheiro fos , moftrando todo o povo 
em feu modo tanto contentamento , como 
; fe aquella feita fofíe feita ao próprio Senhor 
da terra: tanto eftimou EIRey aqueila lem- 
brança , € conta que fe com elle tivera. E 
foi tamanho o feu contentamento , depois 
que ieo a Carta que lhe EIRey eícrevia , (a 
qual era em Aravigo , ) que não confentio 
que Aires Corrêa fe tornaííe á náo , e man- 
dou dizer a Pedralvares , que lhe pedia hou- 
veffe por bem que Aires Corrêa ficaíTe lá 
aquella noite , e ao dia feguinte pêra prati- 
car nas coufas d 5 ElRey de Portugal. Que 
pêra fegurança da peílca de Aires Corrêa 
lá ficar , elle mandava a fua mercê o annel 
do feu íinete , onde eftava toda a verdade 
Real ? pofto que bem tinha moftrado fua 
fé nos trabalhos da guerra , que EIRey de 
Mombaça lhe fazia , por fer leal amigo , e 
fervidor d 5 E!Rey de Portugal , o qual rogo 
lhe Pedralvares concedeo polo comprazer, 
e também porque na prática , que Aires Cor- 
rêa com elle tiveífe , pois havia de fer com- 
prida , o confirmaíle mais no amor , e leal- 
dade 5 que moítrava ter ao feryiço cTEIRey 

feu 



406 ÁSIA de JoÁo de Barros 

feu Senhor , e aífi foi , porque logo aífen- 
tou como le ambos viíTem no mar ao mo- 
do que fe vira com EIRey de Quiloa , o 
que elle fez fem as cautelas que o outro 
teve. Na qual viíla houve grandes confir- 
mações de paz , e offertas delRey, dizen- 
do elle , que todo feu eítado , e peíToa da- 
quelle dia pêra fempre elle o fobmettia á 
vontade d'ElRey de Portugal , como do 
mais poderofo Principe da terra. E per ef- 
paço de dous dias , que depois deita vifitação 
Pedralvares alli efteve , íempre de huma , e 
outra parte houve recados , e obras de gran- 
de amizade. Neíle lugar leixou Pedralvares 
dous degredados dos que levava , e a cau- 
fa de os aqui lançar , era , porque lhe man- 
dava EIRey D. Manuel , que como foíle 
neíta coíla , leixaiTe nella alguns dos degre- 
dados que levava , pêra irem per terra def- 
cubrir o Preíle João , por ter já fabido que 
per eíla coíla podiam ir ao interior da ter- 
ra daquelle fertão , onde elle tinha feu eíla- 
do ; iílo com grandes promeífas de mercê 
fe defcubriíTem eíle Principe tão defejado : 
hum havia nome João Machado , e o ou- 
tro Luiz de Moura ; mas elles tomaram ou- 
tro caminho j como veremos em feu lugar, 
E o que João Machado fez foi de mais fer- 
viço d'ElRey naquelle tempo, que eíle do 
Prçíle que lhe mandavam fazer. Pedralvares 

lei- 



Década I. Liv. V. Cap. III. e IV. 407 

leixando a eítes dous homens a Provisão 
pêra fua defpeza , e Cartas d'ElRey D. Ma- 
nuel pêra o Prefte, efpedio-fe d'ElRcy de 
Melinde, o qual lhe deo dous Pilotos Gu- 
zarates pêra o levarem á índia , pêra onde 
partio a fete d'Agofto. 

CAPITULO IV. 

Como Pear alvar es chegou d liba de An- 
chediva , onde ejieve alguns dias repairan- 
do-fe do necejjario , e dahi chegou a Cale- 
cut , onde per recados que teve com El- 
Rey y concertaram ambos que fe vijjèm. 

ATraveíTando Pedralvares Cabral aquel- 
le grande golfão de mar de fetecentas 
léguas , que pode haver de Melinde > que he 
na coita da terra de Africa , á cofta da ín- 
dia, chegou a vinte etres diasd 5 Agofto vef- 
pêra de S. Bartholomeu á Ilha Anchediva , 
de que atrás fizemos menção , , onde eíteve 
quinze dias repairando as náos , e proven- 
do-fe d'agua , e lenha , principalmente tam- 
bém por eíperar apaíTagem d'algumas náos 
de Meca , que com a mefma neceflidade, 
e por melhor navegação , fempre hiam de- 
mandar aquella Ilha , das quaes náos mui- 
tas eram já paliadas, e. algumas eftavam em 
Calecut , onde Pedralvares as achou , e ou- 
tras per efFes portos de Malabar , fazendo 

feus 



408 ASIÀ de João de Barros 

ièus proveitos. E os dias que efteve nefta 
Ilha , os Gentios da terra lhe traziam man- 
timento , e fruta da terra , folgando ter a 
communicaçao dos noíTos , porque como era 
gente pobre 5 e por qualquer coufa que tra- 
ziam lhe davam muito 5 acudiam tantos que 
os haviam já por importunos. Muitos dos 
quaes , quando os noíTos ouviam MiíTa , e 
receberam o Sacramento da Communhão , 
citavam a eíles Ofticios com attenção ; mas 
como os Rcligiofos, e Sacerdotes d' Arma- 
da , a quem pertencia a conversão dellcs , não 
fabiam a língua da terra a que era o princi- 
pal inílrumcnto pêra vir a effeito a boa di£ 
pofiçao que nelles citava , não fe pode por 
então mais fazer que prcparallos com boas 
obras pêra quando a opportunidade do tem- 
po deite a iíTo lugar. Pedralvares partido dal- 
li via de Calecut , chegou ao leu porto a 
treze de Setembro, onde logo ante de fur- 
gir foram derredor dclle muitos barcos da 
terra , todos como gente que moítrava con- 
tentamento de fua chegada , e fobre elles 
veio hum zambuco . em que vinha hum mer- 
cador Guzarate , homem em feu trajo , e 
prefença de aucloridade , que da parte d 5 El- 
Rey viíltou Pedralvares , o qual elle rece- 
beo , e efpedio com gazalhado , mandando 
a ElRey as graças de fua vifitação , e ao 
Mouro fôtisfez com algumas pecas 3 porias! 

cof- 



Década I. Lxv. V. Cap. IV. 409 

coílume da terra partirem os menfajeiros 
contentes dapelfoa a que levam os taes re- 
cados. E como eíla vi íí tacão foi ante de el- 
le Pedralvares mandar falvar a Cidade , além 
de asnáos chegarem muito embandeiradas, 
e per feu coílume na chegada de tal porto 
tiravam alguma artiiheria , aqui mandou do- 
brar a fúria delia 5 moftrando-fe tudo por 
feíia da viíitaçao d'E!Rey. A trovoada da 
qual não lbmente avorreceo ao Mouro , 
que foi com a vifitação, por a levar toda nas 
coitas , aítrogindc-lhe as orelhas 3 mas ainda 
na Cidade fez tamanho efpanto , que eftan- 
do a praia cuberta do povo na viíia das náos , 
defamparáram tudo , recolhendo-fe muitos 
delles a fuás caías. Paliado aquelíe dia 5 que 
todo fe defpendeo em amarrar as náos 5 e 
aperceber pêra a fegurança delias , quando 
veio ao outro dia, mandou Pedralvares re- 
cado a ElRcy per João de Sá , que fabia 
a terra , por íer hum daqueiles , que foram 
com D. Vaíco da Gama , e com clle huma 
lingua do Aravigo , pedindo-lhe dia pêra 
lhe mandar certos recados , que trazia d'El- 
Rey de Portugal feu Senhor , e iílo té fe 
ambos verem. Ao que EIRey refpondeo 
com boas palavras ; e quanto ao dia pêra 
ouvir novas d 5 ElRey de Portugal , não po- 
dia mandar efte recado tão cedo , que não 
foííe tarde pêra elíe , fegundo o defejo que 

ti- 



*4io ÁSIA de JoÃo de Barros 

tinha de ouvir novas de fua difpofição. Pe* 
dralvares íem cautela alguma de reféns , por 
nao moílrar defconfiança d'ElRey , ao ou- 
tro dia en\iou a elle Aires Corrêa , e Af- 
fonfo Furtado , ejoão de Sá, que o acom- 
panhavam , e por lingua Gafpar da índia. 
Per o qual Aires Corrêa lhe enviou dizer, 
que a principal coufa , que o trazia áquelle 
feu porto mais que a outra d'algum Rey, 
ou Príncipe da índia , era o que já per ou- 
tro Capitão d'ElRey feu Senhor tinha fabi- 
do , fer o feu nome tão celebrado nas par- 
tes Occidentaes da Chriítandade : que defe- 
jando EIRcy de Portugal feu Senhor ter com 
elle amizade , e communicação per traíto 
de commercio , mandara a elle hum Capi- 
tão feu chamado Vafco da Gama , ao qual 
elle agalardoou com honra , e mercê , fo- 
mente por lhe levar tão boa nova , como era 
ter achado caminho pêra fe communicar 
com elle Çamorij. Da qual nova procedera 
mandar logo fazer huma Armada de treze 
náos , com que elle Pedralvares partira de 
Portugal , das quaes no caminho tinha per- 
dido finco com hum grande temporal que 
lhe dera. E pois elle , louvado Deos , com 
aquellas poucas era chegado ante aquella 
fua Real Cidade , que era o lugar , onde El- 
Rey feu Senhor o enviava fobre eíla ami- 
zade, e commercio que dizia, e iíto eram 

cou- 



Década I. Liv. V. Cap. IV. 411 

coufas de qualidade , que requeriam verem- 
fe ambos , pedia a fua Real Senhoria or- 
denaíTe como , e quando podia fer. As quaes 
viftas foíTem de maneira , que pudeíTe elle 
cumprir o que lhe EIRey feu Senhor man- 
dava, que era em nenhum modo fahir em 
terra ; e quando fe não pudeíTe ai fazer , fof- 
fe em parte tão pegada no mar 9 e com tan- 
tos reféns , que não dizia a pcííòa delle pró- 
prio Capitão , mas o mais pequeno homem , 
quevieííe naquclia Armada, eftiveíTe muifè* 
guro , e ifto em Calecut , onde fabia haver 
Mouros , que procuravam traições aos feus. 
Porém pêra caftigar aos mefmos Mouros, 
quando cumpriíTe , não dizia elle pôr es pés 
em terra , mas que per todalas partes os 
perfeguiíle á força de ferro. EIRey a eíle 
recado , que lhe levou Aires Corrêa , toda. 
a conclusão delle foi refponder com pala- 
vras do contentamento da chegada delle Ca- 
pitão ; e que como elle eftiveíTe em difpo- 
íiçao pêra fe verem , tudo fe faria no me- 
lhor modo que pudeíTe fer. Peró Pedralva- 
res como já fabia que a maneira de nego- 
ciar d'ElRey daquellas coufas , que elle não 
fazia de boa vontade , tudo eram dilações , 
começou logo com outros recados apertar 
que fe viíTem. O qual pofto que não podia 
fofFrer dar os reféns , que lhe Pedralvares 
pedia, e toda fua efeufa era ferem homens 



412 ÁSIA de JoÁo de Barros 

velhos 5 e da geração dos Brammanes , os 
quaes por razão deíua religião não podiam 
comer, nem dormir íenao em íua própria 
cafa , e quando fe tocavam com gente fora 
de fua geração , tinham luas purificações , e 
ceremonias , de que não podiam ufar eílan- 
do no mar , todavia houve de conceder em 
os dar , e aííi no modo das viílas como Pe- 
dralvares quiz , porque o temor da gente , 
náos , e artilheria , que via ante íi , lhe fize- 
ram cumprir o que negava per vontade. E 
efte modo , e lugar foi em hum cerame , 
que eftava fobre o mar , que como hum ei- 
rado cuberto , armado fobre madeira muito 
bem lavrada , onde os Rcys por feu paífa- 
tempo , e recreação ás vezes vinham dar 
huma viíta ao mar. O qual cerame EIRey 
mandou aparamentar depannos de feda , fe- 
gundo o ufo , que elles tem neíles actos de 
viílas com peífoas de eftado , e tudo man- 
dou fazer de maneira , que pareceffe vir elle 
áquelíe lugar mais por feu prazer , e por 
folgar de ouvir aquella embaixada , que por 
outro algum temor. Pedralvares também por 
mais fegurar EIRey , e não ferem aquellas 
viílas com tanta defeonfiança , que pêra con- 
ciliar , e adquirir amizade era coufa perju- 
dicial , não quiz que tudo fofFem cautelas , 
e mais porque nellas moflrava temor. E 
conlo nefta fegurança de que dlt quiz ufar , 

o ma^ 



Década I. Liv. V. Cap. IV. 413 

o maior rifco era íua fazenda , e não em 
coufas de que pudefle dar conta j que tive- 
ra pouco refguardo em fe confiar, no tem- 
po que andaram eíles recados de fuás vi£- 
tas, depois que aífentou com EIRey onde 
haviam defer, mandou-lhe pedir huma ca- 
la junto daquelle feu cerame , onde mandaf- 
fe levar algum fato feu pêra eílar ahi eífes 
dias que a prática dentre elles duraífe, por 
não ir, e vir tantas vezes ao mar. A qual 
cafa lhe foi dada , e a primeira coufa que 
Pedralvares mandou levar a ella , foi a fua 
prata , e coufas do ferviço de fua peífoa , 
quaíi á vifta de todos , porque foubeífc El-r 
Rey , que como homem confiado mandava 
aquellas coufas , e também que eram final 
que fazia tanto fundamento da terra, como 
do mar, poílo que no modo de fe verem, 
e reféns que pedio , moftrava alguma des- 
confiança. Vindo o dia deitas .viftas , eíco- 
Iheo Pedralvares pêra levar comfigo os Ca- 
pitães, e peífoas notáveis , leixando porém 
alguns com cuidado do que havia de fazer, 
quando algum cafo não efperado fobrevief- 
fe; e eílava aífi ordenado, que em Pedral- 
vares abalando das náos pêra terra , de lá 
haviam de vir os arrefens , de maneira , que 
quando elles entraíTem em as náos, elleche- 
gaíTe ao cerame , os quaes em numero eram 
leis , todos apontados per Aires Corrêa per 

rol 5 



414 ÁSIA de João de Barros 

rol , que de cá do Reyno levava per indus- 
tria de Monçaide , por eíles ferem dos prin- 
cipaes da terra , fegundo também confirma- 
ram os Gentios , que D. Vafco da Gama 
comfigo trouxe ? os quaes Pedralvares le- 
vou pêra lá darem nova da grandeza de 
Lisboa , e tráfego das mercadorias , e náos , 
que a ella concorriam ? e hum deites arre- 
fcns era o Catual , que tanto trabalho deo 
a D. Vafco da Gama , (como diífemos atrás ; ) 
e os dous mais principaes , ambos Officiaes 
da fazenda d 5 ElRey , haviam nome Perin- 
góra Raxemenoca , todos homens já de dias y 
e mui religiofos na faa gentilidade, 

CAPITULO V. 

Como pajpíram as vijias entre EIRey , 
e Pedralvares Cabral: e a reprefaria ? que 
per fim delias houve de huma parte a ou- 
tra por razão dehuns ar reféns : e per der- 
radeiro concertados , fahio Aires Corrêa em 
terra a fazer negocio. 

COmo eítas viítas 5 que Pedralvares ti- 
nha aífentado com o Çamorij eram hu- 
ma moítra , per que fe podia julgar a poli- 
cia 3 e riqueza deite Reyno , mandou aos 
que citavam apontados pêra íahir em terra 
com elle , que fe veítiffem , e atabiaífem do 
feu, e do empreitado o melhor que pudef- 

fem. 



Década I. Liv. V. Cap. V- 41? 

fem. O que todos fizeram á competência de 
quem levaria mais feda , mais jóias , e nos 
bateis cada Capitão mais bandeiras , com 
todolos inftrumentos de tanger, fem tiro al- 
gum d'artilheria , por não affombrar aquel- 
h gente no afto de tanta fefta. E elle Pe- 
dralvares hia veftido comhuma opa de bro- 
cado , e o mais que dizia com ella , trajo 
que naquelle tempo era mui ufado nefte 
Reyno. Chegado com efta pompa á praia , 
porque não podia fahir a pé enxuto , foi 
levado em eólios de homens em hum ^ndor 
dos da terra, té o metterem entre os Prin- 
cipaes do Gentio, que o Çamorij mandou 
que o vieflem receber a praia, o qual Ça- 
morij eftav-a já no cerame em vifta delle , 
efperando que vieíTe. E-poílo que elle Ça- 
morij não tinha tanto panno , feda , ouro , e 
opa de brocado , como os noífos levavam , 
ehum panno de algodão bornido com hu- 
mas rofas de ouro de pão femeadas por el- 
le , a que chamam purava , (trajo de Bram- 
manes , ) cubria léus couros entre baços , e 
pretos , a pedraria das orelhas , barrete da 
cabeça , pateca cingida , e bracelletes dos 
braços , e pernas , eram €Íias coufas de tão 
grande eftima , que não haviam inveja ás 
jóias dos noífos. Finalmente naquelle efta- 
do em que elle eftava , aííi em couros , e 
defcalfo , e fora daquellas oparlandas de 

mui- 



416 ÁSIA de João de Barros 

muito panno que cáiifamos, em feu modo 
cercado daquelles léus vaííallos , elJc rcpre- 
léntava bem a dignidade Real que tinha. 
Ao qual chegando Pedralvares , elle íe le- 
vantou em pé de huma cadeira , em que ef- 
tava chapada de ouro com alguma pedra- 
ria , e o veio receber , fazendo-lhe muito 
acatamento té o lugar onde fe aflen taram. 
E paliadas as ceremonias da primeira vifta , 
deo-lhe Pedralvares a Carta , que levava d'El- 
Rey D. Manuel. OQimorij, depois quelha 
interpretaram do Aravigo cm que hia cf- 
crita , diffe a Pedralvares , que por aquella 
Carta d"ElRey de Portugal tinha entendido 
fua boa vontade ; e como elle Capitão era 
enviado áquelle léu porto pêra tratar coufas 
de paz , e amizade com elle \ e affi do com- 
mercio d#s efpcciarias ; e que acerca deftas , 
e outras coufas, que elle Capitão trazia em 
fua memoria, lhe podia dar fé, e por todas 
ferem da vontade delle me fino Rey feu Se- 
nhor ; elle podia praticar em algumas , ou 
ficaíTem pêra outro dia , fe lhe a elle bem 
pareceíTe. Pedralvares por eftar avifado que 
todo eftc Gentio hc fubjedto a muitos agou- 
ros , e fe atravefía huma gralha , ou qual- 
quer coufa que fe lhe antolha , leixa tudo , 
dizendo , que não lie boa hora pêra nego- 
cio , principalmente quando lhe a elles não 
e fobre iffo são mui taxados na 

prá- 



Década I. Liv. V. Cap. V. 417 

prática , receando que lhe podia iílo acon- 
tecer , em breves palavras diíTe , que a cau- 
la de fua vinda ? e com quantas náos par- 
tira deite Reyno , e as que perdera , e a 
mercê que EIRey fizera a D. Vafco da Ga- 
ma por defcubrir aquelie caminho. Final- 
mente , que aquellas náos vinham alli a dous 
fins : o primeiro , pêra que fe elle Çamorij 
tivefle alguma neceífidade de gente , ou ar- 
mas pêra defensão de feu Reyno , que EI- 
Rey feu Senhor mandava que lhas oífere- 
ceífe : o fegundo fim era pêra as carregar 
de eípeciaria , pêra compra da qual trazia 
ouro, prata, e muitas mercadorias de toda 
a forte que naquellas partes ferviam. E por- 
que elle Pedraívares tinha fabido que fua 
Real Senhoria eítava em paz com léus vi- 
zinhos , ceifava a primeira caufa da vinda 
das náos , e elle Çamorij ficava na obriga- 
ção da fegunda , pois já lhe era manifeílo 
por duas Armadas , que EIRey D. Manuel 
tinha mandado áquelle feu porto , quanto 
niífo podia defpender , tudo a fim de que- 
rer ter amizade , e commercio com elle. Por 
tanto lhe pedia por mercê , que ordenaífe co- 
mo lhe foífem dadas as caias , que lhe já 
diífera Aires Corrêa 5 pêra elle Feitor fe vir 
a ellas com os Ofiiciaes da fazenda deiRey , 
e trazerem as mercadorias , que vinham em 
as náos pêra aquelie mifler, do qual nego- 
Torn L Dd cio 



418 ASIÀ de João de Barros 

cio Aires Corroa , depois que efteve em ter- 
ra , daria razão aos feus Officiaes pêra clles 
ibbre ilío fazerem conta das eípeciarias, 
que haveriam mifter pêra a carga : que quan- 
to ao preço , elle não queria novidade , fo- 
mente dar , e receber fegundo coftume da 
terra , conformando-fe com os mercadores 
de Pvíéca , que alli eram mais contínuos. El- 
Rey a eftas palavras rcfpondeo com outras; 
mais ao propofito do que elle defejava , que 
á conclusão do que Pedral vares lhe reque- 
ria , rclbmindo-fe nifto , que a cafa que pe- 
dia, elle a tinha mandado defpejar; e por já 
fer tarde , e os homens , que lhe mandara á 
não em reféns , eram velhos 3 e debilitados , 
e não podiam comer fegundo fua lei , e 
coftume , té ferem limpos do tocamento 
que tiveram com gente fora de fua geração , 
por efta fer huma das principaes partes de 
fua religião , lhe rogava que os mandaífe 
logo vir. Acerca dos quaes reféns , porque 
Pedralvares dilatava fua vinda , inííftio El- 
Rey tanto que vieífem , que lhe não valeo 
dizer que em nenhuma maneira podiam vir y 
fenão indo elle mefmo Pedralvares a iífo y 
porque os Capitães tinham confagrado em 
fua lei, ainda que foífem recados feus, não 
os darem fenão depois que viíTem a fua pef- 
foa dentro em as náos. Da qual porfia con- 
Yeio a Pedralvares , por ver EIRey meio ar- 

ru- 



Década L Liv, V. Cap. V. 419 

rufado, efeefpedir íem alguma conclusão, 
recolher-fe em os bateis cm que veio , di- 
zendo 9 que elle os mandava logo , parecen- 
do-lhe que todo efte apertar d 3 ElRey era 
mais por razão das ceremonias gentílicas > 
de que eiles são mui religiofos , que por ou- 
tra alguma maldade. Mas fegundo fe logo 
vio ,' elles pertendiam mais engano que re- 
ligião ; e parece que aífi o tinham os reféns 
ordenado com EIRey , que quaíi per fim da 
prática , tempo em que os das náos algum 
tanto fe podiam defcuidar delles, fe lançai- 
fem ao mar , e fe falvaíTem em os barcos 
da terra, osquaes pêra iíTo andariam de re- 
dor das náos. E deíla feita ainda que lhe 
não ficaíTe ém terra mais preza que a fazen- 
da do Capitão que lá citava , e os homens 
da guarda delia, bailava pêra fazerem fuás 
coufas mais á fua vontade ; tudo ifto eram 
induílrias dos Mouros. O qual negocio co- 
rno o tinham aflentado , aíli foi ; porque quaíl 
no tempo que EIRey fe efpedia de Pedral- 
vares , os reféns fe lançaram todos ao mar , 
de que três íè falváram , e outros três fo- 
ram tomados , o que Pedralvares muito fen- 
tio quando chegou á náo , e o foube , por- 
que já aquelle modo de paz eram começos 
de guerra. E temendo que fízeíTem os três 
que ficavam outro tanto , por os ter mais 
íeguros^ e menos mimofos , foram mettidos 
Dd ii no 



42o ÁSIA de Joio DE Barros 

no baixo da bomba , com homens que efti- 
veffem com elles 5 téElPvey fazer razão de 
ii dos homens , e fazenda que elle Pedral- 
vares mandara a terra. E como elle a efte 
tempo andava quartanario , com eftes des- 
concertos delRey, vinham-lhe dobradas as 
fezoes , lembrando-lhe os trabalhos que paí- 
fára no mar , e quanto maiores tinha por 
diante na terra , íobre o qual negocio por 
ficar daquella maneira defatado com ElRey , 
teve confelho com os Capitães d' Armada, 
No qual confelho aflentáram , que perefpa- 
ço de dous dias nao le movciTem , nem man- 
daiTcm recado algum a ElRey, porque nif- 
to lhe davam mais em que cuidar, e entre 
tanto fe ordenaíTcm como fe ao outro dia 
houveíTem de fahir em terra adeftruir a Ci- 
dade , porque as coufas que o ódio nega , 
o temor as concede. Parece que ou efte mo- 
do de confelho aproveitou , ou que ElRey 
fe arrcpendeo do que fez ; e também podia 
ter outro confelho com os Gentios , que de- 
fejavam tanto noíla amizade , quanto a ef- 
rrovavam os Mouros; porque quando veio, 
ao fegundo dia mandou dizer a Pedralvares , 
que elle citava hum pouco defcontente do 
dia em que fe viram paífarem algumas cou- 
fas , de que lhe parecia elle Capitão poder ter 
algum defprazer : por tanto lhe pedia que 
ambos fe tornaíTem a ver naquelie lugar 3 e 

que 



Década I. Liv. V. Cap. V. 421 

que não houvefíe cautelas de reféns por não 
haver azo de paixões , que procediam de 
homens fracos 5 e teime roíbs de fe ver fub- 
jeétos , fendo livres. Aífentada eíla vifta , foi 
•naquelle lugar do Cerame, entre o Çamo- 
rij , e Pedralvares jurada a paz , e difio fe 
paíTáram feus paítos > e fizeram contratos da 
cfpeciaria , com a qual paz 3 e concerto , 
Pedralvares mandou logo a Aires Corrêa, 
que fe foíTe apofentar nas cafas , que EIRey 
mandou dar junto da praia , levando com- 
íigo não fomente os Officiaes da Feitoria, e 
feífenta homens , que lhe Pedralvares orde- 
nou pêra lá eftarem com elle , mas ainda 
Fr. Henrique com os feus Religiofos pêra 
entenderem na prática 5 e conversão da gen- 
te , attentando efte negocio com grande pru- 
dência , por não mover algum efcandalo en- 
tre gente tão ca fará do nome de Chriffo , 
e tão coftumada a feus ritos 5 e diabólicos 
ufos , e fobre tudo induzidos contra nós per 
todolos Mouros. E como todos eíliveram 
em terra , que huns , e outros vinham á ca- 
fa da Feitoria , Aires Corrêa tinha cuidado 
do que pertencia a feu officio \ e Fr. Hen- 
rique , como carecia do principal inftrumen- 
to , que era iingua Malabar , não podia ufar 
do feu tão liberalmente como quizera , pof- 
to que á cafa concorria muita gente. Porém 
todo efte concurfo de ir , e vir á Feitoria , 

mais 



422 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

mais era a ver 5 que a comprar , nem rece- 
ber doflrina , de maneira que íe Fr. Hen- 
rique tinha pouco que fazer, Aires Corrêa 
menos ; nem os nonos , que tinham licença 
pêra andarem pela Cidade tão cautelofamcn- 
te , fe haviam com elles , que não achavam 
quem lhe quizeííe vender mais pimenta pu- 
blicamente , que pêra comer hum pouco de 
pefcado ; e íe alguma coula haviam , era 
do Gentio , que o não viflem os Mouros. Os 
quaes Mouros , ( principalmente os eftran- 
geiros de Meca , ) aíTi tinham tecido as cou- 
ias contra nós , que começando Aires Cor- 
rêa a praticar com os Officiaes , que lhe o 
Çamorij ordenou pêra darem a especiaria , 
com que fe haviam de carregar as nãos , 
começaram elles mais deíeubertamente mof- 
trar quanto engano nelies havia , bufeando 
efeufas por dilatar a carga, e gaftar o tem- 
po da partida dos noíTos. Pedralvarcs como 
cada hora lhe vinham recados de Aires Cor- 
rêa 5 deites modos , e efeufas que tinham 
com elle , as quaes fabia procederem mais 
dos Officiaes delRey , por ferem peitados 
dos Mouros 3 que da vontade delle Çamo- 
rij 3 (como aconteceo a D. Vafco da Ca- 
ma , ) determinou de lho mandar dizer per 
o mefmo Aires Corrêa , pêra melhor rela- 
tar o que faziam com elle. Entre os quaes 
queixumes era 3 que feus Officiaes por com- 
pra- 



Década I. Liv. V. Cap. V. 423 

prazer aos Mouros 9 lhe não davam carga , 
€ fecretamente de noite a davam ás náos de 
Meca , que alli eílavam , a qual coufa elle 
não podia crer fer mandado por elle Ça- 
morij , porque as palavras de hum tal Prín- 
cipe não podiam desfalecer , e mais quando 
eílavam obrigadas ajuramento , como elle ti- 
nha obrigado as fuás a dar carga ás fuás 
náos , e não ás de Meca. EIRey como já 
tinha facilidade com Aires Corrêa por as 
vezes que foi a elle , por meio de Gafpar 
da índia , que era o interprete , fe come- 
çou a defculpar , dizendo , que os mercado- 
res da pimenta não a tinham ainda recolhi- 
da da mão dos lavradores , por fer hum 
pouco cedo ; cá eram coílumados andar nef- 
te recolhimento com a monção das náos de 
Meca, e não com as.noflasj e alguma pou- 
ca, com que elle Aires Corrêa tinha já qua- 
íi carregado duas náos, (fegundo lheosfeus 
Officiaes diíferam , ) efta era pimenta velha , 
que ficara do anno paífado , e não fe podia 
mais fazer , fegundo lhe diziam os Officiaes 
feus , a que tinha encommendado efte feu des- 
pacho. Aires Corrêa como todalas palavras 
delRey eram defculpas , e a fomma , e con- 
clusão delias acabava, dizendo, que fe não 
podia mais fazer , deita , e d*outras vezes , 
que lá foi fobre o mefmo cafo , não vinha 
contente deliej e quem lhe fazia ter maior 

,e£ 



424 ÁSIA de João de Barros 

cfcandalo delRey , c o mais indignava fo- 
bre efte cafo , eram paixões , c competên- 
cias , que entre fi traziam dons Mouros , que 
fe moftravam grandes amigos delle Aires 
Corrêa j e o calo era efte. 

CAPITULO VI. 

Das paixões , e competências , que ha- 
via entre dous Mouros principaes de Ca- 
lecut , donde fe caufou os nojjòs irem tomar 
huma não carregada de Elefantes , que vi- 
nham de Cochij , e do que nijfo pajjou. 

HAvia nefta Cidade de Calecut dous 
• Mouros, homens mui principaes, a hum 
chamavam Coge Bequij , e a outro Coge 
Cemecetij , efte tinha o governo das couías 
do mar , e o outro das da terra. E como 
entre os Governadores de huma mefma Ci- 
dade pela maior parte fe acham invejas , e 
paixões dejuriíHicção , entre cites dous, pe- 
ró que fe fallaífem , e trataífem por razão 
dos officios , havia no peito de cada hum 
ódio mortal , e com a vinda dos noífos fe 
acerefeentou mais. Porque Aires Corrêa , de- 
pois que efteve em terra , por achar em Co- 
ge Bequij , em cujas cafas ellepoufava , mais 
verdade que no outro , folgava de o favo- 
recer , o que Coge Comeceiij fofria mui 
mal 5 porque fentia que com efta amizade 

feu 



, Década L Liv. V. Cap. VI. 42^ 

íèuimigo recebia mais honra, e algum pro- 
veito que o mais magoava , a qual dor o 
fazia trabalhar que não fe déífe carga ás 1101- 
ias náos , e ainda fobreveio coufa com que 
lhe pareceo que o feu defejo haveria me- 
lhor effeito ; e o caio foi efte. Soube elle 
que de Cochij > huma Cidade obra de vinte 
léguas dalli , era fahida huma náo , a qual 
vinha da Ilha Ceilão 5 e trazia fete Elefan- 
tes 3 que levava por mercadoria ao Reyno 
de Cambaya , e era de dous mercadores do 
mefmo Cochij , a que chamavam Mammale 
Mercar , e Cherina Mercar. Eíla náo como 
havia de paliar á viíla das noífas , pareceo- 
Ihe que com cila podia executar feu ódio 
á noíla cuíla- porque per qualquer via que 
travaíTem com ella , por fer náo mui pode- 
rofa de até feiscentos toneis 5 receberiam os 
noííos muito damno ; e quando o ella re- 
cebeííe , ficavam em ódio com os mercado- 
res de Cochij , e de toda aquella coíla , com 
que não achaíTem acolheita em porto algum. 
Com a qual tenção foi-fe a Aires Corrêa , 
e íimulando que lhe fazia niflo ferviço , dif- 
fe-lhe como elle tinha recado , que do por- 
to de Ceilão partira huma náo 5 a qual vi- 
nha carregada de toda forte de efpeciaria , 
que bem poderia carregar duas das noífas , 
e hia pêra Meca , e de caminho havia de 
tomar algum gengivre em Cananor. E por 

quan- 



42Ó ÁSIA de JoÂo de Barros * 

quanto a maior parte deita fazenda era de 
mercadores de Meca , de quem elle tinha re- 
cebido certas offenfas , e o Çamorij defer- 
viços , lhe confeiTava que teria contenta- 
mento de a tomarem , e o Çamorij folga- 
ria muito com iffo , principalmente por nel- 
la ir hum Elefante , que o mefmo Çamorij 
muito defejava , o qual lhe não quizeram 
vender , e o levavam pêra baldear em Cam- 
baya. E como iíto eram appetites de Prín- 
cipes , e também haviam por affronta das ter- 
ras de fua jurifdicção , levarem pêra outras 
alguma coufa em íeu dcfprazer, emais dc- 
fejando-a elle , verdadeiramente podia elle 
Aires Corrêa crer , fe ordenaíTe como o Ça- 
morij houvefle aquelle Elefante , daria por 
elle carga de pimenta a duas náos. E que 
deite aviíò , que lhe dava , liuma fò mercê 
queria deile , que lhe mantiveííe fegredo , por- 
que naquelia Cidade de Calecut havia al- 
guns mercadores, que tinham trato com ef- 
tes de Meca ; e fabendo como fua mercê 
era fabedor deita náo , lhe mandariam avifo 
com que fe falvaífe. E também não os que- 
ria ter por imigos , fabendo fer elle o audlor 
diiTo ; e que deita verdade que lhe defeu- 
bria, não dava mais penhor de fer afli , fe-- 
não a mefma náo , que feria alli ante de 
dous dias, comoveria feamandaffe vigiar; 
e ainda teve tal modo , que fez com o Ça- 

mo- 



Década I. Liv. V. Cap. VI. 427 

morij , que rnandaífc hum recado a clle Ai- 
res Corrêa fobre efte Elefante , dizendo 
quanto contentamento teria de o haver. Ai- 
res Corrêa , porque efte Mouro defejava de 
fe metter com eiie , e íentia que as paixões 
d 5 antrc dk , e Coge Bequij era grande par- 
te favorecer mais ao outro que a elle, creo 
verdadeiramente que defcubrir-lhe a vinda 
deíla náo tirava a duas couías , a ie vingar 
dos mercadores de Meca , com que tinha pai- 
xões j e aíe congraçar com elle pêra fazer 
feus negócios , e com o Çamorij por caufa 
do Elefante. Do qual cafo foi logo dar con- 
ta a Pedralvares > dando-lhe avifo que o 
guardafle em fegredo té o dia que o Mou- 
ro dizia que a náo feria alli. Pedralvares 
por as razoes que lhe Aires Corrêa deo , 
bem lhe pareceo que o Mouro tirava aqnel- 
les dous fins , a fe vingar de feus imigos > 
e a lhe darem por efte avifo alguma cou- 
fa, emais haver mercê do Çamorij , toman- 
do-fe o Elefante , couía que elle tanto de- 
fejava ; do qual Çamorij fobre o mefmo 
Elefante teve outro recado , que fez acre- 
ditar mais as palavras de Coge Cemccerij. 
Vindo efte dia , em que fe a náo efperava , 
mandou Pedralvares ter vigia no mar , pa- 
recendo-lhe que fe ella foubeífe eftarem al- 
li , per ventura paflaria tanto ao mar da 
nofía Armada 3 que não foífe vifta. Mas co- 
mo 



428 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

mo elle era innocente deita trama , que ti- 
nha ordido Coge Cemccerij , e também con- 
fiado em íua grandeza , e na gente que tra- 
zia , ou per qualquer caiifa outra que fofíe, 
nao quiz perder feií caminho , e começou 
aparecer, vindo ao longo dacofta, de ma- 
neira , que amparando com a noffa frota , fi- 
cafíe entre ella , e a terra, Pedralvares , por- 
que tinha já dado o cuidado de a ir deman- 
dar a Pêro de Taíde , Capitão do navio São 
Pedro , tanto que foi vifta , metteram-fe com 
elle Vafco da Silveira , Duarte Pacheco Pe- 
reira j João de Sá , que fora com D. Vaf- 
co da Gama , e outras peífoas de qualida- 
de que Pedralvares efcolheo , e foram-íe a 
ella. A náo como cntendeo que a hiam de- 
mandar , porque vinha já emparando quafi 
com as noíTas , começou de fe metter mais 
na terra na volta de Cananor , porque ti- 
nha aviíò de Coge Cemecerij , que tecia eí- 
te negocio , que indo alguns noffos navios 
demandalla , femetteííe em Cananor; cácllc 
por amor de Mammale Mercar , e Chcri- 
21a Mercar, que eram feus amigos, manda- 
ria recado a Cananor que fe metteífe algu- 
ma gente dentro pêra a defenderem. E co- 
mo tinha enviado efte aviib ánáo, aíTi man- 
dou recado a certos Mouros eftantes em Ca- 
nanor , que lhe pedia em toda maneira , che- 
gando a náo áquelle porto, de noite fecre- 

ta- 



Década I. Liv. V. Cap. VI. 429 

tamente lhe metteííem a mais gente que pu- 
deflem , que elle pagaria a delpeza que nif- 
íb fizeífe , porque mais devia a Mammale 
Mercar, e a Cherina Mercar , cuja ella era. 
Anáo vendo que fomente hum navio a hia 
demandar, fez tão pouca conta delle, que 
mais fe alvoroçou pêra o metter no fundo > 
que temeo poder receber damno delle , e 
toda hia em cantares , e tangeres , fem dar 
por Pêro de Taíde , que lhe mandava que 
amainaíle , quaíi como quem o não tinha 
em conta. Porém depois que o navio afal- 
vou com huma bombarda groíTa ao lume 
d'agua , e per cima a varejou com artilhe- 
ria miúda , não fomente os pelouros lhe fi- 
zeram muito damno , mas ainda as rachas , 
que levaram em fua paífagem , feriam mui- 
tos homens , com que elia começou de fe 
acolher ao abrigo da terra. Leixando ella 
também em onoílb navio per paífando per 
elle , huma groífa chuva de fettas , e alguns 
pelouros de humas bombardas de ferro , que 
feriram , e encravaram dos noílbs. Pêro de 
Taíde quando vio que tão cedo lhe não 
convinha a chegar-fe muito a ella , dahi té 
Cananor , onde fe foi metter quaíi fobre a 
noite , fempre a foi fervindo já com mais 
fúria polo damno , que recebeo delia. A 
qual mettida dentro em a concha de Ca- 
nanor , entre quatro náos que ahi eítavam , 

não 



430 ÁSIA de João de Barros 

não a quiz Pêro cie Taíde mais affrontar, 
té íaber de Pedralvares fe havia por bem 
que a tomafle dentro naquelle porto , por 
fer d'E!Rey de Cananor , do qual tinham 
fabido defejar nofla amizade , e per ventu- 
ra haveria por injúria fer tomada no feu 
porto. Pedralvares como de noite houve el- 
te recado per hum tone da terra i que Pêro 
de Taíde a grão prefla mandou , reípondeo- 
llie que não leixaílem de a tomar ? porque 
depois de a terem em poder , ahi lhe ficava 
lugar pêra fazerem qualquer cumprimento 
com EIRey de Cananor. Pêro de Taíde co- 
mo teve efte recado de noite , ordenou-fe 
pêra o outro dia pelejar com ella; mas te- 
ve niíTo pouco que fazer , porque como do 
dia d'antcs muita gente da que cila trazia , 
foi ferida , e morta 5 de noite todolos feri- 
dos ; e parte dos sãos fe acolheram a terra. 
E os que Coge Cemecerij mandava metter 
nella ■, vendo como eftes fahiam bem feri- 
dos , não quizeram ir tomar experiência dou- 
tro tal damno , e per efte modo os noííos 
foram fenhores da nao fem aífronta ; por- 
que ainda alguns poucos que ficavam fe 
renderam fem ella. Tirada eífa náo do por- 
to de Cananor , foi levada a Pedralvares , que 
a recebeo com muito prazer , por não fer 
tão euftofa de fangue como efperava. E o 
que deo maior prazer á gente commum , foi 

hum 



Década I. Liv. V. Cap. VI. 431 

hum novo mantimento que alli comeram 7 
que foi carne de Elefante , porque com ar- 
tilheria , hum dos fete que a náo levava 
foi morto; e como a gente eftava defejoía 
de carne frefca, efta fe repartio per todalas 
náos. Pedralvares vendo como era falfo a 
náo levar efpeciaria , e tudo fe converteo 
naquelles fete Elefantes j ficou muito defcon- 
tente , e mais quando foube náo fer fazen- 
da dos Mouros de Meca , fenão de dons 
mercadores de Cochij , como atrás diflemos. 
E porque não reípondia a carga da náo' com 
as informações , que Aires Corrêa tinha per 
Coge Cemecerij , e em íèus modos o tinham 
por homem falfo , fentio que tudo ifto eram 
induílrias fuás , a fim que toda a terra eftr- 
veífe mal comnoíco , poílo que não foubef- 
fe os artifícios que pêra ifto teve , e avifou 
a Aires Corrêa , que não confiaííe mais de 
fuás palavras. E fe a tomada defta náo não 
fervio á malícia de Coge Cemecerij , fervio 
pêra temorizar aos Mouros de Calecut, e 
ao Çamorij , o qual com eífes mais princi- 
paes , quando viram a grandeza da nao , e 
íouberam a gente que trazia , comparando 
ifto ao navio S. Pedro , que feria de até cem 
toneis ? ficaram mui aífombrados 3 e fem ef- 
perança de nos poderem offender per guer- 
ra. É fervio também pêra fe ganhar ami- 
zade com EIRey de Cochij , ordenando el- 

le 



43^ ÁSIA de João de Barros 

le Coge Cemecerij de metter cm ódio os 
noííbs per toda aquella coita ; porque fa- 
bendo Pedralvares ler a náo daquelles mer- 
cadores de Cochij , mandou chamar o Ca- 
pitão delia , pedindo-lhe perdão do damno 
que era feito , porque fua tenção , quando 
mandara ir fobre cila , foi por lhe dizerem 
algumas peíloas de Calecut que era náo dos 
Mouros de Meca , com os quaes os Portu- 
guezes tinham guerra ; que em fer feito 
aquelle damno , elle Capitão tinha a culpa , 
porque fe diflera donde , e cuja era a náo , 
quando lhe foi perguntado , não recebera 
algum mal , mas pois o cafo era feito , ahi 
não havia mais que tornar-lhe a entregar 
lua náo pêra fazer embora fua viagem, por- 
que as coufas d'ElPvey de Cochij , onde quer 
que as achaífe , fempre delle receberiam boas 
obras , por a fama que tinha fer o mais verda- 
deiro Principe d aquella terra. E que fe lhe 
cumprifle alguma coufa pêra fua viagem 3 elle 
folgaria de o favorecer : com as quaes pa- 
lavras o Capitão fe lançou a feus pes , e 
confefíbu elle fer o culpado , e com mercê , 
w lhe Pedralvares fez de algumas coufas \ 
íe efpedio contente delle. 



CA- 



Década I. Livro V. ' 433 

CAPITULO VIL 

Como por caufa de huma não dos Mou- 
ros , que os nojjòs tornaram , a qual ejiava 
no porto de Calecut , cuidando ejlar carre- 
gada de pimenta , faltou todo o Gentio da 
Cidade com o favor dos Mouros, e mata- 
ram Aires Corrêa na cafa da Feitoria com 
a maior parte dos que ejlavam com elle ; 
e do que Pedralvares fez fobre ijfo. 

PEdralvares , porque eram já paliados 
três mezes de fua chegada áquelle por- 
to , e não tinha havido carga mais que pê- 
ra duas náos , e cada quintal de efpeciaria 
lhe cuítava huma quarta dobrada , por os 
vagares , e artificio com que fe havia das: 
mãos daquelles Officiaes , a que o Çamorijj 
tinha mandado que o deípachaíTem , e kn- 
tia claramente que tildo ifto faziam os Mou- 
ros , principalmente Coge Cemecerij , man- 
dou-fe gravemente a queixar a EIRey per 
Aires Corrêa. E porque deita vez , que Ai- 
res Corrêa lá foi , repetio muitas vezes que 
os Mouros davam carga de noite ás náos 
de Meca , que eílavam naquelle porto , vio- 
fe o Çamorij tão apertado delle , que lhe dif- 
le, que fe elle tinha por certo que os Mou- 
ros davam de noite carga ás náos de Me- 
ca , que a mandaílè o Capitão mor tomar , 
Tom. L Ee por- 



434 ÁSIA de João de Barros 

porque elle dava pera iílb licença , e que 
per aqui cumpria com o Capitão mór nos 
queixumes , que lhe mandava fazer de feus 
Officiaes. Porque fe aíli. era que elles davam 
azo a que os Mouros carregaíTcm de noi- 
te , os Mouros perderiam a pimenta que ti- 
nham carregada , e feus Officiaes haveriam 
bom caítigo , e com iíto efpedio Aires Cor- 
rêa* o qual como andava deita prefumpção 
que as náos de Meca , que citavam no por- 
to , tinham carga de pimenta , não cuidou 
que na licença que levava d'ElRey tinha 
pouco defpacho. Do qual cafo foi logo dar 
conta a Pedralvares ? e aíTentou com elle 5 
que ao feguinte dia, que eram dezefeis de 
Novembro , deífem em rompendo alva os 
bateis em huma náo , que havia fufpcita 
eítar carregada ; e achando-lhe pimenta 5 a 
tiraflem do porto 3 e levaflcm a bordo das 
náos pera a baldear nellas , com fundamen- 
to de a pagarem a cuja foífe , fem embargo 
de lhe EIRey dizer que a tomaíTem , por 
pena de elle ter mandado que ante das nof- 
fas náos haverem carga , nenhuma náo a 
tomafTe ; o qual negocio fuecedeo mui mal , 
porque a náo eítava carregada de mantimen- 
tos , e tudo foi induferia dos Mouros por 
indignarem a gente da terra contra nós , co- 
mo fizeram , cá não houve mais detença , que 
entrados os noítbs em a náo > como hiam 

com 



Década I. Liv. V. Cap. VIL 435* 

com aquelle alvoroço de gente de guerra ^ 
e mais com ódio que tinham aos Mouros , 
peró que não achafTem pimenta , começaram 
de revolver a náo , da qual fugindo os Mou- 
ros , que nella eftavam, deram rebate em 
terra } fazendo tamanho alvoroço na Cida- 
de , que começaram matar alguns dos que 
eílavam com Aires Corrêa , os quaes anda- 
vam feguros per ella. Aires Corrêa quando 
fentio a revolta , e vio vir hum tropel de 
gente fobre alguns 9 que fe vinham amparan- 
do , acudio aos recolher já mui feridos da 
multidão dos Mouros , e Gentio , que os per- 
feguiam ; mas pouco aproveitou a elles, e 
a elle, antes foi caufa de o matarem mais 
cedo y e a muitos dos que eílavam com el- 
le dentro das cafas , porque entraram todos 
de volta , fem lhe darem tempo de fe po- 
der entreter com as portas fechadas , té que 
das náos lhe acudiíTem, poílo que no alto 
da cafa foi per hum dos noífos arvorada 
huma bandeira , que era final de haverem 
miíter foccorro. Pedralvares a eíle tempo 
eílava com afezao das quartans j e quando 
lhe diíTeram que nas caías da Feitoria era 
arvorada bandeira , e que havia gente der- 
redor delia , pareceo-lhe que feria algum ar- 
roido dos noíTos, e como a coufa particu- 
lar, mandou dous bateis que acudiíTem. Pe- 
■ ró depois que lhe diíTeram que as cafas. ef-, 
Ee ii ta- 



436 ASIÀ de João de Barros 

tavam todas cercadas , e que iílo parecia fi>- 
ror do povo , a grão prclla mandou os Ca- 
pitães com todolos bateis ? e a mais gente 
<]ue pudeííem levar. Mas foi a tempo que 
já nas cafas não havia vivo nenhum dos 
iioffos i e alguns , que fe quizeram acolher 
ao mar , vinham os Mouros , e Gentios ás 
frechadas , e lançadas pola praia . fem lhes 
darem tempo pêra embarcar. E ainda pêra 
fe melhor vingarem delles , os Mouros , que 
ordenaram efta maldade, a noite paífada ti- 
veram eíta induftria : mandaram fazer a 
praia em montes de área 3 e covas , donde 
tiraram os montes j porque querendo-fe os 
noíTos acolher aos bateis , quando vieíTem 
trás elles , iílo ihe foííe impedimento pera 
fe não recolher tão preftes , e entre tanto 
os matariam ás frechadas. Neíle recolhimenr 
to de tanto trabalho efeapou Fr. Henrique 
com algumas feridas polas coitas , o qual 
como puriílimo Relígiolò que era 3 as reco 
beo em lugar de martyrio , e affí efeapáram 
quatro Frades dos feus. Nuno Leitão Ca- 
pitão do navio Annunciada , vendo vir An- 
tónio Corrêa filho de Aires Corrêa moço 
•de até doze annos j do qual por fua pouca 
idade os Mouros não faziam conta , metteo- 
fe em meio delles , e polo falvar ás coftas , 
foi primeiro mui bem ferido. E poíto que 
*efte Cavalleiro Nuno Leitão , (que depois al- 
guns 



Década L Liv. V. Cap. VIL 437 

guns tempos fervio dWlmoxarife do arma- 
zém das Armas , ) per íi não vingaííe eíle da- 
inno que aqui reeebeo , António Corrêa o 
fez em mui honrados feitos neftas partes , 
em -que também vingou a morte de feu pai. 
E certo que fe o impeto 5 com que os Mou- 
ros , e toda gente da Cidade commetteo 
a cafa , elles feguíram alguns dos noífos , 
que tiveram lugar pêra vir bufcar a praia , 
não efcapáram obra de vinte peflbas de fef- 
fenta que eram em terra. Mas como toda 
a fúria parou em furtar a fazenda , que Ai- 
res Corrêa lá tinha , tiveram efpaço pêra 
efcapulir da cafa os que vieram demandar 
a praia , dos quaes ainda alguns ficaram al- 
li mortos , e os outros mui mal feridos , e 
quatro , ou finco fe efcondêram em cafa de 
Coge Bequij noífo amigo. Quando Pedral- 
vares vio ante íi aquella gente tão mal fe- 
rida , e foube que tudo procedera da toma- 
da da náo per confelho de Coge Cemece- 
rij i e que elíe accendéra aquelle fogo , ha- 
vendo-fe por aggravado de Aires Corrêa 
por algumas palavras , que lhe diíTe fobre 
o engano da náo dos Elefantes , diíTe áquel- 
les Capitães , que eram prefentes : Louvado 
feja Deos ! pois he mais poderofo pêra vos 
dejiruir hum amigo fimulado , que hum imi~ 
go defcuberto. Aires Corrêa tinha por ami- 
go aquelle Mouro Cemeeerij 7 e confiava 

em 



43$ ÁSIA DE JOÃO DE BARKOS 

em fuás palavras , e cu defcançava nas fuás , 
e aíli elle morreo defenganado já delJe , e 
cu morro , porque enganei a muitos , pare- 
cendo-me que acertava em feguir fcu pare- 
cer. Verdadeiramente ainda que elle mor- 
reo como Cavalleiro , e os outros que com 
elle vam , e todos por fervir EIRey Noífo 
Senhor acabaram em bom lugar ., e eu lhe 
tenho mais inveja á fua morte , do que fe 
pode ter a eftas minhas quartans -:- todavia 
dera por huma hora de vida de Aires Cor- 
rêa dez annos da minha 3 fómente pêra o 
poder arguir em algumas coufas deitas que 
eu adivinhei , e me elle não cria. Porém , 
pois aprouve a Noífo Senhor que vieíTemos 
a eftar com efte Çamorij em peior eftado do 
que eftavamos ao tempo de noíTa chegada , 
tomemos efte defaftre a conta dos mortos , 
pois acabaram nelle , e a noíTa por prin- 
cipio de bom defpacho , pois nos dá caufa 
a não diífimular quantos enganos ha três 
rriezes que foffremos. Finalmente praticando 
Pedralvares com os Capitães o modo , que 
haviam de ter pêra tomarem conclusão com 
o Çamorij , depois que fe trouxeram mui- 
tos inconvenientes de huma , e d'outra par- 
te , affentáram que nenhum outro coníclho 
era mais proveitofo que as armas , cá diíTí- 
mular enganos étídú que fizeram mal , não 
era tão manifefta injuria ; como morte de tan- 
ta 



Década I. Liv. V. Cap. VIL 439 

ta gente, E vendo EIRey , e os da terra 
que não acudiam a ifTo com grande impe- 
lo de vingança, ante que arrefeceíTe o-fan- 
gue daquelles , que alli pereceram , have- 
riam ferem elles homens , que por injúrias 
faziam pouco , e por cubica muito. Porém 
aquelíe dia não podia fer , e era mais pro- 
veitoíb fer ao outro , por duas caufas : a 
primeira , por lhe darem azo a que fe met- 
teíTe alguma gente em guarda das náos , e 
quanta mais foífe, mais culpados haveriam 
caftigo ; e a fegunda , por lhe ficar o dia to- 
do inteiro pêra depois de queimadas as náos 
esbombardearem a Cidade. Pofto efte con- 
felho em obra , foram queimadas mais de 
quinze velas, que eftavam juntas no porto, 
em que entravam oito náos groífas , a maior 
parte das quaes eftavam carregadas de mai> 
timentos daquella coíla Malabar , em cuja 
entrada morreo .muita gente, queeftava em 
guarda delias. Acabado efte incêndio das 
náos , começou outro da noífa artilheria , 
que foi varejar a Cidade , não fazendo aquel- 
le dia , e o feguinte outra coufa , com que 
muita parte delia ficou damnificada , e lè- 
gundo fe depois foube em Cochij , aífí dei- 
ta artilheria, como em as náos, morreram 
mais de quinhentas peífoas. 



CA- 



440 ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO VIII. 

Como Pedra/vares Cabral foi ter a Co- 
chij , onde o Rey da terra lhe deo carga 
de efpeciaria ; e eftando já no fim delia > 
veio fobre ella huma grojja Armada do (la- 
vwrij de Calecut , e o que nijjb fez. 

FEito eíte eítrago naquelles dous dias , 
quando veio o terceiro , mandou Pe- 
dralvares que fe não fizefle mais damno , 
dando aquelie dia por tregoa , parecendo- 
lhe que enviafíe EIRey algum recado \ mas 
quando vio que citava mais indignado que 
arrependido do feito da morte de Aires Cor- 
rêa , e dos que com elle morreram, fez-fe 
á vela caminho de Cochij. O qual lugar he 
cabeça de hum Reyno aíli chamado , que 
eítá abaixo de Calecut contra o Sul pela 
meíma coita trinta léguas , c nelle , fegundo 
Gaípar da índia affirmava a Pedralvares , 
havia mais pimenta que em Calecut, poíto 
que o Rey fofle menos poderofo , e não 
tão rico como elle. E a caufa era , por em 
Cochij naquelle tempo haver pouco trato, 
e poucos Mouros , que eram os que Pedral- 
vares mais receava , por damnarem todas 
noíTas coufas , do qual Pveyno , e aíli dos 
outros deít a coita Malabar , onde pelo tem- 
po em diante fizemos fortalezas ; e tivemos 

com- 



Década I. Liv. V. Cap. VIII. 441 

commercio , em outra parte mais própria 
deita relação efcrevemos particularmente. 
Pofto Pedralvares em caminho via de Co- 
chij , por efta informação , que lhe Gafpar 
da índia deo , topou duas náos , que , fegun- 
do parecia, e fe depois foube, vinham do 
mefmo Cochij , e dandc-lhe caça pêra fa- 
ber fe eram de Calecut , foram-fe metter 
no rio de Panane doze léguas de Calecut 
entre outras náos, que ahi eílavam furtas, 
as quaes elle leixou , temendo íèr já aquelle 
lugar d'ElRey de Cochij , e fazendc-lhe al- 
gum damno , podia fazer outro fegundo ef- 
candalo , como fez na tomada da náo dos 
Elefantes 5 que Coge Cemecerij maliciofa- 
mente fez tomar. Com a qual coufa dlo 
hia temeroíb , parecendo-lhe ter niífo offen- 
dido a EIRey de Cochij ? e tomando eftou- 
trás , achallo-hia mais em termos de guer- 
ra que de paz. E fe leixou eftas , mais adian- 
te na paragem de Cranganor tomou duas , 
que vinham com mantimentos^ pêra Cale- 
cut ; e por faber per os Mouros que as 
navegavam , ferem cPoutros da mefma Cida- 
de , com a qual ficavam . em ódio , as quei- 
mou. Chegado ao porto de Cochij , que fe- 
ria daíii linco léguas , porque foube que EI- 
Rey eílava emhuma povoação mettida pe- 
lo rio aílima , mandou a elle hum Brâ- 
mane dos daquella cofta Malabar , o qual 

era 



442. ÁSIA de JoÃo de Barros 

era dehuns, que tomam por religião anda- 
rem em penitencia por toâo o Mundo , 
mis , com humas cadeias derredor de li , 
cheios de boíta de vacas por mais defprczo 
de fuás peífoas ; c geralmente os que tomam 
eíla vida , fe são do género Gentio , chá- 
mam-lhes Jogues ; e fe são Mouros , Calan- 
dares , do qual modo de religião escrevere- 
mos adiante , e principalmente em os livros 
da noíla Geografia. Eíle , ou que o coílume 
da vida de peregrinar per terras eítranhas , 
ou que verdadeiramente o feu zelo era de- 
fejar íalvaçao , citando Pedralvares em Ca- 
lecut , no tempo que Fr. Henrique procu- 
rava a conversão de alguns Gentios , veic- 
fe a elle , dizendo , que queria fer Chriftão , 
e vir com elle pêra eíle Rcyno j ao qual 
deram Baptiímo , e houve nome Miguel. 
EIRey deCoehij, pofto que já tivefíe fabi- 
do muita parte das coulas \ que os noífos 
paflaram em Calecut , e também efcivefíe 
informado per os dous irmãos , cuja era a 
não dos Elefantes , do que Pedralvares fez , 
c difíe ao feu Capitão ; além deita informa- 
ção , obrou tanto o que Miguel diíle , que 
houve EIRey de Cochij que os Mouros de 
Calecut , e o Çamorij em lho confentir ti- 
nham feito grande traição contra os noífos , 
e muito damno a íl , por fer gente ? que fe 
ganhava mais em os ter por amigos , que 

anc- 



Década I. Liv. V. Cap. VIII. 443 

anojados. Finalmente por efta razão , e ou- 
tras de paixões , e differenças , que entre el- 
le , e o Çamorij havia , e principalmente 
por ca ufa de feu proveito , que elle tenteou , 
houve que nenhuma coufa fazia mais a feu 
propoíito , que dar carga de efpeciaria ás 
noífas náos , e eftimou em muito irem ter 
a feu porto , porque com ifto fazia duas 
coufas 5 ganhar noíla amizade pêra nos ter 
contra o Çamorij , quando lhe cumpriíTe , e 
a fegunda , que haveria das noífas mãos mui- 
tas , e boas mercadorias 5 e dinheiro em ou- 
ro , (fegundo lhe contava Miguel 5 ) que he 
o nervo 3 que fuftem os eftados no tempo 
de fua neceffidade. Confultado o qual ne- 
gocio entre os feus 5 não fomente efte foi 
o parecer dos Gentios , mas ainda de alguns 
Mouros , principalmente dos dous irmãos , 
que tinham recebido aquella não de Pedral- 
vares , que foi huma obra , que muito aju- 
dou a noíío defpacho. Porque ElPvey gran- 
de parte delia poz á fua conta 5 fabendo 
que Pedralvares por fua caufa a foliara , 
fendo tomada de boa guerra, e mais entre 
os Mouros irmãos , havia já prefumpção dos 
artifícios , que fobre efta náo tivera Coge 
Cemecerij 5 quando fouberam como em Ca- 
nanor á fua própria cufta mandara metter 
dentro gente nella pêra a defender , não es- 
tando elles muito correntes na amizade. E 

con- 



444 ÁSIA de João de Barros 

conforme a cila determinação , trouxe Mi- 
guel refpofta d'ElRey aPedralvares, dizen- 
do , que fua vinda foífe mui boa , e que lhe 
pezava muito dos damnos , e trabalhos , que 
tinha recebido cm Calecut ; que verdadei- 
ramente fe elle não fora informado per pef- 
foas dignas de fé , que a culpa deitas coufas 
procedera do Çamorij , elle puzera muita 
dúvida em lhe dar acolheita naqueile feu 
porto , quanto mais carga de efpeciaria 3 por 
efta fer a lei de boa vizinhança , acudir ás 
injúrias dos vizinhos , e mais fendo feito 
per peííoas tão eftranhas em religião , coftu- 
mes , e pátria , como eram os Portuguezes 
á gente Malabar. Mas como elleRey fica- 
va defobrigado deite adjutorio ao Çamo- 
rij , por fer em caufas contra a lei, e ver- 
dade , que fe deve aos eítrangeiros , que tra- 
zem bem , e proveito ao próprio Reyno , 
elle Pedralvares podia feguramente efperar 
delle tudo em que o pudeíTe ajudar. Pedral- 
vares , porque efta entrada de boas palavras 
iempre a ouvio naquelles Reys com que ti- 
veram prática , eníinado do fim que com 
elles teve , ufou com efte de alguns refguar- 
dos fobre o negocio da carga da efpeciaria. 
Porém não quiz tratar com elle que fe vif- 
iém , porque o tempo era mui breve pêra 
fe partir via deite Reyno , e elles neftas vif- 
tas ferem mui fuperíliciofos acerca da elei- 



ção 



Década L Liv. V. Cap. VIIL 445* 

çao dos dias , em que devem contratar , affi 
que per evitar eftes inconvenientes , com que 
podia perder muito tempo , veio logo com 
elle a conclusão de dar carga da eípeciaria 
que promettia. Finalmente , íem haver entre 
elles mais cautelas , mandou EIRey quatro 
peííòas honradas da linhagem dos Brâma- 
nes por arrefens de nove peííoas , que Pe- 
dralvares mandou a terra pêra refeitorizar 
a carga, Gonçalo Gil Barbofa pêra Feitor, 
Lourenço Moreno , e Baíiiao Alvares por 
feus Eícrivaes , e Gonçalo Madeira de Tan- 
gere por língua , e os outros eram degre- 
dados , e homens da Feitoria. j porque era 
aquella gente Malabar tão fufpeitofa , que 
houve Pedralvares por mais feguro mandar 
menos gente que mais : e aprouve a Deos 
que affi fe contentaram elies dos noííbs , que 
geralmente todos , afli os Officiaes d'E!Rey , 
que ei;am Gentios , como os mercadores 
Mouros , andavam a quem daria melhor 
aviamento á carga. A qual coufa dava mui- 
to contentamento a Pedralvares, poílo que 
em alguma maneira os. arrefens lha entreti- 
nham por caufa de fua religião , que não 
haviam de comer em anão, onde Pedralva- 
res os tinha, té virem aterra a fe lavar do 
tocamento que tiveram com os noífos ; e 
em quanto hiam comer huns , vinham ou- 
tros em feu lugar ; coufa , que atormentava 

mui- 



446 ÁSIA de João de Barros 

muito a Pedralvares ver os vagares com 
que iílo faziam. Com tudo. em efpaço de 
vinte dias aqui , em Cochij , e no rio Cran- 
ganor, que fera dalli finco léguas mais af- 
íima contfa o Norte , carregaram todalas 
náos muita pimenta , e algumas drogas , fo- 
mente gengivre , que depois foram tomar a 
•Cananor. E neíle porto de Cranganor acha- 
ram os noífos , que alli foram carregar , mui- 
tos Chriítãos de S. Thomé, por elle leixar 
naquellç lugar algumas Igrejas feitas no 
tempo que alli pregou o Evangelho , da 
qual denunciação , e gente , que converteo 
alli , e em Choromandcl , onde foi a princi- 
pal habitação fua, adiante faremos relação, 
e principalmente em a noífa Geografia. Dos 
quaes Chriítãos de Cranganor , dous chama- 
dos Mathias , e Jofepe irmãos , fegundo cl- 
les diziam , doótrinados per Bifpos Armé- 
nios , que alli relídiam , quizeram yir com 
Pedralvares a eíte Rcvno pêra paífarem a 
Roma , e dahi a Jerufalem , e Arménia a 
ver o feu Patriarca. Porém o Mathias de- 
pois de fer neíle Reyno , faleceo , e Joíèpe 
foi ter a Roma , e a Veneza , e do que lá 
diífe da fua chriítandade , e coílumes , os 
Italianos, que niílo são mais curiofos que 
nós j fizeram hum fummario , que eítá in- 
•corporado em hum volume Latino , intitula- 
do Novus oreis , onde andam algumas das 

nof- 



Década I. Liv. V. Cap. VIII. 447 

noflas navegações , efcritas não como ellas 
merecem ; e o cafo paflbu. Tornando á car- 
ga da efpeciaria , que os noffos faziam per 
modo tão pacifico , neíle tempo correo por 
toda aquella cofta Malabar nova da noffa 
Armada 3 .e das coufas que pairaram em Ca- 
lecut 5 a qual nova parece que não foi tan- 
to em louvor do Çamorij , como noffo > 
havendo todos que ufára de traição em man- 
dar matar homens , que debaixo da fé ciei- 
le eílavam em terra tratando em coufas do 
commercio , e não de guerra , dizendo to- 
dos , que não mandara fazer tal iníulto- mais 
por lhe roubar a fazenda , que por outra 
alguma culpo. E porque , (fcgundo diííe- 
mos , ) efte Çamorij era como Emperador na- 
queíla região Malabar , ( de que ao diante 
mais particularmente diremos a caufa,) e 
os outros Reys vizinhos foifriam mui mal 
cila fua potencia 3 principalmente EIRey de 
Cochij , que demarcava com elie pela par- 
te debaixo contra o Sul , e EIRey de Ca- 
■nanor pela de íirna do Norte , defejavam 
todos íúa deílruiçao , e haver ahi caufa pê- 
ra iíTo. A potencia do qual Çamorij , como 
procedia do commercio das efpeciarias , que 
fe faziam no feu porto de Calecut , e. elle 
tinha modos de avocar a íl todalas náos dos 
Mouros • que vinham áquelle trato , do qual 
commercio eftoutros Reys goftavam pouco, 

por 



448 ÁSIA de João de Barros 

por iflb vendo as noíTas náos na índia 5 com 
a informação que tinha do proveito que 
delias podiam receber 5 e ódio , em que os 
noílbs eítavam com o Çamorij , cada hum 
defejava de os recolher pêra li. Donde íè 
cauibu , que EIRey de Cananor , e os Go- 
vernadores de Coulão , Reyno que confina 
com Cochij pela parte de baixo contra o 
Sul , mandaram feus menfajeiros a Pcdral- 
vares Cabral , pedindo-lhe , que quizeíle ir 
a feus portos 5 porque elles lhe dariam toda 
a carga ^de efpeciaria que houveífe miíler. 
Aos quaes ellc refpondeo , dando-ihes agra- 
decimento daquella offerta 5 e boa vontade > 
que moftravam ter ás coufas d'ElRe)r de 
Portugal feu Senhor ; e podiam fer certos , 
que vindo elle a Portugal como efperava , 
o dito Senhor lhes gratificaria aquelle feu 
defejo , como elles veriam na primeira Ar- 
mada que alli tornaífc. Que ao prefente el- 
le não podia tomar carga pola ter já rece- 
bido d 5 ElRey de Cochij , no qual achara 
muito gazalhado , muita verdade , e pou- 
cas cautelas , o que nao achara em Calecut , 
vindo elle primeiro áquelle porto 5 que a ou- 
tro algum da índia. Pola qual razáo , e aííi 
pelo proveito que elle trazia , o Çamorij 
nao devera tratar tanta traição como com 
elle ufou , aconfelhado da fua cubica , e da 
maldade dos Mouros > as quaes coufas por 



Década I. Liv. V. Cap. VIII. 449 

"ferem mui publicamente feitas , feriam no- 
tórias per toda a índia , e por iíTo lhe não 
fazia relação do cafo como paíTára. Somen- 
te dle Capitão mor tomava por teftcmunha 
da fua innocencia, acerca do que paliaram 
em Calecut , o agazalhado (pe achara em 
EIRey de Cochij , e as offertas que elles 
Príncipes lhe mandavam fazer , porque ne£ 
tes claros , e verdadeiros íinaes fe moftrava 
que as Armadas d 5 ElRey D, Manuel feu Se- 
nhor entraram naquella região da índia 
com titulo de paz , e commercio , e não de 
guerra acerca dos Príncipes , e povo Gen^ 
tio daquellas partes Orientaes ; porque ven- 
do-fe ao diante outras Armadas cPElRey 
feu Senhor naquellas partes a tomar emen- 
da da maldade , que EIRey de Calecut com- 
metteo , que fe foubefle fer elle a caufa dí& 
fo. Pedral vares pofto que geralmente efpe- 
dio eftes menfajeiros que a elle vieram , ef- 
cufando-fe de ir tomar a efpeciaria , que lhe 
vinham oíferecer , todavia em particular man- 
dou dizer a EIRey de Cananor ? que de ca- 
minho elle paliaria pelo feu porto , e to- 
maria algum gengivre , que entre tanto lho 
mandaíTe ter preftes. Partidos eftes menfa- 
jeiros , e Pedralvares também em vefperas 
da fua partida , mandou-lhe EIRey de Co- 
chij dizer , que elle tinha nova certa como 
de Calecut era partida huma groíTa Arma- 
Tom. L Ff da, 



4^0 ÁSIA de João de Barros 

da , que lho fazia faber pelo não tomar 
deícuidado , e também pêra que tiveíTe tem- 
po de recolher alguma gente da que clle 
offerecia ; porque os feus naturaes eftavam 
tão fatisfeitos , e contentes do tratamento , 
e modo dos Portuguezes , que com amor 
levemente fe offereciam á morte pelos de- 
fender de feus imigos. O que Pedralvares 
lhe mandou muito agradecer , dizendo mais y 
que os Portuguezes eram tão coftumados a 
pelejar com Mouros , e haver viótorias del- 
les , e dos infiéis acerca de Deos , e dos 
homens , que os não tinham em conta , an- 
te fe deleitavam na milícia delles. Por tan- 
to elle não tinha neceílldade dos feus v aí] al- 
los , e pola olferta delles , beijava as mãos 
a fua Real Senhoria , como a hum Prínci- 
pe tão conjunto a EIRcy feu Senhor per 
razão de paz , e amor , como são aquelles > 
que nas partes da Europa elle accepta por 
feus irmãos em armas , que he fer amigo 
dos amigos , e imigo dos contrários. E 
quanto aos feus naturaes eílarem promptos 
neíla ajuda , que queriam dar aos Portugue- 
zes pelo contentamento que tinham de fuás 
peííbas , elle fe não efpantava diífo , porque 
a Lei de Deos era permittir que o cora- 
ção leal 5 e verdadeiro foífe pago com ou- 
tro tal coração ; quanto mais que toda efta 
boa vontade dos feus procedia da que el- 

les 



Década L Liv. V* Cap. VIIL 45-1 

íes viam ter a fua Real Senhoria ás coufas 
d'ElRey feu Senhor. Que eftas taes obras , 
elle Pedral vares ao prefente não era pode^ 
roíb pêra as poder pagar , fomente em as 
levar na memoria em mais eftima que to- 
das as riquezas da índia , pêra as reprefen- 
tar a EIRey feu Senhor , de quem elle po- 
dia efperar , tanto que em Portugal foílè , vir 
logo huma Armada em feu favor contra o 
Çamorij , e todolos feus imigos , por EIRey 
feu Senhor fer hum Príncipe mui agradeci- 
do de benefícios, e muito temerofo , quando 
era oíFendido. Enviada eíla refpofta , quando 
veio ao feguinte dia a nove de Janeiro do 
anno de quinhentos e hum , em o Sol pon- 
do , . eis-aqui começa de apparecer eíla Ar- 
mada , que EIRey de Cochij , dizia mais me- 
donha em numero de velas , que poderoía 
no animo de quem nella vinha, porque fe- 
riam até feífenta velas de que vinte finca 
eram náos groffas. A qual Armada náo vi- 
nha a fim de pelejar , fomente moílrar-fe, 
parecendo-lhe que por fer grande numero 
de velas , tanto que foffe vifta dos noíTos , 
faria defpejarem eiles o porto , e vir-fe ca- 
minho do Reyno fem carga de efpeciaria, 
que era todo o intento dos Mouros, Por- 
que além de tomarem o poufo tanto ao mar 
das noíTas náos , que feria huma légua, 
quando veio de noite , que Pedralvares le fa- 
Ff ii zia 



%Ç2 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

zia preftes pêra ante manhã com o terrenho 
ir fobre elles per vigia que elles tinham , 
tiveram tal modo que ficaram pegados com 
terra , onde Pedralvares não podia ir, por 
lhe fervir o vento mais ao mar , que pêra a 
terra. E ou que o terrenho o fez , ou efta- 
rcm já coní a carga , que haviam mifter, 
ainda que Pedralvares quizcra iraosimigos, 
elle o não pudera fazer , porque a náo de 
Sancho de Toar hia muito na volta do mar , 
e como era das mais poderofas , e as outras 
também a feguiam , e fez a Pedralvares por 
a proa nellas , apanhando huma , e huma té 
fe fazer em hum corpo na volta de Cana- 
nor 5 ficando os imigos muito fatisfeitos com 
os verem partir 5 em que moftráram não irem 
a outro eífeito. Na qual partida quiz Pedral- 
vares ufar antes da prudência , e cautelas de 
Capitão , que do officio de Cavalleiro que 
elle era , temendo que fe commettêra os imi- 
gos > pudera fucceder coufa que lhe fizera 
perder a fua vinda , que importava mais ao 
ferviço cPElRey , e a bem de todo o Rey- 
no , que deílruir aquella Armada , pofto que 
com aquellas nãos tão carregadas fora po£ 
fivel poder-fe fazer. 



CA* 



Década I. Livro V. 4^3 

CAPITULO IX. 

Como Pear alvar es foi ter a Cananor y 
onde EIRey lhe mandou âar a mais ejpe- 
ciaria , que havia mijler\ e partido dalli , 
fez fua viagem pêra Portugal : e do que 
pajjou no caminho té chegar a elle. 

PArtido Ped raivares Cabral per efte mo- 
do do porto— de Cochij via de Cana- 
nor , paliou á vifta de Calecut ; e a princi- 
pal caufa , que o moveo a fazer efte cami- 
nho 3 foi ter mandado dizer a EIRey de 
Cananor, que havia de paliar pela fua Ci- 
dade a tomar gengivre , e fe o não fizera , 
ficava infamado ante ellc de duas coufas ? 
que não cumpria fua palavra ; e mais que 
de aífombrado d 5 Armada d 5 E!Rey de Ca- 
lecut , não oufára de vir áquelle feu porto ; 
a qual prefumpçao tirava não fomente indo 
a cumprir o que lhe mandava dizer , mas 
com a moftra , que deo de íi a Calecut. Tam- 
bém teve Pedralvares refpeito a outra cou- 
fa 5 que lhe ficava por fazer , que muito im- 
portava a eftima , e opinião em que éramos 
tidos ante EIRey de Cochij ; e fe com eile 
não fizera algum cumprimento , pelo modo 
de como fe elle Pedralvares partio , fem fe 
delle efpedir, ficávamos ante elle mui infa- 
mados } e porque de Cananor efperava de o 

fa- 



4>4 ÁSIA de João de Barros 

fazer, por razão de todas efíascoufas, con- 
veio ir tomar aquelle porto , como tomou. 
Onde a primeira coufa que fez , foi per ho- 
mens da terra , que lhe o Governador da 
Cidade deo , per duas , ou três vias efcrever 
a Gonçalo Gil Barbofa , e aos Officiaes , que 
com elJe ficavam , dizendo , que como elles 
fabiam , leixallos em Cochij não fora per acci- 
dente , e acafo , mas por ordenança d'El- 
Rey feu Senhor. O qual , pelo Regimento 
<jue lhe dera de fazer Feitoria em Calecut, 
ou em qualquer outra parte , onde o Senhor 
da terra acceptafle fua amizade , mandava que 
ficaíTem elles pór Officiaes , pêra terem car- 
go de comprar as efpeciarias de feu vagar , 
e as terem preftes , quando as náos do Rey- 
no lá chegaífem , fegundo fe continha no 
Regimento , que lhe elle leixára. Somente 
hia elle Pedralvares defeontente pelo modo 
apreíTado de lua partida , o qual tolheo não 
lhe dar os derradeiros abraços , que fe co£ 
tumam entre os amigos nas taes efpedidas , 
coufa mui racional, e que a mefma nature- 
za obrigou aos homens , pêra moílrarem 
hum final de paz , e amor , que entre elles 
havia. O qual final a elle Pedralvares con- 
vinha mais , que a outra peífoa alguma ; por- 
que como elle por razão do feu cargo era 
obrigado dar conta da vida , faude , e cila- 
da de cada hum daquelles, que levava de- 

bai- 



Década I. Liv. V. Cap. IX. 457 

baixo da bandeira, que lhe EIRey feu Se- 
nhor entregara em Lisboa , na cafa de Nof- 
fa Senhora de Bethlem , muito mais lhe 
convinha dar eíla conta de fuás peflbas , aífi 
por razão dos cargos em que ficavam , que 
muito importava ao ferviço d 5 ElRey 5 co- 
mo por elle particularmente lhe ter muito 
amor. Porém como o ferviço d 5 ElRey feu 
Senhor precedia a todolos effefíios humanos , 
e por caufa delle feus vaflailos eram obri- 
gados defpir a natureza , e a vida fe cum- 
priíTe , como elles fempre fizeram ? conveio 
que elle fe partiífe per aquelle modo , quan- 
to mais que a elles não foi coufa nova , nem 
efcondida , pois com todos tinha confulta- 
do que aíli fe devia fazer por evitar os in- 
convenientes , e impedimentos , que lhe a 
Armada do Çamorij podia dar em fua par- 
tida. Que quanto pêra com elles , elie Pe- 
dralvares não levava nenhum efcrupulo , fo- 
mente ante EIRey de Cochij lhe parecia mui 
neceflario fazer todo cumprimento , e por 
iífo lhe efcrevia aquella carta , que com a 
fua lhe enviava , e por fer de crença em 
que fe elle reportava a elles , da fua parte 
lhe podiam dizer tudo o que convinha pê- 
ra defculpa de fua partida 5 e a bem da hon- 
ra dos Portuguezes. Tornando ao que EI- 
Rey de Cananor fez , quando Pedralvares 
appareceo á vela , como homem temerofo 

que 



4?6 ASlx\ de Joio de Barros 

que elle paíTaíTe de largo obra de duas lé- 
guas antes de chegar ao porto , mandou a 
elle dous zambucos. Em hum dos quaes hia 
hum homem principal , per que Uie mandou 
pedir que não paflaííe fem tomar aquelle 
Jeu porto , porque elle defejava tanto ami- 
zade delRey de Portugal , que eílimaria 
muito 5 primeiro que fe folie daquella terra , 
querer levar alguma coufa fua. E também 
pois elle Capitão mór o tomava por tefte- 
munha da paz , com que os Portuguezcs 
entraram na índia, e aíli do que lhe nclla 
era feito , fegundo lhe mandou dizer de Co- 
chij 5 elleRey deCananor pelo mefmo mo- 
do o queria tomar por teftemunha com obras 
mui diíferentes das que lhe foram feito em 
Calecut. Porque não queria que fe diíTeíTe 
nas partes da Chriftandade , que os Reys , 
e Príncipes da índia , não eram dignos da 
amizade , e commercio dos Reys , e Prín- 
cipes delia. Por tanto , também proteítava 
ter elle Capitão mór naquella fua Cidade 
Cananor toda a efpeciaria y que houveíTe mif- 
ter , onde acharia gazalhado , amor , e ver- 
dade , como achou em EIRey de Cochij. 
Ao qual Pedral vares refpondeo , que os Por- 
tuguezcs de nenhuma coufa eram mais lem- 
brados que dos benefícios que recebiam , e 
de cumprir fua palavra , por tanto fua Real 
Senhoria eíperaííe delle que ambas eftas cou- 

fas 



Década I. Liv. V- Cap. IX. 457 

fas iria cumprir 5 porque elle não paíTava , 
mas vinha, como lhe mandara dizer. Che- 
gado Pedralvares logo nas coftas defte men- 
fajciro , aíli tinha EIRey provido pêra lhe 
dar carga de efpeciaria , que ainda elle não 
furgia fóra do porto , quando derredor das 
náos eram muitos paráos , e barcos carrega- 
dos de gengivrç , e canella , parecendo-Jhe 
que fe logo o não avifaíTem , que faria feu 
caminho. E porque Pedralvares hia já tão 
carregado , que não pode tomar tanta efpe- 
ciaria 5 quanta os Officiaes d'E!Rey quize- 
ram , e fomente tomou huma fomma de 
gengivre , e huma pouca de cançlla , man- 
dou-lhe dizer EIRey 5 que elle tinha fabido 
como em Calecut lhe roubaram muita fa- 
zenda , que fe porventura á mingua de não 
ter cabedal leixava de tomar mais eípecia- 
ria , não leixaífe de a tomar y porque clh 
confiava tanto na verdade dos Portuguezes , 
que efta bailava pêra elle ler pago de quan- 
to lhe alii deífem na outra vez que tornai- 
fe. Pedralvares por não leixar a EIRey com 
efta prefumpçao , que á mingua de cabedal 
não tomava mais carga , mandou moftrar 
aos feus Officiaes , que andavam nefte nego- 
cio, dous, ou três cofres cheios de dinheiro 
em ouro , dizendo , que elle tinha ainda tan- 
to dinheiro , que bem pudera carregar linco y 
QU féis náos ., que lhe o mar comera > 

por« 



4^2 ÁSIA de João de Barros 

porque pêra todas levava cabedal ; mas co- 
mo aquellas que alli trazia hiam já abarro- 
tadas com a carga que lhe dera EIRey de 
Cochij , não podia levar mais , nem fua vin- 
da áquelle porto fora por razão de carga ? 
fomente por fervir EIRey. Que quanto á 
confiança , que EIRey tinha na verdade dos 
Portuguezes 5 fua Real Senhoria no anno 
feguinte veria quanto EIRey de Portugal 
feu Senhor eftimava eíla confiança, porque 
em retribuição delia mandaria huma grof- 
fa Armada com muito ouro , prata , e mer- 
cadorias de grão preço , e corações mui ef- 
forçados , e leaes pêra ajudarem a EIRey 
de Cananor contra feus imigos , fe lhe ne- 
ceíTario foíle ; e bem aífi pêra tratarem , e 
commutarem luas mercadorias, com que fi- 
zeflem aquella Cidade Cananor muito mais 
rica , nobre , e poderofa , do que era Cale- 
cut. Finalmente com efte , e outros recados , 
que, pereípaço de hum dia que Pedralvares 
fe alli teve , paflaram entre elle , e EIRey , 
aíTi ficou efte Gentio confiado em nós , que 
fabendo como Pedralvares levava dous Em- 
baixadores d'EiRey de Cochij , mandou 
também outro com elle com alguns prefen- 
tes pêra EIRey D. Manuel, a íubftancia da 
qual embaixada eram offerecimentos de lua 
peífoa , e do feu Reyno , e quanto defejava 
fua amizade, e commercio das coufas, que 

em 



Década I. Liv. V. Cap. IX. 45*9 

em Portugal havia per commutaçao das que 
tinha oícuReyno. Pedralvares leixando ef- 
tcs dous Reys de Cochij , e Cananor em 
tanta paz , e concórdia , fez-fe á vela cami- 
nho deite Reyno a dezefeis dias de Janei- 
ro , dando louvores a Deos , pois partira da 
índia mais contente do que chegara a ella , 
attribuindo a perda das nács a feus pecca- 
dos , e as defavenças d'antre elle , e EIRey 
de Calecut a bem, e profperidade das cou- 
fas delRey D. Manuel. Porque fegundo 
aquelle Gentio Çamorij eftava damnado com 
a communicaçao dos Mouros 5 que tinha em 
feu Reyno , parece que não merecia a Deos 
eílar em noíla amizade , e permittíra a mor- 
te de Aires Corrêa , e dos outros que com 
elle pereceram, pêra elle Pedralvares ir buf- 
car' EIRey de Cochij , e depois EIRey de 
Cananor. Os quaes com eíles Embaixado- 
res 5 que enviaram a eíte Reyno , e depois 
per muito contentamento , que tiveram das 
cbras d'ElRey D. Manuel , afli ficaram ef- 
tes dous Príncipes os maiores do Malabar , 
(depois do Çamorij 5 ) tão fieis , e leaes ami- 
gos a feu ferviço , quanto no decurfo def- 
ta hiítoria fe verá. Seguindo Pedralvares fua 
derrota via deite Reyno , não mui longe da 
coita de Melinde , topou huma náo mui 
grofía carregada de muita fazenda , a qual 
vinha do mefmo lugar de Melinde , e hia 

pe- 



460 ÁSIA de J0X0 de Barros 

pêra Cambaya-; e por fer de hum Mouro, 
fegundo elJe dizia , dos principaes daquclle 
Reyno , que fe chamava Milicupij fenhor 
de Baroche , elle a leixou ir em paz , dizen- 
do-lhe que fe fora de Calecut , ou dos Mou- 
ros de Meca , houvera de tomar nella emen- 
da dos damnos , que delles tinha recebido ; 
porém como não era delles ? todalas outras 
nações da índia fempre achariam nos Por- 
tuguezes paz , e amizade , e com ifto a e£- 
pedio , fomente lhe tomou hum Piloto Gu- 
zarate de nação , por delle ter neceííidade 
pêra aquella coita de Çofala. Tornando a 
íeu caminho , e fendo já mui perto da cot- 
ta de Melinde , faltou com elle hum tempo 
travefsão , que deo com a náo de Sancho 
de Toar em hum baixo , onde fe perdeo , 
falvando-fe porém toda a gente ; e porque 
ficava hum pouco defcuberta da agua 3 man- 
dou -lhe Ped raivares pôr fogo , porque os 
Mouros daquella coíla não vieífem a cila 5 
e fe aproveitaffem d 5 alguma coufa. Mas com 
todas eftas cautelas de Pedralvares , EIRey 
de Mombaça mandou depois a lhe tirar 
toda a artilheria de mergulho , e com cila 
nos fez guerra > como adiante veremos. E 
correndo com efte tempo a povoação de Me- 
linde 5 fez Pedralvares feu caminho a Mo- 
çambique , onde repairou as nãos d 5 algum 
damno que levavam. E porque quando def- 

te 



Década I. Liv. V. Cap. IX. 461 

te Reyno partio, EIRey D. Manuel orde- 
nou que Bartholomeu Dias , e Diogo Dias 
feu irmão foíTem á Mina de Çofala defcu- 
brir, e affentar aquelle reígate , o qual ne- 
gocio não houve effedto por fe perder Bar- 
tholomeu Dias no dia , que fe perderam ou- 
tras três velas , e Diogo Dias era defappare- 
cido , mandou Pedralvares a efte negocio 
Sancho de Toar em hum dos navios pe- 
quenos , dando-lhe regimento do que devia 
fazer. Éfpedido Sancho de Toar, partio-fe 
Pedralvares pêra eíte, Reyno 3 e a primeira 
terra que tomou foi a Ilha do Cabo Ver- 
de , onde achou Pêro Dias , que era defap- 
parecido , como aííima diífemos. O qual en- 
tre muitas coufas , que contou a Pedralva- 
res dos trabalhos , que teve em fua navega- 
ção , foi ir ter ao porto da Cidade Maga- 
daxo contra o Cabo de Gadrafu , onde 
achou duas náos carregadas de efpeciaria , 
quealli eram vindas deCambaya. Os Mou- 
ros das quaes , e affi os da Cidade , temendo 
que podiam receber algum damno delle po- 
la artilheria , que lhe ouviram , quando os 
falvou , foi de todos mui bem recebido, 
dando-lhe muitos mantimentos , e refrefcos 
da terra. Porém depois que tiveram as náos 
defcarregadas da fazenda que tinham , or- 
denaram de o tomar ; e pêra o poderem fa- 
zer mais a feu falvo > dilataram iílo pêra 

hum 



462 ASIÀ de J0Ã0 de Barros 

hum certo dia 5 em que elle Pêro Dias quiz 
fazer aguada. Dizendo os Mouros da Ci- 
dade que a agua vinha de longe pela terra 
dentro , que pêra ifto fe fazer mais em bre- 
ve , mandaffe tal dia o batel com as mais 
vaíilhas que pudefle , e affi gente pêra as 
encher , e chegando ao qual lugar com a 
confiança do bom gazalhado , que lhe tinha 
feito nos dias paíTados não tiveram ref- 
guardo em íi , com que o batel , e clles fi- 
caram cm poder dos Mouros. Os quaes 
Mouros logo incontine/ite ? mui armados em 
alguns zambucos da terra 5 vieram fobre el- 
le , na qual chegada elle Pêro Dias fe vio 
em tanta preíTa , por não ter comfigo mais 
de fete peílbas , que lhe conveio cortar as 
amarras , e fazer-fe a vela via defte Reyno 
a Deos mifericordia , fem Piloto , nem pcf- 
foa , que foubeíTe per onde vinham , té Deos 
o trazer áquelle lugar , onde o achara. Pe- 
dralvares , porque havia eíle navio por tão 
perdido , como os que foçobráram no dia 
da grão tormenta que teve , ouve que Deos 
lhe refufcitava todos aquelles homens. E 
pêra maior feu contentamento , depois de fer 
chegado a Portugal , que foi vefpera de 
S.João Baptifta, chegaram outros dous na- 
vios , que ainda lá leixava: hum era de Pê- 
ro de Taíde , que fe delíe apartou antes de 
chegar ao Cabo das Correntes com hum 

tem- 



Década I. Liv. V, Cap. IX- e X. 463 

temporal que alli teve ; e o outro foi San- 
cho de Toar com nova do defcubrimcnto 
de Cofala. 

CAPITULO X. 

Como ante que Pedralvares chegajje a 
Portugal o Março daquelle anno , tinha EU 
Rey enviado huma Armada de quatro nãos: 
e o que pajpíram nejia viagem , e na ín- 
dia y onde carregaram de efpeciaria. 

ELRey D. Manuel antes da vinda dePe- 
dral vares , pofto que não tiveffe recado 
do que lhe íuecedeo na viagem , (porque 
íua tenção era em cada hum anno fazer hu- 
ma Armada pêra efte defcubrimento , ecom- 
mercio da índia no mez de Março , pêra 
ir tomar os temporaes , com que fe naquel- 
las partes navega , ) nefte anno de quinhen- 
tos e hum mandou armar quatro velas. A 
capitania mór das quaes deo a João da No- 
va Alcaide pequeno da Cidade de Lisboa , 
Gallego de nação > e de nobre linhagem, 
por fer homem , que entendia bem os negó- 
cios do mar , e ter gaílado muito tempo em 
Armadas , que fe nefte Reyno fizeram pê- 
ra os lugares dalém , onde fempre andou 
em honrados cargos. Por razão dos quaes 
ferviços , quaíi em fatisfação lhe foi dada 
Alcaidaria de Lisboa P que naquelle tempo 

era 



464 ÁSIA de J0X0 de Barros 

era hum dos principaes cargos delia , e an- 
darem em homens Fidalgos , por ler huma 
fó vara de roda a Cidade. Os Capitães dos 
outros navios eram Diogo Barbofa criado 
de D. Álvaro 5 irmão do Duque de Bragan- 
ça, polo navio fer íèu, eFrancifco de No- 
vaes criado d 5 E!Rey , e o outro era Fernão 
Vinet , Florentim de nação , polo navio em 
que elle hia fer de Bartholomeu Marchioni 
também Florentim 5 o qual era morador em 
Lisboa , e o mais principal em íubfiancia 
de fazenda, que ella naquclle tempo tinha 
feito. Cá ordenou EIRey , pêra que os ho- 
anens defte Reyno , cujo negocio era com- 
mercio , tiveífem em que poder tratar , dar- 
lhes licença que armaífem náos pêra cilas 
partes , delias a certos partidos , e outras a 
frete ; o qual modo de trazer a efpcciaria 
a frete ainda hoje íe ufa. E porque as pef- 
foas , a que EIRey concedia elta mercê , ti- 
nham per condição de feus contratos , que 
elles haviam de aprefentar os Capitães das 
náos , ou navios que armaífem , os quaes EI- 
Rey confirmava , muitas vezes aprefenta- 
vam peífoas mais fufficientes pêra o negocio 
da viagem , e carga , que haviam de fazer , 
do que eram nobres per fangue. Fizemos 
aqui efta declaração , porque fefaiba, quan- 
do fe acharem Capitães em todo o decur- 
fo deita noíía hiítoria 7 que não fejam ho- 
mens 



Década L Liv* V. Cap. X. 465 

mens Fidalgos , ferão daqueiíes , que os ar- 
madores das náos apreíentavam 5 ou 'ho- 
mens , que per fua própria peílba , ainda que 
nao tinham muita nobreza de fangue , ha- 
via nelles qualidades pêra iíTo , e também 
por darmos noticia do modo , que levamos 
em nomear os homens , que he efte. Quan- 
do nomeamos algum Capitão , fe he homem 
Fidalgo , e tão conhecido per fua nobreza > 
e creação na cafa d'ElRey , logo em faltan- 
do nelle a primeira vez , dizemos cujo filho 
he , fem mais tornar a repetir feu pai ; e fe 
he homem Fidalgo, de muitos que ha no 
Reyno , deftes taes não podemos dar tanta 
noticia , porque não vieram ao lugar on- 
de fe os homens habilitam em honra , e no- 
me, que he na cafa d'ElRey, por iíTo po- 
dem-nos perdoar • e também a dizer verda- 
de ,. os eferitores dos individos não podem 
dar conta ; e quem muito procura por elles , 
quebra o nervo da hiftoria , parte onde ef- 
tá toda a força delia. Todavia neíla digres- 
são duas coufàs pertendemos : notificar a 
todos que noífa tenção he dar a cada hum 7 
não fomente o nome de fuás obras , inas 
ainda o de feu avoengo , fe ambas eítas duas 
vierem á nolfa noticia ; e a fegunda, que 
quando fizermos algum grande catalogo de 
Capitães , ( porque eíies fempre hão de fef 
nomeados 3 ) ora fejam de náos ? ou navios 9 
Tom. L Gg fem- 



466 ÁSIA de JoÃo de Barbos 

fempre devem entender que as peflbas mais 
principaes per fangue , e feitos , andavam 
nas melhores peças d' Armada, E tornando 
a João da Nova , c aos Capitães de íua 
conferva , por caufa da qualidade dos quaes , 
pêra maior declaração d cila noffa hiftoria , 
fizemos efta , tanto que foram preftes , fe fi- 
zeram á vela do porto de Bethlem a finco 
dias de Março do anno de quinhentos c 
hum. Na qual viagem paíTados oito gráos 
além da linha Equinocial contra o Sul , acha- 
ram huma Ilha , a que puzeram nome da 
Concepção , e a fete de Julho foram íiirgir 
da aguada de S. Braz , que hc alem do 
Cabo de Boa Efperança , onde Pcro de Taí- 
de foi ter , quando com o temporal , que 
naquella paragem deo a Pcdralvares Cabral y 
fe apartou delle. O qual Pêro deTaíde tnetr 
tida em hum çapato no lugar da aguada, 
leixou huma carta eferita , em a qual di- 
zia como elle pairara per alli , e a caufa 
porque ; e também avifava a todolos Capi- 
tães que foíTem pêra a índia , do que Pc- 
dralvares lá pairara ,' e que em Mombaça 
achariam cartas fuás em mão de hum An- 
tónio Fernandes degredado , que alli eíla- 
va , e que a Feitoria de Çofala não fe af- 
fentára , e a caufa porque. João da Nova , 
e os outros Capitães , com as coufas que 
acharam nefta carta 5 foi para elles hum no- 
vo 






Década I. Liv. V. Cap. X. 467 

vo efpirito , fabendo que na índia tinham 
já dous portos tão pacíficos, etáo feguros , 
onde podiam tomar carga 5 como eram o 
de Cochij , e de Cananor ? e mais tendo lá 
Feitoria com Officiaes pêra iffo ordenados. 
Porque como da índia não tinham mais no- 
va 5 que a que trouxera D. Vaíco da Gama , 
e a navegação daquellas partes não era fa- 
bida , antes de toparem efta carta , hiam ás 
efcuras , e mui confulos em fua viagem. Fei- 
ta fua aguada 5 e refgate de gado com al- 
guns Negros , que alli vieram ter , fizeram- 
fe á vela caminho de Moçambique , onde 
chegaram na entrada de Agofto , e dahi fo- 
ram ter á Cidade Quiloa , aos quaes o Rey 
da terra com palavras mais que com obras 
recebeo , e alli acharam António Fernandes 
Carpinteiro denáos degredado , quePedral- 
vares leixou , e huma carta fua , que lhe en- 
viou de Moçambique per hum zambuco de 
Mouros , quando per alli paliou , vindo pê- 
ra efte Reyno , e aíli outra carta pêra qual- 
quer Capitão , que per alli paffaíTe , do 
teor da de Pêro deTaíde. E entre algumas 
coufas , de que lhe António Fernandes deo 
conta do que paflava entre aquelía barba- 
ra , e infiel gente , foi , que alli eítava hum 
Mouro chamado Mafamede Anconij , que 
lhe tinha feito muita honra, e tanta, que fe 
por elle não fora , algum Mouros o mata- 
Gg II ram, 



468 ÁSIA de João de Barros 

ram. Porém como elle era Efcrivao da fa- 
zenda d'ElRey deQuiloa, homem podero- 
fo na terra por amor delle , e também re- 
ceando EJRey que por iflò os poderia cas- 
tigar , a gente civil não oufára de o com- 
metter , por efta fer a que o mais perfeguia. 
E que além deite beneficio, que recebia de 
Mafamede Anconij , fentia delle fer homem 
Mel a noíílis coufas , por muitas de que lhe 
dava conta que faziam ao bem , e favor 
delias , e que iílo fentia delle Pedralvares 
Cabral os dias que alli eftivera. João da No- 
va por tomar experiência do que lhe Antó- 
nio Fernandes dizia deite Mafamede , co- 
meçou de lançar mão delle , o qual achou 
tão fiel , que fegundo as traições , que lhe 
EIRey armava pelo acolher, fe per elle não 
foraavifado, fempre lhe houvera de aconte- 
cer algum deíaftre. E por não moftrar que 
defeonfiava delle, com a maior cautela que 
João da Nova pode , fe efpedio delle , e 
foi ter a Melinde , e dahi á índia , e a pri- 
meira terra que vio delia , foram os ilheos 
de Sandia Maria. Donde começou ir cor- 
rendo a cofta , té que tanto avante como o 
monte de Lij , topou duas náos , huma das 
quaes por fer melhor de vela , e já fobre 
a noite fe poz em falvo , e a outra tomou 
elle ; na entrada da qual lhe matou feífen- 
ta homens , e depois de esbulhada P lhe pu- 

ze- 



Década I. Liv. V. Cap. X. 469 

zeram fogo. Acabada a preza dcíla náo , 
na entrada da qual alguns dos noífos fica- 
ram frechados , e feridos , foi-fe pêra Ca- 
nanor , onde o Rey o recebeo com muito 
gazalhado ; e como homem que temia o 
que João da Nova logo havia de fazer > 
que era ir tomar primeiro carga a Cochij 
por razão dos noííos , que iá ficaram pêra 
efte efFeito de a feitorizar , quizeram deter 
alli em lhe dar primeiro as fuás efpeciarias. 
Porém João da Nova com boas palavras fe 
eícufou , dizendo , que trazia por Regimen- 
to 'd 5 ElRey feu Senhor , que primeiro to- 
maííe carga deefpeciaria no lugar, onde e£ 
tivelfem feus Feitores , que em outra parte 
alguma > por muitas couíàs no Regimento 
apontadas. E que Pedralvares Cabral ? ( á ca- 
pitania do qual elle vinha fobmettido pelo 
Regimento , fe o ainda achaífe na índia, ) per 
cartas , e recados feus , que achou em Mo- 
çambique 5 Quiíoa , e Melinde , lhe manda- 
va da parte d 5 ElRey que fe foífe a Cochij , 
onde acharia o Feitor Gonçalo Gil Barbo- 
fa , a quem ficara fazenda , e cuidado pêra 
ter feito parte da carga ás náos , que fobre- 
vieífem do Reyno ; e depois quando tornaf- 
fe, vieífe áquelle porto de Cananor, onde 
fua Real Senhoria lhe mandaria dar gengi- 
vre , e outras fortes de efpeciaria , que ha- 
via naquelle feu Reyno* Por tanto houvef- 

fe 



47o ÁSIA de João de Barros 

fe por bem que cumpriflc o Regimento d'El- 
Rey feu Senhor ; e em quanto hia a Co- 
chij , lhe mandaíTe ter preíles gengivre , ca- 
nella , e algumas outras drogas té huma 
íanta quantia , porque cilas veria alli rece- 
ber pelo íervir , as quaes tomaria menos cm 
Cochij 3 poíto que as lá houveíTe. EIRey 5 ain- 
da que eítas razões de João da Nova lhe 
pareceram de Capitão obediente aos Regi- 
mentos de feu Rey , todavia aperfiou com 
eile 3 como quem queria que fizeífc mais o 
que elle defejava , (que era tomar alli pri- 
meiro as efpeciarias ? que em Cochij , ) que 
fe conformafle elle João da Nova com o 
Regimento que levava. E ainda quando per 
efta via vio que o não podia obrigar , em 
três 3 ou quatro dias , que fe elle João da 
Nova alli deteve , mandou-lhe dizer , que lhe 
requeria polo amor que tinha ás coufas d'El- 
Rey de Portugal 3 que dle fe não partiíFe pê- 
ra Cochij : Por quanto tinha por nova mui 
certa , que em Calecut fe fazia huma grande 
Armada de mais de quarenta náos groflas 
pêra o aguardarem no caminho 5 que feu 
voto era elle feieixafle eftar naquelle porto, 
onde fe podia defender com gente, que lhe 
mandaria dar pêra fua ajuda. A qual Arma- 
da , fegundo Lhe era dito , os ?vlouros davam 
grão preíTa , por razão de huma náo , que 
liiQ levou nova > que hia fugindo delle , e 

que 



Década I. Liv. V. Cap. X. 471 

que outra íua companhia lhe ficava nas 
mãos. João da Nova , fendo certificado íer 
verdade o que EIRey dizia , depois que 
com os Capitães que levava teve confelho , 
refumio-fe nefta determinação , que por hon- 
fa do nome Portuguez não convinha mof- 
trar aos Mouros de Cananor, que temiam 
a Armada do Çamorij , porque elles , e os 
de Calecut não queriam outra coufa pêra fe 
gloriar per toda a índia , e que defta glo- 
ria tomariam oufadia pêra os vir commet- 
ter dentro naquelle porto. Quanto mais , que 
tomando o confelho d'ElRey de Cananor , 
fe a Armada de Calecut tiveffe animo fo- 
bre ancora, e mais em lugar tão eftreito , co- 
mo era aquella concha de Cananor , ajuizo 
de homens , mais tomados eftavam que em 
outra parte. Mas eíle poder lhe não daria 
Deos , pois lho não concedeo em tão gran- 
de frota , como levaram contra Pedralvares , 
ante , fegundo moftravam , todo feu poder 
eftava mais em grande numero de velas , que 
em animo de gente , nem em fúria da ar- 
tilheria. As quaes coufas , louvado Deos , neh- 
les era por contrario ; porque fenão tinham 
muitas velas , tinham muita , e mui boa ar- 
tilheria , e mais todos eram •coftumados a 
pelejar com Mouros, enãO/temer feus alar- 
dos. E porque quanto fe mais 'detiveíTem , 
mais tempo davam aos imigos pêra fe me- 
lhor 



47^ ÁSIA de João de Barros 

Ilior aperceber , logo deviam partir pêra 
Cochij ; porque fe quando foíTem achaíTem 
a Armada dos Mouros , e os vieíTem com- 
metter , indo boiantes , liiam mais leites pê- 
ra fe revolver com elles , que á tornada vin- 
do carregadas. Finalmente aflentado João 
da Nova neíla partida pêra Cochij , man- 
dou dizer a EIRey de Cananor , que lhe 
tinha em mercê a vontade , e amor , que mof- 
trava ás coufas d'ElRey de Portugal feu Se- 
nhor com todolos offerecimentos de fua aju- 
da, e que elle os eftimava tanto, como fe 
ps recebeífe ; porém como os Portuguezes 
eram coftumados áquclles grandes apparatos , 
e moftras , com que os Mouros faziam a 
guerra mais que com forças de animo , já 
nelles nao faziam emprezas de temor al- 
gum , e por iífo elle não leixaria feu cami- 
nho de Cochij pêra ir fazer o que lhe EI- 
Rey feu Senhor mandava. Ante efperava 
em Deos , que quando embora tornaíle , tão 
carregadas havia de trazer as náos da viéto- 
ria daqueila Armada de Calecut , como da 
pimenta de Cochij j que entre tanto pedia 
a fua Real peífoa , que lhe mandaífe fazer 
preftes a carga, que havia de tomar , quando 
embora tornaííe de Cochij , pêra penhor da 
qual vinda queria alli leixar quatro , ou fin- 
co homens 'com alguma fazenda, pêra que 
cm quanto elle iofle , poderem comprar al- 



Década I. Liv. V. Cap. X. 473 

gumas coufas. Com o quai recado EIRey 
ficou mui fatisfeito , e muito mais contente, 
depois que vio que João da Nova lhe lei- 
xava íinco homens com nome de Feitores 
ao modo de como eítavam em Cochij , que 
elle houve por grande honra , porque aíli 
lho deo a entender João da Nova. Os quaes 
ainda que não eram Officiacs delRey, Fei- 
tores eram de partes , hum delles leixava 
Diogo Barbofa Capitão de hum navio de 
D. Álvaro , irmão do Duque de Bragança y 
ao qual chamavam Payo Rodrigues , com fa- 
zenda , que havia de feitorizar do mefmo 
D. Álvaro. E outro era hum Feitor deBar- 
tholomeu Florentim 3 que o Capitão Fernão 
Vinet do feu navio pelo mefmo modo lei- 
xava alli feitorizando ; e os três , dous eram 
homens de ferviço , e hum degredado , fi- 
cando todos debaixo da governança de Payo 
Rodrigues , a quem elle João da Nova deo 
poderes 5 e Regimento em nome d 5 ElRey 
pêra aquelle cafo. Feita a entrega deites ho- 
mens a EiRey de Cananor y que elle com 
muitas palavras recebeo em fua guarda , e 
amparo 5 fez-le João da Nova á vela via de 
Cochij hum pouco affaítado da coita , por- 
que vindo a Armada cPElRey de Calecut 
a elles , melhor fe ajudaífem delia andando 
ás voltas , porque quatro velas com obra 
de trezentos e íinecenta homens que elles 

eram % 



474 ÁSIA de João de Barros 

eram , não lhes convinha inveítir nenhuma 
jiáo dosimigos, nem menos chegar- fe mui- 
to a terra , pois não tinham mais abrigo , 
nem defensão que a artilheria , com a qual 
havia de fer toda a fua peleja. O qual cou- 
felho aproveitou muito , porque indo ao 
mar hum pouco largo da coíla , fendo na 
paragem de Calecut , como a Armada que 
le fazia preftes houve vifta delles , aífi og 
fervíram os noflbs com pilouros de fua fu- 
riofa artilheria aquelle dia té noite , e par- 
te do feguinte , fem nunca perderem tiro , 
que mettéram no fundo íinco náos groíTas , 
e nove paráos , ern que morreo muita gente. 
As outras , vendo efta deftruição , e damno 
que tinha recebido de muita gente , que lhes 
era morta , e ferida ,' feguíram os noíTos até 
Granganor , onde fe leixáram ficar , e dahi 
íb foram pêra Calecut. João da Nova , e 
os outros Capitães , vendo a mercê , que 
lhe NoíTo Senhor fez em os falvar de tan- 
ta nuvem de frechas , e aífi de alguma ar- 
tilheria fraca , davam-lhe muitos louvores 
em ficarem livres de tanto perigo , poíío 
que per alguns dias muitos tiveram que cu- 
rar nas frechadas que alli houveram. Che- 
gados a Cochij , foram recebidos de Gon- 
çalo Gil , e dos outros , que com elle efta- 
vam , com muito prazer , tanto poios verem , 
como pola viâtoria que houveram , da qual 

El- 



Década í. Liv. V. Cap. X. 475* 

EIRey deCochij também teve grande con- 
tentamento por razão do ódio , que lhe já 
o Çamorij tinha , e das noíías viítorias de- 
pendia a fegurança de feu citado. E porque 
a dilação da carga , que fe devia de dar ás 
náos , daria cauia a que o Çamorij aperce- 
beíTe maior frota , mandou EIRey de Co- 
chij com muita diligencia dar defpacho a 
João da Nova. O qual tanto que fe fez 
preíles , leixando com Golçalo Gil mais féis , 
ou íelt homens , tornou-fe a Cananor, no 
qual caminho tomou hum a náo , que de- 
pois de esbulhada a queimou por fer de 
Calecut. EIRey de Cananor ? quando vio 
João da Nova em tão poucos dias tornar 
com as náos , como elle dizia , tão carregadas 
de vidorias 5 como de efpeciaria , também 
o quiz feílejar com bom defpacho , acaban- 
do de lhe dar toda a carga , que havia mif- 
ter ; e ainda pêra o mais contentar ? mandou- 
lhe dizer que não cuidaíle que tinha feito 
pouco damno ao Çamorij : cá 5 fegundo ti- 
nha nova 5 naqueila peleja lhe matara per 
conta quatrocentas e dezefete peííoas , por 
cauia das quaes todo Calecut era poílo em 
pranto. A qual nova certificou hum Gon- 
çalo Pexoto 5 que era dos que fe acolheram 
a cafa de Coge Bequij , quando mataram Ai- 
res Corrêa , per o qual o Çamorij mandou 
dizer a João da Nova quão defeontente ef- 

ta- 



47Ó ÁSIA de João de Barros 

tava daquelle commettimento , que os Mou- 
ros fizeram, porque o feu animo lèmpre ef- 
tivera puro pêra os Portuguezes , e mui de- 
iejofo da amizade d'ElRey de Portugal ; 
mas que o Demónio irnigo de toda paz or- 
dena 5 que entre os Portuguezes , c os Mou- 
ros JiouveíTe ódios antigos , donde proce- 
deram ascoufas paífadas. E porque elle Ça- 
morij tinha caftigado os principaes , que fo- 
ram cauía de algumas coufas accidentaes , 
em que os Portuguezes tiveram culpa em 
lhe tomarem fuás náos , lhe rogava que , ef- 
quecidas todas eílas coufas , quizeííc levar 
comíigo dous Embaixadores , que queria en- 
viar a EIRey de Portugal pêra aíTentar paz 
com elle. Porque efperava que eíla paz , 
que nunca pudera aíTentar com feus Capi- 
tães , eftes Embaixadores que mandaífe a 
aíTentariam com EIRey ; e que fe per ven-* 
tura tivelfe algum efcrupulo por razão de 
algumas coufas , que foram tomadas na ca- 
ia , em que eftava o Feitor Aires Corrêa , el- 
le as queria pagar, e pêra iífo podia ir ao 
porto de Calecut , onde lhe entregaria tan- 
ta efpeciaria , quanta eilas valeííem. João 
da Nova informado per Gonçalo Pexoto 
do que lhe mandava dizer Coge Bequij , 
que não confiaífe neíias palavras do Çamo- 
rij , porque tudo eram induílrias , e artifí- 
cios dos Mouros, não lhe quiz refponder, 

por- 



Década L Liv. V. Cap. X. 477 

porque também Gonçalo Pexoto , vendo-fe 
livre , diíTe 5 que não queria tornar ao cati- 
veiro ondeeílava. Finalmente leixandojoão 
da Nova mais alguns homens a Payo Ro- 
drigues a requerimento d 5 ElRey 3 partio-íè 
de Cananor com a mais carga , que alli re- 
cebeo , e de caminho tanto avante com o 
monte de Lij , tomou huma náo de Mou- 
ros , que era de Calecut. Eípedido João da 
Nova da coíla da índia com tantas visto- 
rias , e boas venturas , que lhe Deos deo , 
fez fha viagem caminho deíle Reyno ; e 
ainda neíle caminho , paliado o Cabo de 
Boa Eíperança , teve outra boa fortuna , que 
lhe deparou Deos huma Ilha mui pequena, 
a que elle poz nome Sanita Helena , em 
que fez fua aguada, pofto que da índia té 
alli tinha feito duas , huma em Melinde, 
outra em Moçambique, A qual Ilha parece 
que a creou Deos naquelle lugar pêra dar vi- 
da a quantos homens vem da índia ; porque 
depois que foi achada té hoje , todos tra- 
balham de a tomar por terem melhor agua- 
da de toda eíta carreira , ao menos a mais 
necefíaria que fetoma, quando vem da ín- 
dia. E tanto que asnáos, que alli vem ter, 
fe hão por íalvas , e navegadas , pola ne- 
ceilidade , que cilas trazem , polo muito re- 
frefco que nella acham , como adiante ve- 
remos, dando razão de quem foi caufa di£ 

fo. 



478 ÁSIA de João de Barros 

fo. Partido da qual , João da Nova chegou 
a eíle Reyno a onze de Setembro de qui- 
nhentos e dous , onde o EIRey rccebeo com 
grande honra pola muita que elle ganhou 
como Cavalleiro , e como prudente em os 
negocies que fez , e acabou. 



Fim do Livro V. da Década L 







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Barros, João de 

Da Ásia de João de Barros e 
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